AFI
Foto por Jacob Boll
 

Com 30 anos de carreira e 10 discos no currículo até então, o AFI decidiu ampliar seu catálogo recentemente com o excelente Bodies, seu 11º álbum de estúdio e um enorme passo à frente na direção da longevidade para a banda com raízes Punk.

Falamos em raízes Punk porque, honestamente, reduzir o som de Davey Havok, Jade PugetHunter Burgan Adam Carson a apenas isso é um ultraje. Desde 1998 com a mesma formação, o grupo vem se reiventando a cada trabalho e mostra isso mais uma vez na nova obra, que tem até mesmo a participação de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, em uma das composições.

Em Bodies, a banda revisita a sonoridade que lhe consagrou sem qualquer vergonha e sem perder a mão, mas também experimenta mais do que nunca com elementos eletrônicos e capricha nas texturas, que dão um tom sombrio e etéreo ao disco; atmosférico às vezes, mas sempre trazendo uma pancada para recuperar sua atenção quando você menos espera.

Para entender melhor o processo de composição não apenas desse trabalho mas de toda essa bem-sucedida carreira, conversamos com o vocalista Davey Havok e você pode conferir esse papo na íntegra logo abaixo.

TMDQA! Entrevista Davey Havok (AFI)

TMDQA!: Oi, Davey! Que prazer estar falando contigo. Primeiramente, parabéns pelo novo disco, em especial por parecer realmente um passo à frente para a banda. Como isso acontece pra vocês? É só ir ao estúdio e coisas novas começam a acontecer ou vocês estão sempre procurando por influências novas?

Davey Havok: Antes de entrarmos no estúdio, nós temos nossos discos já escritos. O processo de composição geralmente leva um ano ou mais. Durante esse processo, nós estamos constantemente à procura de criar algo que nos empolgue, artisticamente falando. Por isso, a gente sempre acaba se dirigindo a momentos que parecem novos pra nós, e nos distanciamos de composições que parecem redundantes. Acontece que nós compartilhamos uma vasta quantia de influências, então é bem difícil que a gente precise procurar novas inspirações.

TMDQA!: Eu acho incrível que uma banda com 30 anos de existência não esteja se reduzindo a se referenciar toda vez, sabe? Vocês ainda soam como algo novo. Vocês têm essa percepção ocasionalmente, de quanto tempo já se passou? E vocês chegam a tirar um tempo para olhar para o passado ou estão sempre voltados para o futuro?

Davey: É surreal pensar que já se passaram 30 anos desde que começamos essa banda. Eu sou tão grato que ainda existem pessoas que se importam com nossas criações até hoje e, nesse ponto, a grande maioria delas faz isso com muita paixão!

Eu não tenho muita inclinação a ficar relembrando. Como você sabe, conforme nós criamos, nós estamos buscando um futuro mais empolgante.

TMDQA!: Nesse novo disco, um dos aspectos mais interessantes pra mim é como ele soa meio ‘assustador’, por assim dizer. Sei que isso sempre foi uma característica do AFI mas parece ser feito de uma forma diferente dessa vez, mais sombria. Talvez pelo uso de elementos eletrônicos. Como vocês decidiram seguir essa direção, que a gente vê em músicas como “Back From the Flesh”?

Davey: O início do processo de composição geralmente começa comigo e com o Jade [Puget, guitarrista] sentados um na frente do outro, ele com a guitarra e eu escrevendo melodias por cima dos acordes que ele toca. Se eu me lembro bem, essa música começou com uma batida eletrônica similar ao que você ouve na versão finalizada.

O tratamento espacial desse som direcionou essa música. Talvez eu não esteja lembrando certo, mas o Jade poderia confirmar ou negar. De qualquer forma, o Jade e eu somos fãs do gênero eletrônico e portanto, desde o The Art of Drowning [disco de 2000], a gente sempre deu uma melhorada nas nossas músicas com esses elementos!

TMDQA!: Eu sou um grande fã de como todas as músicas do AFI são instantaneamente reconhecíveis não por conta do som delas mas pelo som de vocês, como banda. Não importa a direção, a gente sempre sabe que é o AFI. Quão importante é pra vocês ter a mesma formação há tanto tempo e como vocês conseguem manter isso? Tipo, vocês ainda passam tempo juntos fora das turnês e das composições?

Davey: Obrigado! Conhecer um ao outro tão bem é o que faz com que trabalhemos tão bem juntos e consigamos permanecer amigos. Fora da estrada, no entanto, eu e o Jade somos os únicos membros que se encontram com qualquer frequência, uma vez que passamos muitas horas compondo. Ele e eu, hoje em dia, vivemos bem longe um do outro.

