Garbage
Foto por Joseph Cultice
 

Definitivamente uma das bandas mais importantes dos anos 90 em diante, o Garbage acaba de lançar seu disco mais político e direto.

No Gods No Masters é o sétimo trabalho de estúdio do grupo liderado por Shirley Manson e aposta em letras fortes fazendo críticas ao materialismo, ao individualismo, racismo e sexismo, como no ótimo single “The Men Who Rule the World”:

Os homens que comandam o mundo / Fizeram uma porra de uma bagunça / A história do poder / A adoração do sucesso / O rei está na sala da contabilidade / Ele é o presidente do conselho / As mulheres que enchem os tribunais / Todas acusadas de serem putas

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Com sonoridade eclética que explora diversos estilos e os potenciais de cada um dos músicos, a obra se destaca até mesmo em meio à já recheada discografia do Garbage e é certamente uma excelente pedida para qualquer fã do Rock Alternativo, ainda que reduzir No Gods No Masters a apenas isso seja quase uma heresia.

Para entender melhor o processo desse álbum sensacional, falamos com o lendário Butch Vig, baterista da banda e produtor que assina discos como Nevermind, do Nirvana, e Wasting Light, do Foo Fighters. Você pode conferir essa conversa na íntegra logo abaixo!

TMDQA! Entrevista Butch Vig, do Garbage

TMDQA!: Oi, Butch! Que prazer enorme falar com você hoje. Como estão as coisas por aí?

Butch Vig: Olá! Tudo bem, eu estou só tomando minha primeira xícara de café.

TMDQA!: Opa, que maravilha. Adorei suas unhas! [estavam pintadas de verde neon]

Butch: Ah, minha filha que fez isso uns dias atrás!

TMDQA!: Que legal, ficou ótimo. [risos] Bom, Butch, queria começar obviamente falando sobre o excelente No Gods No Masters. Sem exagero, é meu disco preferido do Garbage! Queria saber como funciona o processo de vocês, uma vez que os intervalos entre os álbuns são bem grandes. Vocês estão sempre trabalhando em novas músicas, nas turnês e etc., ou é uma coisa que de vez em quando vocês se reúnem e começam a escrever?

Butch: Olha, esse disco especificamente, o No Gods No Masters, foi definitivamente um pouco diferente. Porque normalmente eu trago algumas ideias cruas, tipo algumas batidas ou progressões de acordes ou melodias, algo do tipo. Dessa vez nós decidimos começar com uma página totalmente em branco, o que foi um pouco assustador pra mim; quando você tem uma página totalmente em branco, você não sabe bem qual direção vai seguir.

Então, nós passamos duas semanas em Palm Springs, acho que foi no início de 2019. A família do [guitarrista] Steve Marker tem uma casa por lá e nós ficamos lá essas duas semanas e basicamente fizemos jams todos os dias e, nessas semanas, nós escrevemos cerca de 35 rascunhos ou ideias de músicas — mas algumas eram só as mesmas progressões de acordes enquanto a Shirley inventava umas letras e algumas melodias e tal.

Depois dessas duas semanas, nós trouxemos tudo para o meu estúdio aqui e também para o estúdio do nosso engenheiro e começamos a puxar os trechos que achávamos bons. E aí, como fazemos tipicamente no Garbage, começamos a adicionar algumas camadas e subtrair outras e a Shirley começou a afiar as letras.

E o disco, pra mim, inicialmente ia soar meio orquestral, poderoso, quase que soando belo. Mas as letras que ela estava escrevendo não combinavam com isso de jeito nenhum — ela estava escrevendo sobre a loucura do mundo em que vivemos. Então, você pode ver que eu dei meia volta e tentei combinar com essa intensidade que ela trazia nas letras.

TMDQA!: E as letras são tão poderosas e importantes, inclusive com mensagens bem fortes. Como foi pra vocês, enquanto instrumentistas, traduzir isso na música?

Butch: Eu sinto que foi uma consequência natural. Como banda, nós percebemos que nunca mais vamos aparecer no Top 40 das rádios, sabe? A gente já está por aí há muito tempo, e isso nos liberta muito em diversas formas para que façamos o que quisermos.

Então enquanto estávamos fazendo esse disco, eu percebi que No Gods No Masters é o disco mais sociopolítico que já fizemos. Eu não sei se poderíamos ter feito esse disco há 20 anos. Mas a gente só sentiu que precisava fazê-lo, só… dizer algo, sabe? Reagir, colocar um toque artístico contra essa loucura de tudo que está por aí.

Uma vez que começamos a afiar a música, acho que todos nós nos empolgamos com isso. A gente se entregou de verdade nesse disco e sei que todos estão realmente orgulhosos disso. Mas como eu disse, isso é algo que nós não conseguiríamos ter feito nem mesmo dez anos atrás, é muito deste momento e acho que é por isso que é tão especial pra nós.

