Chet Faker
Foto por Willy Lukaitis
 

Logo que entram em cena as primeiras batidas de “Oh Me Oh My”, a sensação de que você está ouvindo um disco de Chet Faker é imediata. Quanto mais evolui a canção, que serve como uma grande introdução ao disco Hotel Surrender, mais claro fica esse sentimento.

Essa informação é relevante porque, nos últimos anos, o músico australiano vinha atendendo pelo seu nome de batismo — Nick Murphy — e a diferença entre os dois trabalhos é gritante. Justamente por isso, não é surpresa que Nick tenha resolvido trazer de volta o pseudônimo para o novo álbum, que surgiu de forma inesperada e orgânica.

Se houvesse ainda alguma dúvida depois das duas primeiras faixas, “Get High” é a prova definitiva de Murphy resolveu abraçar novamente todos os elementos que consagraram sua obra nos primeiros anos de carreira. E, novamente, tudo isso aconteceu “sem querer”, de forma natural para o músico.

Esse processo pra lá de interessante foi detalhado por ele em um papo exclusivo com o TMDQA!, que você confere na íntegra logo abaixo!

TMDQA! Entrevista Chet Faker

TMDQA!: Oi, Nick! Que prazer estar falando contigo.

Nick Murphy: Olá! Olha só, você tem uns instrumentos aí atrás. Que teclado é esse? É um Nord?

TMDQA!: [risos] Queria eu que fosse um Nord. É um Roland Go Keys, é bem simples, só pra treinar mesmo. Bom, queria começar dizendo que adorei o novo disco e fiquei curioso pra saber como foi esse processo. Você começou a escrever as músicas e quando viu tinha um disco do Chet Faker?

Nick: Sim! Eu não estava nem tentando escrever um disco, na verdade. Eu acabei de pegar um estúdio, um estúdio super pequeno ali na esquina, no porão — o menor que eu já tive, na verdade, menor que a garagem da minha mãe. [risos] Meu empresário o encontrou pra mim no começo de 2020 e é, na verdade, a primeira vez que eu tenho um estúdio particular, meu espaço particular, desde o Built on Glass. Então eu fiquei pensando se talvez tenha sido isso que me levou a fazer um disco do Chet Faker por acidente.

Mas, basicamente, eu estava simplesmente indo lá e acho que tinha todo um acúmulo de composições que eu não conseguia fazer no meu próprio espaço que eu não percebi que estava ali; porque, sabe, as coisas do Nick Murphy eu estava trabalhando em estúdios, não em espaços particulares. Mas ali eu estava indo todos os dias e só realmente curtindo ter o espaço, não era tipo, “Ah, estou trabalhando em um álbum”, nem estava trabalhando em músicas. Foi meio que só muito fluido, e fluiu muito bem. E aí veio a pandemia depois de uns meses disso, o que na verdade acabou me tirando tudo além de eu ir pro estúdio todos os dias.

E eu podia ir pro estúdio porque não tinha ninguém na rua! Então eu ia quase todo dia de bicicleta pra lá; obviamente alguns dias eu acabei não indo porque por um tempo esteve bem complicado. Mas eu estava indo todo dia e as músicas só continuavam saindo, e eu estava tão sem consciência do que estava fazendo; eu realmente só estava curtindo fazer música e meio que essa é a mensagem do disco, é sobre se render [“surrender”] ao processo.

Mas eu me lembro — estou divagando aqui — que em Maio do ano passado eu tinha todas as músicas em uma playlist e eu lembro de ver a playlist e pensar, “Ué, eu tenho um álbum”. [risos] Tipo, “Ops”. Elas todas estão relacionadas, parece algo inteiro, não tem nada só pra preencher espaço. E também fiquei tipo, “Bom, parece um disco do Chet Faker pra mim”. A sensação é essa. Então eu meio que simplesmente tinha um álbum do Chet Faker; não era tipo, “Ah, eu vou fazer um álbum do Chet Faker”. Na verdade, eu provavelmente iria querer fazer mais coisas do Nick Murphy, porque eu meio que estava nesse “modo”.

