Nobat
Foto por Felipe Palma

É ocupando lugar de centralidade que a cultura brasileira abraça e é abraçada pelo novo álbum de Nobat. Mestiço, o quarto registro de estúdio da carreira solo do cantor e compositor mineiro, chega para celebrar a música nacional de todos os tempos.

Fruto de uma pesquisa profunda sobre a cultura do Brasil, a obra potencializa o sincretismo musical do artista ao mesclar importantes participações especiais — incluindo um registro inédito na voz de Elza Soares — com samples e citações a mestres da nossa música, como Cartola, Clara Nunes e Tom Jobim.

Para desbravar os universos que dão vida a Mestiço, o TMDQA! realizou uma entrevista exclusiva com Nobat, que você confere na íntegra mais abaixo.

A pluralidade em Mestiço

Concebido ao longo de dois anos — entre Março de 2020 e Maio de 2022 —, Mestiço é um álbum de encontros, criado por muitas mãos e mentes em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo o artista, “cada faixa tem praticamente uma banda diferente“:

A pandemia teve um papel muito grande nisso. O último compromisso que tive antes de entrar em isolamento social foi a gravação das guias (voz e violão) no estúdio. Tivemos que deixar as canções e as ideias lá por muito tempo até que fosse possível voltar para retomar o processo.

Ao todo, foram mais de 20 músicos e musicistas envolvidos no processo, além de técnicos, produtores de mixagem e a equipe do selo Under Disco, responsável pelo lançamento. As faixas “Menina Erê” e “Jovem” exemplificam o caráter colaborativo do disco, já que os músicos foram um por vez ao estúdio para respeitar o então isolamento social em vigor.

No campo das participações, além da saudosa rainha Elza eternizando o single “Me Deixa Sambar” com um dos seus últimos registros vocais, temos ainda BNegão na mesma música; Mariana Cavanellas em “Aqueles Homens“; o bloco carnavalesco Então, Brilha! e Di Souza em “Fortaleza“; e Lulis, esposa de Nobat, em “Beira do Mar“.

As referências de Nobat

Mestiço nasce em homenagem aos antepassados e contemporâneos de Nobat. Em sua nova fase, o artista mineiro encontra o seu lugar de pertencimento entre os grandes compositores e intérpretes da música brasileira. Em um projeto que fala da mistura e das conexões, Nobat coloca suas referências em evidência na construção de sua própria identidade.

O disco traz citação a “Água de Beber”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, em “Beira do Mar”; e a “Vapor Barato”, de Gal Costa, em “Aqueles Homens”. A faixa-título, “Mestiço“, por sua vez, faz referência a “Canto das Três Raças”, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, eternizada nas vozes de Clara Nunes e Elza Soares. Já no fim da tracklist, “Cadência das Horas” traz um sample de “Preciso me Encontrar”, de Cartola.

As influências também estão na luta política e social do nosso país. Nobat nos conta que o trabalho é uma forma de celebrar um Brasil que “poderia ter sido” — e talvez ainda possa, mas que ainda não foi —, ao idealizar uma nação brasileira “que compreende a complexidade da nossa origem, da nossa fundação, pautada pela dor da violência, da violação, da invasão“:

Escrevi sobre esse Brasil para preservá-lo para mim e lembrar que também estamos num momento histórico em que uma onda conservadora tomou este lugar e ocupou os postos máximos do debate público, do poder, da sociedade.

Encabeçado pelo samba, Mestiço abre seu leque de brasilidades ao trazer elementos do maracatu, carimbó, congado e baião, e os mistura com precisão ao jazz, hip-hop e música eletrônica. Atuando como um registro panorâmico da nossa musicalidade, o disco é com certeza um dos importantes lançamentos da música brasileira em 2022.

Ouça o novo álbum de Nobat no player abaixo enquanto confere nossa conversa com o músico na sequência.

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Entrevista com Nobat

TMDQA!: Salve, Nobat! Muito feliz em bater esse papo com você. Estamos de álbum novo! “Mestiço” acabou de ganhar o mundo, trazendo um mosaico de Brasís, e claro que vamos falar muito sobre ele! Te acompanhando nas redes sociais, fica evidente o quanto esse trabalho tem um grande peso dentro da sua trajetória. Com o disco entregue, com as pessoas ouvindo… o que “Mestiço” representa para o Luan Nobat?

