andre L. R. mendes

andre L. R. mendes é um cantor e compositor baiano que se desdobra em múltiplas funções nos seus discos.

O nono, Rimado, saiu recentemente com uma proposta entre o radiofônico e o experimental, com dois lados claramente divididos. O álbum foi todo gravado em casa usando apenas um iPad e com andre tocando todos os instrumentos – além de realizar arranjos, produzir, mixar e masterizar, por exemplo. Assim, ele segue sobrevivendo de música em uma longa e prolífica carreira, com pelo menos um disco lançado por ano. 

Na cena baiana, andre ficou conhecido como integrante da banda Maria Bacana, revelação dos anos 90 e que fazia parte do casting do selo Rock It! de Dado Villa-Lobos. Com o fim do grupo, ele se voltou para se reinventar artisticamente, deixar o rock de lado e abraçar uma musicalidade mais próxima da MPB com cuidado ao formato canção. Seu último álbum é O Rei dos Animais, de 2021. O de 2023? Já está quase pronto.

A sonoridade de andre permite as produções minimalistas – e, na verdade, se beneficia delas. Apenas o necessário surge em cada faixa, muitas delas guiadas principalmente pela letra, quase sempre literária e poética, sem ser pretensiosa ou inacessível. Tanto que o artista trata cada música como contos ou crônicas. As contações de histórias seguem tons de causos urbanos, buscando inspiração desde a “alta literatura” até a mais cotidiana das vidas.

A primeira metade de Rimado segue a temática do amor. “Beleza Baiana” mostra a força do belo na vida de quem sabe observá-lo. “Amora e o Deus Ateu” é uma lovesong com contornos psicológicos intensos, enquanto “Beatriz” é sobre um encontro que vira história de amor redentora. “Peixe Pequeno” reflete o lado platônico do sentimento e “Tão Bom Tão Bom” é sobre sua intensidade. 

No “lado B”, surge o single “A Vida do Herói”, que narra a saga inspirada no clássico “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. “De Segunda Mão”, também single, conta a luta do artista por visibilidade, seguida por “Lisboa e Benim”, uma ode à Cidade Baixa de sua Salvador de Bahia natal. “Porco” é a crônica de um chauvinista, no momento da derrocada de seu abuso machista. Por fim, “O Samba do Homem Comum” relata a vida dos “invisíveis” da sociedade, os trabalhadores que movimentam a economia em subempregos, como os “funcionários” de aplicativos.

O Tenho Mais Discos Que Amigos! conversou com andre sobre esse novo momento na carreira e sobre os desafios de realizar um disco inteiro com um iPad. Confira abaixo!

TMDQA! Entrevista andre L. R. mendes

TMDQA!: Você é um artista que desde sempre contorna as dificuldades do mercado se desdobrando em múltiplos profissionais, e ainda assim consegue manter produção constante. Quais são os principais desafios para os artistas independentes hoje?

andre L. R. mendes: Acho que o principal desafio é conseguir visibilidade… e conseguir uma visibilidade “orgânica” é a mesma coisa que ser atingido por um raio. A probabilidade é mínima. Esse jogo de conseguir holofotes é ainda muito baseado em investimento financeiro, ou então virar viral.

TMDQA!: Impossível não notar a mensagem subliminar na capa do disco – a biografia de Lula aparece entre os livros. Qual a função política da arte, num ano de eleição tão importante?

andre: Sabe que essa foto da capa era pra ser apenas pra uma postagem no Instagram? Mas na hora eu vi que ela representava muito bem minha forma de trabalhar: em casa, ao violão, sozinho… Eu estava lendo a biografia de Lula, por isso saiu na foto. Não foi “montado”. A arte não tem somente uma função política, tem muitas outras faces… mas num momento tão tenebroso como esse que vivemos, todos que tem noção do quão fundo é o poço que estamos (não só os artistas) têm que se posicionar, seja conversando sobre os efeitos sociais das escolhas políticas com o caixa do mercado, seja deixando uma mensagem subliminar numa capa de disco.

TMDQA!: As músicas desse álbum vão de temas espinhosos a românticos. Você busca algum equilíbrio temático ou sonoro em Rimado? 

andre: Eu tento não ter um tema só nos meus discos.. “Rimado” talvez seja meu álbum mais romântico, mas não um romantismo “lugar comum” – pelo menos eu procuro fugir do lugar comum pra que não fique numa temática repetitiva. Sempre vou “pesando” na época que estou compondo. “Já tenho 3 músicas românticas aqui…é hora de mudar de tema…”. Inclusive nesse disco fiz um formato imaginário de disco de vinil com as músicas mais românticas e “comerciais” no “lado a” e as mais experimentais e duras no “lado b”.

TMDQA!: Você se propõe a lançar um disco por ano, já está no nono! Já tem um décimo a caminho? Na era das playlists e singles, o que te motiva a ir no caminho contrário?

andre: Pra falar a verdade, já tenho 7 músicas prontas (mixadas e masterizadas) pro próximo álbum!  Pras plataformas, essa quantidade de faixas já é um album, mas pretendo adicionar mais 3 faixas e ter um espectro mais amplo de canções pra dar o próximo disco como pronto. O que me motiva a ir no caminho contrário? Tenho que citar Raul: “esse caminho que eu mesmo escolhi é tão fácil seguir, por não ter onde ir”. Eu amo discos, fui formado como artista pelos discos e livros que consumi. Acho single um aperitivo e playlist um tipo de rádio, mas enquanto  artista (e ouvinte também) estou muito mais interessado no conceito do álbum, suas nuances e capítulos. É isso que me move e comove.

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