Mas só aconteceu e eu pensei, “Bom, eu tenho esse álbum. E é claramente um álbum do Chet Faker”. E foi bom, fez com que eu me sentisse bem, e eu acho que de uma forma bem simplista eu pensei tipo, “Bom, por que eu não compartilharia isso?”. Foi meio o que aconteceu, bem “Ops”. [risos] Foi meio essa a decisão.

Hotel Surrender

TMDQA!: Curioso você falar isso, porque essa coisa de se sentir bem foi algo que eu percebi bastante no disco, e acho que essa era uma coisa que todos nós estávamos precisando sentir nos tempos atuais. Foi intencional isso ou você estava só se expressando mesmo?

Nick: Originalmente, só estava me expressando. Mas depois, sabe, é assim que o processo geralmente funciona pra mim. É pessoal no começo, e depois você chega em um ponto onde toma decisões para considerar os outros. Mas, como eu disse, esse álbum foi o trabalho mais sem consideração que eu já fiz — foi só tipo, “Está pronto”, eu nem tive que finalizar nada. Foi tão natural, foi a coisa mais fácil que eu já fiz e a coisa mais agradável que já fiz. Ponto final.

Mesmo o Thinking in Textures foi mais difícil do que isso! Foi tão fácil, porque eu não estava tentando fazer um álbum, eu só estava tentando me sentir bem; ou nem isso, eu estava só tentando praticar essa ideia de “se render”, sabe? E fazendo um “check-in” na minha realidade, o que é justamente o ponto do álbum; é isso que é o Hotel Surrender, é o que eu chamo de minha realidade e eu posso fazer check-in nela — como em um hotel — ao me render ao que está acontecendo.

E olhando pra trás, eu pensei tipo, esse é o centro, o núcleo desse álbum. Então, sim, era realmente só eu mesmo tentando fazer com que eu me sentisse melhor — ou fazendo com que eu me sentisse melhor ao não esperar as coisas e deixar a música falar por mim, eu acho.

TMDQA!: Isso é bem legal! Você toca um monte de instrumentos, e eu sinto às vezes que esse disco foi escrito em vários diferentes. Varia bastante onde você compõe?

Nick: Definitivamente varia. Eu não tenho uma abordagem padrão, digamos assim. Eu sou tão anti-consistência, o que é engraçado porque eu meio que sou consistente; tipo, eu tenho uma relação estranha com a consistência. É tipo, ela me assusta, porque me lembra da passagem do tempo sem sentido e eu penso, tipo, “Bom, no segundo em que eu me tornar consistente demais é o segundo em que eu comecei a esperar pra morrer”. [risos] Mas essa é uma conversa pra outra hora.

Eu não sei, o piano é uma peça muito importante pra mim, mas nem sempre foi. Por um tempo eu o neguei e o ignorei, provavelmente porque — acho que um monte de artistas, principalmente em seus anos mais jovens, vão negar… bom, talvez, não, mas eu fiz isso de negar seus locais naturais porque eu queria explorar e eu sentia meio que essa responsabilidade de expandir e me desafiar, sabe? Então eu acho que isso aconteceu por um bom tempo, nos dois projetos.

Obviamente, nas coisas do começo do Chet, eu toquei um pouco do Wurlitzer então o piano meio que estava lá, mas não de verdade. E aí teve um pouquinho nas coisas do Nick Murphy, mas o Music for Silence foi o álbum em que eu comecei a realmente abandonar essa ideia de que eu deveria seguir qualquer narrativa pré-escrita e eu poderia só deixar a música ser o que ela quer ser. De alguma forma, Music for Silence foi meio que o “pai” de Hotel Surrender, tipo a argila crua de Hotel Surrender. Porque foi o primeiro disco onde eu só falei, “Aperta pra gravar e vai, deixa acontecer”.

Então, é bem interessante, nesse disco Hotel Surrender muitas das músicas — nem todas foram escritas no piano, mas várias delas têm uma sustentação no piano, sabe. E eu consigo me sentar e tocá-las, e isso é porque várias delas vieram disso, de um lugar físico, sabe? Acho que essa foi minha grande descoberta recente. A música é física, não é metafísica. Ela tem qualidades metafísicas, mas ela é física; ela te faz sentir, tipo literalmente. E eu acho que a música vem do corpo, então agora eu tento ter algumas teclas ou algum ritmo acontecendo.

