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Por Eduardo Ribeiro

Quarto disco de estúdio dos Racionais MC’s, Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997, foi um estouro: distribuído por um selo independente, vendeu mais de 1,5 milhão de cópias e fez com que o grupo paulista de rap formado em 1988 invadisse o mainstream com sua “crônica da vida das classes subalternas do Brasil urbano”.

No livro Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno, que a Editora Cobogó publica como parte da coleção O Livro do Disco, Arthur Dantas Rocha traça um panorama estético, social e político para discutir a relevância e a permanência da obra, tão urgente quanto há quase 25 anos. 

Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay assumiram todos os riscos e denunciaram em suas músicas a desigualdade, a lógica da necropolítica. Por meio de crônicas sociais, trazem reflexões sobre a violência policial nas favelas, a negritude e a marginalização da população negra e pobre. A partir de uma extensa pesquisa sobre a recepção dos Racionais MC’s nos diferentes círculos sociais, das ruas às universidades, Arthur examina a forma e o conteúdo do álbum, analisando cada canção bem como sua mola propulsora: a sistemática negação do racismo, legada por gerações neste país de absurdos surreais.

Arthur Dantas Rocha, aka Velot Wamba, é um camarada de antigas contribuições ao underground e à contracultura brasileira. No pretérito, foi editor do fanzine Velotrol, que abriu vários horizontes nos idos dos anos 1990. Cheguei a entrevistá-lo para a VICE contando essa história. Punk rocker apaixonado por samba e pela cultura hip hop, é um prazer trocar essa ideia com ele novamente, ainda mais a propósito de um feito de notável relevância.

Velot sempre foi um cara dos livros, já trampou para a Conrad e recordo-me dele frequentemente com uns volumes em posse. Tem formação em Letras, é gestor ambiental e pedagogo, além de pesquisador independente. Atuou como redator publicitário para TV e como jornalista para publicações nacionais, como as revistas da MTV, Cooperifa, +Soma, VICE, e a norte-americana Juxtapoz. De feroz inteligência é o texto que ele assina para Eles nos devem uma vida – Crass: escritos, diálogos e gritos (2017), recomendo.

Confira abaixo a entrevista sobre o novo livro!

Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno

TMDQA!: Em 1997, os Racionais MC’s conseguiram um grande feito. A partir do mesmo princípio do punk, ou seja, o faça-você-mesmo, pelos caminhos da independência, atingiram alcance de massa, vendendo mais de 1,5 milhão de cópias. Qual é o legado disso para os meios de criação, produção e comercialização no hip hop de hoje?

Arthur: Mostrou, acima de tudo, que rap era um gênero viável comercialmente, independente das grandes gravadoras e seus esquemões viciados de divulgação. De certa forma, a partir de então, isso virou uma regra e todo artista que tentou fazer ligações com as grandes gravadoras foi visto com desconfiança e até mesmo repulsa. Isso hoje já não tem tanto peso, mas pros contemporâneos e a geração que veio imediatamente depois isso foi muito imperativo.

TMDQA!: O discurso de Sobrevivendo no Inferno foi um tapa na cara do sistema. Como seria o Brasil de agora caso a grande população tivesse compreendido aquele alerta contido nas letras? Você acha que a super popularidade dos Racionais, aquela coisa de ter caído até no gosto dos playboys, pode ter enfraquecido o seu potencial de transformação, ou não cabe à música, de qualquer forma, esse papel?

Arthur: Eu acho que esse disco transformou muita coisa. Em termos de negritude, é só pensarmos na explosão no período de camisetas com mensagens como “100% negro” e quetais. É um feito que consolida o trabalho histórico do movimento negro brasileiro que nunca conseguiu ter uma expressão de massas, que foi o que os Racionais proporcionaram. Em termos classistas, de localização territorial, foi uma injeção de autoestima, no qual as diversas periferias Brasil afora passaram a se afirmar, não a se esconder. E penso também em quantos brancos como eu foram transformados por esse disco. Eu já tinha letramento racial das esferas do punk politizado de onde vim, mas com o trabalho dos Racionais e sobretudo o Sobrevivendo no Inferno é que me torno antirracista.

TMDQA!: Gostaria que você comentasse a respeito da qualidade de crônica das letras do Mano Brown neste disco, e também de um modo geral. Um cara que ambos conhecemos certa vez afirmou em um bate-papo que o Brown era “o nosso Bob Dylan”. O que você pensa a respeito?

