Filipe Ret no CENA 2k22
Foto por Stephanie Hahne

O Festival CENA 2k22 foi um enorme sucesso. Com dezenas de milhares de pessoas reunidas em São Paulo, os três dias foram uma grande celebração do rap, com mais de 100 shows — em sua maioria de alto nível — divididos entre diversas vertentes do rap, com foco maior no trap.

Apesar de, neste ano, o festival trazer um bom número de artistas estrangeiros, com destaque para os headliners Playboi Carti e Trippie Redd, alguns artistas brasileiros em nada deixaram a desejar em comparação aos gringos, mesmo recebendo muito menos investimentos.

O Tenho Mais Discos Que Amigos! esteve presente nos três dias de festival, e embora seja impossível ter visto todos os shows — eram três palcos com apresentações simultâneas — vamos às principais percepções de um fim de semana que, sem dúvida, foi histórico para o rap nacional. 

A estrutura

A estrutura do festival realmente esteve de parabéns. Os palcos Mundo Cena e Trap Hits, onde se concentraram as atrações mais populares, tinham palcos enormes, com grandes telões para que a apresentação fosse visível por longas distâncias.

Aliás, ambos em nada deixavam a desejar para palcos como do Lollapalooza, podendo ser usados com criatividade. Playboi Carti, por exemplo, se apresentou sobre uma misteriosa pirâmide que provavelmente tinha algo entre 5 e 10 metros de altura. O palco principal, inclusive, tinha um telão centralizado longe do palco — aumentando ainda mais o alcance de visão para o público. 

Fora dos shows, alguns problemas. Enquanto os bares eram mais que o suficiente, a área de alimentação era muito pequena para um público que tinha óbvios momentos estratégicos para comer, causando hiperlotações e filas gigantescas.

Para um festival em sua segunda edição, o nível foi altíssimo.

Trap vs. resto

A divisão das atrações não foi tão equilibrada entre as vertentes, o que tem explicação nos públicos-alvo.

Tendo a grande maioria dos shows do palco principal, a maior parte do público era visivelmente mais especificamente ligada ao trap. O choque era, inclusive, visual, com o trap tendo uma estética muito própria e diferente do que os fãs de rap mais antigo usam, entre as tão faladas balaclavas e camisas largas. Isso causou estranheza em alguns momentos, como o show de Djonga tendo um público muito menos empolgado que o de Sidoka, que chegou ao sucesso justamente surgindo em um feat com ele. 

Por outro lado, o público do trap, sendo em sua maioria mais jovem, mostrou muito mais energia nos shows dessa vertente. É bem sensível dizer que a experiência era uma para quem estava no meio da galera, e outra para quem apenas assistia à apresentação passivamente, lá do fundão. O público do trap certamente era mais participativo, abrindo rodas de bate cabeça a todo momento, inclusive.

Colaborações

Um gênero tão colaborativo quanto o rap só se beneficia dessa medida. Diversos artistas trouxeram seus parceiros de selo, seja para fazer as dobras (aquela segunda voz no final das linhas) ou os feats.

Mas num final de semana onde tínhamos tantas estrelas do rap e tantos artistas que já colaboraram se apresentando, havia grande expectativa do público para que houvesse participações nas canções em que tínhamos os feats — e os artistas certamente entregaram.

Tasha & Tracie e Sidoka não pararam de trabalhar, subindo no palco de múltiplas apresentações para faixas nas quais eles apareciam. A cada novo personagem que aparecia, o público gritava, principalmente quando era um dos favoritos da galera (como as gêmeas; é incrível como todo mundo as ama). E esperamos que muitos “feats” surjam desse final de semana, onde certamente muitas conexões foram feitas.

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Tasha e Tracie com Febem no CENA 2k22
Foto por Stephanie Hahne

Os discursos

Ao longo dos três palcos e três dias, muitos discursos diferentes apareceram em cima do palco. Alguns eram semelhantes, sendo uma característica mais de subgrupos: os artistas do trap, em geral, falavam sobre o orgulho e a conquista individualmente, dividindo com os fãs o mérito. Para muitos destes artistas, aquele era o maior evento, maior palco e maior público, e isso faz muito sentido.

O discurso de orgulho feminino também apareceu em muitos momentos: o line-up tinha muitas mulheres, e acima de tudo muitas mulheres negras, algo um tanto novo em uma cultura tão machista como o rap sempre foi. Raras eram as mulheres neste espaço, e as que chegaram lá fizeram questão de celebrar isso — não só por elas em si, mas também dando a reverência às diversas outras mulheres pretas que estariam em cima do palco em algum momento dos três dias.

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Foto por Stephanie Hahne

Alguns discursos e ideias chamaram a atenção também de forma individual.

Kyan homenageando sua mãe no telão e Abbot a colocando no palco foram momentos lindos. VND fez questão de citar que aquele era seu primeiro festival, e o primeiro de muitos. Sant se mostrou muito feliz também por estar ali, chamando São Paulo de “berço do rap nacional”. Vandal se apresentou em São Paulo como o representante da favela e dos pretos “de verdade”, e não da visão gourmetizada que é mais palatável e que o rap tanto vende.

Karol Conká usou seu momento como uma espécie de volta por cima, depois de… bem, tudo que sabemos que já aconteceu. Ao apresentar a canção “Cê Não Pode”, a artista disse, de forma afrontosa:

Essa canção foi escrita pela minha personalidade Jaque Patombá para o cancelamento.

O discurso dividiu um pouco o público, que no front a apoiou muito, mas mais para trás respondeu com certa desaprovação.

Outro destaque considerável foi Raffa Moreira, que disse durante o show todo que queria retribuir o carinho recebido. Falando nisso…

Melhores shows

Não podemos fazer a resenha de um festival sem falar dos melhores shows, e vamos abrir isso com o último citado: Raffa Moreira. O MC de Guarulhos fez o show mais hip-hop* do final de semana, lançando ao público inúmeras peças de sua marca, trazendo seus pupilos (talvez o único que apresentou aos fãs artistas realmente desconhecidos) e fazendo medleys com suas amadas músicas antigas. Era visível a alegria dele por estar ali, e o artista se dedicou ao máximo do início ao fim de uma memorável apresentação.

O asterisco está presente no parágrafo anterior porque tivemos os Racionais MC’s, que, convenhamos, não dá pra entrar em discussão. Tocando músicas presentes na memória de qualquer ouvinte de rap e causando a (pela nossa percepção) maior mobilização de público, o show foi impecável. Sem muita conversa, trouxe uma performance atrás da outra, todas impecáveis. A experiência conta muito, e ali eles deram aula.

O festival foi marcado também por muita energia nos shows onde as performances musicais não eram tanto o foco, e sim o quanto o rapper criava uma sinergia com o público. Os headliners apostaram muito nisso, com destaque maior para Playboi Carti e Recayd Mob que, apostando em mais gritos e movendo o público, gastaram o último gás que restava aos fãs. Major RD também foi incrível nesse quesito, tendo um controle do seu público e mantendo a dicção sempre muito boa.

Outros shows merecem ser citados entre os melhores: Tasha & Tracie, BK’, Kyan, Sidoka e Drik Barbosa foram os que mais se destacaram para nossa equipe.

E para você, quais os melhores shows? Quem deixou a desejar? Como foi sua experiência no festival? Fala para nós, e até 2023, CENA!

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