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Foto por Gabriela Schmidt

Duda Beat tem pouco tempo de carreira mas já é uma das mais importantes artistas brasileiras.

Em 2018, ela lançou seu primeiro disco de estúdio, Sinto Muito, e de lá pra cá colocou muita gente pra dançar e sofrer ao mesmo tempo, com canções de ritmos contagiantes que falam sobre amor, desencontros, términos e lhe garantiram o título de “Rainha da Sofrência”.

Nesses últimos três anos, Duda Beat colaborou com nomes como Anavitória e Tiago Iorc, e em 2021 resolveu lançar seu segundo álbum, o ótimo Te Amo Lá Fora.

Artista do Mês TMDQA! em Maio, ela deu uma entrevista exclusiva ao editor-chefe do site, Tony Aiex, e falou sobre influências do álbum, o que tem feito na pandemia, passado, presente e futuro.

Você pode assistir ao papo no vídeo logo abaixo, bem como ler a transcrição na sequência.

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Vem com a gente curtir esse pisêro!

TMDQA!: Olá, pessoal, sou Tony Aiex e estamos de volta com o Artista do Mês aqui no Tenho Mais Discos Que Amigos. É uma honra ter a Eduarda Bittencourt Simões — até tive que dar uma coladinha aqui no nome -, mas é óbvio que você a conhece como Duda Beat, a nossa artista do mês de maio de 2021. Duda, muito obrigado por estar participando. Vamos falar bastante sobre essa tua nova era, nova fase.

Duda Beat: Obrigada vocês pelo convite, gente. Muito legal estar aqui trocando essa ideia. Tô feliz!

TMDQA!: Ah, que massa! Bom, queria começar obviamente pelo marco que nos trouxe até aqui, que é o seu novo disco, Te Amo Lá Fora. Seu segundo disco de estúdio, que inclusive você fez questão de lançar em uma data bastante especial. A indústria da música toda fala que tem que ser lançado na sexta feira, assim como os gurus, as gravadoras… e você lançou o disco numa terça-feira, dia 27 de abril, para justamente marcar três anos desde o começo com Sinto Muito, que te colocou no mapa de um jeito pra lá de especial. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso. De lá pra cá, o que aconteceu na tua vida e na tua carreira até chegar no “Te amo lá fora”.

Duda: Olha, muita coisa aconteceu. Eu, o Lux e o Tróia (produtores) e a banda toda, a gente acabou ganhando nesse meio tempo uma super experiência de palco, de voz, de produção. Então acho que tudo, de certa forma, amadureceu nesse tempo, né. Eu fiz alguns feats também, isso acabou me agregando muito. Conheci muitas pessoas e vi que, eu, como artista, poderia passear em diversos gêneros diferentes. Isso foi super legal, então muita coisa aconteceu, muita coisa boa. No Sinto Muito existia uma confiança do primeiro disco — porque um primeiro disco não é algo que as pessoas estão esperando. Você está lançando pela primeira vez, então a expectativa dos outros sobre você é diferente, né. E aí nesse segundo disco já tinha uma expectativa muito grande do público de querer ouvir, mas eu acho que foi um lançamento muito legal, muito feliz. Como você falou, foi no mesmo dia que lancei o Sinto Muito, há três anos, em 27 de abril. Acabou que a gente estava tentando entender qual seria a melhor data e teria que ser mais para o final de abril. Dei uma consultada no céu, porque eu sou dessas (risos).

TMDQA!: A resposta foi boa dessa consulta? (risos)

Duda: Foi muito boa! O horário das oito e meia, que foi quando saiu em todas as plataformas digitais, era um horário muito bom. Eu confio totalmente no universo e vamos nessa! Vamos repetir essa data tão simbólica.

TMDQA!: Que legal. Além disso, tem uma outra questão, já que estamos falando sobre indústria, estratégias e tudo mais, que é o tal do “lançar ou não um disco na pandemia”. E você optou por fazer isso. Infelizmente, a pandemia está longe de acabar no mundo e no Brasil, especialmente, então queria saber como foi essa sua decisão.

