NLM no show do Rio de Janeiro
Foto: Instagram @wearenlm

Na noite desta segunda-feira (20), a cena Emo brasileira virou um dos assuntos mais comentados do Twitter por uma situação no mínimo curiosa.

Uma usuária da rede social resolveu compartilhar na plataforma a sua experiência no show das bandas NLM, Scalene e Sebastianismos que aconteceu no último sábado (17) no Carioca Club, em São Paulo.

O que causou todo o alvoroço foi justamente a tal NLM — uma banda norte-americana que não era conhecida por muitos e anunciou diversas datas pelo país, inclusive tendo já feito shows também em Guarulhos, São José dos Campos e Rio de Janeiro, com a companhia de atrações como Bullet Bane, Dead Fish e Day Limns, sempre em eventos gratuitos.

O relato postado nas redes descrever como a experiência começou interessante mas, com o tempo, foi degringolando e se tornando bastante desconfortável para vários dos presentes:

Essa semana, eu fui num show no Carioca Club. Era um show 0800 com Scalene, Sebastianismos e uma banda gringa chamada NLM. Eu descobri o show aleatoriamente através de um anúncio no Instagram e, como era grátis, POR QUE NÃO?? Então fui com uma amiga.

Honestamente eu tava achando muito estranho ser de graça porque NADA é [de] graça nunca, mas enfim. Cheguei no local no meio do show da Scalene e tava tudo lindo. Tá, show da Scalene foi bom, roda punk etc etc.

O 2º show ia ser da tal banda americana. Nunca tinha ouvido falar sobre eles e ninguém que eu conversei conhecia. Segundo infos que achei na internet, era uma banda de ’emo/pop punk’ de Minneapolis com uns [4 mil seguidores] no Instagram.

Tinham avisado que o show do NLM ia ser ‘performático’ e realmente foi!!! Tinha bboy dançando no palco, tinha perna de pau, tinha umas minas com bambolês, tinha umas luzes, tinham guitarra[s] voando, capacete colorido, UM MILHÃO DE COISAS.

As publicações passam, então, a conter alguns vídeos que mostram a natureza “performática” do show e seguem detalhando a forma como o evento foi, aos poucos, tomando outra cara:

Perna de pau, umas 10 pessoas no palco, pop punk bem genérico — eu honestamente tava gostando e achando tudo muito engraçado. […] Lá pelas tantas começou um teatrinho no palco.

Era sobre um cara que curtia uma mina, mas ela não tava nem aí pra ele. Daí ele insiste, eles ficam e fica tudo lindo. PORÉM o cara vai lá e fica com outra mina (nisso o público tava vibrando e gritando ‘TALARICA, TALARICA’), a menina principal fica triste, deprimida e começa a ter pensamentos autodestrutivos.

A história toda tava sendo contada por um narrador, um cara mais velho de dreads. Daí o vocalista entra no palco com uma forca. ‘Hm, não curti isso aí’, pensei eu, desconfiada e engatilhada. A historinha seguiu com o narrador e o vocal numa batalha pela ‘morte’ (ou vida? [sei lá]) da menina.

O narrador, então, decide morrer no lugar dela — numa vibe ‘alguém tem que morrer, então eu morro por ela’. Matam ele, entra um caixão de LED no palco, enterro do velho de dreads. […] O vocalista, que tava de vilão, começa a falar coisas extremamente destrutivas que eu não quero postar aqui porque me deu um belo dum gatilho.

Mas basicamente tem uma batalha e o velho de dreads REVIVE e LUTA e VENCE. Daí o velho de dreads desceu para a plateia e fez um discurso. No meio da galera, o velho de dreads começou a falar sobre [como] ‘todos somos especiais, as coisas não são por acaso, existe uma forma de se salvar da escravidão e essa forma é encontrar jesus’ (em inglês, com tradução simultânea).

Nesse momento minha amiga teve uma crise de riso. Eu tava chocada e ofendida pela frase ‘SET US FREE FROM SLAVERY’ e 100% confusa. Uma menina na minha frente tava chorando. Um cara da banda pede o microfone e começa a falar em português: ele era de Guarulhos e jesus salvou ele.

Para encerrar o relato, a usuária da rede social, que atende pelo @gabrielacav_, mostrou que também tem uma veia investigativa e foi atrás de mais informações sobre o projeto — afinal de contas, o que era para ser um show de bandas ligadas ao Emo brasileiro acabou se tornando praticamente um culto, como você pode ver no vídeo abaixo.

Continua após o vídeo

Ela conclui:

Enfim, era tudo uma forma de catequizar as pessoas. O show era grátis e com convidados foda pra atrair público — e era tudo pra falar de jesus. Um dos Scalene ficou puto com a situação, rolou uma discussão acalorada, obviamente eu não podia deixar isso assim e fui investigar. Eu precisava saber quem tava bancando esses shows.

