Rael e Céu em
Foto por Lana Pinho
 

É bem possível que você já tenha ouvido falar da passiflora, um dos remédios naturais mais mencionados por avós e avôs no Brasil por conta de suas propriedades capazes de tratar condições como ansiedade e insônia. Essa conexão com a natureza, que parece se perder cada vez mais, é o tema do novo single de Rael em parceria com Céu e RDD (ÀTTØØXXÁ).

Intitulada “Passiflora”, a canção inspirou uma reflexão do cantor e compositor sobre a situação atual que vivemos com relação à saúde mental e ao autocuidado, duas coisas que estão mais em evidência do que nunca por conta da pandemia e, claro, do estado geral do mundo.

Em conversa exclusiva com o TMDQA!, ele explica como conheceu o remédio natural pela primeira vez:

Minha avó era benzedeira, então ela tinha uma coisa pra cada problema. Eu também sou muito conectado com isso, e a ‘Passiflora’ surgiu porque ela nasceu aqui; tem uma hortinha aqui. Direto e reto os passarinhos me trazem aqui. Semana passada veio uma de tomate cereja, e a passiflora já está lá embaixo, porque ela é trepadeira

O músico explica ainda que acredita muito nas propriedades das plantas — “como o próprio cannabis, que serve para tratamento de ansiedade, epilepsia, Alzheimer, depressão…” — e propõe uma reflexão sobre a situação emergencial climática que vivemos atualmente:

Eu fico pensando, a Revolução Industrial acabou com o nosso meio ambiente. Estamos vivendo agora uma emergência climática, e eu fico pensando: o que a Revolução Digital vai fazer com a nossa mente, ou já vem fazendo? Essas patologias vêm em uma crescente, a ansiedade, o estresse, a depressão.

A missão de “Passiflora”, de encontrar um momento de paz, é bem clara. Através da voz e da melodia que o cantor escolhe, conseguimos nos reconectar com alguns dos elementos mais essenciais e, como ele mesmo descreve, podemos nos afastar um pouco da “alienação da indústria farmacêutica”:

Eu acho que a gente ao longo dos anos veio se desconectando das coisas naturais. Agora você vai no remédio: é uma pílula pra transar, outra pra dormir, outra pra acordar… A gente começa a fazer parte dessa alienação da indústria farmacêutica.

“Passiflora”

Rael em "Passiflora"
Foto por Lana Pinho

Essa alienação, aliás, não é só da indústria farmacêutica. Rael estende sua crítica também ao capitalismo e à maneira como eles nos força a gastar, nos manipula a procurar coisas que não precisamos. Mais ainda, manipula os investimentos em coisas que tenham resultados imediatos, ao invés do longo prazo:

Vivemos em uma alienação do capital mesmo, da indústria. Elas entram no dia a dia, nos fazem ir no mercado [pra comprar] uma coisa que às vezes você nem precisava, irmão. Tá ligado? Eu como couve que tá aqui no meu quintal. Infelizmente somos muito manipuláveis.

É a coisa do Brasil, a gente ainda não entendeu que investir em conhecimento rende os maiores juros. Então fica difícil a gente falar que tem que caminhar junto com a natureza, fica difícil falar que a gente tem que ser mais ecoeficiente. A galera fala, ‘Mano, você tá viajando’, ‘Você tem uma Mercedes? Não? Então cala a boca’, então fica muito difícil dialogar. Mas estamos na luta, estou tentando.

A ideia de trazer a paz agrada o músico, que reafirma o quanto a natureza pode nos ensinar:

Quando você planta algo… estamos em um mundo ansioso. Você fica [pensando], ‘Nossa, mas não acontece nada.’ A planta tem o tempo dela de evolução. Você começa a acompanhar aquilo e você já entende que a natureza tem o tempo dela, e a gente tem o nosso e não é esse digital agora. Nosso cérebro não foi feito pra acumular tudo isso de informação.

Uma coisa que Rael garante é que ele não é exceção nesse mundo de digitalização, e a jornada para se reconectar e encontrar novamente o seu lugar de pertencimento na natureza não é simples. Um exemplo citado por ele chama muita atenção:

Eu tive que usar um identificador aqui, um ‘plant identifier’, pra saber que era passiflora que tinha nascido aqui. A minha avó não ia fazer isso. Ela já tinha essa tecnologia com ela. Ela ia olhar e pensar, ‘Ah, olha só, passiflora, é bom colocar ali porque ela gosta de Sol, coisa e tal’. Entendeu? É a prova da desconexão que a gente tá tendo.