Nobat: Um prazer imenso falar com vocês. Obrigado pela parceria e pelo carinho de sempre com meu trabalho. “Mestiço” representa para minha vida e carreira o encontro com minha própria música, com minhas raízes, uma homenagem aos meus antepassados e contemporâneos, uma forma de celebrar um Brasil que poderia ter sido, talvez ainda possa, mas que ainda não foi. Eu tenho a estranha mania de ter fé na vida, como Maria de Milton [Nascimento], esse disco é sobre as gotas de esperança que sobraram diante de tempos tão ingratos e cruéis. Mas sem esperança, não há luta. Se não acreditarmos que pode ser diferente, não nos movimentamos. É uma ode à esperança ativa.

TMDQA!: “Mestiço” é um ponto fora da curva na sua discografia. É o seu álbum mais brasileiro, traz uma grande mudança na sonoridade, na sua identidade como artistas… e a recepção tem sido super positiva. Qual foi o start dessa mudança e desse mergulho que celebra a musicalidade brasileira?

Nobat: A música brasileira sempre ocupou um espaço muito importante na minha vida, na minha pesquisa, mas até então ela não tinha recebido ainda este lugar de centralidade na minha obra. Em todos os meus discos trabalhei elementos dos nossos ritmos populares, mas inseridos em um caldeirão que trazia outras referências que acabavam ficando mais nítidas. Quem ouvir “Agosto” presente no “O Novato” vai perceber que essa pulsão sempre esteve ali. No “Estação Cidade Baixa”, meu álbum anterior, eu já avancei bem em relação a este desejo de fazer música neste território estético, mas foi em “Mestiço” que tudo, de fato, se consolidou.

Escrevi essas músicas num momento muito difícil pra todo mundo que tem o mínimo de sensibilidade e empatia. Estava no auge de um mergulho profundo na arte produzida pelo Brasil e acabei idealizando um país que sempre foi potente, mas nunca foi oficial. Um Brasil que compreende a complexidade da nossa origem, da nossa fundação, pautada pela dor da violência, da violação, da invasão. Um país que sabe que precisa fazer as devidas reparações históricas que nunca foram realmente feitas de forma séria. Um país que reconhece em sua ancestralidade a chave pro seu futuro e que celebra sua principal vocação que é a diversidade. Escrevi sobre esse Brasil para preservá-lo para mim e lembrar que também estamos num momento histórico em que uma onda conservadora tomou este lugar e ocupou os postos máximos do debate público, do poder, da sociedade.

TMDQA!: Um dos grandes destaques do disco é que ele nos brinda com uma das últimas gravações da rainha Elza Soares, isso coloca “Me Deixa Sambar” na história da música. Eu imagino o choque que tenha sido para você receber essa notícia em meio aos preparativos para o lançamento, e achei extremamente lindo como o clipe se tornou uma homenagem à Elza. Poderia falar um pouco sobre a importância dessa música pra você? E como essa grande perda reposicionou a faixa dentro desse trabalho?

Nobat: Desde o momento em que recebi o “sim” da Elza esta faixa ganhou uma proporção imensa para o trabalho, afinal de contas ela era uma das maiores cantoras do mundo. Contar com um pouco da história dessa artista que operou grandes milagres na sua vida e ofereceu uma obra tão imensa pro Brasil e pro mundo, é de uma beleza e de uma responsabilidade muito grande. Apesar de não tê-la conhecido pessoalmente, eu que já era devoto de sua carreira, me afeiçoei ainda mais quando essa nossa conexão rolou.

Eu me lembro com muito carinho do dia que ela me ligou pra falar sobre a música, a gravação, conversamos por um tempo e foi mágico, inesquecível, nosso único contato direto que ecoa até hoje na minha memória. Mantive por todo esse tempo a expectativa de estar com ela pessoalmente e quando soube que ela tinha partido, chorei, mas foi um choro de agradecimento profundo por ela ter deixado tanta coisa imensa pra gente, por ela ter vencido e nos dado essa referência, por ela ter me notado e me abençoado com nosso encontro e com a tarefa preciosa de fazer guarda de um de seus últimos registros em vida. Elza é o verdadeiro mito do Brasil.

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TMDQA!: “Mestiço” é, definitivamente, um álbum colaborativo. Além da própria Elza, ainda temos a participação de BNegão, Mariana Cavanellas, o bloco Então, Brilha! e Di Souza, além de sua esposa, Lulis. Como você chegou a esses nomes e como é ver essa turma topando e botando fé no seu trabalho?

Nobat: Todos estes nomes foram pessoas que, de certa maneira, foram referências para o álbum e as canções que foram compostas. BNegão é um cara que faz parte da minha vida desde a adolescência pelo Planet Hemp, mas especialmente em sua carreira solo que acompanhei ainda mais de perto. A forma como ele trabalha suas mensagens, promovendo uma elevação do estado de consciência, abrindo portais, movimentando energias, sempre foi uma mira pra mim. Nos conhecemos na estrada e foi lindo tê-lo comigo nessa, ídolo total!