A banda vai faazer mais de 10 shows no Brasil (inclusive em Porto Alegre!!), a maioria de graça, com nomes fodas da cena atual — Day [Limns], Dead Fish, Scalene, Scatolove, Medulla e por aí vai. E eu descobri quem tá bancando isso.

A organização se chama Steiger, fundada por DAVID PIERCE, ‘Evangelist, Speaker & Visionary’ (lembram do velho de dread? ele mesmo). Nos [anos 80] ele fundou uma banda chamada No Longer Music [NLM] cuja meta é ‘comunicar o gospel de jesus para jovens que nunca pisariam dentro de uma igreja’. ‘Desde então, David tem levado a [mensagem] de jesus para os ‘pontos mais escuros da sociedade’, incluindo países islâmicos, clubes terroristas, festivais anárquicos, punk, góticos, satanistas’ E AGORA UMA FESTA EMO BRASILEIRA.

Que confusão, hein? Você pode ver a thread completa, com mais vídeos, ao final da matéria.

Pronunciamento de Scalene e Sebastianismos

Após a viralização do relato no Twitter, toda a cena brasileira — bandas e fãs — se viu obrigada a ter algum tipo de movimentação para esclarecer o que havia acontecido. Enquanto os ouvintes cobravam explicações, os músicos também aproveitaram para mostrar indignação.

De acordo com um post feito pela Scalene no Instagram, houve uma conversa generalizada nos últimos dias:

Passamos [os] últimos dias conversando com as várias bandas convidadas pra turnê do NLM aqui no Brasil e [é] indignante como ninguém estava ciente do que aconteceria nos shows. Os responsáveis pelas casas de show também não, até onde pudemos averiguar. Sabíamos que a banda tinha uma mensagem religiosa, mas foi omitida de todo mundo a forma, conteúdo e intuito da turnê deles no nosso país. Bem como todo o histórico desse projeto. Pedimos desculpas aos fãs que ficaram, depois que tocamos, pro show deles aqui em SP. O show de Florianópolis [onde Scalene e NLM tocariam juntas novamente] foi possível combinar com a casa, parceira nossa de muitos anos, pra manter a data, só com o nosso show. Mesmo horário, local, com o formato gratuito mantido. Os ingressos retirados vão continuar valendo normalmente. Esperamos vocês lá! Infelizmente, pela proximidade da data e dificuldades logísticas, cancelamos o show [conjunto] de Porto Alegre. Tentamos o que foi possível [nos] últimos dias pra viabilizar.

A banda ainda destaca que não possui informações sobre o restante da turnê que seria (ou será?) feita, com outras bandas e em outras cidades, e o relato do grupo brasiliense, que está disponível na íntegra também ao final da matéria, foi corroborado pelo que disse Sebastianismos, integrante da Francisco, el Hombre que se apresentou após a NLM no polêmico show:

Tudo começou com um convite para tocar num festival onde tocaria uma banda gringo de emo [e] uma banda surpresa BR. Cachês e datas foram negociadas através da minha produção e pronto. Parecia um show normal. Eu tava empolgado de tocar com essa desconhecida banda gringa.

Pra quem tá perguntando ‘por que você não pesquisou antes de aceitar o show?’. Você sinceramente acha que tenho tempo pra me informar sobre todas as bandas de todos os festivais que eu toco? To tocando mil shows por mês em mil festivais com mil bandas diferentes. Sem tempo irmão, pelamor. E justamente por estar em turnê intensa que no dia do show [eu] cheguei nos últimos 5 minutos do show da banda emo gospel NLM.

Apesar de sempre tentar ver as bandas de abertura, eu tava bem cansado e só cheguei na hora do meu show, que seria após a NLM. Só sei que fui ver como tava sendo o show (ainda sem fazer ideia alguma do cunho religioso) e me deparei com um caixão com LED no palco? O vocal pregando no meio do público e o público gritando Jesus Jesus Jesus e do nada o [pessoal] do Scalene no meio da roda e do nada treta???

Repito: eu tinha acabado de chegar e eu e toda minha equipe [estávamos] de queixo caído com o caos que tava rolando no backstage. Eis que me avisam que meu show começaria em 10 minutos, então me fechei no camarim pra aquecer e alongar e etc enquanto o mundo pegava fogo fora do camarim.

Entrei no palco ainda incrédulo, tanto que comecei o show falando, ‘Galera me expliquem o que aconteceu pois to entendendo nada??’. E foi só depois que comecei a ficar sabendo melhor do circo gospel que tinha rolado. Achei uma falta de noção a produção não avisar previamente — qualquer pessoa que me conhece minimamente sabe de meu alinhamento ideológico. E agora to tendo que dar explicação sobre?? Pelamor de DEUS (kkkk).

