Lucas Silveira, da Fresno, em podcast
Reprodução/YouTube
 

Os anos 2000 trouxeram praticamente a última grande leva de bandas do Rock nacional, com expoentes como Pitty, Charlie Brown Jr., Los Hermanos e afins liderando uma corrida que também contou com a onda do “novo Emo”, que tinha NX Zero e Fresno como grandes representantes.

Apesar do sucesso conquistado por esses grupos, que ficam até hoje presentes nas vidas de muitos fãs, nem tudo era fácil naquela época. Em uma nova participação no canal Corredor 5, Lucas Silveira, da Fresno, falou sobre algumas das táticas adotadas pela indústria da música para pressionar bandas:

Foi a última vez que investiram em banda do jeito antigo, que é: vamos contratar umas cinco, vamos botar um caminhão de dinheiro e se uma bombar vai pagar a conta das outras. Foi o final disso. Mas já era sintomático que, por exemplo, a gente muito bombado vendia assim, sei lá, 70 mil cópias.

Na época, o que se tratava como grande tinha que vender 250 mil. Era Pitty […], o Charlie Brown vendeu 1 milhão, cara. O Los Hermanos [também]. […] A gravadora, principalmente nesses moldes antigos, eles sabem que se eles começarem a te falar muito que você tá bombando, tu vai começar a se achar lá dentro. Então, eles trabalham muito com a autoestima do artista pra fazer ele nunca achar que está bombando.

Então, toda semana era uma reunião pra apagar um incêndio fictício, tipo, ‘Ah, a música está parando de tocar na rádio, cara. O que vocês estão fazendo de errado?’. ‘Ah, tá parando de vender show’. Mano, a gente estava muito bombado. Às vezes eu passava sem querer na frente de um colégio e tipo assim, não conseguia passar.

Mas aí eu entrava na gravadora, na reunião, e era esse papo, ‘Não tá rolando, não tá bombando, não tá bem’. Porque se os caras falassem, ‘Disco de ouro, vocês tão bombados pra caralho, peçam o triplo de dinheiro no próximo contrato’, né… Mas a gente caiu que nem pato nisso.

Relembrando ainda os tempos de Arsenal Music, em que a Fresno fazia parte do mesmo catálogo que o NX Zero, Lucas complementou afirmando que até mesmo a banda comandada por Di Ferrero era usada como argumento para exigir mais dos músicos, em uma prática considerada como inversão de prioridades por ele:

Na mesma firma tinha o NX Zero, que era mais bombado, mais mainstream, e aí comparava, ‘Veja bem, o NX Zero é sucesso, hein, vocês aí…’, e não sei o quê. Rolaram coisas horríveis. Aí foi o bagulho que a gente percebeu que tudo que a gente gostava, tudo pelo que a gente fazia música, não importava muito.

Não importava nem ser bom; a gente se importava muito em ser bom, a gente queria sempre melhorar, a gente queria sempre investir mais no som, na foto que a gente vai fazer, no lançamento, no clipe… e a gente percebeu que aquilo era bem secundário naquela época, pro pensamento daquelas pessoas.

Não é todo mundo de gravadora que é assim, mas a gente percebia ali esse pensamento. E ao mesmo tempo, ‘Ah, é as bandas novas, foda-se esses caras aí. Vamos contratar eles porque é o que a galera tá ouvindo mas foda-se esses caras, o que que esses caras tão pensando’. A gente se sentia meio escanteado.

Você pode ver o vídeo com esse trecho da entrevista logo abaixo.

Fresno e gravadoras

Vale lembrar que, já consagrada, a banda resolveu voltar a atuar de maneira independente e lançou os discos Infinito (2012) e A Sinfonia de Tudo Que Há (2016) dessa forma, além do EP Eu Sou a Maré Viva (2014).

Desde Sua Alegria Foi Cancelada (2019), o grupo faz seus lançamentos pela BMG.

 
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