Charme Chulo
Foto por Isabella Mariana
 

A banda Charme Chulo lançou há pouco o seu quarto disco, O Negócio é o Seguinte, que encerra um hiato de sete anos longe dos estúdios. No total, o trabalho tem 10 faixas que transitam entre a melancolia e o tom mais festivo.

Dentro dessa última categoria, um dos destaques é a canção “Rabo de Foguete”, escrita por Igor Filus (voz) e Leandro Delmonico (guitarra e viola), que acaba de ganhar um clipe divertido explorando “a técnica de pós-produção chroma key e as desalinhadas coreografias que fomentam o TikTok”.

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Apesar disso, o novo álbum vai muito além e merece ser detalhado com cuidado — afinal de contas, o single “Nem a Saudade” é um excelente exemplo da capacidade do grupo de soar totalmente diferente dentro do mesmo contexto.

Por isso, o TMDQA! descolou um faixa a faixa exclusivo da obra do Charme Chulo, que ainda conta com Hudson Antunes (baixo) e Douglas Vieira (bateria) em sua formação. Confira abaixo e fique ligado: no próximo dia 3 de Dezembro, o Itaú Cultural apresenta a estreia do disco para todo o país por meio da plataforma Palco Virtual.

Acompanhe as redes sociais da banda (@charmechulo) para ficar ligado também em informações de shows, que começam a acontecer em 17 de Dezembro.

Charme Chulo – O Negócio é o Seguinte

  1. NEM A SAUDADE

Leandro Delmonico: “Esta sempre esteve entre as mais cotadas para o posto de single de disco. Foi a música que mais chamou a atenção do Rodrigo Lemos no início do processo. Ele cortou a introdução (que virou o solo de saxofone) e deu mais urgência para a canção. Nos incomodava o fato dela ser muito curta e objetiva, mas com o tempo nos conformamos com isso. O refrão é realmente o grande recado dela.”

Igor Filus: “Como evolução musical, considero a melhor composição feita pela banda. Sertanejo clássico com indie rock, nada mais Charme Chulo. Muitas histórias e muita saudade dos amigos e amigas que fizemos na longa estrada da banda, já com quase 20 anos.”

Leandro: “Uma das nossas buscas foi equilibrar o clima saudoso daquele sertanejo clássico presente em canções singelas como ‘A Majestade, o Sabiá’ ou ‘Tocando em Frente’ com uma base roqueira. É quase, parafraseando o D2, a nossa ‘à procura do rock sertanejo perfeito’ (risos). A letra, enxuta e objetiva, versa sobre voltar ao passado e não se identificar mais com aquilo.”

  1. TUDO QUÍMICA

Leandro: “Única composição majoritária do Igor no disco. Não passou por muitas mudanças durante o processo de pré-produção, mas ganhou em sofisticação com os arranjos do Lemos. Uma das canções que mais cresceram em estúdio. O final ficou bem grandioso com a repetição do verso ‘não, não me leve a mal…’”

Igor: “Leandro, mentor do álbum, deu a pinta com a melodia e letra da introdução, e eu uni a um velho riff da melodia do refrão. Bingo! A letra, única coisa que praticamente teve minha participação no disco (fui muito mais um intérprete do que letrista desta vez), é inspirada em uma conversa com o amigo Leonardo Scholz, vocalista do grupo Leis do Avesso, sobre como as pessoas hoje em dia só são tristes se querem, dada a quantidade de remédios, tratamentos, terapias e diagnósticos que existem. Então todas as músicas são felizes, coloridas, agradáveis. Essa coisa de dark, de romantismo, do desajuste, é absolutamente ultrapassado e ingênuo.”

Leandro: “A grande composição do Igor no disco, o que explica a pegada pós-punk, tão presente no começo da banda. Certamente estará entre as músicas de trabalho, principalmente por agradar nossos fãs mais antigos. Destaco o trabalho do Lemos na produção, que soube potencializar todo esse sentimento. Um belo dia cheguei para o Igor e mostrei a introdução que eu tinha bolado: ‘Não, não me leve a mal, só vem sem pressão’. Ele pegou aquilo e transformou nesse pequeno monstro!”

  1. FEIO FAVORITO

Leandro: “Quem ouve essa faixa não imagina o trabalho que tivemos para arredondá-la. Quase utilizamos três tempos diferentes no registro, mas conseguimos encontrar um equilíbrio no final. Passou por mudança de tom na voz, e ganhou alguns reforços percussivos, também. Gostamos muito da letra e da proposta da música, sempre a consideramos um dos carros-chefe do disco. No entanto, nos pareceu um tanto quanto ousada para ser ‘música de trabalho’.”