Arthur: Eu acho que o Brown, assim como o Edi Rock, são um pouco Toni Tornado, são um pouco Almir Guineto, são um pouco Cartola e todos sambistas de morro e são muito mais coisas! Eles dão conta de representar todo preto periférico que vive num país racista como o Brasil. E constroem fabulações poéticas únicas não há paralelo com Brown e Edi Rock na história da música brasileira. Eles são muito influenciados pela experiência do rap estadunidense, mas são profundamente brasileiros mas aqueles brasileiros que desprezam e se mantém longe do mito da cordialidade.Vejo toda a grandeza de um Bob Dylan, mas o Brown é de outra substância dentre os grandes.

TMDQA!: Na questão das letras, não podemos deixar de comentar o modo de escrever do Edi Rock, que afinal é autor de “Rapaz Comum”, “Periferia é Periferia”, “Mágico de Oz”, e coautor com Brown de “Qual Mentira Vou Acreditar”. Como você compara a pegada de escrita dos dois, digo, as perspectivas singulares de um e outro?

Arthur: Um é a urgência, o comentário a res do chão, o outro é a “razão”, a voz ponderada, porém crítica e contundente. Eu entendo e endosso o louvor em torno da escrita e levada tão única do Brown, mas acho o Edi Rock um assombro também. Você já parou pra pensar que os Racionais talvez tenham os dois maiores letristas do Brasil dos últimos 30 anos? Não é pouca coisa.

TMDQA!: Como foi o seu processo de pesquisa, apuração e definição de um pensamento lógico para tratar, de modo certeiro e objetivo, e consequentemente livre de pedantismo intelectualóide político-cultural, uma obra tão consistente, que no fim é um amálgama histórico dos muitos contextos sociais excludentes no Brasil?

Arthur: Apesar de eu ter passagem por universidades, tentei fazer um livro que soasse coerente e atrativo pra “rua”, saca? Muito em razão disso, eu “igualo” os depoimentos dos intelectuais que trago para a conversa com os dos rappers, por exemplo. Para mim ambos têm o mesmo peso, porque é assim que eu processo as coisas. A pesquisa foi um lance louco, porque 80% do material que eu cito no livro são coisas acumuladas desde 1997 sobre os Racionais, tá ligado? É como se estivesse me preparando por toda uma vida pra escrever esse livro, que eu sabia que era uma responsabilidade enorme com o legado gigantesco do grupo. Eu parti de alguns pontos que eu considerava importante a respeito desse disco e deixei que a pesquisa por si só também apontasse novas questões, o que aconteceu naturalmente. Ao todo, foram 7 meses convivendo de segunda a segunda com o disco, ouvindo e pensando suas diversas camadas e escolhendo uma dentre várias abordagens possíveis. Eu realmente espero que este seja apenas um primeiro livro sobre esse disco, que merece ainda muita atenção.

TMDQA!: Entre as falas de integrantes do grupo e de outras dezenas de artistas e pensadores pinçadas para compor o texto, poderia destacar e comentar alguma que você considere válida para nos deixar como reflexão?

Arthur: Ninguém espera que seja essa, mas acho incrível o fato do Belchior ver similaridade entre a obra dele e a dos Racionais. Acho muito grandioso e faz todo o sentido de um ponto de vista de periferia, porque Belchior é um dos poucos dentre os grandes nomes da MPB que sempre rolou e comoveu a periferia. É até algo que pensei em explorar no livro, mas que deixei pra alguém mais capacitado: como o niilismo tão próprio do Belchior pode ser encontrado nos Racionais. Sem contar que o “sou apenas um rapaz latino americano apoiado por 50 mil manos” do Brown é uma citação direta dele né?

TMDQA!: Uma parada muito foda de Sobrevivendo no Inferno é o fato de ele ter sido organizado e conceituado como uma espécie de culto. Tem a introdução, com cânticos de louvor, a leitura da Gênesis, a apresentação do pastor e os relatos de testemunhos. Depois vêm o grande relato, a atuação do diabo, e, no fim, um processo de reflexão. Quais são os bastidores criativos e pessoais para que o grupo chegasse nessa proposta, e como você enxerga essa justaposição bíblica na linguagem da obra?

Arthur: Mais do que essa justaposição bíblica, eu acho que tem uma certa espiritualidade difusa e conflitante que dão dramaticidade e camadas de compreensão diversa ao disco. Apesar dos muitos elementos bíblicos no álbum, é sempre bom termos em mente que ele abre com um “ogunhê”, que é uma saudação a Ogum, que no sincretismo religioso é São Jorge. Tem uma discussão sem fim de rua entre os fãs sobre o quão evangélico seria esse álbum, é uma questão infinita nas quebradas. Eu entendo e até trago de alguma forma essa narrativa pro livro, mas acredito piamente que a espiritualidade é só mais um dos elementos estéticos possíveis pra falar do disco. Pelas entrevistas mais ressentem dos quatro, é possível até vislumbrar que eles se ressentem de ter usado tantos elementos religiosos no álbum.

