Bring Me the Horizon
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Ouça nova versão do disco ao vivo do Pink Floyd!  

Já faz algum tempo que o Bring Me the Horizon é uma das bandas mais interessantes do universo do Rock — justamente por flertar constantemente com gêneros que vão desde as vertentes mais extremas, como o Deathcore, até o Pop radiofônico.

Isso ficou mais evidente do que nunca em amo, disco lançado pelos caras em 2019 que rendeu sucessos como “medicine” e “mother tongue” que em nada se assemelham a canções como “Chelsea Smile” e “Crucify Me”, hinos da fase antiga.

Se no álbum anterior parecia que todas as origens estavam sendo abandonadas, o novo POST HUMAN: SURVIVAL HORROR chega no próximo dia 30 de Outubro para mostrar que o grupo formado por Oliver Sykes (vocal), Lee Malia (guitarra), Jordan Fish (teclado e voz), Matt Kean (baixo) e Matt Nicholls (bateria) arrumou um jeito de condensar absolutamente todas as fases de sua carreira em um trabalho.

Em papo exclusivo com o TMDQA!, Oli falou em detalhes sobre o processo de composição dessa nova obra e tudo que foi colocado ali, além de dar algumas dicas sobre o futuro sonoro dos caras.

Mais do que isso, é óbvio que Sykes também falou sobre a sua relação com o Brasil — ele é casado com a modelo brasileira Alissa Salls — e contou histórias engraçadas, revelou suas preferências e muito mais em um papo extremamente bem-humorado que você confere na íntegra a seguir!

Entrevista com Oliver Sykes (Bring Me the Horizon)

TMDQA!: Oi, Oli! Como você está?

Oliver Sykes: [em português] Oi, tudo bem?

TMDQA!: [em português] Tudo certo! [risos] Bom, eu falo do site Tenho Mais Discos Que Amigos, e por agora já imagino que você saiba o que isso significa…

Oli: [em inglês] Eu tenho mais discos que amigos? [risos]

TMDQA!: Isso! [risos] Bom, essa entrevista é bem especial pra mim porque eu diria que pelo menos neste momento da vida o Bring Me the Horizon tem sido minha banda preferida. Amo o que vocês têm feito nos últimos anos…

Oli: Poxa, obrigado!

TMDQA!: É verdade! E, bom, ouvindo o novo EP eu sinto que vocês realmente conseguiram transportar o ouvinte para um ambiente de survival horror. Acho que tudo isso começou faz um bom tempo, com “Ludens” — ela parecer ter ditado o tom para o que viria a ser esse EP. Foi por aí mesmo?

Oli: 100%. Eu fico bem feliz que você tenha entendido isso, na real. Definitivamente, essa música serviu como direção para o resto do disco — quando nós a fizemos, nós não pensamos “ah, ok, é assim que o resto do disco vai soar”, sabe? Mas quando nós começamos a escrever “Parasite Eve” nós começamos a ver a relevância disso. Quando nós estávamos escrevendo “Ludens”, eu, na minha cabeça, estava escrevendo sobre coisas que eu pensava que iriam acontecer no futuro distante, não achei que iam acontecer em um intervalo de um ano, seis meses, sabe?

Então a letra da música — “How do we form a connection when we can’t even shake hands?” [“Como formamos uma conexão quando nem podemos apertar as mãos?”] — pareceu tão precisa que, quando começamos a escrever sobre “Parasite Eve” e falar de uma pandemia e tinha uma pandemia rolando… foi meio tipo, “é, acho que é sobre isso que esse disco tem que ser, esse disco tem que ser sobre o agora, tudo que estamos vivendo, como isso faz a gente se sentir”.

Sabe, nós estávamos em quarentena, então nós não conseguíamos nos ver. Tivemos que escrever o disco todo através de computadores, conectados pela internet — isso é tão fodido! É tipo um mundo distópico de ficção científica onde o mundo se tornou uma casa de vidro por causa de um vírus mortal. Então, quando estávamos escrevendo esse álbum, nós pensamos: “É sobre isso que precisamos escrever”. Sobre essa situação.

E eu acho que quando nós escrevemos “Ludens” para um game, Death Stranding, nós tivemos tipo cinco ou seis dias pra escrever essa música — do zero, escrever, gravar, mixar e masterizar. Então nós não tivemos tempo para pensar, tipo… quando nós fizemos o amo, a gente experimentou muito. Nós empurramos nossos limites para fazer novas coisas, a gente não queria fazer as coisas fáceis. Não tentaríamos um breakdown ou um refrão que fosse tipo, “Ah, é um bom refrão, mas é só um refrão de Rock”. Nós empurramos muito nossos limites, foi um verdadeiro desafio!

