Eagle-Eye Cherry
Foto por Viktor Flume
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

EagleEye Cherry marca presença no cenário do pop e rock alternativo há mais de 20 anos.

Da estreia em 1998 com o icônico álbum Desireless, que o alçou à fama com sucessos como “Save Tonight” e “Falling in Love Again”, ele lançou outros cinco discos onde incorporou referências que vão do acústico ao blues, do trip hop da irmã Neneh ao jazz do pai Don. Como resultado, esteve no Brasil inúmeras vezes, gravou clipe e disco ao vivo aqui e permanece ligado nas notícias sobre o país direto da sua terra natal, a Suécia.

Aos 53 anos, EagleEye prepara o terreno para lançar, em breve, seu sétimo álbum de estúdio em um cenário totalmente diferente daquele em que surgiu, quando a MTV ainda reinava e fazer um bom clipe mudava carreiras. Isso não o impediu de lançar o divertido “I Like It”, retratando um grupo de desajustados em uma noite de farra caótica — provavelmente aquilo que todos gostariam de estar fazendo ao invés de passar mais tempo dentro de casa.

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Diante dessa realidade, ele já começa a configurar uma turnê que ainda não tem data, mas deve começar pela Europa e pode chegar ao Brasil no final de 2022 – especialmente se até lá o Brasil tiver um novo presidente eleito. EagleEye não poupa críticas a Bolsonaro, fala sobre sua relação com o Brasil, como vê o cenário musical atual e até sobre paternidade em uma franca conversa via Zoom com o Tenho Mais Discos Que Amigos!.

Confira abaixo!

TMDQA! Entrevista Eagle-Eye Cherry

TMDQA!: Obrigada pelo seu tempo EagleEye! Já te escuto há tanto tempo, estou empolgada pra saber o que você está planejando. Mas usei essa oportunidade pra voltar na sua discografia e ouvir tudo de novo. E me bateu que suas músicas soam empolgantes e dançantes, mas… elas são pesadas, cara! Liricamente, especialmente. E estamos num momento ainda mais desafiador globalmente, então queria saber onde você encontra alegria e otimismo atualmente. Acha que hoje em dia você conseguiria escrever algo tipo “Don’t Give Up”?

EagleEye Cherry: (risos) É… esse é o desafio na vida. Eu gosto de escrever músicas que são agridoces. Há algo positivo, mas também tem algo sombrio. E a vida é assim, é fantástica e às vezes é um desafio. Esse último ano e meio foi um grande desafio pra todo mundo. E andei escrevendo músicas na pandemia, mas não consigo dizer “essa música é sobre a pandemia”. Tenho a sensação de que depois de um tempo, vou olhar pra elas e lembrar “ah sim, era isso que estava acontecendo”. Mas acho que é interessante, como o single “I Like It”, eu escrevi antes, mas não consegui lançar quando queria por conta de tudo isso e tivemos que esperar. Quando chegou a hora de lançar e eu fui reouvir a música, ficou claro que ela falava de se divertir, sair com os amigos, festejar… tudo que a gente não consegue fazer. Então me bateu que essa música pode ser um hino pra esse momento que estamos vivendo. O que todos queremos fazer agora é sair e nos divertir.

TMDQA!: Nossa, nem me fale! Eu notei que você encerra seu último disco cantando sobre “o melhor de nós” e no começo da pandemia, houve uma narrativa de que ela traria à tona “o melhor em nós”. Um ano e meio depois, você acha que a gente cumpriu isso, enquanto pessoas?

EagleEye: Uau… (pensante)

TMDQA!: Eu sei, essa é das grandes.

EagleEye: Sim! Acho que em geral, todo mundo fez isso sim. As pessoas foram desafiadas e reajustamos nossa vida, isso afetou todo mundo. Especialmente os músicos não puderam fazer muita coisa, não puderam fazer shows, então eu diria que em geral sim. Mas politicamente, há tantos países e políticos que politizaram isso, forçando algumas pessoas a escolherem lados, enfim… Mas coloco essa culpa mais nas pessoas que estão no comando, do que no povo em si.

