Los Bitchos
Foto por Tom Mitchell

Por Ana Clara Ribeiro

Uma fusão de cúmbia psicodélica argentina, chicha peruana, rock psicodélico turco e surf rock. A descrição se parece com algo que sairia de um algoritmo de combinação aleatória de gêneros musicais. Mas, na verdade, estamos falando do som da banda Los Bitchos — e na prática, a combinação funciona super bem, tão bem que nem precisa de vocais para engrenar.

Formada por Serra Petale (guitarra), Josefine Jonnson (baixo), Nic Crawshaw (bateria) e Agustina Ruiz (keytar), Los Bitchos faz um som instrumental e que não é menos vibrante pela ausência de letras ou pela dificuldade de enquadrar em um estilo apenas.

A ideia da banda se desenvolveu a partir do contato de Serra com a chicha, ao ouvir a coletânea The Roots of Chicha: Psychedelic Cumbias from Peru. E se as influências das garotas são multiculturais, elas também são: Serra é australiana, Josefine é sueca, Nic é inglesa e Agustina é do Uruguai. O álbum de estreia, Let the Festivities Begin, foi lançado em fevereiro de 2022 e traz faixas como “Pista (Fresh Start)”, que foi o primeiro single da banda, lançado em 2019.

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Elementos de gêneros sul-americanos de origem indígena e africana, sobretudo a cúmbia (que, no Brasil, tem seus maiores representantes no Pará, mas atualmente também tem influenciado o som de bandas como BaianaSystem), estão presentes do começo ao fim de Let the Festivities Begin.

Mesmo nas faixas com pegada mais rock’n’roll, como “The link is about to die” e “Lindsay goes to Mykonos”, a percussão dá um tempero diferenciado e que deixa evidentes as inspirações da banda. Já em faixas dançantes como “Pista” e “Tropico”, a cadência bem marcada da cúmbia aparece em toda a sua integralidade. “FFS”, por sua vez, aposta em uma vibe psicodélica que também poderia muito bem constituir a trilha sonora de um filme de faroeste.

A guitarra tocada por Serra (que tem Eddie Van Halen como uma de suas maiores influências) é um elemento marcante de todas as faixas. A sinergia dela com os demais instrumentos é natural — parte por mérito da própria química entre as garotas, parte por mérito da produção de Alex Kapranos (vocalista e guitarrista da banda escocesa Franz Ferdinand), que conheceu a banda em um show e inclusive aparece no vídeo de “Good to go”.

Essa sinergia agora está sendo levada aos palcos de diversas cidades da Europa, na primeira turnê que a banda faz desde o lançamento do primeiro álbum. Em março, elas tocam no festival SXSW.

Entre um show e outro, a banda conversou com o TMDQA! e compartilhou um pouco das ideias e histórias por trás dos divertidíssimos nomes da banda e das músicas, além de falar sobre a turnê e até mesmo sobre música e novelas brasileiras. Confira na íntegra logo abaixo.

TMDQA! Entrevista Los Bitchos

TMDQA!: Oi, é um prazer falar com vocês! Nós adoramos o álbum [Let the Festivities Begin]. Eu queria começar perguntando sobre a turnê. Onde vocês estão agora?

Josefine: Estamos em Dublin, Irlanda, na cama do hotel!

TMDQA!: E como está sendo a turnê? O que estão achando de tocar algumas das músicas pela primeira vez? Como as pessoas estão recebendo as músicas de Los Bitchos?

Nic: A turnê está indo muito, muito bem. Acho que os ingressos para todos os shows no Reino Unido estão esgotados. É incrível, não esperávamos isso. Estamos nos divertindo muito. Muitas das músicas [na setlist] são músicas que estamos tocando há muito tempo, mas agora outras pessoas as conhecem também, pois nosso disco saiu. É a primeira vez que tocamos ao vivo agora que as pessoas ouviram o álbum inteiro.

TMDQA!: Uma coisa que tenho curiosidade de saber é se vocês vêem as pessoas dançando cúmbia nos shows. Qual é a reação das pessoas à música de vocês?

Agustina (fazendo movimentos de dança): Sim, vemos.

Josefine: Vemos pessoas dançando bastante.

Serra: [Em um dos shows] tinha pessoas mostrando às outras como se dança…

TMDQA!: Pelo menos pra mim, a música de vocês me faz querer dançar, então eu me pergunto se as pessoas também têm essa reação no show.

Todas: Sim!

Nic: Tinha uma mulher em Glasgow que realmente sabia mexer os quadris… As pessoas estão sempre dançando, o que é bom, seria estranho [se não dançassem].

TMDQA!: Como vocês criaram o nome Los Bitchos (que, por sinal, é um nome muito legal)? Pra mim lembra um pouco nomes divertidos como Los Lobos, então eu me pergunto se essa era a ideia e se vocês se basearam no significado da palavra em espanhol.

Serra: Nós só inventamos mesmo. Eu não sabia que “bichos” significava “insetos” [em Espanhol] antes de procurar no Google. Como o projeto foi inspirado por cúmbia instrumental e psicodelia de várias partes do mundo, eu pensei: Vamos dar um nome bem apimentado! E então eu fiquei: oh… Los… Bitch! Bitchos! Isso é ótimo, pois tem a palavra “bitch”. Nós somos garotas, então fica engraçado, é atrevido. Eu queria poder te dar um significado mais profundo, mas eu não tenho. Simplesmente é engraçado. Não estávamos levando as coisas a sério demais – e na verdade, ainda não estamos –, então estávamos tipo: Ah, Los Bitchos, vamos com esse nome. E ficou!

