Marvin Gaye
Foto: Site oficial / The Music Journal
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Preconceito, ódio, injustiça, dor… Falhamos enquanto sociedade e temos exemplos disso todos os dias em todos os lugares. Falta respeito, amor, compreensão… O que, afinal, está acontecendo com um mundo?

E isso não é de hoje, claro. Nosso histórico de guerras é horripilante e parece que, a cada dia, ganhamos mais motivos para desistirmos de ter esperança. É uma angústia estranha, um sentimento revoltante de não conseguir encontrar as respostas necessárias para nossas perguntas. É algo semelhante à indignação sentida pelo cantor Marvin Gaye, que, em 1971, fez de “What’s Going On” um hino de protesto, guiado por um belo instrumental que soma R&B e soul.

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Faixa-título de um dos seus mais celebrados discos, a canção ajudou a fomentar o papel social que a música tem (e sempre teve). Contamos abaixo um pouco sobre a história e curiosidades desse atemporal hit, que completa 50 anos em 2021. Leia e reflita.

 

Precedentes

Toda virada de mês, ano ou até década é recheada de promessas de mudanças, pela esperança por dias melhores ou pela ânsia por novidades. Quem viu a virada dos anos 70 tinha em mente ainda recentes acontecimentos que abalaram a história social do mundo, incluindo as mortes de Malcolm X (em 1965) e de Martin Luther King (1968) e as trágicas memórias e perdas da Guerra do Vietnã.

A indústria da música, enquanto isso, se fomentava através de sucessos dançantes em músicas animadas e românticas. E Marvin Gaye estava no meio disso. As gravadoras não davam muita atenção para a causa. No entanto, como cantar músicas de amor enquanto o povo é violentamente reprimido? Fazia sentido continuar celebrando o amor?

Basicamente nos apresentado a um eu-lírico incrédulo sobre a situação do mundo, “What’s Going On” (um resumo do álbum homônimo) nasceu já como um grande hino que questiona o andar das coisas na época.

 

A composição

Escrita majoritariamente por Obie Benson (do grupo Four Tops), a canção foi inspirada por um episódio de violência policial. Na ocasião, ele avistou a polícia atacando jovens. No livro “What’s Going On: Marvin Gaye and the Last Days of The Motown Sound“, Benson relembra:

A polícia estava batendo neles, mas eles não estavam incomodando ninguém. Eu vi isso e comecei a me perguntar que porra está acontecendo. O que está acontecendo aqui? Uma questão leva a outra. Por que estão mandando crianças para longe de suas famílias? Por que estão atacando suas próprias crianças nas ruas aqui?

Benson se juntou ao compositor Al Cleveland, da Motown, para escrever a música, mas os membros do Four Tops não estavam interessados em músicas de protesto. Benson logo pensou em Gaye, que adicionou mais versos à música, inspirado por histórias que ouviu de seu irmão mais novo, Frankie, que foi convocado para a Guerra do Vietnã.

 

A inevitável mudança

Estamos falando sobre Marvin Gaye, que não apenas é um dos mais famosos e reconhecidos cantores da história, como também é especialista quando o assunto é músicas românticas. Em seu repertório até então, constavam clássicos como “Ain’t No Mountain High Enough” e “It Takes Two“.

Em uma entrevista, o cantor deu sua visão sobre essa “mudança de chave”:

Lembro que estava ouvindo uma música minha, ‘Pretty Little Baby’, na rádio, quando o apresentador interrompeu a programação com notícias sobre os Tumultos de Watts. Meu estômago ficou apertado e meu coração começou a bater muito rápido. Eu quis quebrar o aparelho de rádio e queimar todos os meus discos. (…) Me questionei: ‘com o mundo explodindo em volta de mim, como eu posso ser capaz de continuar cantando músicas românticas?’

O músico Jackson Browne, em uma entrevista à Rolling Stone em 2008, relembrou o impacto desse momento não só para Gaye, mas para a indústria:

Ninguém esperava uma música anti-guerra vinda dele, mas aconteceu em um momento em que as pessoas estavam dispostas a ouvir esse discurso de qualquer pessoa, contanto que fosse sincero. E quem seria melhor para isso do que a pessoa que sempre falou sobre amor e desejo?