Tem sido decepcionante, porque há esperança de que se o mundo passa por uma situação assim, de que a gente saia como pessoas melhores. A última vez no meu tempo de vida que isso aconteceu foi no 11 de Setembro, quando o mundo inteiro foi balançado por aquilo. Eu fiquei preso em Los Angeles no dia, mas morava em Nova York na época. E quando voltei para Nova York, era bem comovente, porque apesar do ar estar mais pesado, também era bonito porque realmente trouxe o melhor de nós à tona. A vibração mexia com a gente, todo mundo cuidava um do outro.

E depois o tempo passa, as pessoas seguem com suas vidas e tudo volta ao normal. E provavelmente é isso que vai acontecer dessa vez também, o mundo continua rodando em círculos assim. Minha música “Been Here Once Before” fala disso. “Não já passamos por isso antes? Vamos mesmo fazer isso de novo?”.

TMDQA!: É, isso me parece familiar. Mas enfim, vamos voltar para a música. Você já passou por referências de rock alternativo, blues, acústicas, eletrônicas. Estamos agora num momento em que o gênero musical é fluido, mas ainda assim tentamos encaixar tudo em caixinhas de estilos, playlists e tal. Como você vê sua música se encaixando nessas novas possibilidades que surgem hoje? Já pensou em fazer algo totalmente inesperado? Acho que no fim a minha pergunta é: podemos esperar um álbum de, sei lá, trap? (risos)

EagleEye: (risos) Não! É… uma época engraçada. Estava ouvindo rádio hoje, e eu moro atualmente na Suécia, mas estavam comentando que no top 100 da Inglaterra só tinha 9 bandas ou algo assim. Ou seja, as bandas estão praticamente por fora, a música feita por músicos em um conjunto faz parte do passado atualmente.

Claro que existem muitos elementos da música moderna que usam guitarras e tal, mas no geral, a música que dá o tom das rádios populares não tem muito a ver com o que eu faço. Eu não sou o tipo de músico que vai se reinventar o tempo todo, tipo a Madonna fazia. Adoro me unir com os músicos e tocar, mas quando a gente sai em turnê é que tudo faz sentido. Porque tirando compor, gravar… todos os outros elementos do nosso trabalho nem sempre fazem sentido pra mim.

Depois de um dia inteiro de entrevistas, eu fico tipo “O que eu estou fazendo, quem sou eu?” (risos). Mas assim que eu me junto com músicos e a gente toca, tudo faz sentido. Então preciso fazer assim. Me uno com a banda, a gente vai pro estúdio, grava, e quando a gente cuida da produção, eu gosto de brincar com ela e progredir esteticamente.

Acho que o último disco, a música “Streets of You”, a nova, “I Like It”, sinto que consegui brincar um pouco com elas e trazer um ar moderno. Mas não consigo imaginar fazer outra coisa a não ser o que amo, que é esse tipo de música feita com outros músicos.

TMDQA!: Tudo bem, faz sentido pra mim, não estou reclamando (risos).

EagleEye: Mas quando você vai no Spotify, qualquer app de streaming, tem muita, muita música boa aí. E especialmente nos EUA, onde ainda tem muitos formatos possíveis de rádio, onde tocam os hits do momento e também o tipo de música que faço, ainda existem possibilidades. Só que os dias em que um artista lançava um disco e todo mundo sabia, quando o Michael Jackson lançava um disco, as pessoas falavam disso… Por mais que alguém não fosse fã dele, sabia porque era um grande acontecimento. Acho que esses dias acabaram, basicamente.

TMDQA!: É, concordo. Legal que você citou “I Like It” e “Streets of You” porque eu notei que são duas músicas que têm clipes mais cinematográficos – eles têm um tom dramático e até cômico, se você pensar bem. Como você lida com essa parte da profissão? Essa seria uma forma de você exercitar seu lado de ator que não usa há um tempo?

EagleEye: Hoje em dia, quando me falam que tá na hora de fazer um clipe, eu pergunto “sério? As pessoas ainda fazem isso?” (risos). Eu comecei quando a MTV ainda existia e naquela época, um clipe bom podia realmente ajudar a sua carreira. Agora você faz um clipe que é mais para os seus fãs, mais pra criar conteúdo.

