Mali
Foto por Rema Chaudhary
 

Diretamente da Índia — um dos países mais afetados pela pandemia — vem uma luz de esperança em meio aos tempos mais sombrios que vivemos: o disco Caution to the Wind, da excelente cantora Mali.

Com forte influência do Pop dos anos 90, mas fazendo uso de um grande entendimento musical que lhe permite ressignificá-lo da forma que quer, a cantora e compositora entrega um dos trabalhos mais interessantes de maneira independente, algo que é parte importantíssima de sua identidade artística.

Com seu começo na banda Bass-in-Bridge, Mali tem intimidade com arranjos instrumentais poderosos e já tem quase 10 anos de carreira — apesar de ter apenas 27 de vida. Também já trabalhou em filmes da indústria cinematográfica indiana e se apresentou em palcos lendários pelo mundo, como o estádio de Wembley em Londres e o Le Zénith, de Paris.

O reconhecimento tem vindo de outras formas também: o Spotify aposta na artista em seu programa Global RADAR, tendo selecionado a indiana para uma parceria especial. Mais ainda, a Forbes India a elegeu como uma de suas personalidades “30 Under 30”, ou seja, uma das 30 mais influentes abaixo dos 30 anos de idade.

Com tanto a dizer, não podíamos deixar passar a oportunidade de bater um papo com a cantora e conhecer um pouco mais sobre sua trajetória e sobre o ótimo Caution to the Wind. Confira essa conversa na íntegra abaixo!

TMDQA! Entrevista Mali

TMDQ!: Oi, Mali! Obrigado por tirar um tempo para falar com a gente e parabéns pelo novo disco, que está sensacional. Ele tem toda uma atmosfera mais esperançosa e é bem contagiante, então eu queria começar te perguntando o que te inspirou a ter tanta esperança nesses tempos tão difíceis que vivemos?

Mali: Muito obrigada! Eu penso em mim mesma como sendo uma pessoa bem otimista, mas nos últimos anos tem sido cada vez mais difícil permanecer dessa forma. Eu acho que desenvolvi um senso de humor bem sombrio sobre isso e agora eu me chamaria de “otimista racional”.

Em tempos como esses, eu acredito que uma luz que pode nos guiar é a esperança e o meu objetivo com esse álbum foi não só de falar sobre todas as coisas negativas e o sofrimento mas também oferecer através das letras e da música um pouquinho de esperança para as pessoas poderem pensar sobre.

TMDQA!: Minha música preferida do disco é “Age of Limbo”, que soa muito épica e ao mesmo tempo bem relaxante. Isso, pra mim, representa bem a dualidade desse disco. Qual a história por trás dessa canção?

Mali: Que bom saber disso! “Age of Limbo” foi na verdade a última música que eu escrevi para o disco e foi inspirada por um episódio de Conan Without Borders em Israel. Eu lembro de uma cena onde o apresentador Conan O’Brien estava tendo uma conversa com as tropas israelenses na fronteira com a Síria e você poderia ouvir através do vídeo que as bombas e as armas atirando estavam acontecendo no fundo.

Eu achei isso bem perturbador e pensei sobre isso por dias até que escrevi a música. Eu sabia sobre o que eu tinha que escrever mas eu não tinha um bom ponto de início para o verso. Eu tenho uma pasta com anotações no meu celular com ideias aleatórias de letras que eu guardo para dias nublados e naquela lista eu encontrei o que viria a ser a primeira linha da música: “Like a deer in the headlights, I’ve come under attack” [“Como um veado ao ver os faróis, eu sofri um ataque”].

Encaixava perfeitamente e aí depois daquilo o resto da música só fluiu! Eu não tinha ideia na época que essa música viraria uma espécie de hino do lockdown em Maio de 2020 quando eu a lancei como single.

TMDQA!: Musicalmente, esse disco tem muita coisa e eu acho muito interessante como as partes da voz se encaixam tão bem com todos os instrumentais, mesmo quando eles são mais detalhados como em “Sitting on the Fence”. Você acha que ter feito parte de uma banda antes da carreira solo te ajuda com isso?

Mali: Com certeza. Por mais que eu seja uma vocalista, eu amo escrever de um ponto de vista rítmico. Eu escrevi a maioria das partes de bateria nesse álbum e “Sitting on the Fence” é uma das que eu mais me orgulho.

Eu queria que o groove fosse em 6/8 mas não o tipo de groove 6/8 que alguém já tivesse ouvido antes. Eu programei no Ableton [software de gravação musical] e mostrei ao meu baterista para que ele tocasse na gravação final. Ele achou bem desafiador no começo mas agora eu acho que é a música preferida dele pra tocar!

TMDQA!: Você tem feito música por tanto tempo que é fácil esquecer quão jovem você ainda é. Você sente que ainda está experimentando com novas coisas e ainda há muita coisa diferente por vir?

Mali: Todo dia pra mim é uma nova aventura. Quando eu saí do meu emprego para fazer música em 2016, eu não tinha ideia de que cantar e escrever músicas era só uma pequena parte do trabalho. Há tanta correria e planejamento que acontece por trás das câmeras e eu faço tudo sozinha, sem sequer um empresário ou uma gravadora.

Até musicalmente, como todo projeto que eu faço, eu tenho uma nova série de lições que eu aprendo e uma nova série de habilidades para sair com. Eu sempre tento manter as coisas interessantes dizendo sim para projetos novos, mais “diferentões” porque você nunca sabe o que está esperando por você logo fora da sua zona de conforto!

Cinema e outros projetos

TMDQA!: Outra coisa que você faz bastante é música para filmes, e obviamente a indústria indiana é bem grande. Você não tem feito isso há um tempo, no entanto! Você sente falta disso ou por enquanto está totalmente focada na carreira solo?

Mali: Eu não trabalhei muito na indústria de Bollywood, mas eu trabalhei na indústria cinematográfica do sul da Índia, predominantemente na indústria de Tamil — Tamil é a língua falada na região da Índia onde eu nasci.

Eu majoritariamente trabalhei como vocalista e só mexi um pouquinho com composição e arranjo. Eu gosto de fazer alguns projetos de cinema ocasionalmente como um desafio e também como uma forma de pagar as contas, mas no fim das contas meu coração está com a minha carreira solo independente nesse momento.

TMDQA!: E por fim, você apareceu recentemente no 30 Under 30 da Forbes e está com uma parceria com o Spotify para um projeto super legal. Quão importantes foram essas conquistas pra você? Você pode contar um pouco mais sobre os próximos passos nesses projetos?

Mali: Acima de tudo, esses prêmios são uma baita injeção no braço para artistas independentes que estão surgindo agora como eu. Me encorajam a trabalhar mais ainda e ir além dos limites com confiança.

Mais ainda, definitivamente cria um conhecimento ao redor de uma enorme quantidade de pessoas de diferentes lugares, não só na indústria musical, para que elas percebam o que fazemos como artistas independentes. Não estamos só escrevendo e lançando músicas, estamos inspirando um movimento.

   
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