Kendrick Lamar no clipe de Alright

Por João Hermógenes

Kendrick Lamar é um excelente artista e To Pimp A Butterfly é um excelente álbum.

Ok, estas afirmações são praticamente verdades universais, mas há um tópico realmente polêmico sobre: qual a melhor música do álbum? Dentre tantas faixas marcantes, composições com interessantes misturas de rap com funk, soul e principalmente jazz, a barra é muito alta. Para o próprio Kendrick, “These Walls” levaria esse título; para a Red Bull, em publicação de 2017, “Hood Politics” foi indicada como a melhor, e na internet faixas como “The Blacker The Berry” e “How Much A Dollar Cost” são frequentemente citadas. Mas, quanto mais o tempo passa, mais uma faixa em particular se destaca.

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“Alright”, a escolhida do rapper para a apresentação no Super Bowl deste ano, nunca foi um hit, tendo seu ápice apenas na posição 81 da Billboard Hot 100 e um clipe que nem entra em seu top 5 no quesito visualizações. A faixa se tornou icônica, além de seus méritos, após ter sido adotada pelo Black Lives Matter, movimento popular que luta por igualdade racial, como uma espécie de hino não oficial, graças a seu refrão curto, repetitivo e potente. Embora isso possa soar simples, a faixa é complexa e feita com muito cuidado, como todo o resto do disco, funcionando perfeitamente tanto como single quanto como parte da narrativa. O poder que ela evoca em sua letra torna sua mera escolha para ser apresentada para uma audiência global no Super Bowl um baita statement.

O Beat de “Alright”

A fundação do beat foi produzida pelo grande Pharrell, que ainda empresta sua voz no refrão, com finalização de Sounwave. Ele é baseado em um loop relativamente simples de bateria que se repete ao longo da faixa, com uma bassline suave por baixo e algumas viradas em momentos de transição. O que chama a atenção é o vocal que Pharrell usa como instrumento, que na verdade não pode (ou ao menos não foi até agora) ser encontrado como sample, tendo sido provavelmente gravado em específico para este beat – algo um tanto incomum no Rap. Enquanto o vocal é colocado na cara do ouvinte, por trás temos uma incrível performance de saxofone de Terrace Martin, que improvisa sobre as baterias com maestria, no estilo que só um excelente músico de jazz sabe fazer. Embora Terrance apareça com frequência no disco, aqui o brilho dele fica mais evidente ao longo de toda a canção, dando um excelente contraste com o resto da sonoridade.

A Letra de Kendrick Lamar

Kendrick Lamar em protestos antirracistas em Compton
Foto: @saulopez / Instagram

O destaque principal, como era de se esperar, fica pela letra. Aqui Kendrick usa um subterfúgio que aparece na maioria das faixas de To Pimp A Butterfly: escrever de forma que você possa interpretar o que é dito como parte da narrativa própria do álbum e também em uma imagem maior, nesse caso, para a população negra como um todo.

Logo na introdução o MC já estabelece essa relação criando uma conversa, ao dizer “I’m fucked up / homie, you fucked up / but if God got us then we gon’ be alright” (em português: “eu estou fodido / parceiro você está fodido / mas se Deus está conosco então nós vamos ficar bem”). A partir deste momento, K-dot estabelece a liberdade para transitar entre a primeira pessoa do singular e a primeira pessoa do plural, e ele varia entre os pronomes ao longo de toda a faixa.

A partir daí, nos versos, entra a genialidade do artista. O primeiro começa com “when I wake up / I recognize you’re looking at me for the pay cut” (“quando eu acordo / eu reconheço que você está me encarando pelo seu pagamento), o que se aplica ao vilão da primeira metade da história de TPAB, Uncle Sam, que explora o artista por dinheiro por meio da indústria musical; por outra ótica, é interpretada como a forma com que negros são tratados nos EUA, sendo meramente mão de obra barata para gerar dinheiro para os ricos. Essa mesma dualidade se encontra no pré-refrão inteiro, que infelizmente teve censurada na apresentação do Super Bowl a linha destacada, a mais difícil de se engolir pelos conservadores:

Wouldn’t you know?
We been hurt, been down before
Nigga, when our pride was low
Lookin’ at the world like, “Where do we go?”
Nigga, and we hate po-po
Wanna kill us dead in the street fo sho’
Nigga, I’m at the preacher’s door
My knees gettin’ weak, and my gun might blow
But we gon’ be alright

Em português, é algo como

Você não saberia?
Nós estivemos machucados e no chão anteriormente
Quando nosso orgulho caíra
Olhando para o mundo tipo para onde vamos?’
E nós odiamos a polícia
Que quer nos matar na rua com certeza
Eu estou na porta do pastor
Meus joelhos estão fracos, e minha arma pode disparar
Mas nós vamos ficar bem

O trecho, se visto de um ponto de vista pessoal, casa perfeitamente com a narrativa de “u”, faixa que antecede “Alright” no disco, onde Kendrick explora suas inseguranças, seu sentimento de culpa e até pensamentos suicidas. Do ponto de vista do movimento negro, a faixa saiu em um momento de insurgência da população contra a brutalidade policial e tratamentos desleais da justiça com seu povo, onde pareciam não haver respostas, já que quem manda no mundo não os ouve realmente. “Alright” é frequentemente citada como uma faixa que traz uma visão positiva, mas na verdade soa mais como um chamado.

“My knees gettin’ weak, and my gun might blow”, que para a narrativa é uma amostra da exaustão do personagem, no mundo real mostra que ações drásticas podem se tornar a solução. Kendrick não está apenas dizendo que vai ficar bem. É necessário por mais ênfase nisso: ele (no singular e no plural) PRECISA ficar bem.

Segundo Verso

O segundo verso é mais voltado para a narrativa: o novo vilão, Lucy (que seria Lucifer, o diabo encarnado), tenta o personagem, se apresentando da mesma forma que Uncle Sam se apresentara na primeira faixa do disco, “Wesley’s Theory”.

Enquanto Kendrick confronta o rival e suas tentações internamente, o que se desenrola mais ainda nas faixas seguintes (o que é um tema para outro texto), essas questões são comuns à população preta e pobre, que enfrenta questões de ganância versus apenas de sobrevivência de forma muito semelhante, onde a consciência da ilegalidade e as tentações se confrontam diariamente. Antes de voltar ao refrão, no entanto, o eu lírico percebe-se preso no jogo de Lucy, e com o grito retoma sua consciência. Desta vez, o refrão casa de forma direta com o verso anterior, onde ele estava realmente perdido e confrontando questões internas que milhões de pessoas negras precisam confrontar.

Vídeo do Super Bowl

Kendrick Lamar no Super Bowl
Crédito: Reprodução / YouTube da NFL

Kendrick Lamar é, certamente, um dos maiores rappers da história, e sua inclusão na incrível apresentação do Super Bowl só mostra cada vez mais isso. Os níveis de complexidade em sua escrita atingem até mesmo sua faixa mais presente na cultura popular, que se faz presente em protestos ou espetáculos milionários na televisão. Não apenas positividade, mas há, antes do resto, uma afronta nisso tudo: nós vamos ficar bem.

Veja a apresentação de Kendrick Lamar no Super Bowl LVI clicando aqui.

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