[Em “Ludens”] a gente não teve essa oportunidade. A gente tinha que escrever rápido, então o que veio naturalmente e rapidamente foi o que rolou. E eu acho que a gente pensou primeiro que essa música não ia ser muito boa! Mas nós lançamos e todo mundo amou tanto, e foi tipo, “Ok, talvez a gente precise dar um passinho pra trás”. Sabe?

Eu acho que como banda, a forma como escrevemos, talvez estivéssemos pensando demais nas composições. A gente ouvia algo e pensava “Ah, isso é bom”, mas depois ficava tipo, “Ah, eu não sei, talvez a gente deveria mexer nisso e naquilo”. Todas as músicas do amo foram assim. A forma como elas começaram e a forma como acabaram, você nem saberia que elas são a mesma música.

Então eu acho que “Ludens” é um produto do que nós, como uma banda, produzimos naturalmente. Nada difícil. Por isso parece, tipo… o amo tem essa questão da sensibilidade Pop, mas aí o peso e a agressividade e a estranheza, essas coisas que fizemos durante toda a nossa carreira, parece que está tudo finalmente junto agora.

Essa é a primeira vez que nos permitimos fazer isso!

POST HUMAN: SURVIVAL HORROR

TMDQA!: E isso é definitivamente perceptível, principalmente essa condensação de tudo que vocês já fizeram. Mesmo quando vocês estão colaborando com outras pessoas — como na música com as BABYMETAL, que eu acho que é minha preferida do novo disco e talvez de toda a carreira de vocês…

Oli: Todo mundo fala isso! [risos] Todo mundo que ouviu o disco fica tipo, “É, essa é minha preferida!”. Até tipo, é doido… ela é bem pesada, mas a minha esposa amou, e até a irmã dela disse que é a preferida. Todo mundo que ouviu ama, a coisa do BABYMETAL que faz parecer algo japonês mesmo, além da introdução.

TMDQA!: Sim, é sensacional! [risos] Mas, bom, todo mundo também está bem empolgado para a parceria com a Amy Lee, do Evanescence. Eu sei que tem uma história engraçada aí, um processo judicial, algo do tipo… [risos]

Oli: [risos] “Processo” provavelmente não é a melhor palavra! Basicamente, nós meio que usamos uma melodia deles em uma música nossa [“nihilist blues”] sem querer. Tipo, eu ouvia tanto Evanescence que meu subconsciente roubou essa melodia! Então, meio que nós só demos o crédito da composição e ficou tudo resolvido, e aí o que aconteceu é que o empresário dela falou, tipo, “Bom, a Amy é super fã da banda e adoraria trabalhar junto com vocês”. [risos] Então foi meio que um lado positivo dessa confusão, porque a gente nunca saberia que ela conhecia a gente se não tivéssemos plagiado a música dela. [risos]

TMDQA!: [risos] Que bom que isso rolou então. Bom, outra coisa que eu queria perguntar é sobre a primeira faixa, “Dear Diary,”. Pelo que ouvimos na letra de “heavy metal”, do amo, vocês não estão muito preocupados com a galera que reclama que vocês abandonaram o peso. Não quero dar um spoiler muito grande pra quem ainda não ouviu, então, só me conta como foi canalizar tanta raiva e agressividade em uma música…

Oli: Só foi verdadeiro, entende? Em relação à letra. A música é sobre estar isolado e ficar maluco e se transformar em um zumbi sem cérebro porque você está usando a porra do seu pijama durante seis semanas. [risos] Sabe? Então é uma música sobre um período em que ficamos como animais em jaulas, e para mim é assim que a música tem que soar. Tem que soar como se nós quiséssemos sair das jaulas.

Então, por exemplo, você pega uma música como “medicine”, do amo. É uma canção de amor, sobre olhar pra trás e ver um relacionamento que não funcionou, e você está chateado com isso mas também feliz por ter saído de uma relação tóxica. Então, se você saiu de uma relação tóxica, você não pode ficar tipo [fazendo gutural] “my medicine!!!”. [risos] Você não pode ficar gritando e fazendo guturais com isso! Para mim, tem que ser verdadeiro, é tão importante que seja assim.

É como ir em uma peça de teatro! Se alguém está falando sobre um coração partido, você não estaria tocando uma música feliz por trás. A música teria que ser frustrante, dar esse sentimento. Essa é a grande diferença desse disco pra mim. No amo, eu não tinha nada para estar puto, eu estava feliz, reflexivo, e talvez um pouco triste. Mas nesse disco eu estou com raiva, eu estou puto, eu tenho algo para ficar puto. [risos] Me entende? E isso é ótimo, mas isso só pode aparecer na hora certa, não é algo que eu tenho como forçar.