Parcerias com Céu e RDD

Rael e Céu em "Passiflora"
Foto por Lana Pinho

Instrumentalmente, claro, a canção chama bastante atenção por reforçar a identidade de Rael de misturar inúmeros gêneros brasileiros. A novidade fica pela presença do elemento do axé, que acaba resultando em uma sonoridade bastante samba reggae e é causada por RDD, nome artístico de Rafa Dias, do ÀTTØØXXÁ.

O cantor explica como foi esse trabalho em conjunto, que começou com o próprio Rael fazendo a pré-produção e gravando os instrumentos como baixo, guitarra e até a batida inicial. A partir disso, RDD trouxe uma influência que resgata elementos da África, da Bahia — um diálogo que, a princípio, abre espaço para mais parcerias no futuro.

Quanto à presença da Céu, a escolha era óbvia para Rael:

Quando eu falei com o Fióti, [sobre] a parceria aqui, pensando em algum nome, eu falei, ‘Mano, essa música é a Céu’. Tem totalmente a ver com a Céu. Porque também na música, se você for ver bem, eu tô falando da terra e tudo mais e ela só fala do céu! Ela chegou e complementou.

O novo lançamento, cujo clipe já está disponível, é uma produção e realização da LAB Fantasma e também faz parte de um novo projeto do YouTube, o #BlackVoice, dedicado a dar voz a ótimos artistas negros que vêm se destacando pelo mundo. Sobre ser escolhido para isso, Rael conta:

Comecei o ano já sabendo que ia estar no Black Voice, sendo reconhecido como uma das vozes negras ao redor do planeta. Fiquei muito feliz. Rolou o telão na Times Square, a gente teve umas vídeochamadas com o empresário da Beyoncé, trocando ideia sobre música, sobre mercado. Já estou a uma pessoa da Beyoncé! [risos] Quase chegando! Enfim, eu fiquei muito feliz mesmo de ser reconhecido dessa maneira e de estar somando de alguma maneira nesse projeto.

Pra finalizar, ele também destaca várias vezes o quanto fica feliz por estar produzindo em um “momento muito desafiador” — seus amigos, ele diz, pediam “socorro” já no começo da pandemia, o que faz com que ele só tenha a agradecer por ter a oportunidade de se envolver em tudo isso.

A retribuição, claro, fica por conta do material incrível que você confere logo abaixo. Vale a pena tirar um momento para encontrar essa paz da “Passiflora”!

Ficha técnica

Música
Voz: Rael e Céu
Baixo, beat, synths & teclado: RDD em RDD estúdio, Bahia
Composição: Rael e Céu
Produção musical: Rael e RDD
Guitarras: Rael
Mixagem: Maurício Cersósimo em estúdio CTS Studio, Brooklyn, NY
Masterização: Maurício Gargel em estúdio Maurício Gargel Audio Mastering,
São Paulo
Gravadora: Laboratório Fantasma
Direção artística: Evandro Fióti
Produção executiva: Raissa Fumagalli
Assistente de produção executiva: Lucas Morgado
Voz Rael gravada por ele mesmo em Horta Studio
Voz Céu gravada por Pupillo em Estúdio Muchito

Videoclipe
Direção: Henrique Alqualo
Assistente de Direção:
Elenco: Céu, Darlita Albino, Danilo Nonato, Débora Marçal, Félix Pimenta e
Rael
Direção geral: Evandro Fióti
Gerente de produção e A&R: Raissa Fumagalli
Produção executiva: Vanildo Ricardo (Dinho) e Lucas Morgado
Assistente de produção e A&R: Laura Freitas
Direção de Fotografia: Fydell Botti
Roteiro: Henrique Alqualo
Primeiro assistente de câmera: Carlos Nascimento
Gaffer: Jonatas Calazans
Produção: Moa Filmes
Direção de Produção: Diego China
Assistente de Produção: André Ribeiro Cascão
Beleza Rael e elenco: Carol Romero
Stylist Rael e elenco: Camila Monteiro
Assistente de stylist Rael e elenco: Luiz Meira
Stylist Céu: Rita Lazzarotti
Produção de moda Céu: Gio Grassi e Jeff Ferrari
Look Céu: Ellias Kaleb
Beleza Céu: Camila Anac
Brincos Céu: Flavia Madeira
Coreografia: Darlita Albino
Edição e Montagem: Moa Filmes
Cor: Tomás Magariños
Catering: Carinho Cozinha
Testes e segurança Biológica: All eventos
Transporte: AGP Transportes e Carlos Lafaiete
Locação: Sítio Vale das Águias
Captação e Edição de Making Of: Victor Balde
Fotografias Making Of: Lana Pinho
Ailton Krenak interpreta trecho retirado do livro “Ideias para adiar o fim do
mundo”, de Ailton Krenak (Companhia das Letras, 2019)
Essa produção seguiu todos os protocolos da OMS para prevenção ao COVID-
19.
Uma produção e realização da Laboratório Fantasma.

 
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