Duda: Muito boa sua pergunta, porque foi uma decisão muito difícil sim. Desde que lancei o disco em 2018, eu tinha na minha cabeça essa coisa de lançar um álbum a cada dois anos. Então esse era pra ter saído em 2020, mas por conta da pandemia, a gente parou e pensou um pouco mais. Esse disco foi todo feito durante a pandemia. Fiz meu último show no dia 7 de março,em João Pessoa, e eu já estava com planos de tirar 20 dias com meus produtores e com as meninas da banda pra poder fazer uma imersão para esse trabalho. E aí a minha previsão era, “boa, vou lançar o disco mais para o final do ano”. Só que, enquanto isso, a gente percebeu que estava rolando essa pandemia no mundo todo de fato. Isso de certa forma não está nas minhas letras, mas me impactou completamente. Eu venho com um segundo disco muito mais melancólico e dark, né. Não só pelas letras, mas também pelo clima que estava no momento.

Voltamos de lá com quase todas as músicas feitas, principalmente a minha parte nas letras e melodias. Mas os arranjos todos foram feitos durante o ano, e confesso que fiquei muito tempo pensando se valeria a pena lançar o disco durante a pandemia… Vi o que aconteceu com os outros lançamentos da galera que eu conheço. Fiquei muito reticente, principalmente pelo fato de achar que as coisas que eu estava falando no meu disco não eram suficientes, sabe. Tamanha era a dor das pessoas e o medo de perderem seus entes queridos. E aí me lembro que, nesse pensamento, eu falei: “Cara, mas hoje meus fãs querem muito isso. E eu colocando este disco no mundo vou levar um pouco de amor e alegria para a casa dessas pessoas.” Pessoas que me tratam tão bem, que são tão carinhosos comigo… eu também quero devolver esse carinho aí.

Aí lançamos. Não deu pra ser ano passado e eu também acho que tudo tem um tempo. A gente acabou finalizando no início do ano, aí mandamos para o mix e master, e saiu no dia que tinha que sair, no momento certo. A galera está adorando o disco, né. E o segundo disco ainda tem isso da responsabilidade. “Será que ela vai manter a mesma coisa? Será que ela vai fazer outra coisa?” Eu acho que é um momento muito crucial como artista. O segundo disco é um momento de muita auto cobrança, porque eu queria entregar um trabalho legal. Mas acho que a galera está curtindo e eu estou muito, muito feliz com o resultado. Tudo que está ali eu gosto, acho que é isso que importa.

TMDQA!: Com certeza absoluta. E no mundo do pop ainda tem uma outra questão, que é a tal da nova fase. Em outros gêneros isso nem é tão cobrado esteticamente. No mundo pop ainda tem isso aí. Se o segundo disco tivesse uma estética parecida ao primeiro, acho que teria menos peso, mas você foi por um lado completamente diferente. Inclusive você cuida muito disso, né. Como é esse cuidado com a parte estética pra alinhar com um lançamento musical? Porque é muito parecida a porcentagem entre o estético e o musical em um disco, você não acha?

Duda: Sim, acho muito. E eu sempre falo em todos os lugares, em todas as entrevistas o quanto eu dou valor ao trabalho colaborativo. Eu sou essa artista que toda hora quer colocar em evidência as pessoas que me ajudam, sabe. E essas pessoas são minha família. Então eu estou cercada dos bons, eu sou muito honrada em trabalhar com todos eles. Quanto à estética, eu tive um encontro muito lindo com o Leandro Porto, mais ou menos um ano depois do Sinto Muito. Ele é meu stylist e conseguiu traduzir muito bem as coisas que eu falava no primeiro disco. Porque ele foi isso, né? Mais iludido, mais romântico. E nesse segundo álbum eu me sinto mais desiludida e me sinto mais pé no chão, encarando esse lado mais sombrio do amor que não é muito abordado. De fato tem a sofrência, mas com um lado sombrio, um rancor, como se fosse um desabafo mesmo. Então ele soube muito bem acompanhar essas minhas fases, e claro que a gente conversa muito. A gente tem uma parceria muito linda, e eu confio muito nele. E aí, para o segundo disco, a gente traz também o Marcelo Jarosz, que é meu diretor criativo, e também foi um encontro maravilhoso que vem aí com essa estética.