No Gods No Masters

TMDQA!: Quando você fala que não poderia ter feito isso antes, o que você quer dizer? É uma questão de pressão para não falar tão abertamente sobre isso tudo, como vocês fazem em “Godhead” e outras faixas?

Butch: Eu acho que, pra mim pelo menos, eu sou meio que um nerd do Pop. Eu simplesmente amo refrães e melodias — obviamente eu já fiz muitos discos de Rock como produtor mas, sabe, eu acho que nós queremos fazer a música valer alguma coisa.

O Steve sempre brinca dizendo que a gente não pode mais escrever sobre beber cerveja e andar por aí em carros caçando garotas, sabe? Não que a gente já tenha feito isso, a gente nunca fez, mas é meio que uma piada porque eu acho que no passado era tipo, “Vamos só fazer umas músicas assim”, e é muito fácil de fazer mas a gente nunca fez isso. A Shirley sempre foi muito franca.

No passado, a gente já teve que lidar com vulnerabilidade e não se encaixar… até o título de Not Your Kind of People [disco de 2012], sabe, referencia o fato de nos sentirmos do lado de fora, e acho que nossos fãs sentem isso também. Então, quando estávamos trabalhando em No Gods No Masters, foi só como se fosse a hora de escrevermos algo que ressoe com o mundo em que vivemos agora.

TMDQA!: Faz todo sentido. Você mencionou ali que escreveu muitas das músicas como jams, o que talvez ajude a explicar a sensação que eu tive de que esse disco vai pra todo lado — do melhor jeito possível. Você acha que foi por isso?

Butch: É engraçado, é como se fosse um primo mutante do Beautiful Garbage, nosso terceiro disco, o qual eu achei que era muito eclético em relação ao estilo de cada música e a produção de cada música. E eu sinto que esse disco é meio que semelhante, porque não há uma canção em particular que eu possa descrever como sendo o “arranjo definitivo”, estilisticamente, do disco.

Nós sentimos que a música tinha que se encaixar com o que quer que fosse que a Shirley estivesse cantando. Então há algumas canções que são bem livres e bem belas, como “Waiting for God” e “This City Will Kill You”, até “Uncomfortably Me”, todas são bem livres, sabe, vários sintetizadores com aquela batida toda recortada e fodida que colocamos.

Mas aí há algumas como “Godhead”, cujo riff de guitarra me lembra um pouco de “#1 Crush”, porque já começa com essa linha. Mas claro, as letras da Shirley não são como em “#1 Crush”. [risos] Mas é como se cada música fosse seu próprio animal, sabe? É bem eclético, eu acho.

O motivo pelo qual funciona é a Shirley. Ela tem uma personalidade tão forte, e isso já em sete álbuns agora — ela nos permitiu escrever canções como “Queer”, ou “Stupid Girl”, ou “Why Do You Love Me?”, ou “The Trick Is to Keep Breathing”, sabe? Estilisticamente, a gente pode ir pra qualquer lugar desde que a Shirley esteja à frente e bem no meio de tudo. Como banda, temos muita sorte de poder fazer isso.

TMDQA!: O No Gods No Masters também ganhou uma edição deluxe super legal, o que diz muito sobre esse novo tempo em que o vinil voltou a ser popular e as pessoas parecem ter criado um novo apreço pelas edições físicas, um carinho que vai além da praticidade de antes, né. O que você pensa disso e como foi desenvolver essa edição especial do disco?

Butch: Eu sou da velha guarda, eu ainda acredito em fazer um álbum. Sabe, um corpo de trabalho no qual cada música meio que fala com a outra ou ressoa com a outra.

Minha filha tem 15 anos e ela começou a curtir vinil nos últimos 2 ou 3 anos e, toda vez que a gente vai para alguma feira ou coisa do tipo, ela compra esses discos de um dólar. [risos] É empolgante! Eu espero que alguns dos nossos fãs ouçam o disco do começo ao fim… Eu sei, eu entendo que o mundo em que vivemos hoje é sobre gratificação instantânea, as pessoas só querem ouvir uma música Pop e depois ir pra próxima, enfim.

Mas torço para que pelo menos alguns dos nossos fãs consigam ir do ponto A ao ponto B e isso se conecte com eles de alguma forma.

TMDQA!: Eu prometo que fiz isso! [risos]

Butch: Aí sim, Felipe!

Nirvana, Foo Fighters e Smashing Pumpkins

TMDQA!: Queria falar um pouco também, claro, sobre esse ano que celebra várias datas especiais pra sua carreira. São 30 anos desde a chegada do Nevermind e 10 desde o Wasting Light, e é impossível não relacionar esses dois álbuns. No processo desses dois trabalhos, você consegue dizer se houve alguma semelhança além das pessoas em comum? E como foi voltar a trabalhar com o Dave depois de tanto tempo em um disco completo?

Butch: Eu amo o Dave, eu o conheço muito bem há tanto tempo e ele é um artista incrível. Ele tem tanto entusiasmo e paixão pela música e pela vida que é contagiante trabalhar com ele! É ótimo.