Mas enfim, como na internet tudo vira boato vou reafirmar: não tenho nada a ver com a banda emo gospel, não tinha nada sobre na contratação do evento (inclusive no momento da contratação nem o nome da NLM nem o nome da Scalene haviam me falado), não tenho nem tempo para pesquisar sobre cada uma das mil bandas que toco todo final de semana.

PORTANTO, parem de me encher o saco pois tem coisas muito mais urgentes rolando no Brasil e que requerem nossa visibilidade e ibope.

Até o momento, portanto, o que parece estar bem claro é que houve uma movimentação — seja ela intencional ou não — para “esconder” o verdadeiro propósito dos shows em questão, tanto do público quanto dos músicos envolvidos nas apresentações.

Como destacou Lucas Silveira (Fresno), houve até uma entrevista para promover a turnê brasileira em que o tema gospel nem chegou a ser mencionado, com foco total na música e no viés Pop Punk do grupo.

Day Limns faz relato forte sobre show polêmico de “Emo Gospel”

Em meio a todos os envolvidos nessa confusão, a cantora Day Limns foi uma das que fez um dos relatos mais fortes, até por ter uma certa conexão com o gospel.

Usando o Twitter, ela declarou:

Eu acho tudo ótimo a banda ser cristã! Minhas referências basicametne todas eram/são: Paramore, P.O.D., Underoath, Skillet, Flyleaf, etc. Hayley se ajoelhava e cantava ‘my Jesus’ no meio de [‘Let the Flames Begin’], pra mim é tipo a Big Up cantar de Xangô e Exu, tudo bem e tudo lindo saca? Os caras da banda vieram no meu camarim depois do meu show, super simpáticos, falando ‘can I pray for you’ [posso rezar por você?] e como eu to super acostumada, deixei, porque pra mim super normal e eu não fui desrespeitada em nenhum momento.

Depois da oração eu comecei os questionamentos e os deixei bem por dentro do meu histórico com a igreja e queria saber qual era o posicionamento acerca de algumas coisas, porque isso iria definir nossa relação a partir dali e eles pareceram pensar como eu, sei lá. Questionei da onde eles eram e o porquê desses shows — até elogiei porque disse que ia movimentar bem a cena todas essas bandas tocando junto, que ia dar bom (fiz até um discurso no meio do show sobre).

Mas eu não vi o show deles, e o problema pra mim está inteiramente na falta de honestidade na hora de nos comunicar que ia existir uma tentativa de evangelizar as pessoas no meio do rolê, que existe uma organização financiando tudo, escolhendo lugares e bandas estrategicamente com o intuito de atrair as pessoas e ‘resgatar jovens perdidos’. Por que ocultar essa info, né? Porque jamais teríamos topado, muito provavelmente, falando por mim.

Acho até interessante a ideia de misturar geral, crente com ateu, gays, héteros, maconheiros e góticos tocando tudo no mesmo rolê, se respeitando, adoro a ideia quase utópica disso, mas meu parceiro? To me sentindo levemente enganada e a piada vem pronta porque eu já vi e vivi isso tantas vezes na vida que parece que poderia ser eu fazendo um negócio desses numa realidade paralela, sabe? Me dá até arrepio.

Então, saber que fui de certa forma enganada pra acabar contribuindo com isso NESSA realidade me deixa triste de verdade.

Novamente, assim como os outros relatos, esse pode ser visto na íntegra ao final da matéria.

Twitter reage à polêmica

Como era de se esperar, o assunto tomou conta da última noite na rede social e surgiram diversos relatos semelhantes quanto às apresentações em outras cidades. A usuária @eculpadozodiaco, por exemplo, foi até o show em São José dos Campos e contou que ficou “horrorizada” com a experiência, ressaltando que estava “procurando mais pessoas que também tenham se sentido lesadas”.

Outras pessoas relembraram passagens anteriores do grupo pelo país, que geraram polêmicas parecidas e em menor escala, e também ressaltaram a forte presença do cristianismo na cena Emo/Pop Punk que foi citada no texto de Day.

Ainda assim, a grande maioria deixou claro que nenhuma dessas bandas — incluindo, além dos nomes citados pela cantora, outros como Anberlin, August Burns Red e tantas outras — chega a tantos extremos assim quando se trata de evangelização em meio a shows.

Aliás, você pode conferir por aqui um especial que fizemos há alguns anos sobre como a gravadora Tooth & Nail, que tem cunho religioso, foi importante para a cena justamente por lançar algumas dessa bandas, incluindo até mesmo o gigante MxPx, mas nunca impondo sua fé e desrespeitando as crenças alheias.

Por enquanto, ainda não há informações sobre a continuidade da turnê nas páginas oficiais da NLM.

 

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