Igor: “Imagem forte, humor ácido, musicalidade perigosa, referências ousadas, brincando sem medo na linha tênue do gosto duvidoso. E tudo isso é apenas Charme Chulo. Estamos em casa: entre e sinta-se à vontade!”

Leandro: “A música mais complexa do disco, que deu mais trabalho, certamente. Buscamos misturar nossa caipirice ao pop e ao ragga. O riff de guitarra tenta imitar um acordeão e foi o primeiro instrumental que compus para o disco. No entanto, sua origem era mais country-rock. Com a temática da letra – um pequeno manifesto sobre os dilemas de quem sofre com o massacre vaidoso das redes sociais – buscamos um ar mais dançante e divertido.”

  1. VOCÊ NUNCA IRÁ DANÇAR COMIGO

Leandro: “Do jeito que veio, ficou. Tivemos que ajustar o tom para adequar o jogo de vozes, mas ela sempre foi bastante objetiva, lembrando coisas do Crucificados pelo Sistema Bruto. O grande charme foi a adição da sanfona, que deu um balanço todo especial pro som.”

Igor: “Mais uma letra esplêndida do parceiro Delmonico, também entre as melhores já feitas, de tirar o fôlego. Cavalo chucro em grande estilo! Entra fritando o pinhão! Explosão de refrão! Cozinha de Douglas e Hudson estonteante. Bem brasileira, bem atual para o nosso som, saboreando até um forrozão, mas é sertanejo até a medula. E sabe o que é engraçado? O sanfoneiro do rolê, Diego Kovalski, vem gravar com a gente e ainda diz: ‘Como vocês conseguem fazer esse sertanejo durão, dá pra ver que vocês são do rock’. Obaaaaa! Deu tudo certo!”

Leandro: “Foi a primeira música deste álbum. Hoje percebemos que ela tem um pouco do clima ácido do nosso último disco. Reflete, com bastante ironia, sobre o exibicionismo das redes sociais. Por se tratar de um modão dançante, achei que uma história de amor não correspondido poderia cair bem.”

  1. RABO DE FOGUETE

Leandro: “Sempre botei muita fé nela como música de trabalho. Nesse ponto, Lemos foi fundamental. Ele conseguiu adicionar elementos do tecnobrega à faixa, fazendo com que ela ganhasse aquela pegada típica do Pará. O take do Igor de voz foi muito emocionante, daquelas músicas que a gente grava quase que de primeira. As guitarras funcionaram, e cheguei a cogitar um feat. com algum cantor do Pará, mas achamos melhor esperar…”

Igor: “Na verdade, eu sou o ‘amigo’ da letra, mas a emoção na hora de cantar é toda minha: ‘É cada bucha, rapaz!’. A vida dá umas viradas, às vezes no meio do processo. A arte é o dia a dia, e é pura profecia. Certeira desde o dia em que a ouvi pela primeira vez, no dia em que faleceu Moraes Moreira.”

Leandro: “Esta faixa acabou se tornando um símbolo da nossa evolução musical. Ela flerta bastante com o novo pop produzido no Brasil. O Charme Chulo sempre se apropriou da brasilidade pela música caipira, no entanto, resolvemos flertar um pouco com o clima dançante do norte e nordeste do país, fomos beber na pegada de artistas como Jaloo e Duda Beat. A letra, bastante influenciada pelo mestre Dalton Trevisan, acabou combinando muito com o instrumental.”

  1. QUANDO NÃO DEPENDE DA GENTE

Leandro: “Se depender da audição dos fãs apoiadores, que tiveram acesso antecipado ao disco, esta é a maior surpresa do álbum. Uma faixa lenta e existencial para dividir o disco ao meio, que acabou ganhando em sofisticação nos arranjos. Várias pessoas a destacaram na primeira audição. Ficou bem tocante, mesmo.”

Igor:  “Respiro do disco, sem ser menor. Ponto alto é a mixagem de vozes inusitada para o padrão do Charme Chulo, em que as duas vozes estão no mesmo volume, cantadas em uníssono, vislumbrando novos caminhos. Ao melhor estilo do produtor do disco, parceiro de profunda sensibilidade, conhecimento, admiração pela banda e profissionalismo, Rodrigo Lemos.”

Leandro: “Compor pensando no conceito do disco é algo imprescindível para a gente. Precisávamos de uma balada para dividir o lado A e o lado B do álbum. Esta música surpreendeu bastante, pois conseguimos levar a viola caipira para um lado bem sofisticado. Nos influenciamos por Kings of Convenience. Acho que é a primeira vez que o Charme Chulo chega perto de um clima mais bossa-nova.”