Adam [Carson, baterista] está no Norte da Califórnia, e mais longe ainda do que ele e o Hunter [Burgan, baixista]. De toda forma, toda vez que nos reunimos para ensaiar, gravar ou fazer turnês, é como se não tivesse passado tempo nenhum.

TMDQA!: Algo que sempre me surpreende é como os discos de vocês sempre parecem ser uma experiência “completa”. Eles parecem ter um começo e um fim, mas também são tão diferentes entre si. É algo que vocês costumam decidir quando estão compondo?

Davey: Obrigado. Esse é realmente o resultado da quantidade de músicas que escrevemos em cada período dedicado em focar a um álbum futuro em particular. Durante esse processo, a gente não tem nenhuma direção específica nem nos colocamos qualquer tipo de restrição. Nós procuramos qualquer coisa que possamos achar criativamente interessante.

Como resultado disso, a gente inevitavelmente cria um grande escopo de trabalho bastante variado. Nós então compilamos um grupo de músicas que sentimos que sejam tanto coesas quanto representativas de como somos naquele momento. Inevitavelmente, isso faz com que nossos discos sejam diversos.

TMDQA!: Queria falar um pouco sobre “Dulcería”, que foi co-escrita pelo Billy Corgan, do Smashing Pumpkins. Ela surgiu quando vocês estavam em turnê juntos? Como foi essa experiência pra vocês, tanto a parte da turnê quanto escrever algo juntos? Vocês já tinham uma amizade, né?

Davey: Eu conheci o Billy primeiro através do nosso amigo em comum Tommy Lipnick [produtor e engenheiro de som], que é uma lenda também. No entanto, bem antes de [Billy] nos convidar para uma turnê, ele se ofereceu para escrever com o Jade.

Eles começaram em uma época em que eu e o Jade tínhamos começado a escrever o Bodies, então o plano se tornou colaborar em algo para o nosso disco que estava por vir. Como banda, nós ficamos pra lá de empolgados em colaborar com um dos maiores compositores da nossa geração. Durante a sessão, eu assistia ao Billy e o Jade trocando riffs um com o outro; o Billy com um baixo, o Jade com a guitarra, enquanto o Billy escrevia as linhas principais.

Depois de duas sessões, o Jade pegou alguns momentos empolgantes de cada e construiu o que viria a ser “Dulcería”. Ele mandou a faixa compilada pra mim e eu escrevi a letra por cima da ótima linha de cima do Billy. Foi uma experiência ótima. “Dulcería” é uma das minhas músicas preferidas do AFI.

TMDQA!: Várias das músicas desse disco prometem ser sensacionais ao vivo. É algo que vocês têm em mente quando escrevem? Como está a empolgação para ver as pessoas indo à loucura com essas novas músicas?

Davey: Quando o AFI começou, escrever discos era basicamente uma forma de permitir aos fãs que, essencialmente, estudassem para os shows. A experiência ao vivo era a nossa verdadeira aspiração. Apesar do meu processo de composição e das minhas aspirações artísticas terem mudado bastante desde que eu tinha quinze anos, eu ainda mantenho essa aspiração fundamental.

A experiência ao vivo é o que me faz olhar pra frente e eu sempre tenho essa visão, mesmo que subconscientemente, sempre que eu estou escrevendo. Eu mal posso esperar para uma experiência ao vivo do Bodies.

TMDQA!: É estranho dizer isso, mas já se passaram quase 15 anos desde que eu joguei Guitar Hero e descobri vocês através de “Miss Murder” — e estou aqui como fã desde então. Quão importante foi essa música e esse jogo pra vocês? Vocês acham que realmente ajudou a construir uma base de fãs ou foi uma coisa mais do momento?

Davey: Eu acho que a maioria de nós parou de jogar videogame nos anos 80, talvez no começo dos anos 90, mas nossos empresários nos informaram sobre o poder de alcance do Guitar Hero. Foi durante essa era que o boom dos videogames estava introduzindo músicas às pessoas da mesma forma que a rádio tinha feito tradicionalmente.

Então quando nos foi oferecida a oportunidade da nossa música ser tocada no jogo, nós aceitamos com um sorriso no rosto. “Miss Murder” foi o nosso primeiro e único hit a atingir o topo das paradas. Por esse motivo, ela atraiu mais pessoas ao AFI do que qualquer outra canção.

Eu sinto que a maioria das pessoas que entraram através dessa música se tornou uma base de fãs passiva, mas alguns, como você, se relacionaram profundamente com o que fazemos. Nós apreciamos ambos os grupos mas são aqueles que estiverem lendo isso agora que têm o nosso maior carinho.

 
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