TMDQA!: Sim, e liricamente esse disco também representa muito bem isso. Posso falar como é aquela frase sobre Deus nessa música? [risos]

Oli: [risos] “God is a shithead.” [“Deus é um merda”]

Relação com o Brasil e curiosidades

TMDQA!: Pois é, e em “Teardrops” também tem aquele trecho de você “ser seu próprio anti-cristo”. Vai ter muita reflexão pra muita gente! Bom, a gente tem que falar sobre sua relação com o Brasil, né? Eu me lembro de algum tempo atrás ter feito uma matéria sobre você tendo que empurrar um carro no interior de São Paulo

Oli: [risos] Cara, a gente, eu e minha esposa, nós tínhamos alugado um AirBNB para ir com uns amigos e obviamente eu não tinha um carro no Brasil, né? Então eu peguei o carro do pai da Alissa, que é tipo… ele estava tão quebrado, as portas não abrem [risos] ele tinha que entrar pela porta dele pra abrir a outra porta e, enfim, ele tem o carro por uns 20 anos ou sei lá e era tão velho. E aí o que aconteceu foi que nós paramos para fazer umas compras e o porta-malas do carro, se você abrisse, tinha que segurar com a mão para ficar aberto, ou então ele fecharia sozinho.

Então eu pensei que eu era muito esperto e eu peguei a chave do carro e coloquei ali pra manter a porta aberta! E aí a chave caiu, e o porta-malas fechou [risos] e a chave do carro ficou dentro do carro. Não tinha jeito de pegar. Então, por sorte, tinha um cara ali na rua que era tipo um chaveiro e ele pegou aquele troço de metal pra tentar tirar a chave — e quando eu percebi tava tipo metade da cidade tentando tirar a chave dali, e ninguém conseguia. Levou muito tempo! [risos] Eu fiquei com tanta vergonha.

TMDQA!: Que vergonha, nada! Foi legal demais saber que você já teve uma experiência bem brasileira. Falando como um fã daqui, me senti mais próximo de você depois disso. [risos]

Oli: [risos] Pois é! A Alissa me contou que eu estava viralizando no Brasil e eu perguntei por que, e ela disse, “Porque esse tipo de coisa acontece com brasileiros o tempo todo”. [risos] “Isso é tipo a vida de um brasileiro, e tá todo mundo rindo porque agora o Oli é brasileiro”.

TMDQA!: Sensacional. História pra contar, né? Queria fazer uma coisa um pouco diferente agora. Pensei em fazer umas perguntas rápidas e você só me responde rapidamente, e elabora um pouquinho se quiser. Pode ser?

Oli: [em português] Sim!

TMDQA!: Ok! [risos] Primeira pergunta: “Itch for the Cure”, do disco novo, é uma homenagem a “Cure for the Itch”, do Linkin Park?

Oli: [em português] Mais ou menos. [risos]

TMDQA!: Certo. [risos] Bom, você já deve ter provado muitas comidas brasileiras agora. Qual a sua preferida, se é que tem uma?

Oli: [em português] Sim! Mandioca.

TMDQA!: Ah, mandioca é sensacional.

Oli: [em português] E brigadeiro! Muito bom.

TMDQA!: Um clássico! Bom, eu sou muito fã de jogos e amei que vocês fizeram a música pro Death Stranding, além de terem se inspirado também em Parasite Eve que é uma das minhas franquias preferidas pra música nova. Você está jogando algo agora, acha que vai rolar uma inspiração por aí?

Oli: [em português] Legal! [em inglês] Olha, o último jogo que joguei foi The Last of Us 2. Joguei Resident Evil 3, também, que foi legal pra caramba. Eu meio que estou procurando algo, no momento eu meio que tenho jogado só o Ghost of Tsushima… eu não gostei muito no começo, mas depois de um tempo eu comecei a curtir mais. Agora estou bem empolgado com o PlayStation 5 e… [pausa]

Vem cá, você ainda joga esses jogos? Os Parasite Eves?

TMDQA!: Sim! Assim que vocês lançaram a música eu fiquei inspirado e joguei os dois do PlayStation 1 de novo. São curtos até.

Oli: Nossa, eu fiz uma entrevista com uma pessoa do Japão ontem e, tipo, não sei se você já está ligado mas o jogo é baseado em um livro, né?