Eu sempre fui uma artista que considera o visual muito importante. Eu me lembro que uma das primeiras entrevistas que eu dei na minha vida, eu falei sobre isso. ‘No dia que eu puder, vou entrar no palco que nem um bolo de casamento, um bolo de festa’. (risos) Acho que é isso, né. O lugar do palco é o lugar onde a magia acontece em todos os sentidos, e onde a gente pode ser quem a gente quiser. Então sempre respeitei muito isso. Eu acho que a roupa tem que conversar com o que se fala na música, se isso é uma extensão na minha arte. Não deixa de ser. E sobre as porcentagens que você me perguntou… eu acho que uma coisa leva a outra. Eu acho que a partir das letras que eu crio e da sonoridade que os meninos trazem, a gente acaba dando bastante material para o Marcelo e para o Leandro trabalharem na parte criativa, na parte do visual. E é muito importante o visual, porque já me vi em situações de tocar em diversas cidades e as pessoas estarem com a expectativa sobre o meu look. Então acho que é meio a meio. Em Palmas, da última vez que estive lá, fui entrevistada e me perguntaram sobre a roupa, porque todo mundo estava curioso (risos).

TMDQA!: Não dá para entregar antes também (risos).

Duda: É um momento muito especial. Você não imagina como estou sentido falta de shows.

TMDQA!: Pois eu ia falar isso. Você falou no papo anterior sobre a decisão de lançar ou não o disco. Isso deve ter pesado muito para você, que é uma artista de palco. Lógico que tem músicas e vídeos incríveis já com uma discografia curta, mas os shows te fizeram uma artista ao vivo e isso é muito forte.

Duda: Muito, muito, muito. Imagina para mim, essa é a parte mais legal do meu trabalho, sendo muito honesta com você. A parte que eu me jogo é o meu show, a parte que eu olho para as pessoas que estão lá, para os meus fãs, que a gente canta junto e a gente se diverte. Tem vezes que eu saio do palco e nem lembro. Parece que aconteceu uma catarse, é uma coisa que eu não lembro nem o que aconteceu direito. Eu saio do palco e penso, “Caraca, foi tudo isso”. Então pensei muito sobre isso, sobre esse lançamento sem show. Não tem como negar que para qualquer artista que faz um lançamento agora, é diferente. Pra mim principalmente, porque eu trabalho melhor as músicas no show. E vale aqui esse momento para exaltar o trabalho de vocês. Estou sendo muito verdadeira no que estou falando, porque é graças a vocês que a minha música e meu disco e o meu nome estão indo para vários lugares. Eu tenho muito, muito a agradecer por todas as oportunidades de entrevista, de um bate papo assim legal no final da tarde. É muito bom pra mim, porque é como a gente está divulgando o disco agora.

TMDQA!: Que massa, e é muito bom tê-la aqui também! Um amigo meu falou esses dias que ele estava até com saudade de turbulência de avião (risos).

Duda: Eita, isso eu não tô com saudades não (risos).

TMDQA!: Mas o lado bom disso é justamente esse tipo de troca, que não era mais tão frequente. Em backstage, por exemplo, a gente teria dez minutos, limitação de local… então uma coisa boa que veio neste momento é essa troca, e eu também te agradeço por isso. Eu queria voltar no assunto das tuas letras, já que você falou sobre melancolia e tudo mais. Uma coisa que você precisa ter e trabalhar muito, imagino eu, é maturidade para falar de tudo isso. Uma coisa é você pensar todas essas questões, outra coisa é você gravar uma música que tem um milhão e meio de plays. Queria que você falasse um pouquinho sobre esse processo de autoconhecimento e de maturidade mesmo.