Eu não diria que fazer vídeos é a minha parte favorita do trabalho, é meio engraçado ficar andando por aí fingindo que tá cantando na frente de uma câmera (risos), com playback. Mas eu tento contar uma história. Eu gostei muito desses dois clipes, porque já fiz clipes ótimos, mas já fiz uns péssimos (risos). Você nunca sabe qual vai ser o resultado, só cruza os dedos e torce para que a visão criativa esteja correta.

“Save Tonight” pra mim é especial, porque nesse clipe eu estive bem envolvido em toda a ideia e criei junto com o diretor, então eu diria que foi o melhor que eu já fiz, apesar de ter sido o mais barato de todos. Mas acho que o último, de “I Like It”, eu gostei porque a música foi escrita sobre uma época da minha vida em que não havia muitas consequências. Você podia ir pra balada sempre e naquela idade, você acorda no dia seguinte e segue com a sua vida. E quando você envelhece, você nota que “Opa, não dá pra fazer isso todo dia” (risos).

Quando o diretor sugeriu a ideia do clipe, ele falou de ser uma sessão de terapia. Essa música não é sobre terapia, mas na medida que fomos conversando, notei que era o contraste do que fazíamos no ônibus, a balada… tudo ficava muito mais intenso quando você tem o contraste, ao invés do vídeo inteiro ser só sobre festas e acabar ficando mais do mesmo. Então no fim, eu fiquei bem feliz com o resultado.

TMDQA!: E parece que foi bem divertido, pelo menos.

EagleEye: Sim! E eu precisava disso na época, estava com uma baita saudade de fazer turnê. Só de passar o dia num ônibus de turnê eu fiquei “sim!”, eu fiquei muito feliz.

TMDQA!: Isso me fez pensar em como eu descobri a sua música, que foi passando na TV. Lembra quando isso acontecia? Eu vi o clipe de “Save Tonight”, era assim que música nova chegava, né?

EagleEye: Sim, você ficava esperando a hora de estrear um clipe. Não dava pra só clicar num computador e ter acesso a tudo.

TMDQA!: Com certeza. Mas bem, você faz isso há tempo suficiente para ser a trilha sonora da vida das pessoas. E tem gente que cresceu te ouvindo e que já faz música hoje. Você vê alguma parte do que você fez aparecendo na geração que tá surgindo hoje?

EagleEye: Essa é a mágica de “Save Tonight”. Não sei quantas vezes as pessoas me disseram que foi a primeira música que aprenderam no violão, porque são só quatro acordes. Mesmo atualmente, tem muita gente dessa geração que está começando a entender sobre música, essa ainda é uma das primeiras canções que eles procuram para aprender.

Nesse sentido, eu diria que com certeza que ainda acontece de as pessoas descobrirem minha música, apesar de ser uma nova geração. E as músicas ganham uma vida longa – acho que “Save Tonight” vai viver mais que eu, que é o sonho de qualquer compositor, ter escrito uma música que dura tanto. Mas não dá pra dizer que ouço músicas novas e penso “Ah, eles deviam estar ouvindo as minhas coisas!” (risos), não posso dizer que tive essa experiência!

Na verdade, no início dos anos 2000, eu estava fazendo uma turnê pela França e eu fiz shows com um artista francês, Gérald de Palmas. E eu estava ouvindo nos bastidores, e pensei “opa, espera aí” (risos). E depois, quando nos encontramos, ele me disse que ouvia muito os meus discos quando gravou o disco dele, mas não tive essa experiência recentemente.

TMDQA!: Mas então, falando dessa carreira que você já construiu, acho que ser EagleEye Cherry vem com a cereja do bolo (risos), que é esse sobrenome, tão icônico na indústria da música. Só que, tendo feito isso por umas boas duas décadas, você já criou seu próprio legado. Então quando você olha pra trás – se é que você é de fazer isso -, como você vê seu legado até o momento?

EagleEye: Acho que a pandemia de Coronavírus forçou todo mundo a reavaliar a vida e olhar para trás, entrar em contato com amigos antigos, etc. É um momento estranho, porque já estou aqui há tanto tempo, mas também parece que comecei ontem. E quando eu começo a pensar em coisas tipo “Nossa, isso foi há muito tempo”, me dá aquela sensação de quando você tem medo de altura, sabe? “Opa, não quero ir até lá”, me dá vontade de não pensar tanto nisso.

