Filipe Ret
Foto por Gabriel Castilho
 

Entrevista e Texto por Felipe Ernani, Transcrição por Gabriel von Borell

Hoje em dia, falar de Rap é falar na música que é amada por toda uma geração. A história do gênero, no entanto, deixa claro que esse espaço não caiu do céu — ele foi conquistado por diversos artistas pioneiros, que abriram passagem para outros como o ótimo Filipe Ret, um dos maiores artistas do ramo atualmente.

Não à toa, Ret convocou ícones da nova e velha guarda como Marcelo D2Sain BK em seu papel como diretor criativo do minidocumentário Tributo ao TTK, uma viagem pela história do gênero no Rio de Janeiro que já está disponível na Amazon Music e gratuitamente pelo YouTube.

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No entanto, o papo sobre o Rap vai muito além e resolvemos bater um papo sensacional com o próprio Filipe Ret para entender mais sobre toda essa trajetória e como ele, referência atual, enxerga tudo isso.

Você pode conferir essa conversa na íntegra abaixo e, ao final da matéria, aproveite para assistir ao minidocumentário!

TMDQA! Entrevista Filipe Ret

TMDQA!: Oi, Ret! Primeiramente muito obrigado pelo seu tempo e parabéns pela projeto sensacional. Queria começar te perguntando sobre uma coisa nova pra você: no filme, você assumiu a função da direção criativa. Você curtiu essa experiência?

Filipe Ret: Na verdade, eu encaminhei o pessoal, falei quem seria interessante para ouvir. Até cheguei a olhar o primeiro corte hoje e achei excelente. Foi relativamente fácil de participar porque a equipe era muito profissional e já tinha a manha para conduzir o trabalho.

Os personagens envolvidos são muito práticos e fizeram tudo acontecer de uma forma muito espontânea. Foi interessante porque, vamos dizer, eram três gerações: a do Marcelo D2, a minha e a do BK. Então, teve essa variação aí de idade e de geração. Eu achei bem legal e acho que nunca teve uma atenção tão específica assim para a nossa área [do Rap], que é muito estratégica. A gente fala “TTK”, mas na verdade a gente está falando de tudo.

TMDQA!: Qual é a importância para você em revisitar essa trajetória? E como você enxerga essa posição do Rap de protagonismo, com mais gente se envolvendo e respeitando mais o gênero, que tanto para você como para outras pessoas pode ser uma salvação às vezes?

Ret: Com certeza [pode ser uma salvação], cara. Outro dia eu abri aquele joguinho de pergunta do Instagram e uma pessoa me fez uma pergunta tipo, o que ela precisava fazer para aumentar a autoestima. Isso é uma pergunta tão fundamental para tantas pessoas. Eu lembro da Gisele Bündchen falando que nem todo dia ela se sente bonita. Se ela tem problemas de autoestima, imagina os meros mortais. [risos]

Eu respondi para ela, “ouça Rap 24 horas”. Foi uma forma de vender o meu peixe e ao mesmo tempo mostrar que o Rap é uma ferramenta de autoestima para os jovens e para a galera que não se sente representada muitas vezes. Ela se sente representada quando ouve os MCs com os quais ela se identifica.

Então, isso tem um poder enorme. Isso transformou a minha vida completamente. Eu também sou fruto dessa transformação a partir do Rap. Eu vendo hoje que a minha vida andou e que eu posso dar uma dignidade para o meu filho, para minha mulher e minha família, isso tem um poder monstruoso. E eu conquistei isso ouvindo muito Racionais MCs, Gabriel O Pensador, MV Bill, Emicida, Claudinho e Buchecha, MC Marcinho, Cidinho e Doca… Eu acredito muito nessa transformação revolucionária que a música pode causar.

TMDQA!: Como foi revisitar isso tudo quando você faz um documentário?

Ret: A ideia desse projeto foi de resgate: “como eu posso resgatar a minha imagem?”. Aí eu voltei lá no lugar onde eu nasci, que é na subida do [morro] Santo Amaro. A gente colocou o preto e branco por ser um resgate, a gente colocou scratch, que é um fundamento do Hip Hop. Os metais têm um fundamento no Jazz, que também se comunica muito com o improviso do Rap.

Aí eu fui colocando todos os elementos mais raízes. Então, eu pensei em quem eu poderia chamar e veio o BK, o Sain, o Mãolee. Tinha que ser sem autotune e todas essas escolhas tornaram a música muito menos comercial, sem dúvida alguma. Cada elemento dessa lista, foi tudo uma opção.