TMDQA!: Vou te falar uma das coisas que mais gosto nesse disco, e você me diz a sua opinião. É o lance de a música ser tão minimalista. Às vezes, sinto falta do clima que eles conseguiram criar com isso nos raps mais atuais. Eu lembro quando conheci o som, botar a agulha na bolacha e ouvir aquela faixa básica de bateria, com um pouco de melodia de teclado, baixos pontuais e raras mudanças de arranjo, era de endoidar de tão hipnótico, potente. E o gosto dos Racionais por faixas longas aqui são oito músicas de seis minutos ou mais – só vem sublinhar essa atmosfera sinistra.

Arthur: Tem um trabalho de estetas do grupo que nunca pode ser menosprezado. Se você pensar na produção do Public Enemy, um grupo que foi muito influente até certo ponto da carreira deles, com aquelas produções saturadas de elementos sonoros, a produção do Racionais nesse disco é o oposto complementar. Mas aí tem um lance muito sagaz deles: como os samples (usados a conta gotas, milimetricamente arquitetados) são expressivos e dizem respeito a uma certa tradição da produção cultural da diáspora africana que são os interdiálogos geracionais. O Curtis Mayfield tá “tocando” no disco deles, tá ligado? Eu acho que mais do que o minimalismo, eles são mesmo é especialistas em criar ambientações e atmosferas sonoras que capturam a audiência. Tudo tem uma razão de ser muito forte nesse disco, é muito esmerado. Coisa de músicos geniais mesmo.

TMDQ!: Os Racionais, nessa época, criticavam bastante a imprensa e o mercado do entretenimento (recusando convites das grandes redes), por fazerem parte do sistema combatido por eles, o mesmo sistema promotor do narcotráfico, da miséria e da violência. Nos últimos tempos, porém, os integrantes vêm aceitando concessões, a mais recente talvez seja a aparição do Brown na capa da revista Elle, usando Louis Vuitton e clicado por Bob Wolfenson. No passado, acho que um veículo de lifestyle nem jamais ousaria considerar um convite desses a ele, fala aí? Levou um século para os Racionais saírem numa capa de revista, quando finalmente o André Caramante emplacou aquela pauta na Rolling Stone…

Arthur: Eu acho que eles foram missionários de boas novas na indústria cultural e estavam bem cientes disso. E talvez tenham dado como finalizada essa missão de ser pedra no sapato do sistema. Hoje tão jogando outro jogo e eu continuo muito interessado no que eles fazem, apesar de certos princípios punks da minha parte. A imprensa mudou muito também em relação ao rap – hoje é comum os veículos terem um especialista ou alguém minimamente letrado nas coisas da cultura hip hop e que não compararia o Mano Brown com barão do tráfico, por exemplo. Isso é impensável em 2021. Ao mesmo passo, não tem jogo ganho e o racismo continua operando na sociedade. É sempre bom ficar ligeiro.

TMDQA!: Apesar do hiato de quatro anos entre um e outro, você não acha que Raio X Brasil já era um preâmbulo de Sobrevivendo no Inferno, com faixas emblemáticas como “Fim de Semana no Parque”, “Mano na Porta do Bar” e “Homem na Estrada”?

Arthur: O Raio X, visto agora em 2021, parece como um passo para eles alcançarem as personas poéticas que eles desenvolvem no Sobrevivendo no Inferno. No caso do Ice Blue nem chega a ser um passo, porque as participações dele no Sobrevivendo são matadoras, sem paralelos. Acho que a urgência do Brown no disco é assombrosa e o Edi Rock aprimora essa “voz da razão” que é algo tão característico dele.

TMDQA!: Em termos de fabricação de um hit, a faixa “Diário de um Detento”, sobretudo com o respaldo do videoclipe, que foi estouro na MTV, pode ser considerada o fator-chave da virada de popularidade dos Racionais do âmbito dos milhares para os milhões?

Arthur: “Diário de um Detento” é uma faixa muito especial por diversos motivos, e o clipe só consagrou isso. Inclusive o fato deles escolherem essa faixa para o primeiro clipe do disco mostra que eles sabiam que tinham algo muito especial nas mãos, né? Eu sempre tive muita curiosidade de saber, em algumas linhas do Brown nessa música, o que era de fato dele e o que estava no diário do Jocenir, o detento de então que co-escreveu a faixa com ele.

Ficha técnica

Título: Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno
Autor: Arthur Dantas Rocha
Número de páginas: 176 páginas
ISBN: 978-65-5691-033-8
Capa: Radiográfico
Formato: Brochura
Dimensões: 13 x 19 cm
Preço: R$ 46,00
Editora: Cobogó