Por Brenda Costa, Felipe Ernani, Gabriela Felipe e Thaís Coelho

Shows adiados, festivais suspensos e espetáculos cancelados. A adoção do isolamento social para evitar aglomerações, fundamental para que a pandemia acabe o mais rápido possível, tem causado um efeito negativo no segmento de eventos. Com as restrições de convívio social, os profissionais atuantes do ramo tiveram que se adaptar para superar os desafios e não cair em falência. 

Segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape) e divulgada pelo portal G1, mais de 350 mil eventos não foram realizados em 2020, o que fez com que o setor deixasse de faturar cerca de R$90 bilhões. Entre cancelamentos e adiamentos, aqueles que dependem dos cachês de shows para sobreviver torcem pelo retorno das atividades o quanto antes.

‘‘A situação está desgastante. Não aguentamos mais. Aquela tensão de não saber quando tudo vai se resolver tem contagiado cada aspecto da nossa vida diária. O desafio agora é se reinventar, uma ação que requer bastante estudo, testes, quedas e tombos’’, revela Sebastian Piracés-Ugarte, baterista da banda Francisco, El Hombre que vem fazendo também uma série de lançamentos com o projeto solo Sebastianismos.

Músicos e a pandemia

Com o avanço da COVID-19 pelo país, as dificuldades financeiras aumentaram para os artistas. De acordo com a pesquisa “Músicos e pandemia”, realizada pela União Brasileira de Compositores (UBC) com 883 artistas, 86% dos profissionais atuantes da área sentiram que a pandemia afetou o mercado musical, comprometendo a renda mínima para sobreviver.

Sebastian Piracés-Ugarte (Foto por Breno Galtier)

Além disso, 18% dos entrevistados relataram que a sua renda estava totalmente relacionada a apresentações musicais ao vivo antes da pandemia. Lucas Furtado, baixista da banda Scalene, conta que o grupo precisou se reinventar para se sustentar e garantir o financeiro. 

“A fonte de renda primária para todos nós é a música. A banda é a nossa profissão, é como a gente ganha a vida. Por isso, tivemos que encontrar uma forma de receber dinheiro, até porque temos uma equipe que está com a gente há cinco ou seis anos”, explica, ressaltando o quanto os crews — os profissionais que ficam por trás das grandes apresentações — também têm sofrido com a pandemia.

Lives, financiamento coletivo e outras alternativas de sobrevivência

Em meio a esse cenário, os músicos têm buscado alternativas de sobrevivência. Vitor Isensee, da banda BRAZA, conta a experiência vivida com a sua equipe: ‘Fizemos lives ao longo do ano, com retorno legal, mas o financiamento coletivo da Catarse é o que está salvando. Lançamos até um clipe novo graças a esse financiamento”.

O financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding, tem sido um importante meio para a sustentação do setor artístico durante a crise causada pela COVID-19. Segundo o jornal Folha de São Paulo, foram movimentados mais de 130 milhões de reais em 2020 por meio de mobilizações em plataformas que viabilizam esse tipo de contribuição.

Existe também a Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc (Lei Federal nº 14.017/2020). Após muita luta da classe artística e de seus agregados, ela garantiu o pagamento de auxílio emergencial para o setor cultural em meio à pandemia, contando com três parcelas mensais de R$600. A sua prorrogação para o restante do ano de 2021 foi sancionada há pouco, estando disponível até o final do ano.

Scalene em Brasília - 24 de Novembro de 2019
Lucas Furtado/Scalene (Foto por Cadu Andrade)

‘‘A Lei Aldir Blanc e outras medidas de amparo foram de grande ajuda para os profissionais dessa área. Mas todas foram criadas para funcionar em um período determinado, tipo 6 meses. Toda ajuda é bem vinda, mas era para ‘segurar a onda’ por meses e já estamos nessa há mais de um ano”, comentou o baixista da Scalene.