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TMDQA!: Ainda sobre nomes, tenho curiosidade sobre os nomes das músicas de vocês. Há alguns bem legais, e vi que algumas músicas mudaram de nome quando foram para o álbum [por exemplo, a faixa “Change of Heart” se chamava “Bugs Bunny”]. Geralmente, quando uma música tem letras, o nome da música vem da letra; mas a música de vocês é instrumental. Em músicas como “I enjoy it”, eu consigo imaginar de onde vem o nome [há sons de pessoas falando “I enjoy it” na faixa]. Sobre “Lindsay goes to Mykonos”, eu li uma entrevista em que vocês diziam que essa faixa foi inspirada na Lindsay Lohan. Vocês têm outras histórias divertidas como essa? 

Agustina: A maioria dos nomes das músicas vêm de piadas internas.

Josefine: Como você disse, não temos letras, então podemos escolher qualquer coisa que quisermos.

Nic: …e deixar as pessoas interpretarem!

Josefine: Sim! Não é como se ficássemos ponderando por horas, nós só ficamos tipo: “vamos chamar essa música assim”! Tudo são piadas que temos entre nós. É tudo bastante aleatório e espontâneo.

Nic: “Try the Circle” foi sobre alguém que estava fazendo massagem [na Serra]…

Serra: …não, eu é quem estava fazendo massagem!

Nic: Ela estava massageando uma amiga…

Josefine: …com os pés!

Agustina: …e eu disse a ela: você devia tentar fazer um círculo (“try the circle”).

Serra: “The link is about to die” veio de uma vez em que a Agustina escreveu isso em um e-mail. Eu achei que isso era algo esquisito de se dizer sobre o link de um website. Era um link do WeTransfer ou algo assim. Foi engraçado.

Agustina: É porque o link ia expirar!

Serra: Sobre “Change of Heart”, estávamos pensando: não seria engraçado se puséssemos [essa expressão] em um e-mail?

Nic: Como se você estivesse tentando dizer: “se você mudar de ideia”…

Serra: É, como se você estivesse buscando uma maneira gentil de dizer “se você mudar de ideia”…

Josefine: Um jeito britânico de dizer…

Serra (com voz engraçada): “I’ve got a change of heart!”

TMDQA!: Vocês se apaixonaram por cúmbia ao ouvir música peruana. Não sei se sabem que no Brasil, especialmente no Norte, também existem muitos gêneros e subgêneros musicais nos quais a cúmbia é uma influência muito forte. Vocês têm familiaridade com algum tipo de música brasileira? 

Agustina: Tudo a respeito da Tropicália é incrível.

TMDQA!: Tocariam no Brasil ou algum outro país da América do Sul? 

Todas: Sim!

Serra: Com certeza, adoraríamos.

TMDQA!: Por eu ser da América do Sul, assim como a Agustina [que é nascida no Uruguai], preciso fazer uma pergunta a ela: o que a sua família e amigos estão achando da música que você faz com a banda?

Agustina: Eles estão adorando! Minha família está tão feliz e orgulhosa. Eles mal podem esperar para que a gente toque lá. Minha avó sempre diz: assim que puder vir à Argentina, estarei lá na primeira fila dançando.

TMDQA!: Vocês têm um gosto muito legal. As suas influências e a música que vocês fazem são prova disso. Há algo em especial que vocês estejam ouvindo, lendo, assistindo ultimamente e que tem inspirado vocês?

Nic: Nós temos ouvido esse podcast durante a tour chamado Sweet Bobby, que é sobre catfishing (prática de criar perfis falsos na Internet, geralmente para dar golpes ou arranjar parceiros amorosos). Altamente recomendado! Adoramos ouvir um bom podcast durante a tour.

Agustina: Na verdade, sou uma grande fã das novelas da TV Globo! Eu sempre recomendo O Clone. Assisti há 3 anos no YouTube e adoro.

Serra: “Insha’Allah!”

Agustina: “Insha’Allah!”

TMDQA!: “O Clone” está sendo reprisado de novo aqui no Brasil!

Agustina: De novo? Uau. É algo que você nunca se cansa de assistir mesmo.

Serra: É digno de um Oscar?

Agustina: É digno de um Oscar!

TMDQA!: Podemos esperar mais música de Los Bitchos no futuro? Na verdade, eu não consigo enjoar do álbum que vocês acabaram de lançar, mas mesmo assim adoraria saber se podemos esperar mais de vocês e se têm projetos de longo prazo com a banda.

Serra: Assim que pudermos lançar músicas novas, iremos. Nós só planejamos aproveitar ao máximo este álbum, que é o álbum de estreia. Nós esperamos tanto tempo para poder lançá-lo e tocá-lo para as pessoas. Nós o gravamos há quase 2 anos. Queremos ter certeza de que vamos tocá-lo ao vivo o máximo possível antes de lançarmos coisas novas.

TMDQA!: Foi muito bom falar com vocês! Parabéns pelo álbum, pela turnê e tomara que um dia vejamos vocês no Brasil.

Todas: Sim, claro, nós adoraríamos!

A entrevista foi conduzida em inglês e traduzida livremente pela escritora do artigo.

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