Zander e Lucas Silveira
 

Zander e Lucas Silveira estão juntos em mais uma canção a estar no próximo disco da banda liderada por Gabriel Zander.

“Desalento” é o resultado da parceria do grupo de rock alternativo com o líder da Fresno e o que temos aqui é uma faixa que celebra diversas influências dos dois lados ao mesmo tempo que apresenta características marcantes de cada um.

Ao falar sobre as dificuldades do isolamento na pandemia e da necessidade de pedir ajuda a outras pessoas, a dupla entoa frases marcantes embaladas por guitarras pesadas e influências que vão do Smashing Pumpkins ao Nirvana passando por grupos recentes como Citizen e clássicos nacionais como a Legião Urbana.

Zander e Lucas Silveira

Além de ser uma verdadeira confissão com a qual muitos de nós irão se conectar, “Desalento” é também um marco importante na carreira da banda e de seu vocalista, guitarrista e compositor.

Durante a pandemia, Gabriel Zander resolveu voltar a compor, gravar e trabalhar de forma mais intensa com música após ver a histórica live de Lucas Silveira, que promoveu o movimento “QuarentEmo”, atraiu milhares de pessoas e arrecadou muito dinheiro para instituições de caridade.

Sendo assim, é marcante que “Desalento” venha ao mundo agora com um feat onde as vozes se encaixam tão perfeitamente e se misturam às guitarras, ao baixo e à bateria como se estivessem conversando entre si e com o ouvinte.

Pra participar desse papo grunge-alternativo-emo-indie, é só apertar o play logo abaixo, tanto na playlist TMDQA! Alternativo quanto no vídeo do YouTube.

Além disso, você pode ver a letra completa e um bate papo que o TMDQA! teve com Gabriel Zander e Lucas a respeito da canção!

Você também pode ver o episódio do documentário que a banda fez em parceria com a Vans para registrar a gravação do álbum e fala sobre essa faixa. Recomendamos!

Continua após o vídeo

Letra – “Desalento”

Dizer
Que dói por ter sofrido tudo que eu vi aqui
Sem ter
O impulso necessário pra me levantar
Desse lugar

Onde eu fiz
O que eu podia pra não sumir
Onde eu fui
Um desalento estendido no chão

Vem ver
Que o som de quando quebra o que restou de ti não vibra mais

Por ser
A força necessária pra não me importar
E nem voltar

Onde eu fiz
O que eu podia pra não sumir
Onde eu fui
Um desalento estendido no chão

E ainda é cedo, você diz
E ainda é cedo pra quem?

Talvez seja tarde
Mas não perco mais o tempo que eu não vi
Não quero a metade
Quero tudo que levou de mim
Se fosse vaidade
Eu não teria ido até o fim
Que seja verdade
Ou não se atreva a vir
Tão perto assim

Anular, não se trata de confortar
Quem não teria mentido?
E quem disse que não há nada a temer?
Estou tremendo por dentro
Vem cá e me diz que vai passar
Posso ficar mais um tempo?
Prometo não atrapalhar
A solidão é o abrigo do medo

Entrevista

TMDQA!: A pandemia nos pegou de jeito e é um tema recorrente no disco, mas essa canção fala especificamente sobre dor, medo e poder contar com alguém. Como você explicaria as suas origens e a sua composição?

Gabriel Zander: De fato, toda a temática se passa e é diretamente afetada pela pandemia e os sentimentos, sintomas e sequelas que ela vem deixando em todos nós em diferentes níveis e formas. Mas a música veio antes. Desde quando surgiu a introdução dela no violão eu senti que essa seria especial. A harmonia tem uma melancolia bem Midwest Emo mesmo que me trouxe um sentimento diferente. Curiosamente, a estrutura instrumental dela foi finalizada minutos antes da gente gravar, tentamos várias ideias, várias partes e foi difícil de terminar. Ela quase ficou de fora do disco, mas algo me dizia que eu precisava insistir e quando a gente finalmente acho o arranjo final, que todos curtiram, foi uma sensação incrível. A letra veio depois, já nesse contexto desse sentimento de abandono que você comentou e quando comecei a pensar em alguns Feats pro disco já queria muito que o Lucas participasse, por tudo que ele vinha fazendo, ajudando e inspirando através do seu corre e trabalho durante a pandemia. Imaginei que essa música seria perfeita pra ele participar. Mandei, ele pirou nela e topou na hora. Muito foda.

TMDQA!: Quanto dessa música representa o contexto geral do disco, tanto musicalmente quanto nas letras?

Gabriel Zander: Acho que essa coisa meio brincadeira, meio séria que a gente abraçou, esse rótulo já com hashtag #grungemo, passeia por todo o álbum, mas essa é a parte mais Emo mesmo, o estilo que a gente começou a ter muito contato com as bandas lá no início dos anos 90, que era esse lance triste, lento, arrastado, denso, lento, desesperado, agressiva, mas também muito sensível e pessoal. Isso mudou nossa vida e nossa musicalidade pra sempre. É muito foda a gente poder fazer esse resgate de coisas que, apesar de sempre nos acompanharem, nos influenciou muito e nos fez ser quem somos, como o sonoridade do grunge, do emo, da atitude punk e trazer isso pros dias atuais. Fico muito feliz com alguns dos nossos fãs tendo contato agora pelo primeira vez com Smashing Pumpkings, por exemplo, através da música que estamos fazendo agora, nesse exato momento. Tudo isso é muito relevante.

TMDQA!: Ter o Lucas nesse som é obviamente muito significativo por tudo que ele representa, mas também é importante pra você, pessoalmente. Consegue nos explicar o que significa estar cantando ao seu lado?