Infelizmente, a conta também cai no colo da equipe. Os mesmos trabalhadores mantidos há anos pela Scalene, segundo Lucas, não puderam contar completamente com a ajuda dos músicos.

“As formas que encontramos de substituir a renda dos shows não foram suficientes para manter a equipe. Fizemos três ou quatro lives, sempre colocando o máximo de equipe. Ajudamos o máximo que pudemos, mas mesmo assim é menos do que gostaríamos”, conta o baixista.

Piracés-Ugarte complementa, dizendo que todo mês é “uma surpresa” pela constante chance de ficar “no vermelho” — ou seja, com dívidas, uma vez que o caixa da banda se esgotou cerca de três meses após o início da pandemia.

Vacina: a única solução para a cultura, inimiga do governo

Então, resta uma pergunta: qual é a solução? De acordo com Lucas, só existe uma: ‘‘Do ponto de vista cultural, a única forma da gente voltar ao normal é o Brasil vacinado. Não existe outra solução”.

Sebastian ecoa o sentimento e relata uma intencionalidade do governo; para ele, a pandemia “facilitou o enfraquecimento da classe artística, a primeira que deve ser silenciada quando se quer uma sociedade oprimida e calada”.

O baterista ainda comenta que os últimos anos da política brasileira têm exibido um “sucateamento da cultura e um desmantelamento de uma rede que tinha sido construída nos últimos 15 anos”. Ele afirma ainda que, aos poucos, “a classe artística no Brasil vira subproduto da sociedade, sendo mal vista pela população e pelas instituições federais”, impedindo o “apoio financeiro ou social” do governo.

BRAZA
BRAZA (Foto via Divulgação)

Aqui no Brasil, apesar de tantas alternativas, o resultado realmente não é suficiente para a normalidade de quem depende disso. Vitor explica que a receita a nível pessoal “diminuiu pelo menos 60, 70%”, mesmo com os integrantes trabalhando paralelamente à banda. “Não dá para comparar com o montante que o show gerava”, desabafa o músico do BRAZA.

Apesar disso, a união é fundamental. É como explica Sebastian ao dizer que “quem escolhe ser alternativo ao sistema deve se juntar com outros que decidiram ser assim também” — algo que certamente vem sendo feito em seu projeto mais recente, que conta com diversas colaborações.

Otimismo em meio ao caos

Com o avanço da vacinação e os shows sendo retomados em outros países, o sentimento é misto. Há uma alegria por ver apresentações acontecendo e sendo marcadas — até no Brasil já começamos a ver revelações de line-ups e coisas do tipo — mas, em meio a isso, encontramos um grande aumento de casos e, especialmente fora daqui, uma grande resistência à vacina.

Mesmo com tantas incertezas, os artistas continuam fazendo planos para o futuro e alguns até mostram otimismo com a produção cultural dos tempos pandêmicos. É o caso do rapper Rincon Sapiência, que relatou um processo complicado até chegar a essa conclusão: “Hoje entendo que o mercado continua funcionando, ainda que de uma forma limitada. E nessa funcionalidade muitas coisas de bom gosto têm sido lançadas”.

Rincon Sapiência
Rincon Sapiência (Foto por Jef Delgado)

O próprio Rincon também exemplifica um outro lado de tudo isso. Com a ausência dos shows, o rapper revela que teve “abertura para outras frentes” — ainda que sinta “saudades das pessoas, dos amigos, das pistas”, ele explica que encontrou “um certo equilíbrio” por conseguir continuar trabalhando mesmo estando no olho do furacão. Ele já lançou três músicas em 2021, além de participações com outros artistas.

O medo ainda é grande mas, de forma geral, o que prevalece é a esperança de que um dia toda essa situação vai acabar. Isensee ilustra esse sentimento, dizendo que “a esperança segue firme” e explicando que a banda “se fala todo dia, [com] o grupo da equipe, é uma camaradagem enorme”.

E, assim, a indústria musical segue batalhando pela vida — sua e dos outros — em tempos de morte.