Mas eu realmente pulo de galho em galho. Às vezes estou ouvindo música no YouTube e ouço um sample e penso em pegar isso e colocar em um sampler e fazer um loop. Eu sempre estou fazendo música de um milhão de maneiras diferentes, então não há uma única coisa. Mas cada vez mais eu estou na direção das teclas, do piano. Acho que esse é o meu chamado, mas eu o ignoro muito e eu gosto de coisas complicadas, sabe? Mas eu certamente cada vez mais penso, “Eu deveria tocar piano. Deveria tocar mais”. [risos]

TMDQA!: Você deveria tocar tudo mais! [risos]

Nick: [risos] É, mas sabe, chega um ponto em que só há um certo número de horas no dia! E também algumas vezes as coisas te chamam, mais até do que você gostaria. Eu e as teclas temos uma certa conexão que eu não tenho com outros instrumentos.

Por exemplo: eu toco guitarra desde a mesma época em que aprendi a tocar piano. Eu realmente não sou um ótimo guitarrista. Não faz sentido! Eu sou muito melhor nas teclas do que na guitarra, e eu deveria ser igualmente bom nos dois. Mas, não sou.

Nick Murphy, Chet Faker e passagem pelo Brasil

TMDQA!: Fiquei interessado no que você falou sobre consistência, porque a indústria da música meio que te obriga a continuar lançando coisas; clipes, músicas, discos, enfim. Como você lida com isso já que você é anti-consistência?

Nick: Eu estou em guerra com essa ideia, basicamente. [risos] E acho que todo mundo deve concordar quando olha pra mim. A maioria das pessoas não entende que é com isso que eu estou em guerra; elas só acham que eu estou falhando. Mas tudo bem também. [risos]

Quando eu era um adolescente e eu me apaixonei com a ideia da arte e de ser um músico, esse conceito de autenticidade só me acertou como esse caminho nobre, algo tão belo e verdadeiro. E enquanto algo for verdade, é bom. E eu acho que eu cheguei no ponto — cedo demais, com o projeto Chet Faker — que eu tinha atingido meio que um auge, e era meio que estabelecido e tudo que eu precisava fazer era me sentar, ir trabalhar com alguns dos melhores compositores do mundo, ir trabalhar com os produtores certos, e só lançar batidas relaxantes com um toque de R&B pelo resto da minha vida e eu estaria resolvido.

Mas não era o que eu queria fazer. Então eu pensei, “Porra, grande sucesso ou autenticidade?”, e eu escolhi autenticidade. Basicamente, foi o que eu fiz. Eu só penso que, se eu sempre seguir os meus instintos, um dia tudo vai fazer sentido. Então eu espero e eu me questiono se hoje eu pareço muito inconsistente, mas talvez seja porque eu tenho muito a dizer. Talvez em 20 anos tudo pareça consistente, talvez meu espectro de expressão seja bem grande. Sabe, no começo, as pessoas que fazem todo tipo de coisa, elas não fazem sentido até depois.

Eu não sou um Keith Haring, eu não faço uma coisa só do mesmo jeito o tempo todo; isso me deixaria louco. Eu consigo e eu tenho um pouco, mas eu acho que é só como as coisas são. Eu não sei, eu espero e eu acho que faça sentido com o tempo. Tudo que eu sei é que as pessoas continuam ouvindo as minhas músicas, então eu devo estar fazendo alguma coisa certa! [risos] E talvez a consistência não seja tão importante assim. Talvez em um tempo onde todas essas merdas são vendidas, tipo, é feito um marketing enorme como se fossem produtos do McDonald’s, todos iguais, talvez é realmente importante que tenhamos um artista inconsistente. Talvez essa seja uma coisa para nos lembrar que somos seres inconsistentes, e somos infinitos e vamos pra todos lugares, e não somos singulares. Sabe, acho que precisamos de algumas pessoas nos holofotes que pulem de um lado pro outro.

TMDQA!: Não poderia concordar mais!

