Roberta Flack
Roberta Flack em 1973. Foto: Divulgação
 

A principal graça do mundo da música popular é unir palavras e sons de forma que suas mensagens possam se complementar e causar sentimentos no ouvinte. Parece fácil, mas, na prática, as músicas que impactam ao ponto de ter uma relevância que se mantém por décadas são exceções.

Tome como exemplo os belos versos de “Killing Me Softly with His Song“, emblemática canção dos anos 70:

“Dedilhando minha dor com seus dedos
Cantando minha vida com suas palavras
Me matando suavemente com sua canção
Contando minha vida inteira com suas palavras”

A isso, adicione instrumentação e melodias que, de alguma forma, dialoguem com o que está sendo dito. O resultado é uma sentimental canção que encanta gerações por sua beleza, simplicidade e sinceridade, graças à performance de seus intérpretes, que vão de Lori Lieberman e Roberta Flack ao grupo Fugees.

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Confira abaixo (após o vídeo) curiosidades e polêmicas envolvendo esse grande hit!

 

De quem é essa obra-prima cheia de graça?

“Killing Me Softly with His Song” é uma composição da dupla Charles Fox e Norman Gimbel, feita para o disco de estreia da cantora estadunidense Lori Lieberman (1972). Com o passar dos anos, essa música se confirmou como seu maior sucesso.

Quanto à trajetória profissional dos compositores, Fox teve sua carreira mais associada a trilhas sonoras instrumentais para filmes e séries. Por outro lado, Gimbel é renomado quando o assunto é letra, especialmente aos olhos dos brasileiros. Não à toa, foi ele o responsável pela tradução de “Garota de Ipanema” para o inglês, sendo, portanto, um dos nomes por trás do sucesso da música no exterior sob a voz de Astrud Gilberto com Stan Getz.

Time sincronizado

A relação de Lieberman com Fox e Gimbel era mais do que meramente profissional. O tal “encontro de almas” também era justificado pelo fato de que os três tinham herança judia e eram do signo de Escorpião — gostem ou não desse fato —, conforme lembrado por uma reportagem da Billboard de 1974.

Fox e Gimbel, já veteranos na indústria, assinaram com Lieberman em 1971 um contrato para gerenciar a carreira da cantora, ficando com 20% do lucro. Após o disco de estreia, o trio fez mais três álbuns e lançou uma coletânea.

A cantora e Gimbel ainda tiveram um breve relacionamento, mesmo considerando a diferença de 24 anos de idade entre eles e o fato de que, na época, ele era casado.

“Bye, Bye, Miss American Pie”

Muito da história da música tem a ver com Don McLean, conhecido pelo megahit “American Pie“, lançado também naquela época.

A história que ganhou fama é a de que Lori Lieberman se sentiu inspirada após assistir a um show do cantor ao lado de uma amiga. Apesar de sabermos que “American Pie” é uma canção matadora, ela ficou tocada, em particular, com a performance de “Empty Chairs“. Quando levou essa história aos colegas compositores, Gimbel lembrou de uma pré-composição que tinha anotada, contendo as palavras “killing” e “softly”. Depois, levou a letra para Charles Fox fazer a magia acontecer e musicalizar o poema.

Sobre isso, Don McLean falou:

“Estou absolutamente pasmo. Já ouvi as versões da Lori e da Roberta e devo dizer que estou muito emocionado com a coisa toda. Você não pode deixar de sentir isso por uma música escrita e tocada tão bem quanto essa.”

TRETA

Essa foi a história conhecida e aprovada por todos os envolvidos inicialmente, mas algo mudou. Por volta de 1977, tanto Gimbel quanto Fox alteraram suas versões da história como forma de tirar o mérito de Lieberman da composição.

A relação entre o trio, no geral, ficou insustentável. De acordo com a cantora, sua relação com Gimbel se tornou abusiva e controladora, o que a levou a acionar advogados para se livrar do contrato vigente. Para compensar (ou até como forma de ameaça), a dupla de compositores exigiu uma multa de 27 mil dólares e mais 250 mil dos lucros futuros de Lori no mercado musical.

A confusão ganhou novos contornos em episódios futuros. Em 2008, Gimbel exigiu que Don McLean retirasse de seu site oficial a informação sobre ter inspirado a letra de “Killing Me Softly”, mas o cantor não o fez. De forma provocativa, seu advogado entregou para o compositor uma cópia de um artigo do jornal New York Daily News, de 1973, no qual aspas de Gimbel comprovam que ele concordava com a história contada por Lieberman, ainda citando seu parceiro Fox. Na matéria, ele disse:

“Lori só tem 20 anos e é realmente uma pessoa muito privada. Ela contou pra gente sobre essa experiência incrível que ela teve ao ouvir McLean. Eu tive a noção de que isso renderia uma boa música, então nós três discutimos sobre. Conversamos várias vezes, assim como fizemos com todas as músicas que escrevemos para o álbum. Sentimos o potencial.”

