Ana Vilela
Foto: Divulgação / Som Livre
 

Cinco anos atrás, Ana Vilela viu seu mundo ser completamente transformado ao lançar a canção “Trem-Bala”, que rapidamente a catapultou ao sucesso e chegou até a aparecer em comerciais de TV com alcance nacional.

O que quase ninguém sabe é que esta superexposição levou a artista paranaense a desenvolver um quadro de depressão profunda; afinal, se Ana construiu uma base sólida de fãs, por outro lado ela conheceu o ônus da fama com a cultura dos haters e tudo que esta traz consigo.

Em entrevista para o Universa, do UOL, a cantora, nascida em Londrina, contou que escreveu a música após uma traição que culminou no término de seu relacionamento. A inspiração, então, veio dos conselhos do avô de Ana, que buscava lhe trazer algum conforto:

Eu me lembro da data exata que escrevi ‘Trem-bala’. Era o último dia das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Terminei de assistir à final do vôlei, desliguei a TV e sentei para compor a letra. Foi um processo muito rápido, parece que eu emprestei o meu braço para alguém — uma coisa meio psicografada —, porque não me recordo de detalhes daquele momento. Quando dei por mim, a música estava pronta.

Ana Vilela, “Trem-Bala” e a pandemia

Se naquela época “Trem-Bala” já era considerada um fenômeno, sendo reproduzida em milhares de covers e vídeos aleatórios no YouTube, foi na pandemia que a música retornou com toda a força.

A cantora relembra que a faixa foi o assunto mais comentado do Twitter algumas vezes, “tipo quando o cantor Thiaguinho tocou a canção durante uma live”. No entanto, uma situação em específico deixou Ana bastante chateada:

Em agosto de 2020, fiquei chateada com a repercussão de uma notícia sobre uma mulher recuperada de COVID que deixou o hospital ao som da música. Na primeira vez que vi o nome da música entre os assuntos mais comentados do Twitter, meu coração quase parou de alegria. Achava que era uma campanha dos fãs, algo assim. Quando fui clicar para ler o que as pessoas estavam falando sobre ‘Trem-Bala’, me deparei com comentários humilhantes e ofensivos, tive um ataque de pânico.

Foi neste momento que Vilela trocou a sensação de euforia pelo choque:

Disseram até que ‘Trem-Bala’ era uma saudação nazista; naquele momento, eu queria nunca ter escrito a letra. Minha mulher teve que tirar o celular da minha mão de tão mal que fiquei com os comentários do Twitter. Fiquei um dia e meio longe das redes sociais, mal pra caramba, meu empresário teve que vir até em casa, eu queria desistir da carreira.

A cantora lembra que já havia ficado assustada ao virar famosa do dia para a noite, tendo percebido com o tempo que “a fama não agrada, o que agrada é o fato das pessoas reconhecerem [seu] trabalho”. Para Ana, os sentimentos ruins ainda foram mais aflorados pelo isolamento:

Acho que minha depressão piorou porque, antes da pandemia, eu podia ter mais contato com os fãs, vivia escutando histórias positivas, de pessoas que mudaram de vida por causa da música etc. Com o isolamento, o único canal de contato com o público virou a internet e, se na internet as pessoas têm coragem de falar mal até da Beyoncé, quem dirá da Ana Vilela? O que mais me machuca é essa cultura de ódio que está disseminada na internet. Parece que querem machucar uns aos outros, esquecem que todo mundo erra, todo mundo falha, querem cancelar as pessoas por qualquer coisa, inventam fake news.

Ataques são feitos majoritariamente por homens

Na conversa, a artista de 23 anos diz ainda que os homens representam quase todos os ataques, que muitas vezes acabam sendo direcionados não à música, mas à pessoa da artista:

A maioria dos ataques que recebo é feita por homens. Ao tentarem criticar a música, fazem comentários maldosos sobre a minha sexualidade, me chamam de sapatão, dizem que sou gorda; as mulheres não costumam fazer críticas sobre a pessoa da Ana em si. Se as críticas são sobre a música, vou fazer o quê? Mas a partir do momento que passam a falar do meu peso, da minha família, da minha orientação sexual, as pessoas perdem a razão. Ninguém liga, mas eu tenho transtorno alimentar desde criança, é gatilho ler mensagens sobre meu corpo; é muito ruim ter que ficar me justificando o tempo todo para as pessoas.

A depressão de Ana Vilela ainda existe e é tratada há um ano e meio. A caminhada é longa e pode ser amenizada desde que todos nós nos coloquemos no lugar do próximo, não é mesmo?

Aproveite para conhecê-la melhor lendo a entrevista completa, disponível neste link.

   
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