É interessante. A analogia que eu tiro do Wasting Light e do Nevermind é que ambos foram gravados em fita. E quando você grava em fita — fita analógica — é muito sobre as performances. Você não pode editá-las. Com o digital — que eu uso o tempo todo! — você copia e cola coisas, você arruma afinações, você consegue consertar qualquer coisa e pode fazer mutações de qualquer forma que quiser.

Na fita, você precisa se apresentar e tocar porque uma vez que está lá, é o jeito que vai ser a não ser que você volte e regrave por cima, o que vai fazer com que você apague a versão anterior. Então, pra mim… o Nevermind ainda soa incrivelmente poderoso e parte disso é capturar a performance daquela banda. Eles estavam realmente afiados na época, estavam ensaiando muito. O Kurt era muito ambicioso com o que ele queria fazer em Nevermind e eu acho que nós alcançamos esse objetivo, nós fizemos um disco que soa forte, é muito grudento, e eu acho que ele ainda soa bem.

E o mesmo vale pro Wasting Light. Quando o Dave fez o desafio e disse que queria gravar em fita, eu fiquei tipo, “Vocês vão ter que tocar pra cacete”. E ele falou, “Nós estamos prontos para isso”. Então, pra mim, o Wasting Light é o disco definitivo que mais soa como o que o Foo Fighters faz ao vivo, ele soa meio cru em alguns pontos.

Mas quando eles terminaram esse disco eles começaram a fazer uns shows em Los Angeles e eu juro por Deus, eu podia fechar meus olhos e só ouvir e eles soavam exatamente como o disco, o que eu acho que é uma abordagem muito legal que nós tivemos nele.

TMDQA!: Outro disco com sua produção que faz um aniversário especialíssimo esse ano é o Gish, do Smashing Pumpkins. Sempre imaginei que trabalhar com eles tenha sido muito desafiador, porque eles sempre foram uma banda tão diferente de todo o resto daquela cena, né? Como foi essa experiência, o que você lembra?

Butch: Quando eu trabalhei com eles no Gish eu estava no céu, porque a gente tinha um orçamento de 30 dias para gravar, fazer overdubs e mixar que foi sem dúvidas o maior projeto — em termos de tamanho — que eu já tinha feito. Eu costumava rir e dizer que estávamos com o orçamento da banda Steely Dan. [risos] Eu falava para o Billy [Corgan] que íamos fazer um disco do Steely Dan. Brincando, é claro.

O que eu gostava dos Pumpkins é… o poder deles e a finesse. Eles conseguiam soar como algo enorme mas também podiam ser delicados ao mesmo tempo. Acho que muito disso também [era] a voz do Billy que podia ser quase feminina e frágil, por cima dessas guitarras gigantes e barulhentas e da bateria insanamente propulsora do Jimmy [Chamberlin], que é um dos melhores bateristas com quem já trabalhei.

Mas sim, eles eram meio que uma anomalia na época. Muitas das bandas alternativas que saíram nos anos 90 tinham meio que esse “rugido”, tipo Eddie Vedder ou coisa assim. E o Billy cantava de um jeito totalmente diferente; a sua perspectiva, as letras, sua escrita era muito diferente das outras bandas.

Eles também eram descolados pra caralho. [risos] Digo, a primeira coisa que pensei quando eles chegaram no estúdio foi tipo, “Esses caras, eles têm que ser uma banda. Eles não se parecem com ninguém”. Aconteceu que eles também não soavam como ninguém.

TMDQA!: Por fim, Butch, tenho uma pergunta importantíssima. Há um tempo nós fizemos no site uma lista com 10 obras essenciais da sua carreira e eu queria te falar quais nós escolhemos [você pode conferir por aqui]. Faltou alguma que tenha um significado especial pra você?

Butch: Nossa cara, você precisa colocar o This Perfect World do Freedy Johnson aí. Ele é um cantor e compositor, um disco que eu fiz provavelmente em 1994 ou coisa assim, deve estar chegando nos 30 anos também. Canções brilhantes e eu ainda sou muito amigo dele, ele é um cantor e compositor incrível.

E depois que eu terminar de falar com você hoje, Felipe, eu vou ali trabalhar com o Silversun Pickups no disco novo deles. E eu também fiz o último álbum deles, o Widow’s Weeds [de 2019]. Aliás, o Brian Aubert está em uma das faixas bônus do Garbage que chegou junto com o novo álbum, “The Chemical”, que é uma que fizemos para o Record Store Day. E ele é um cantor fantástico, eles são uma ótima banda, ele é um guitarrista incrível. Então eu preciso colocar o Widow’s Weeds nessa lista também.

Então agora são 12 obras essenciais, beleza? [risos]

TMDQA!: Pode deixar, Butch. Esse erro vai ser corrigido! [risos] Muito obrigado pelo seu tempo e pelo papo, foi sensacional. Até a próxima!

Butch: Obrigado, Felipe! Isso foi legal. Agora eu vou ali pegar mais um café.