Em 2010, Fox publicou um livro chamado “Killing Me Softly, My Life In Music“, um livro de memórias sobre sua obra e carreira. A obra, no entanto, não contém menção a McLean como parte da inspiração da música, além de não colocar Lieberman na função de compositora.

Com vocês, Roberta Flack!

Apesar de tudo, a versão de Lieberman não teve o êxito comercial que merecia, falhando em entrar para as paradas de sucesso. Se o mundo conheceu “Killing Me Softly With His Song” ainda nos anos 70, isso se deve graças à versão de Roberta Flack.

A cantora ouviu a música pela primeira vez durante uma viagem de avião e, em particular, o seu título a comoveu. Impressionada, ela acionou o renomado produtor e músico Quincy Jones, perguntando pelo contato de Charles Fox. Poucos dias depois, ela já tinha a sua releitura pronta.

A primeira performance ao vivo da versão, por sinal, se deu quando a música sequer estava gravada, em um show que serviu de abertura para Marvin Gaye. Na ocasião, Roberta já tinha tocado a última música que tinha preparado, mas foi requisitada para tocar mais uma. O público, obviamente, amou.

O resto é história! A música foi #1 da Billboard Hot 100 e se tornou o maior sucesso comercial de 1973. No mesmo ano, ela ganhou os Grammys de Gravação do Ano e de Melhor Performance Feminina de Vocal Pop. Na mesma edição, Gimbel e Fox ganharam a cobiçada categoria Canção do Ano.

Roberta Flack no Grammy de 1974
Roberta Flack no Grammy de 1974.

Fugees e “Killing Me Softly” em uma nova forma

Passados mais de 20 anos do auge de Roberta Flack, foi chegada a hora de “Killing Me Softly” ganhar novos ares. O grupo Fugees, formado por Lauryn Hill, Wyclef Jean e Pras Michel, lançou a nova versão em 1996 como parte do seu segundo disco The Score.

A nova roupagem, com fundamentos no hip hop e no reggae, ganhou grande visibilidade e se tornou o maior hit da história do grupo. A ideia surgiu de Michel, que queria inserir novos beats na canção. O plano inicial era alterar a letra, de forma a trazê-la para a temática antidrogas, mas Charles Fox e Norman Gimbel não autorizaram.

Em uma review da revista Spin, em 1997, é dito que a cover é:

… um clássico instantâneo, a ser tocado em cada carro que passa de costa a costa, com a voz atemporal de Lauryn Hill nunca perdendo sua comovente precisão.”

Duas das melhores músicas de todos os tempos são versões deste clássico

Como vocês já devem saber, a Rolling Stone atualizou a sua lista das 500 melhores músicas da história. Ambas as versões de Roberta Flack e do Fugees estão presentes na lista. A primeira ocupa a 273ª posição, enquanto a segunda ficou na 359ª.

“Killing Me Softly with His Song”, por sinal, é uma das únicas três músicas a estar presente na lista com mais de uma versão. As outras duas são “Mr. Tambourine Man“, nas versões de Bob Dylan e da banda The Byrds, e “Walk On By“, nas versões de Dionne Warwick e de Isaac Hayes.

Violet Soda com Tuyo e outras versões

De cover em cover, “Killing Me Softly with His Song” foi fazendo sua história e ganhando reconhecimento como uma das melhores canções de todos os tempos. Isso certamente impactou outros artistas.

A cantora Colbie Caillat (conhecida pelo megahit “Bubbly”, de 2007) já disse publicamente que começou a se inspirar para se tornar uma artista aos 11 anos, quando ouviu pela primeira vez a versão do Fugees. A canção também inspirou covers dos mais diversos artistas, incluindo veteranos como Nancy Sinatra e Perry Como. Mas a lista também conta com artistas emergentes como a banda Scary Pockets e até Michael Jackson, que cantou a música ainda jovem durante uma apresentação do The Jackson 5 em 1974 no The Cosby Show.

Aqui no Brasil, também temos versões ótimas! A banda Violet Soda, por exemplo, convidou o grupo Tuyo recentemente para uma releitura incrível da música. A versão está disponível no disco Unplugged.

Claramente um hit!

 
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