É como quando eu estou na estrada e as pessoas vão me conhecer após um show, me apresentam para seus filhos, e dizem que se conheceram num show meu, sei lá, em 1999. É assim que você ganha uma perspectiva, um casal que tem minha música como um lembrete de uma época para eles. E eu tenho essa relação com a música como fã, tem algumas músicas que foram trilha sonora da minha vida. É surreal vivenciar isso como músico também, ver o que eu criei ser parte da vida das outras pessoas.

TMDQA!: Nossa, só posso imaginar. E falando de olhar pra trás, sei que uns 2 álbuns atrás você teve uma grande mudança de vida, que foi se tornar pai. E agora que falo com você, sou mãe recente – você deve ter ouvido meu bebê no fundo (risos). Imagino que você se lembra bem das noites sem dormir, as trocas de fralda, etc. Como isso te mudou como pessoa? Tem algum conselho pra sobreviver?

EagleEye: Ah, com certeza me lembro! Eu fiquei fora da estrada e fiquei em casa, então meu conselho é sempre passar a maior parte do tempo possível com seu filho. Mas você é mãe, então acho que você já faz isso bastante. Isso é mais conselho para os pais.

Mas esse período é tão especial. O divertido desses anos iniciais é que tem coisa nova acontecendo o tempo todo – aprender a falar, aprender a andar. Se você está fora por alguns dias, você perde algum grande momento. Então esse período dos primeiros seis anos é muito especial. E depois eles crescem e não querem mais ficar com você! (risos)

Eu comecei a fazer turnê de novo quando notei “ok, ela não precisa mais de mim por perto o tempo inteiro”. Mas é ótimo que existe uma experiência de você se dar conta que não é o que mais importa, existe alguém que roubou esse lugar no seu mundo e isso é muito libertador. Adoro esse sentimento. Mas seu bebê tem que idade?

TMDQA!: 1 ano e meio.

EagleEye: É, essa fase é difícil (risos).

TMDQA!: Sim, uma aventura todos os dias! Bom, só tenho mais uma pergunta. Sei que você veio ao Brasil algumas vezes…

EagleEye: Mais do que algumas vezes!

TMDQA!: Sim, você tem até disco ao vivo gravado aqui.

EagleEye: Pois é.

TMDQA!: Acho que o clipe de “Down and Out” foi gravado em São Paulo… Enfim, você acha que virá novamente com essa turnê quando for de fato pra estrada?

EagleEye: O último país que toquei na última turnê foi o Brasil, então não pego a estrada desde que toquei aí, é a minha última memória de show. É tipo uma última refeição para você saborear. Amo muito estar aí no Brasil! Mas no momento, acho que estou esperando vocês terem um novo presidente! (risos)

É um pouco difícil ir agora, mas estamos esperando tudo se acalmar antes de ir pra estrada. Não marquei nada ainda. Temos uma turnê presencial começando na Europa no ano que vem. Estou esperando as datas exatas, mas acho que março. Imagino que depois do nosso verão. Vocês estão no inverno, então se der certo, passaremos pela Europa e em setembro ou outubro poderemos estar aí.

TMDQA!: Tomara!

EagleEye: Temos só que ter um pouco de paciência.

TMDQA!: Com certeza. E nessa época, ano que vem, talvez a gente até tenha um novo presidente eleito. Nunca se sabe…

EagleEye: Eu ficaria bem desapontado com os brasileiros se isso não acontecesse. Esse cara faz o Trump parecer bonzinho.

TMDQA!: Eu sei… Há um tempo estávamos perguntando aos americanos “como vocês puderam fazer algo assim?”, e cá estamos nós.

EagleEye: É, sei que não é só aí, há vários lugares do mundo que seguem a mesma tendência.

TMDQA!: É, sei disso, mas tem tanta tendência boa no mundo, poderíamos ter escolhido algo melhor.

EagleEye: Com certeza, exatamente.

TMDQA!: Bom, te esperamos por aqui.

EagleEye: Até breve!