Duda: É muito especial, mas eu acho que todos os meus discos são etapas de cura para mim. Eu encaro eles muito como uma terapia, no sentido de colocar para fora, desabafar. E saber que, de certa forma, as pessoas escutam essas músicas e se identificam, pensando “Poxa, eu também sinto isso, não estou sozinha”. Eu acho que esse é o significado do sucesso. Quando alguém escuta sua música ou vê sua arte, e aquilo mexe ao ponto de mudar alguma coisa ali dentro do coração, sabe. Acho que isso é muito importante, e é assim que eu relato minhas experiências tão minhas. Eu costumo brincar que além de tudo é um alívio, porque eu acabo dividindo o que eu passei. Eu só aumentei a quantidade de pessoas que eu falo sobre isso, porque em todos os momentos onde eu estava sofrendo, eu tinha as minhas amigas que me consolaram e que me deram uma palavra de amor, de carinho naqueles momentos de tristeza. Então só aumenta a quantidade de pessoas que eu falo agora e que falam comigo também, que vem até mim e diz o quanto essa música a ajudou no final de um relacionamento. A palavra pra mim é cura. Faz parte da minha cura, e não só da minha, da dos outros. Então isso para mim é um serviço também.

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TMDQA!: Você fala sobre relacionamento em geral, sobre términos e rompimentos, mas também fala sobre outras coisas. Você até adota uma postura de “não quero comigo o que me fez mal, não é isso que eu quero para mim”. E aí você ganhou esse título de rainha da sofrência, que se espalhou muito por conta desses novos amigos com quem você compartilha suas experiências. Você acha que vai manter esse título? Ou essa é realmente uma nova fase?

Duda: Eu acho que a sofrência continua e faz parte das nossas vidas, né. Ninguém é feliz o tempo todo e eu acho que passei mais tempo triste do que feliz com relacionamentos. Desde a adolescência eu me apaixono por caras que não me dão valor ou que não querem ficar comigo. Te confesso que amor mesmo eu encontrei há cinco anos, com o Tomás. Muita gente me pergunta, “Poxa, hoje em dia você está feliz no amor e você ainda escreve sobre isso?” Eu sempre falo, “Ow cara, eu tenho muita coisa para falar sobre a vida” (risos). Foram no mínimo dez anos ou mais me apaixonando por pessoas que não queriam ficar comigo, então é doloroso acessar essas memórias muitas vezes. Acho que no primeiro disco era mais doloroso. Eu acho que o título de Rainha da Sofrência de fato se consolidou nesse primeiro trabalho, porque era mais doloroso. Hoje em dia ainda existe a sofrência, tem músicas como “Mais Ninguém”, onde eu estou extremamente dramática e desabafando e me declarando, né. Mas tem também “Meu Pisêro”, que eu tô muito madura e rola uma reviravolta ali no final. E isso veio muito do tempo. O tempo é realmente o senhor da cura e das coisas. Eu acho que só consegui escrever esse segundo disco porque eu me distanciei de fato dessas relações e consegui enxergar com outros olhos as que não deram certo, sabe. Então eu acho que eu sempre vou falar sobre isso. Pode ser que daqui a pouco eu comece a escrever sobre outra coisa, sei lá, sobre conselhos, que eu tenho sentido muito a necessidade de escrever. Sobre relacionamentos que deram certo. Senti muito essa necessidade. Principalmente porque estou vivendo um relacionamento no qual eu estou feliz, mas eu tenho também muita necessidade de escrever sobre os conselhos que eu dou para as minhas amigas. Eu me vejo a todo momento aconselhando e sendo uma melhor amiga. Mas ainda tenho muito o que escrever sobre relacionamentos ruins. Acho que era importante também trazer esse lado sombrio nesse disco e acho que é por isso que ele saiu assim.

TMDQA!: Você falou do Tomás e era um tópico que eu queria abordar aqui. Para quem não sabe, Tomás Tróia é teu companheiro há cinco anos. É bom saber que é um relacionamento tão incrível, sempre vejo as fotos de vocês no Instagram e sempre tem muito amor transbordando. Inclusive, Tomás Tróia foi integrante de uma das bandas favoritas aqui da casa, o R. Sigma, um dos grupos nacionais e independentes mais incríveis dos últimos anos. Pena que acabou, fica a dica aí, Tomás! Mas com você, ele não é o único produtor, é uma dupla que produz seus discos, certo? Queria saber como é isso pra vocês, ainda mais nesse mundo de agora que vivemos 24 horas no mesmo lugar, conectados. Como é pra vocês trabalharem juntos há cinco anos com arte, que é um ambiente tão propício a tretas? (risos)