O Então, Brilha! é pra mim a joia suprema do carnaval belo-horizontino que desabrochou nos últimos anos, resultado de uma cena artística e cultural potente que hoje, enfim, ganha destaque nacional. Carnaval de rua, de luta, lúdico, ligado à pautas importantíssimas e que faz um desfile lúdico deslumbrante, alegórico e utópico. Trabalhei com eles por dois carnavais e quando compus “Fortaleza” já quis convidar a galera, assim como nosso mago do carnaval Di Souza pra fazer parte do rolê. Lulis é minha inspiração suprema, meu amor, minha companheira, maior parceira e o que nos uniu foi a música. Estamos juntos há 13 anos e ela fez parte de todos os meus trabalhos desde então. Sua música repautou a minha, seu olhar também me ajuda a reler o meu.

E Mariana Cavanellas que é pra mim uma das maiores cantoras brasileiras da geração atual foi uma das primeiras pessoas a ouvir “Aqueles Homens”. Vê-la e senti-la atravessada por essa canção, que na primeira audição a levou às lágrimas, fez na hora nascer o desejo de tê-la comigo nessa música. Já tínhamos trabalhado juntos, fizemos shows, participamos da trajetória um do outro, mas nosso grande encontro, sem dúvidas, ocorre nessa canção.

TMDQA!: Foram 2 anos de trabalho, 3 cidades e mais de 20 músicos envolvidos na produção do álbum! Uma mistura que acaba casando perfeitamente com o conceito do “Mestiço”. Como foi orquestrar toda essa movimentação de músicos? Foi algo que aconteceu por uma necessidade, até porque você mudou de cidade no meio da pandemia, ou veio de uma vontade de ter todas essas influências externas? O quanto isso impactou e é importante para o universo do disco?

Nobat: A pandemia teve um papel muito grande nisso. O último compromisso que tive antes de entrar em isolamento social foi a gravação das guias (voz e violão) no estúdio. Tivemos que deixar as canções e as ideias lá por muito tempo até que fosse possível voltar para retomar o processo. Daí entra um personagem fundamental pra este trabalho que foi meu produtor musical, Barral Lima. Neste momento eu estava isolado em Belo Horizonte e ele no Rio de Janeiro.

Fizemos algumas reuniões online pra discutir algumas ideias estéticas, referências, caminhos e desde o primeiro momento nosso olhar para este trabalho estava muito sincronizado. Fizemos os primeiros arranjos eletronicamente pra encontrar uma espécie de eixo estético por onde percorreríamos. Quando foi possível voltar ao estúdio, no segundo semestre de 2020, quando a pandemia estava mais controlada e nós também havíamos aprendido como nos cuidar, fomos ao estúdio e gravamos a primeira metade do disco pista a pista, com cada músico e musicista indo por vez pra gravar seu instrumento.

A segunda metade do álbum foi gravada ao vivo, com a banda toda no estúdio meio que criando os arranjos e gravando na hora. É uma parte do disco mais quente, mais orgânica. Barral foi fundamental para montar a banda, sugeriu a turma dos metais no Rio de Janeiro, fez a ponte com o estúdio El Rocha em São Paulo, onde fizemos a mixagem e masterização, e foi importante também para tirar alguns vícios e incentivar algumas quebras de paradigmas. Devo muito deste álbum a este grande mestre a querido amigo.

TMDQA!: “Mestiço” não esconde suas inspirações, pelo contrário, as evidencia. A construção do álbum, pra mim, parece um verdadeiro laboratório musical, fruto de muita pesquisa, com muitas referências, samples, citações tão bem amarradas; uma das minhas favoritas é “Jovem”, onde o toque da capoeira encontra os metais com a vocalização em cima, eu achei fantástico. Temos ainda a referência a “Canto das Três Raças” em “Mestiço”, a “Vapor Barato” em “Aqueles Homens”, e muitas outras. E, ao mesmo tempo, o disco flui por um caminho tão próprio. Quais foram os desafios de beber de fontes tão ricas, caminhos tão bem trilhados, e ainda conseguir colocar a sua assinatura nisso?

Nobat: Acredito que é um disco de encontro comigo mesmo, com minha própria música, com um gênero com o qual me identifico e me sinto à vontade pra defender. O meu canto, a minha ginga, o meu ritmo e a minha escrita se assentou como nunca neste território que talvez por tanto respeito eu evitei entrar de qualquer forma. Sinto que minha autoralidade se ilumina muito neste álbum em que celebro minhas referências e antepassados. Tudo aconteceu de uma forma muito natural e fluída.