TMDQA!: Sim!

Oli: Poxa, eu nunca li o livro. Queria encontrar!

TMDQA!: Pior que eu também nunca li, mas os jogos são maravilhosos né? E a música ficou sensacional, combinou muito com a atmosfera do jogo. Bom, a última dessas perguntas rápidas…

Oli: Ou, sabe a cena de abertura do primeiro Parasite Eve? Na casa de ópera e tal, e a mulher cantando e tudo pegando fogo? É muito foda, né.

TMDQA!: Sim! [risos] Demais, é uma das minhas preferidas. E é uma estética tão videogames dos Anos 90/2000.

Oli: Sim, a animação, a arte, tudo. E Parasite Eve é um nome tão bom pra um videogame, né? Eu acho legal demais.

TMDQA!: Muito! Minha última pergunta rápida, agora: você tem uma música preferida no novo disco? Se sim, qual?

Oli: “Teardrops”, eu acho. É provavelmente minha música preferida nossa em muito tempo. Eu acho que é a música mais Bring Me the Horizon, sabe? Ela tem tudo que faz a gente ser a gente. Se alguém me perguntasse como é o Bring Me the Horizon, eu mostraria “Teardrops”. Tipo, é pesada mas tem uma emoção que eu acho que nossos fãs, tipo… pensa no SempiternalQuando você pensa no Sempiternal é tipo, sim, era pesado, mas tinha uma emoção e se conectava muito mais com as pessoas do que os nossos discos anteriores. Eu acho que os nossos fãs gostam profundamente disso, acho que é o que faz com que eles sejam tão doidos por nós.

Eu acho que “Teardrops” é uma daquelas que te atinge em um nível emocional, sabe. Te deixa fisicamente meio, “É, vamos lá!”, te deixa naquele nível de você se conectar com ela em um nível que… bom, pelo menos eu espero que vá ser assim. Parece esse tipo de música em que a música e a letra são bastante pessoais mas, ao mesmo tempo, as pessoas conseguem se identificar. Entende?

TMDQA!: Sim! Foi uma das minhas preferidas também. Na verdade, eu fico surpreso que você consiga escolher uma porque o disco todo está incrível, de coração. Tenho ouvido sem parar.

Bom, tenho uma última pergunta pra fecharmos esse papo ótimo. Nesse novo trabalho, eu sinto que vocês estão fazendo coisas novas mas, ao mesmo tempo, parece que vocês estão se referenciando o tempo todo — referenciando os trabalhos antigos, todos, cada um de alguma forma. De novo, não quero dar muito spoiler, mas quando ouvia uma música eu pensava “nossa, isso é tão That’s the Spirit“, e aí em outra eu lembro dos dias de deathcore, e por aí vai… Foi algo que passou pela cabeça de vocês, foi perceptível enquanto vocês fizeram esse disco?

Oli: Sim! A gente sempre brinca; desde o Sempiternal, tem um monte de gente que nos reduz a aquele disco. Então é tipo, sempre que a gente faz algo parecido a gente fica tipo “ah, estou só fazendo um Sempiternal“, ou “estou só fazendo um That’s the Spirit“. Sabe? Sempre que a gente faz uma música que parece o Sempiternal a gente já brinca falando que vai ser o Sempiternal 2.

E aquela primeira música… foi muito empolgante. Porque eu nunca pensei que nós faríamos isso de novo…

TMDQA!: Nem eu. [risos]

Oli: Pois é! Eu nunca pensei que nós poderíamos fazer uma música que soasse como algo do Count Your Blessings ou do Suicide Season mas que tivesse as sensibilidades Pop que temos agora meio que junto ao trabalho antigo. Parecia algo meio impossível, ter aquela velocidade e raiva e mesmo assim fazer algo que é grudento, de certa forma, é acessível.

E isso era o que importava, no fim das contas. Quando ouvimos aquela música pela primeira vez, eu tentei tantas melodias e fiquei tipo, “Não, isso aqui tem que ser old school“. E eu gostei do fato de que ela soa nostálgica, ela soa old school. Tem que soar como, ao mesmo tempo, “Isso me lembra alguém” e “Nossa, eu nunca ouvi isso antes”.

TMDQA!: Incrível. Oli, muito obrigado por seu tempo! Foi ótimo bater esse papo mas nosso tempo infelizmente acabou. Se quiser deixar uma mensagem — em português ou em inglês mesmo — para os fãs, fica à vontade!

Oli: [em português] Oi Brasil! Saudades. Eu espero que possamos voltar logo. É, valeu! Tchau, tchau!

 
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