Também trouxemos essa pegada de batalha, porque eu acredito muito nisso da música Rap ser um esporte — o que eu acredito que daqui a alguns anos as pessoas vão começar a enxergar, mas elas ainda não viram. As marcas precisam entender o Rap como um esporte e os MCs como atletas. A prova cabal disso que eu tô falando é que o break [dance] vai virar um esporte olímpico! Se o break vai virar esporte olímpico e ele faz parte do Hip Hop — pois são quatro elementos — o DJ também é uma atleta, o MC é um atleta, o grafiteiro é um atleta.

O Hip Hop tem muito essa questão do game, da batalha. A origem do Hip Hop é muito parecida com a origem dos esportes olímpicos, de disputarem esportivamente. O Hip Hop é uma disputa esportiva, é o esporte-arte, fica ali no meio do caminho. Eu acho muito interessante isso.

TMDQA!: Uma vez você falou em um especial com a gente sobre os pais do Rap nacional e mencionou justamente uma galera que é muito ligada ao Funk carioca. Como é ver o Funk ganhando cada vez mais espaço? E também mais respeito, apesar de infelizmente ainda estar um pouco abaixo do Rap nesse sentido.

Ret: O Funk e o Rap são dois lados de uma mesma moeda. E aqui no Rio [de Janeiro], dos Raps que a gente ouvia, sem ser o Gabriel ou MV Bill que fazem um Rap mais falado, era muito o Rap do Silva, do Claudinho e Buchecha, que eram mais cantados.

Naquela época já chamavam de Rap. Foi o que mais transformou a minha cabeça com relação à musicalidade, e o Rap falado transformou a minha cabeça mais com relação à lírica. Eu acredito que o Rap carioca tem uma riqueza grande porque foi muito influenciado musicalmente pela melodia dos Raps-Funks e também pela lírica dos Raps falados.

TMDQA!: Acredito que muita gente não saiba o que é o “TTK”. Você acha que dá para definir o que é isso? É possível explicar para que não conhece?

Ret: A língua do TTK foi uma língua entre as pessoas mais marginalizadas. A República ficava aqui na época, aqui [o Palácio do Catete] era o palácio do Presidente. Essas pessoas mais marginalizadas falavam de trás para frente para terem uma cumplicidade maior. É uma língua que já nasceu de uma forma alternativa e foi passando de geração para geração. Está associada também à galera da pichação.

A primeira vez que alguém me chamou de Ret foi no circuito da galera que pichava muro. Quando você é pré-adolescente e ainda não tem uma identidade formada e alguém te dá uma identidade — ou aquela pichação te dá uma identidade — você se segura naquilo e fala, ‘Isso sou eu’.

E é meio isso, a linguagem da pichação, a galera do skate. Eu não andava muito com a galera do skate, mas eles também tinham essa cultura alternativa, apesar do skate agora ser esporte olímpico. Eu acredito que, com o tempo, todos esses elementos vão ser vistos de uma forma melhor. A pichação vira grafite, o Rap vai ganhando mais status e isso é uma tendência bacana. E o TTK é isso, essa cumplicidade. Ele nasceu com a finalidade de cumplicidade entre os marginalizados.

TMDQA!: Fazendo justamente esse paralelo, assim como o Skate, o Rap vem se popularizando e ganhando um pouco mais de espaço, como a gente falou. Eu quero saber se você acha que rola um medo entre as pessoas mais das antigas, ou mesmo das mais novas, do gênero se perder, perder seu propósito? Ou você sempre vai saber quem é de verdade e quem está apenas surfando na onda?

Ret: Eu enxergo como o estilo da nossa geração. O estilo da geração passada foi o Rock, assim como a do meu pai. A alternativa da geração anterior foi o Rock e a alternativa dessa nova geração é o Rap. O cara que se veste de Rap ainda pré-adolescente provavelmente vai se vestir assim para o resto da vida, igual a um roqueiro. O cara pode ser até mais velho, mas ele se sente se vestindo como alguém do Rock porque na cabeça dele aquilo tem um significado de alternativa de vida.

Isso é muito potente, é como se você achasse a tua vida nisso, algo que você não enxerga em outro lugar. O sistema como um todo, ele é cinza, e quem traz vida para isso é esse estilo de vida alternativo, que nos dias atuais é o Rap. Eu acredito que toda essa geração será uma geração do Rap, mesmo que o cara se vista da forma mais careta do mundo, ele vai se olhar no espelho e vai se sentir uma pessoa do Rap. É incrível isso, né?

Eu acredito que os caras do Rock, mais velhos, se sintam ainda do Rock. É uma filosofia de vida, de atitude. É um impacto muito grande na vida das pessoas. São muitas ideias, muitas referências dentro das letras, e também se comunicam muito bem com o consumo. O Rock, por exemplo, não se conectava com o consumo, e o Rap se comunica diretamente com consumo. Então, [o Rap] é uma versão atual.