Felipe Vaz

No caminho entre Duque de Caxias e Rio, existia uma placa no meio da Baía de Guanabara que dizia “Duque de Caxias: Terra de Mulher Bonita”. Ela se tornou parte do folclore fluminense e ninguém sabe o que houve com ela, e tampouco sobre o seu célebre autor. Mas, inspirado por ela e pela pluralidade de sons, fés, festas, ritmos e conflitos de sua cidade natal, o caxiense Felipe Vaz faz de seu segundo álbum Terra de Mulher Bonita uma ousada e conceitual celebração da baixada Fluminense, um The Wall sobre essa que é uma das maiores periferias urbanas do Brasil.

Este é o segundo álbum do artista e, se ele olhava muito para si mesmo em seu debut, Felipe busca algo completamente diferente nesse trabalho, que vem acompanhado de um shortfilm com cara de manifesto estilístico. Conversamos com o artista sobre o processo de criação do álbum. Confira abaixo!

TMDQA! Entrevista Felipe Vaz

TMDQA: Terra de Mulher Bonita é bem diferente do seu trabalho anterior. O que mudou pra você, esteticamente e musicalmente, entre um disco e outro?

Felipe Vaz: Terra de Mulher Bonita é um disco muito mais maduro que o anterior. Minha maturidade quanto à música, escrita, e meus próprios sentimentos, foi o principal fator de mudança. E é o que torna tão contrastante a relação entre o meu primeiro e o meu segundo disco.

Meu primeiro álbum é uma compilação de composições, muitas da época de adolescência, de um artista querendo estrear no cenário musical de qualquer maneira. Enquanto que Terra de Mulher Bonita é um disco de autorreconhecimento e pertencimento. É uma obra onde eu consegui entender melhor para onde direcionar o meu som, e trabalhar na qualidade de referências e produção. Onde passei também a escrever sobre mim de maneira mais crua, percebendo durante esse processo, a indissociabilidade entre pessoa e local.

TMDQA: Duque de Caxias é um município que muitos conhecem superficialmente, pelo noticiário. O que você acha que precisa mudar na percepção da Baixada Fluminense, tanto por quem é de fora quanto por quem é local?

Felipe: Caxias é um município que recebe atenção da mídia, é um dos locais de maior importância fora da cidade do Rio de Janeiro. Porém, a gente sente o reflexo dessa importância também no lado “ruim” da coisa. É inegável que a Baixada Fluminense é marcada pela instabilidade política, violência e criminalidade, mas a partir do momento em que você só vê isso nos noticiários, passamos a nutrir sentimentos cada vez piores pelo local onde vivemos. E quando deixamos as notícias de lado, a Baixada mais uma vez sofre com os estereótipos midiáticos, que passam pro Brasil todo a visão de “o lugar ruim de se morar”.

Tanto as pessoas de fora, quanto nós baixadenses, precisamos ter uma noção de Baixada enquanto intervenção cultural e fomentação de cultura. A Baixada Fluminense foi extremamente importante para a popularização do funk carioca, que atualmente é sinônimo de brasilidade e apelo estético entre os maiores artistas do cenário do pop nacional. Novas vertentes culturais e movimentos artísticos vêm acontecendo por aqui até hoje, e necessitam de voz além dos noticiários.

TMDQA: Hoje a gente vê artistas de diversos lugares se orgulhando das suas origens, fazendo um trabalho com uma identidade local muito forte. Alguns diriam que ser o “Felipe de Caxias” poderia te limitar perante a visão do público de fora da cidade. Por que você optou por esse mergulho tão específico?

Felipe: Terra de Mulher Bonita é sobre a cidade porque é também sobre mim, não poderia ser diferente. No processo de escrita eu percebi que seria impossível ser sincero comigo mesmo e meus sentimentos sem compreender a influência que o local onde nasci, cresci e vivo até hoje exerce sobre mim.

A arte regional é contagiosa. Talvez “Terra de Mulher Bonita” não existiria se não houvesse “Minas” de Milton Nascimento, e se não conhecêssemos a visão de São Paulo nas obras dos Racionais.

Essencialmente as faixas falam sobre mim, mas o álbum é para todos aqueles que amam, choram, sentem saudade, se frustram, e que se reconhecem nessa jornada. Claro, é especial para a população da cidade, mas é também um convite para mergulhar na cultura de uma das maiores periferias urbanas do Brasil.

Não tive medo de ser específico, bairrista, ou nichado, justamente porque as faixas foram bem construídas. Em narrativa, escrita, e principalmente em sonoridade. Trabalhamos muito as estruturas musicais e experimentações, e nisso devo muito crédito ao Buzu, produtor único do álbum.

TMDQA: Você é estudante de História também. Acha que essa perspectiva de historiador pode ter influenciado o modo como você olha pra própria terra?

Felipe: Com certeza. Não vou negar que eu sempre nutri amor pela minha cidade, mas foi um amor que sempre me testou, e que inclusive me testa até hoje. Os problemas da nossa periferia sempre colocam em xeque o quanto nós ainda podemos oferecer de amor ao local de onde vivemos. O olhar histórico me fez perceber que essa dificuldade não só foi construída, como também foi planejada.

As histórias dos subúrbios e periferias em que vivemos não são contadas. Isso nos faz, por exemplo, não saber quem foi Armanda Álvaro Alberto, mas em contrapartida, conhecer cada um dos membros da família real.

Negar a história desses lugares para a própria população local é uma forma de você se orgulhar cada vez menos de onde você é. Terra de Mulher Bonita tem um pouco desse olhar histórico. O álbum é também uma produção de preservação de memória, por mais que não seja um material historiográfico.

TMDQA: Um dos pontos do seu trabalho é que existe beleza na periferia, no subúrbio. Qual o maior desafio de descentralizar isso e desconstruir a visão que imperou por tanto tempo, e qual o papel da música nessas narrativas?

Felipe: Terra de Mulher Bonita é um respiro. O papel do disco é que, por pelo menos alguns instantes, possamos recuperar a nossa autoestima e nos reconhecermos enquanto parte de um objeto de poesia. E acreditar que vivemos, sim, num lugar onde por mais difícil que seja, é possível enxergar beleza.

Falar sobre amor nesse contexto de insegurança social é extremamente difícil, porém necessário. Um dos maiores desafios foi entender como fazer isso. Como escrever, e como não cair num lado oposto da romantização, por mais que eu precisasse ser romântico de alguma forma.

TMDQA: O disco é muito autoral, mas tem muitas participações especiais também. Como você escolheu os colaboradores ideais pra te ajudar a contar essa história?

Felipe: Meu maior objetivo com as colaborações foi mostrar que existe um cenário forte e em crescimento na cidade. Falamos muito sobre o que foi o rock de Brasília, sobre o trap de Guarulhos, sobre a cena independente de Belo Horizonte. Na minha opinião, isso está acontecendo aqui e agora, em Duque de Caxias, e em toda a Baixada Fluminense. Desde os ritmos em ascensão do cenário alternativo do rap como o drill e o grime, até o pop de Terra de Mulher Bonita.

O disco possui 9 participações, em sua maioria artistas da cidade e todos, sem exceções, baixadenses. A escolha veio primeiro de confiança no trabalho de todos, e de entender que eles representam um recorte que precisa de maior destaque. Além de, claro, ver o quanto os artistas acrescentariam na obra, com suas visões próprias e musicalidade. Devo também muito crédito, novamente, ao Buzu, que me pôs em contato e me fez conhecer o trabalho da maioria dos artistas presentes no disco, a acreditar que tudo isso daria certo.

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