Duda: Olha, eu conheço Tomás desde os 13 anos de idade, desde a R. Sigma. Eu sempre morei em Recife, mas minha tia mora aqui e o Gabriel, meu baterista, é filho dela, então eu sempre vinha pra cá nas férias. Eu cresci junto com eles, com Diogo Strausz, com Castelobranco, com Erick, todos eles eram meus super amigos. Então conheço Tomás há muito, muito, muito tempo. Antes da gente ter um relacionamento, a gente era muito amigo. Acho que isso foi um divisor de águas no nosso relacionamento, porque a gente sempre teve muita intimidade, a gente cresceu unindo as nossas referências — eu sempre escutando tudo o que saía do meu Pernambuco e ele mais nas bandas indies, Los Hermanos e tal. Então acho que é uma junção de mundos muito linda. Acho que ele é também o fã número um do João Gilberto, tanto que as harmonias que ele faz nas minhas músicas são muito do samba. Então eu acho que é uma junção de mundos muito interessante, né. Trabalhar com ele é ótimo. É muito tranquilo, de boa. Às vezes estou aqui no quarto, tenho uma ideia e aí vou lá no estúdio e canto um pedaço pra ele. Ele já faz no violão as harmonias, a gente já grava no celular e deixa lá. Mas é muito tranquilo trabalhar com ele e com o Lux também. Eles são muito bons e são exigentes. Às vezes a gente grava várias vezes até ficar bom, e até por isso eu faço aula de canto até hoje. É muito importante, tem que sempre trabalhar esse músculo da garganta. Às vezes até rola um estresse na hora de gravar a voz. “Mô, não tá muito bom, repete aí de novo”. Aí agora quem grava a minha voz é o Lux (risos).

TMDQA!: Identificaram um possível ponto de crise (risos).

Duda: Mas ainda é muito tranquilo. Até nos arranjos, eu às vezes dou minhas ideias e eles escutam com muito amor, a gente testa tudo. É uma comunicação muito aberta, sem medo de ofender. Eu acho que esse é o maior segredo. A gente trabalha muito bem porque ninguém se ofende com nada. Essa é a parte boa, sabe?

TMDQA!: Aliás, várias partes boas, né (risos). Você já falou aqui dos shows, do estúdio, das entrevistas. Acho que não tem parte ruim, né, Duda?

Duda: Não tem (risos). Quando a gente trabalha com o que ama, até tem algumas partes ruins, mas é besteira.

TMDQA!: Você falou isso das influências e conecta com o que eu quero abordar. Você é uma artista que rapidamente estourou muitas bolhas. Então se você teve um comecinho no indie e no alternativo, já não é mais.

Duda: Eu não acho que eu sou tudo, viu. Acho que ainda sou indie também (risos).

TMDQA!: Com certeza absoluta é indie, acho que você é tudo mesmo. Mas queria perguntar desse background que você citou, de ouvir muitas coisas diversas. Acho que isso te possibilita a chegar a públicos diversos também. Você acha que tem a ver?

Duda: Acho que tem tudo a ver, né. Eu até brinco que quem tem referência tem tudo (risos). Tenho muitas, porque meu passeio musical é muito vasto. Ainda pequenininha eu ouvia Grunge com meu pai. Meu pai é super fã dos cantores de Seattle.

TMDQA!: (Tony aponta para o disco “Ten”, do Pearl Jam, ao fundo) É, olha aí!

