Kendrick Lamar em

Neste domingo, 8 de Maio, o mundo da música foi presenteado com uma das novidades mais interessantes dos últimos tempos. Falamos, claro, de “The Heart Part 5”, novo single de Kendrick Lamar que chegou às plataformas de surpresa e logo se tornou um dos assuntos mais comentados das redes sociais.

Da letra ao clipe, passando pelo icônico sample de Marvin Gaye que dá o tom à música, “The Heart Part 5” entrou no panteão das melhores faixas de Lamar imediatamente. De cara, Kendrick já abre a canção mostrando o tema principal, que permeia tudo que estará nos versos seguintes: a empatia. Ele declama:

As I get a lil’ older / I realize life is perspective / And my perspective may differ from yours / I want to say thank you to everyone that’s been down with me / All my fans, all my beautiful fans / Anyone who’s ever gave me a lesson / All my people

Ou, em português:

Conforme fico um pouco mais velho / Eu percebo que a vida é sobre perspectiva / E a minha perspectiva pode ser diferente da sua / Eu quero dizer obrigado a todos que estiveram comigo / Todos os meus fãs, meus belos fãs / Todo mundo que já me ensinou algo / Todo o meu povo

A curta introdução, que abre caminho para uma verdadeira bomba cair em nossos ouvidos com o flow que entra logo em seguida, é uma calmaria antes da tempestade.

Kendrick Lamar e as referências de “The Heart Part 5”

Após deixar claro que respeita aqueles que pensam diferente, Kendrick Lamar retoma diversas ideias que foram apresentadas no seu passado, principalmente a de que a cultura da Black America — termo usado para se referir à perspectiva de que existe um EUA diferente para pessoas negras, recheado de preconceito — precisa se respeitar primeiro antes de exigir o respeito dos outros.

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Kendrick Lamar deixa mensagem em clipe
“Eu sou. Todos de nós.”

Por isso, chegamos ao clipe de “The Heart Part 5”. Ali, Lamar evoca diversos ícones da Black America através do uso de deepfakes — uma tecnologia pra lá de interessante que a gente já te explicou por aqui — em uma tentativa de provocar o questionamento com relação à união do seu povo no país norte-americano.

É pensando nessa questão que ele traz as imagens de figuras como Kanye West, que vem se tornando notícia ao redor do planeta por suas polêmicas em diversos aspectos, desde apoio a Marilyn Manson até críticas fortes a Pete Davidson, e a de Jussie Smollett, ator de Empire que foi acusado de forjar um crime de racismo contra si próprio e acabou condenado à prisão.

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Kendrick Lamar como Kanye West

Da mesma forma, traça paralelos entre OJ Simpson, ex-atleta profissional que foi julgado e inocentado após ser acusado de matar sua própria esposa, e Will Smith, que virou manchete por conta do tapa dado em Chris Rock durante a cerimônia do Oscar e deu origem a uma das frases mais icônicas da canção:

In the land where hurt people hurt more people / Fuck calling it culture

O trecho se traduz para algo como “Na terra em que pessoas machucadas machucam mais pessoas / Vá a merda com chamar isso de cultura”; em suma, Kendrick pede o fim de um ciclo de violência e vingança, usando o tapa de Will como um exemplo de alguém que sofreu um ataque (a piada com sua esposa) e rebateu na mesma moeda (o tapa) ao invés de reagir com empatia.

Por fim, e talvez até mais importante, relembra duas figuras da Black America que nos deixaram cedo demais e, possivelmente, tenta provocar a empatia através do uso de ambos: Nipsey Hussle e Kobe Bryant. Em vida, os dois também estiveram envolvidos em polêmicas — o primeiro por conta de suas relações com gangues, e o segundo por causa de acusações de abuso sexual que permearam sua carreira enquanto astro da NBA.

A empatia como ponto central

Com a música e o clipe, a intenção de Kendrick não parece ser “passar pano” para os erros (ou supostos erros) dos astros em questão, nem tampouco culpá-los por tudo que fizeram. A ideia, ao menos inicialmente, parece ser apenas provocar a empatia de um povo que deveria estar unido e trazer alguns questionamentos: por que tratar uns como mártir e outros como criminosos? Por que a Black America nunca conseguiu se unir, independente de suas diferenças, para finalmente fazer com que o governo e as instituições do país norte-americano prestem atenção neles?

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Kendrick Lamar como Nipsey Hussle

Essa suposta incapacidade de dar o primeiro passo na direção certa é o que parece incomodar tanto o rapper; na visão dele (e, claro, como ele próprio diz, você pode discordar de sua perspectiva), é impossível pedir respeito de órgãos oficiais e de pessoas de fora do mundo da Black America quando os representantes internos não são capazes de tomar essa iniciativa.

Basicamente, o que ele questiona é: quem vai fazer isso por nós se não nós mesmos? E assim, com a bagagem de alguém que viu seu primeiro assassinato aos 5 anos de idade e cresceu na infame Compton, na Califórnia, notável por sua violência entre gangues e por outras questões relacionadas ao crime, Kendrick Lamar versa sob a perspectiva de Nipsey Hussle no final da música, usando-o como exemplo para levar sua mensagem:

And to my neighborhood, let the good prevail / Make sure them babies and the leaders out of jail / Look for salvation when troubles get real / ‘Cause you can’t help the world until you help yourself / And I can’t blame the hood the day that I was killed

Em português:

E ao meu bairro, deixem o bem prevalecer / Tenham certeza de que os bebês e os líderes vão ficar fora da cadeia / Procurem a salvação quando os problemas se tornarem reais / Porque você não pode ajudar o mundo até que você se ajude / E eu [no caso, Nipsey] não posso culpar o bairro no dia em que eu morri

Ao falar como Nipsey, de quem sempre se declarou admirador, Kendrick reafirma o perdão e a empatia como os pontos centrais para uma evolução que pode finalmente trazer mudanças. Concordar ou não é algo que vai de cada um, mas a provocação foi feita — e, com ela, vem a reflexão.

Você pode ouvir e ver o clipe de “The Heart Part 5” logo abaixo.

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