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TMDQA!: Ouvindo o disco na íntegra, eu senti uma divisão, como num vinil, Lado A, Lado B… a primeira metade do disco aproxima a brasilidade do rock, digamos assim, depois se entrega de vez ao samba. Isso foi algo pensado na construção da tracklist? Há um idealização de duas partes nesse álbum e, se sim, como você as classifica?

Nobat: Eu digo que esse disco começa no nascer do sol com “Mestiço”, a faixa-título, chega no pôr-do-sol com “Beira do Mar” e aos poucos vai anoitecendo até chegar no alvorecer novamente no final, com “Montanha Russa”. Há um roteiro narrativo que propõe ao ouvinte um percurso que começa na reverência à ancestralidade, no encontro com a identidade e, de dentro pra fora, chega nas questões externas, o disco fica mais político na parte final com “Cadência das Horas” e “Montanha Russa” especialmente.

TMDQA!: Antes da chegada do álbum, você havia lançado três videoclipes super bem produzidos que têm alcançado números bastante expressivos. São eles “Menina Erê”, “Me Deixa Sambar” e “Aqueles Homens”, faixas que também seguem essa ordem dentro do disco e nos clipes ganham uma nova conexão, como se contassem as diferentes fases de uma personagem. Você pretende explorar ainda mais esse lado audiovisual do trabalho? Já tem alguma faixa sendo cogitada para receber um novo filme? E, se sim, viria pra dar continuidade a essa trilogia, ou já seguindo por outra narrativa?

Nobat: “Mestiço” foi concebido originalmente como álbum visual, existem roteiros de clipes para todas as faixas do disco. Cheguei a conversar com artistas e coletivos de todas as regiões do Brasil que vibravam na mesma sintonia que eu no olhar e no pensamento estético sobre nosso povo, nossa história, nosso momento. Seria um grande filme multigênero, com clipes em várias linguagens como cinema, performance, colagens, ilustrações, pra chegar ainda mais no núcleo do conceito do álbum “Mestiço”.

Articulei tudo, tentei vários editais, mas como artista independente que sou, os obstáculos são infinitamente maiores do que os desejos e a criação. Ainda espero viabilizar a realização dos clipes e também do vinil, a obra estará pronta como foi pensada, enfim. De toda forma, temos um clipe pra sair em breve de “Beira do Mar”, a faixa foco deste lançamento, dirigido pela Lulis, minha companheira que também participa cantando na faixa.

TMDQA!: Todos os singles têm recebido também uma versão ao vivo na “Mestiço Sessions”, com novos arranjos e uma banda reduzida, mas bastante eficiente. Sendo um disco tão rotativo em sua construção, como foi essa missão de conseguir montar uma banda para tocá-lo? E como tá a expectativa e os preparativos pra levar esse disco pros palcos com show completo?

Nobat: A “Mestiço Sessions”, de alguma maneira, foi formatada para experimentarmos caminhos para a circulação. Como o álbum tem uma instrumentação muito cheia e rica, seria difícil rodar por aí com uma big band, então ali foi uma espécie de laboratório para entender caminhos para se defender essa música ao vivo, afinal este trabalho é também um projeto de show, nasceu de um show realizado em 2019, na SIM São Paulo, no Jazz B. Testamos vários caminhos a partir dali, até que agora encontramos a formação ideal e a forma possível de circular com o show. Estrearemos em Ouro Preto, pelo MARTE Festival, depois em BH, depois no mundo.

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TMDQA!: Pra fechar, nós estamos em alguns grupos de vinil em comum pelo submundo do Facebook, e já sei que você alimenta uma coleção por aí. Poderia compartilhar com a gente os discos que têm sido grandes amigos nesses últimos anos?

Nobat: Atualmente tenho ouvido muito o álbum “Diretoria” da Tasha & Tracie, que considero a grande potência da música brasileira atual. Outro disco que não sai da vitrola, literalmente, é o “Rhonda” da Silvia Machete, aquilo é um primor. “Meu Coco“, do Caetano [Veloso], de quem também sou devoto fiel, tem rodado sem parar e, inclusive, desde a primeira escuta senti que dialoga muito com o que tentei fazer em “Mestiço”, por várias razões. “Delta Estácio Blues” da Juçara Marçal e “Rastilho” do Kiko Dinucci são outros queridinhos dos últimos tempos por aqui, além de estar mergulhado profundamente na obra de Nana Caymmi.

TMDQA!: Nobat, agradeço muito seu tempo pra gente bater esse papo. Desejo muito sucesso nessa nova fase, e estaremos curtindo muito o “Mestiço” por aqui!

Nobat: Obrigado à vocês novamente pelo carinho, atenção e espaço de sempre! Estamos juntos!

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