 

A Motown dos anos 70

Essa virada de chave também foi significativa para a influente Motown. Ao longo do fim dos anos 60, a gravadora afrouxou algumas de suas regras, passando a permitir que artistas de longa data pudessem passar a escrever e produzir seu próprio material. What’s Going On?, o álbum, foi um dos exemplos que comprovou que essa flexibilidade poderia, sim, beneficiar e diversificar mais a produção.

Com maiores intervenções de Marvin Gaye (que raramente participava dos processos de composição das faixas) e uma forte renovação temática, a Motown viu o potencial do discurso político-social. Foi uma mudança drástica em relação aos hits lançados pela gravadora ao longo dos anos 60.

No decorrer da década, outros artistas filiados á empresa também passaram a investir em músicas mais sérias e temáticas mais “desafiadoras”. Foi o caso de Stevie Wonder (com o disco Music Of My Mind) e do grupo The Temptations.

 

Envelheceu melhor do que vinho

Hoje, celebramos o legado dessa música e todas as reflexões que ela propõe. O impacto, há 50 anos, foi imenso, mas não reflete a importância que possui hoje.

Em 1972, o músico foi indicado a duas categorias no Grammy: Melhor Performance Masculina de Vocal R&B e Melhor Arranjo Acompanhando o(s) Vocalista(s). No entanto, não ganhou nenhuma das duas. Gaye perdeu, respectivamente, para Lou Rawls (com “A Natural Man”) e para Paul McCartney (com a parceira “Uncle Albert/Admiral Halsey” com Linda McCartney).

Em 2004, a Rolling Stone montou a influente lista das 500 Melhores Músicas de Todos os Tempos, e colocou “What’s Going On?” na quarta posição. Mesmo após uma atualização em 2014, a música permanece no mesmo lugar, perdendo apenas para “Imagine” (John Lennon), “Satisfaction” (The Rolling Stones) e “Like a Rolling Stone” (Bob Dylan).

 

O melhor disco da história

A consagração de Marvin Gaye nos dias atuais fica ainda mais perceptível com outra lista da Rolling Stone, dessa vez dos 500 Melhores Discos de Todos os Tempos.

O disco What’s Going On, de acordo com a lista original, de 2012, é o sexto melhor da história (o que já é um grande mérito). A recente atualização, no entanto, colocou o álbum no topo, ultrapassando Beatles, Bob Dylan e The Beach Boys.

Polêmicas à parte, essa valorização possivelmente se dá diante de todo um novo contexto social, em que determinados discursos ganharam força e sobrevida. O grande sucesso de Marvin Gaye é um exemplo inquestionável disso. Além da faixa-título, outras canções, como “Mercy Mercy Me (The Ecology)” e “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” são ótimos exemplos da força social desse disco.

 

Adaptações audiovisuais

Toda música atemporal é atemporal por conseguir encontrar significado em diferentes contextos em relação ao tempo. É um caso infeliz, mas, de fato, “What’s Going On” pode ser cantada em qualquer época.

Além das inúmeras versões e do gradativo reconhecimento enquanto obra-prima, a canção ganhou, novamente na voz de Gaye (que morreu em 1984) uma versão com leves mudanças em relação à original em 2019. O vídeo, que também conta com imagens de arquivo de Gaye, conta com imagens gravadas em Detroit e Flint, cidades dos EUA que remetem às origens da Motown. As imagens possuem força e remetem ao cotidiano, ao mesmo tempo em que passam uma mensagem esperançosa.

É sobre emoções humanas, relacionamentos humanos e união. Minha esperança é que nosso clipe lembre as pessoas a continuarem fazendo a pergunta que Marvin Gaye fez em 1971.

Em comemoração aos 50 anos da faixa e do álbum, “What’s Going On” também ganhou um belo e emocionante lyric video em animação. Confira abaixo e aproveite para celebrar esse sensacional legado de um dos cantores mais importantes da história.

 
 
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