  1. BALANÇO QUALQUER

Leandro: “Surgiu de um riff teimoso que fiz há um bom tempo e se tornou um dos singles do disco.  Colocamos toda a influência do lado pop nela: Foster The People, Blur e um toque caipira na letra. No estúdio, o grande trabalho foi ajustar o groove da faixa. Lemos abusou dos efeitos eletrônicos.”

Igor: “A vitória dos sabores e efeitos eletrônicos precisos do disco, com formato de canção rock sessentista, deixando o pop mais puro falar alto. Possivelmente, a quarta música de trabalho.”

Leandro: “Uma das minhas letras favoritas. A canção fala sobre os dilemas da vida adulta, sobre aceitar que não dá mais pra exagerar nas coisas. O verso ‘Nego dinheiro e advogado para ser feliz’ diz muito sobre o clima da classe média alta curitibana, em que tudo se resolve com um bom advogado (risos). O riff é bastante influenciado por bandas como Phoenix e Two Door Cinema Club.  Acho que uma das minhas maiores influências no Charme Chulo é o lado dançante. Meus instrumentais acabam puxando bastante para isso.”

  1. EU NÃO SEI AMAR

Leandro: “Quase morri para gravar esta viola! Foi a primeira canção que gravei no estúdio. Gosto muito do instrumental (riff e solo). É uma música que acaba surpreendendo a galera, também, por ser grudenta e caipira. Minha grande intenção é usá-la para dar um dinamismo ao vivo: o famoso momento em que o vocalista sai do palco.”

Igor: “A viola volta com tudo na primeira vez em que Delmonico aparece em vocal principal franco e desafetado, abrindo o peito na malemolência gauderio-caipiro-paraguaio da música de letra quase pueril. Agrega de maneira emocionante, trazendo um outro colorido de vozes para o repertório e ordem do álbum.”

Leandro: “Outra música que surgiu a partir de um conceito. Eu andava com vontade de compor uma música que privilegiasse o instrumental, podendo utilizar ela nos shows para dar um ‘descanso’ pro Igor. No entanto, a canção acabou ganhando uma letra singela e um refrão que não sai da camisa. Tenho muito orgulho do instrumental de viola e continuo achando que será uma ótima música para tocar nos shows. A solução foi assumir os vocais. Outro marco, pois é a primeira faixa que canto inteira no Charme Chulo.”

  1. PERDIDOS NA BAGACEIRA

Leandro: “O grande sentido desta música é a letra. Quanto ao instrumental, destaco a utilização de um banjo no solo e o fato da gente dividir o vocal novamente, como em outras faixas. Eu alterei a ordem dela no disco. Ela entraria um pouco antes, mas depois achei que contribuiria melhor no desfecho, com um recado político e tal.”

Igor: “Outra letra primorosa de Leandro, escancarando com categoria a situação esbagaçada do Estado que não é nação, maturidade no falso lado B do curto álbum, com uma musicalidade mais clássica, a agradar nossos fãs mais antigos.”

Leandro: “Precisávamos falar sobre o momento político do Brasil, mesmo que isso não combinasse tanto com o clima do disco. Nesse ponto, acabei sendo mais passional. Aliás, cheguei a brigar com a família. Como nossa base musical veio do punk rock, também, é impossível não meter a boca nesse clima de ódio.  Obviamente, fazemos isso de um jeito Charme Chulo. O que sinto hoje é que realmente estamos perdidos numa bagaceira e que iremos demorar para recuperar um clima maduro no Brasil.”

  1. MAIS ALÉM

Leandro: “Acho que conseguimos bolar uma versão razoável para ela. É complicado competir com a gravação original e os vocais do Tuyo. Precisávamos de um arranjo novo, que combinasse com a banda. Eu e o Lemos ficamos algumas horas no estúdio criando uma pegada de baixo e bateria, que remete a Arcade Fire e Beach Boys. Ela acabou conversando bastante com outras faixas mais dançantes e eletrônicas do disco. Fecha bem.”

Igor: “Perfeita como fechamento, a nova versão foi bolada dentro da esteira da produção do álbum, para tentar aproveitar essa importante canção da banda, a fim de que pudesse ser tocada ao vivo, na quase impossível tarefa de resguardar a versão single de 2018, com participação especial do Tuyo.”

Leandro: “A dúvida sobre regravar ou não esta música durou até o início das gravações. A versão com o Tuyo, gravada ao vivo em 2018, é muito marcante. Mas não tem como competir com o poderio vocal das meninas, ainda mais ao vivo. Nossa ideia foi trazer a música para um universo mais indie. Criei o arranjo novo com o Lemos no estúdio. As pessoas que já puderam ouvir gostaram bastante do resultado final. Acho que ela não poderia ficar de fora e fecha muito bem o disco.”

 
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