Nick: Mas eu não sei. Às vezes eu penso nisso, às vezes fico meio depressivo com isso. Eu penso tipo, “Vamos lá cara, você está fazendo o seu”. Eu sei que o que eu estou fazendo parece certo pra mim, então isso tem que ser o certo. E se eu perder a minha carreira desse jeito, eu sei que foi assim que eu cheguei lá em primeiro lugar, então…

TMDQA!: Faz sentido! Nick, e eu me lembro que o seu show no Planeta Brasil, em Belo Horizonte, foi o último que eu vi antes da pandemia. Eu fiquei pensando, você lembra bem desse show? Acabou sendo uma apresentação bem marcante, né? Porque além de tudo pode ter sido o último show em um tempo como Nick Murphy.

Nick: Eu lembro desse show! Todo show que eu me lembro é especial, porque eu faço tantos e às vezes as pessoas falam, “Ah, eu te vi em Boston ou no Canadá” e eu fico tipo, “Eu não lembro disso”. [risos] Mas eu lembro desse show! Foi divertido! Os brasileiros simplesmente levam muita energia, eles não estão pra brincadeira. Eu acho que é só a cultura que é certa com isso.

Em alguns países, são só iPhones! Todo mundo só fica ali filmando a porra toda, é horrível. É uma merda do caralho. Pra mim, é tipo, “Bom, eu estou aqui pra ser pago”, então nem tem pra quê tentar. Mas eu me pergunto, “Por que você está filmando nessa porra de celular todo borrado?”, sabe? Mas tanto faz. Especialmente nos EUA; alguns estados são melhores, mas no geral é bem fodido. E isso nunca aconteceu comigo no Brasil.

As pessoas só jogam seus telefones e ficam tipo, “Uhul”! [começa a dançar] Eu fico tipo, “Você não precisa do seu celular?”. [risos] Então, é bom. Eu acho que os brasileiros entendem essa conexão física com a música, mesmo que seja só através da música brasileira que é uma porra de um presente sem fim.

TMDQA!: Você curte a música brasileira, então?

Nick: Eu amo música brasileira! Com certeza! Eu nunca lembro os nomes, mas eu tenho uma playlist inteira aqui chamada Brasil. Mas toda vez que eu ouço algo que é selvagem mas, tipo, ao mesmo tempo meio que cheio de alma também, sempre acaba sendo brasileiro. Esse cara, o Cartola.

TMDQA!: Nossa, aí sim! Eu amo, ele é incrível.

Nick: Eu não sei pronunciar isso, Kay-tano Veloso?

TMDQA!: Caetano Veloso! Ele tocou com você no Planeta Brasil, você não sabia? Algumas horas antes.

Nick: É sério? Puta que pariu. É sério?

TMDQA!: É sério! Acho que foi no outro palco. [risos]

Nick: Ah, vá se foder! Eu nunca leio os cartazes, eu só vou e toco! Mas eu tenho alguns discos de vinil brasileiros, tenho um do Sérgio Mendes! É tão bom, eu amo. E ao mesmo tempo é engraçado, porque a minha música — o Chet Faker sempre foi muito grande no Brasil, mesmo no começo. A primeira vez que eu fui as pessoas ficaram malucas conosco, e eu fiquei tipo, “Que porra está acontecendo?”.

Mas aí conforme eu fui ouvindo mais música brasileira, eu conseguia ouvir, pelo menos nas coisas mais do começo, eu meio que cantava de uma forma parecida às coisas mais leves do Brasil, sabe? É bastante sexy, mas nunca fica exagerado! Tipo, a música brasileira nunca é tipo [faz um grito emocionado], é sempre tipo [canta suave, com ritmo], muito controlado, que é como especialmente algumas coisas do começo do Chet eram. E eu pensei, “Ah, talvez seja isso que esteja acontecendo aqui”.

Mas, enfim, eu amo a música brasileira. E eu amo que os brasileiros apreciam a boa música, então, isso é bom.

TMDQA!: Legal demais, Nick! Nosso tempo acabou, então muito obrigado pelo papo, foi ótimo! Espero te ver logo por aqui de novo — e nada de iPhones, eu prometo. [risos]

Nick: Obrigado pela conversa! E sim, eu estou tentando descobrir como fazer para sair em turnê com esse disco do Chet Faker de novo, não sei se quero fazer uma banda ou só tocar teclado com uma drum machine ou algo assim… Veremos!

TMDQA!: Espero que sim! Até mais, Nick!

Nick: Até! Obrigado!

 
Compartilhar