Marina Sena
Foto: Fernando Tomaz
 

Vamos direto ao ponto: ELA É O MOMENTO!

Pegando carona em uma fase mais abrangente e rica do Pop nacional, a cantora mineira Marina Sena tem feito muito barulho e arrancado muitos elogios por aí. Ela lançou recentemente o seu primeiro disco solo, intitulado De Primeira, com dez faixas que se entrelaçam em uma narrativa ao mesmo tempo empoderadora, libertadora, refinada e colorida.

É um disco dançante, com uma suave questão rítmica e melódica que prende o ouvinte. Não é “difícil” de ouvir, já que os temas tratados são palatáveis para qualquer um. O som é tecnicamente universal, trazendo com força questões da vivência de Marina no Norte de Minas Gerais e amplificando isso para todo o Brasil. É um Pop que se camufla nas mais diversas referências e embeleza não apenas o repertório de Marina como também a cena brasileira como um todo.

“Você fica sem saber se acredita ou se desacredita”

Ex-Rosa Neon e A Outra Banda da Lua — dois projetos incríveis, por sinal —, Marina agora projeta seu voo sozinha. Mesmo tendo se lançado em meio a uma pandemia que dificulta o nosso contato presencial, a nova popstar brasileira conseguiu provar o seu valor e não perdeu tempo para fazer seu maior sonho acontecer. É como ela mesma canta em “Voltei Pra Mim“, um dos singles do álbum:

“Eu tenho o dom de ir além
Vou é correr
O que tiver pra ver
Eu quero ter”

Com essa admirável persistência, é claro que Marina vai usar os meios necessários para chegar a seu público, mesmo que remotamente. Neste sábado (11), por exemplo, a partir das 17h, ela se apresentará em um festival que será transmitido de forma online e sem público. É o Amazon Music Festival: Palco Coala, que também contará com performances de Luedji Luna, Liniker, Kyan e Marina Lima.

Conversamos com Marina sobre seu atual momento e sobre as repercussões de seu disco. Confira abaixo o papo na íntegra, que também abordou temas como regionalidade, distância e tecnologia!

TMDQA! Entrevista Marina Sena

TMDQA!: Para começar, queria saber como você está lidando com a recepção do “De Primeira”. Não é exagero que vai ser um dos melhores discos do ano na opinião de vários veículos e da galera como um geral. Mas como isso tem batido para você?

Marina Sena: Era uma coisa que eu já queria. Eu queria ter essa validação do público. Era um sonho, né? Você quer que as pessoas escutem e achem o melhor de você. Você quer que elas considerem inovador e tudo que há de bom. De repente, eu vi que o que eu queria, o que eu sonhei, realmente aconteceu. As pessoas estão gostando e eu consegui impactá-las de alguma forma. Isso é doido. Você fica sem saber se acredita ou se desacredita, sabe? É uma mistura.

TMDQA!: O seu disco tem sido enquadrado como uma pérola nova do Pop, ao lado de nomes como Duda Beat, Pabllo Vittar e mais. São novos elementos e referências que têm conquistado o pessoal e descentralizado cada vez mais o que entendemos, de forma geral, como Pop. O que, na sua opinião, fez com que o seu disco ganhasse toda essa proporção popular?

Marina: Eu acho que é a quantidade de “humano” que tem no disco. As coisas não foram feitas com pretensão. Tudo foi feito dessa maneira porque é assim que eu gosto. É natural para mim. Eu não explico antes de fazer, sabe? Acho que as pessoas se conectam justamente com essa característica humana. Eu acho que é com isso que as pessoas se identificam. Até a maneira pela qual as músicas foram feitas tem disso. Não são canções muito complicadas, que exigem muito conhecimento harmônico e tal. Só basta ser gente e escutar. É o mínimo para aquele som conseguir te levar.

O Iuri [Rio Branco], meu produtor musical, sempre fala que, mesmo quando a gente faz música mais low, a pessoa tem que conseguir caminhar escutando a música. Precisa ser algo que possa ser pego no ritmo do passo. Assim, você pega a pessoa na coisa que ela mais faz no dia dela, que é andar. Ela não precisa sair da “rotina” para ouvir. Acho que isso, de trazer para o lado humano, conecta as pessoas. Elas acabam sem sequer saber por que se sentiram tão conectadas. São várias coisas desse tipo que fazem com que a música te toque.

TMDQA!: De fato! O seu som é muito palatável para os ouvidos. É gostoso de ouvir, independente do estilo musical que a pessoa ouve normalmente. Ali tem algo que “convoca” o ouvinte.

Marina: Eu acho que é muito a coisa da canção brasileira, porque a minha formação artística, enquanto cantora, é o que toca no Brasil. É o que toca em novelas e nas rádios. Eu cresci ouvindo isso. Minha formação é a de uma brasileira nata. Tudo que estourou na rádio e na televisão, que o brasileiro ouviu, eu também ouvi. Tudo que todo mundo ouviu, eu ouvi [risos].

