Resenha FourFest
 

Resenha FourFest

Por Alexandre Lopes

Com a proposta de unir bandas de sonoridades distintas que despertam atenção no rock alternativo contemporâneo, a segunda edição do Fourfest teve o azar de acontecer em uma ingrata noite de quinta-feira. Por isso, já subentendem-se os entraves que poderiam estragar a noite: grande parte do público tinha idade média entre 20 e 35 anos e amargaria uma bela ressaca no trabalho durante o dia seguinte; a casa escolhida para sediar o evento, o Clash Club, não é exatamente de fácil acesso a transporte – em comparação às casas da badalada região do Baixo Augusta – e também volta e meia deixa transparecer problemas com sua aparelhagem, com caixas de som saturadas em diferentes momentos.

Os fatores descritos acima, combinados com os corriqueiros atrasos já esperados em qualquer evento de música, contribuíram para tirar o brilho do festival. Mas até aí, será que a música compensou? Em certos momentos, sim.
Com quase uma hora de atraso, os paulistas do Some Community subiram ao palco para mostrar seu repertório calcado no lado pop do indie rock com alguns toques de post-punk. Apresentando músicas melhores do que as que exibe em seu perfil no MySpace, a banda claramente evolui seu som ao vivo. Mas nem mesmo o carisma da vocalista Juliana Vacaro e o fato do baixista/guitarrista Fernando Fernandes conversar com o público algumas vezes quebrou o gelo daquele estágio inicial do festival. Talvez porque a muita gente estivesse mais preocupada em pegar suas cervejas para o que viria a seguir.

Pois bem: quando o compositor californiano Ariel Pink subiu ao palco com sua banda Haunted Graffiti, o jogo já estava ganho. Apesar da pequena enrolação para começar o show – de novo os problemas com o som da casa -, ficou claro que se a maioria do público presente no festival não estava ali para prestigiá-lo, provavelmente foi conquistado ao longo de seu set. Com seu freak folk misturando vocais agudos, riffs de guitarra, solos, teclados e nuances retrô dos anos 60 e toques góticos oitentistas, Ariel Pink fez a melhor apresentação da noite. Considerado um ‘show de risco’ por conta de seu comportamento excêntrico em gigs anteriores (ele chegou a abandonar uma apresentação no meio no Coachella, sem explicação), Ariel manteve-se o tempo todo com uma postura profissional durante sua performance. Mas ao perceber a comoção que causou na plateia ao tocar músicas do disco Before Today – especialmente “Bright Lit Blue Skies” e “Round and Round” – sua postura quase impassível se tornou tímida e Pink não conseguiu esconder alguns sorrisos.

Apesar de serem os headliners, a noite não estava muito favorável ao The Pains of Being Pure at Heart. Primeiramente, por conta do horário: a atração principal foi subir ao palco somente às 1h30, então muita gente foi embora antes do fim do show. Outro fator foi o som da banda, que ao vivo parece perder a potência. Analisando friamente, o tal ‘noise pop’ do Pains na verdade é um pastiche de várias guitar bands dos anos 90 com alguns toques de Smiths e The Cure. Por mais que a banda tenha iniciado com a pegada mezzo My Bloody Valentine mezzo Smashing Pumpkins de “Belong”, no palco do Clash a banda soou inocente e limpinha demais nas músicas seguintes. Foi quase como se todos dos membros tivessem esquecido seus pedais Bigmuffs em casa. Resultado: os que não eram fãs ardorosos da banda (que estavam fielmente cantando música por música em frente ao palco), não resistiram esperar até o fim do show. Quando tocaram canções como “Heavens Gonna Happen Now”, ela não passou de uma banda sem presença de palco tocando múltiplas versões fracas de “Star Sign” do Teenage Fanclub. Não foi surpresa a banda ter retornado para o bis para uma plateia bem reduzida.
Em suma, o Fourfest provou ser um festival modesto, mas que procura oferecer shows interessantes sem muito alarde. A organização do evento precisa apenas conciliar melhor o cronograma de suas atrações para evitar atrasos, além de primar pela qualidade do som.