Gabriel Zander: Com certeza. Eu e Lucas já nos cruzamos várias vezes no rolê, mas nos tornamos amigos mais recentemente através de outros amigos e trabalhos muito importantes pra mim. Produzi um disco do Vivendo do Ócio com o grande Guerra, baterista da Fresno e ele já vinha fazendo um telefone sem fio meio sem querer muito legal entre eu e o Lucas. Depois trabalhamos juntos em uma versão com meus queridos Menores Atos e essa tarde acabou gerando um bate papo inesquecível e de muito aprendizado mesmo com o Lucas como artista, empresário e visionário também. Isso já me inspirou muito. Depois, poucos dias antes de fechar o mundo, o Lucas me convidou pra ir no estúdio dele assistir uma gravação do Far From Alaska e ali a gente já falava de tudo que a gente ia perder, que não ia rolar com a pandemia. Vários shows, projetos de todos. E lembro dele falando sobre uma turnê em Portugal e o Lollapalooza que eles tinham pra fazer e falar: “Paciência.” Essa simples palavra vindo dele, que tava se fodendo muito naquele momento, me deu muita força pra enfrentar o que estava por vir e pouco depois, quando tudo parecia realmente sem saída, eu vi ele pegar um violão e fazer um show da casa dele pra quase 100 mil pessoas, ajudar uma porrada de gente com doações de cestas básicas e dali fortalecer sua base de fãs do jeito que era possível fazer enquanto muitas pessoas que poderiam fazer igual ou até mais não estavam fazendo ou pior, apenas falando mal. Naquele momento eu percebi que o Lucas tinha realmente transcendido essa parada de banda e tinha se tornado um dos maiores artistas da nossa geração. Alguém que eu passei a admirar muito mesmo e querer acompanhar, conversar e estar por perto. É uma grande satisfação tê-lo como amigo, cantando numa música desse disco e agora também na história da banda.

TMDQA!: Lucas, você foi um dos ícones da pandemia no Brasil ao fazer uma das lives mais emblemáticas quando esse formato foi extremamente popular. Essa música fala muito sobre contar com o outro em tempos difíceis e você fez isso para milhares de brasileiros. Como é cantar algo tão profundo e que, imagino, trouxe memórias pessoais, em uma música de outro artista?

Lucas Silveira: O ícone da pandemia é o presidente miliciano e os filhos fascistas dele. Boa parte da tristeza que a gente sente, de forma empática ou direta, tem o toque desse tosco. Mas bad trips à parte, eu percebi muito cedo que o formato de LIVE seria algo com o qual a gente iria lidar por muito tempo. No entanto, para quem é do nosso rolê, isso já era uma coisa extremamente normal. Uma galera mais velha ou mais mainstream teve que literalmente aprender desde o beabá da parada, mas a gente já vinha fazendo live desde a Twitcam, com tecnologia muito incipiente, lá em 2009-2010. Eu acredito que a música tem como matéria prima tudo, absolutamente tudo que a gente viveu. Mesmo quando estamos fazendo uma história fictícia, estamos falando de acontecimentos, sentimentos e pessoas que conhecemos. De outra forma, não tem como escrever sobre aquilo com propriedade. Para cantar é a mesma coisa. Saber sobre o que se está cantando ajuda muito a gente a entregar uma performance verdadeira, visceral. Não é só mirar nas notas e acertar a letra né… nunca foi. Isso é algo com que eu nóio muito, seja em produções para outros artistas, como para coisas minhas. É onde mora toda a possibilidade daquela música impactar de maneira poderosa ou simplesmente passar despercebida.

TMDQA!: Como membro da “velha guarda” que tem renovado seu som e se alinhado a novos artistas, como é ter um nome contemporâneo fazendo algo parecido e se juntando a você para resgatar uma sonoridade ao mesmo tempo em que renova seus sons para novos públicos?

Lucas Silveira: Para mim, fora todas as merdas induzidas por esse momento que estamos vivendo nesse país e planeta, o ano passado também serviu para me reaproximar de muita gente que eu admiro, muita conexão se estabeleceu do nada entre gente que se identificava, mas que por alguns acasos meio que não colaborava. Quando gravei com o Menores Atos uma versão acústica de ‘Devagar’, a gente passou a se falar mais. O Bil [Gabriel Zander] também trabalhou em alguns projetos do Guerra, baterista da Fresno, como engenheiro de mix, e eu lembro de falar pro Guerra coisa do tipo: como assim tu tá trampando com o Bil? Tu sabia que ele é tipo uma grande referência para mim e para a Fresno, desde o começo? Aí rimos quando eu mostrei umas demos bem antigas. De alguma maneira todo mundo da cena tentava ser o Noção de Nada [banda anterior do Gabriel] e uma faixa tipo “Diário ou Diploma” eram basicamente os gabaritos de como se fazer emo e hardcore em português com sentimento real.

TMDQA!: Entre tantos feats e colaborações, o que vem por aí nos lados da Fresno e da tua carreira?

Lucas Silveira: Ficou muito difícil planejar qualquer coisa num mundo tão indefinido, mas eu nunca parei de fazer músicas. Agora, com um pouco de esperança no horizonte de que em 2022 a gente possa voltar aos palcos, a gente tá começando a amarrar as primeiras ideias. Sempre fizemos tudo com muita calma – sempre que possível – e isso tem se mostrado um acerto muito grande. Com o Sua Alegria Foi Cancelada foi assim, e não poderia ser diferente agora.

 
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