“A gente vê várias cantoras Pop hoje surgindo com essa vertente regional”

TMDQA!: Uma vez a gente conversou sobre o Rosa Neon e a questão da regionalização da música brasileira, em que tudo fora do eixo RJ-SP acaba sendo rotulado como “música regional”. Você ainda tem a mesma percepção? Você considera que a situação ficou mais democrática? Será que a pandemia ajudou essa questão em algum sentido?

Marina: Através da coisa da globalização e com mais pessoas com acesso à tecnologia, existe um “som do mundo”, que é o som que acompanha o avanço tecnológico e do mundo. Mas esse som não precisa perder o fator da região onde a pessoa nasceu. Por exemplo, eu considero que eu faço um som completamente norte-mineiro. Esse é um som do Norte de Minas que está acompanhando a tecnologia. Não deixa de ser “regional”. Na minha visão, o som que é feito em São Paulo é regional também e vai ter características locais.

Eu acho que, com essa coisa da tecnologia e o maior acesso a ela, as pessoas estão conseguindo fazer com que seu som se comunique melhor com o que acontece no mundo inteiro, sem perder a regionalidade. Por isso que a gente vê várias cantoras Pop hoje surgindo com essa vertente regional, como, por exemplo, a Rosalía. Ela está bombando com algo bem regional, mas que acompanha a tecnologia.

TMDQA!: Bom exemplo. Só o fato de mais músicas em espanhol conquistarem posições de destaque na maioria das paradas internacionais, por si só, já é um reflexo disso.

Marina: Sim, porque hoje em dia a maioria das pessoas já tem acesso à tecnologia. No Brasil, ainda estamos meio atrasados, mas, mesmo assim, fica mais fácil para cada um trazer o seu ponto. Não é quem tem mais tecnologia que vai sair na frente, mas, sim, quem tem mais autenticidade. A tecnologia está ficando mais democrática. Espero que, daqui para frente, fique ainda mais democrático para que todo mundo possa falar o que quer.

“Você fica com um referencial diferente para medir o seu sucesso”

TMDQA!: A sua consagração solo surgiu em meio a pandemia e, consequentemente, não contará com o calor do público pelo menos nesse primeiro momento. Como está sendo essa experiência para você, de ser aclamada “de longe”? Como é entender que está impactando muitas pessoas, mas sem a questão presencial (pelo menos ainda)?

Marina: Isso é bem triste. Acaba que a referência de público que eu tenho é justamente pela internet. Eu não tenho uma exata dimensão ainda disso. Essa dimensão só chega quando você vê um bando de cabecinhas de pessoas em um público de show. Se você parar para pensar, mil pessoas são pouco na internet, mas quando você vê mil pessoas na sua frente, é muito! Você fica com um referencial diferente para medir o seu sucesso, para saber se você está bombando ou não. Agora mesmo, eu acho que estou bombando, mas eu fico meio que querendo mais. Tem tanta gente me ouvindo. Eu deveria estar muito mais tranquila, mas sei que, quando vir o público na minha frente, aí vai cair a ficha.

TMDQA!: Por último, queria saber de você como vai o show nesse festival online. O que podemos esperar da apresentação e, no geral, o que podemos esperar dos shows solo da Marina? Afinal, esperamos estar cada vez mais próximos da volta dos eventos presenciais.

Marina: Eu gosto muito do meu show. Sempre que ensaiamos, eu fico super feliz, dançando. Eu gostaria de assistir ao meu próprio show. Acho que as pessoas vão gostar de assistir. Agora, estamos fazendo um formato mais compacto, já que é uma live e não tem necessidade de um rolê gigantesco. Depois, quando formos para o showzão, com gente, vai ser quente! Mas posso garantir que o show da live não deixa de ser quente. É bom demais. O som está ficando lindo e o show está super animado, gostoso e emocionante.

TMDQA!: Para você, enquanto artista, qual é a principal diferença entre se apresentar para várias pessoas e fazer um show nesse formato, tendo a noção de que existem várias pessoas assistindo, mas sem a coisa do “calor humano”?

Marina: Quando eu faço show, podem ter dez mil ou só duas pessoas no lugar, mas eu vou fazer o mesmo show. Quando eu estou fazendo show de live, eu faço para a galera que está filmando ou ali na produção. Eu canto pra eles. Não canto nem para a câmera. Gosto de olhar para as pessoas, dançar… De fato, estou me comunicando presencialmente com pessoas ali. Dou show para quem estiver olhando. Quando vem a câmera, eu dou umas olhadinhas, uma seduzida, porque tem que ter [risos].

 
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