Duda: Esse disco aí eu sei as letras decoradas! Meu pai era colecionador de disco, então ele colocava o Ten do Pearl Jam, colocava Soundgarden. Eu sou muito apaixonada por todas essas bandas, então a minha primeira referência musical é isso. Também é Paul McCartney e Elton John, foi o que comecei a ouvir em casa. Aí no caminho para a escola, minha mãe já tocava Adriana Calcanhotto, Marisa Monte. Então eu ouvia muita coisa, inclusive nos carnavais de Recife — frevo, maracatu, os blocos líricos com a minha avó. Então é muita coisa. No São João eu ouvia forró, no programa do meio-dia era brega. Eu estava cercada de música em todos os lugares. Aí nos domingos, na casa da minha avó, estavam meus dois tios com violão tocando todos os sambas. Era uma família grande e festiva que estava sempre com música em casa. Eu fico muito feliz de ter crescido nesse ambiente tão musical, tão rico musicalmente. E tem também o pop lá de fora. Eu sou da época que tinha que gravar na fita a música que eu gostava quando tocara no rádio.

TMDQA!: Somos dois. Gravava vários VHS na MTV.

Duda: Exatamente! Aí o radialista às vezes no meio fazia uma propaganda (risos). Toda vez que ouvia a música, ouvia a propaganda. Eu cresci ouvindo muitos ritmos, e o Tomás também. Então quando rolou essa junção de mundos, a gente teve um problema de abundância, e é isso que você percebe nas minhas músicas. Do nada vira outra coisa. Você tá lá ouvindo um reggae e do nada vira um xote. Às vezes os meninos estão produzindo e eu falo, “Podia virar outra coisa aí no meio, né?” (risos). É muito essa vivência e crescer ouvindo tudo.

E lá em Recife tinha uma festa, que era um carnaval fora de época, e se chamava Recifolia. Passava Ivete no trio, Chiclete com Banana. E os shows que eu ia em Recife eram Ivete e O Rappa, então não tinha essa coisa.

TMDQA!: E é interessante perceber que essa mistura acontece muito mais fora dos grandes centros, né, até por questão de logística do público mesmo.

Duda: É isso aí. Eu sinto que esse negócio meu de conversar com diversos públicos é muito sobre isso. É realmente o que eu escuto na minha playlist, é o que está ali. E eu acho que ninguém gosta de um negócio só, né. Acho que todo mundo gosta de ouvir vários gêneros, e eu sou essa pessoa, então isso é muito honesto. É uma loucura louca, assim (risos).

TMDQA!: Boa expressão. A gente vê isso com bons olhos, é claro, mas também há uma linha muito tênue. Ainda mais falando de mercado, é difícil ter um caldeirão de influências e aí definir o que é Duda Beat. Então como faz pra se definir como essa pessoa que faz de tudo?

Duda: Eu acho que o que dá laço em tudo é a narrativa. A gente sempre fala muito disso aqui em casa, e teve uma música que não entrou no disco por causa disso. Não entrou porque a gente achou que o arranjo que a gente tinha feito lá atrás não cabia bem, não servia a canção. A gente sempre se pergunta se o arranjo está servindo a canção. Eu normalmente boto a minha narrativa em primeiro lugar, porque além de cantora pop, eu sou uma cantora de sofrência, que fala de amor. E a música é feita de letra e melodia, mas o que toca é a letra, né. Então eu sinto que a narrativa é o que dá laço. Acho que eu posso ser considerada como pop, porque pop é isso, e você está falando ali de diversos gêneros também. Tento ver por esse lado positivo de “Poxa, esse disco dá pra entrar em várias playlists. Que massa.”

TMDQA!: Que legal, e você acabou de responder a pergunta que eu tinha anotado aqui para fazer. O que é a música pop pra você?

Duda: Eu acho que a música pop é conversar com vários públicos, né. É através da sua narrativa que você toca as pessoas. É aquele refrão que toca no fundo da alma. Tudo isso misturado. Acho que o gênero cumpre esse papel de ouvir MPB e ouvir Beyoncé, e achar foda. Isso toca o coração das pessoas. O pop é isso.

TMDQA!: Eu lembro que quando eu era moleque, o que mudou minha vida foi o tal do pop punk. Que foi a galera pegando o punk e colocando refrão, deixando mais acessível. Aliás, você sabia que o plural de refrão é refrães ou refrãos?

Duda: Não é refrões?

TMDQA!: Não, refrões é o mais popular e é errado.

Duda: É errado? Caraca… No outro dia fiz uma entrevista com o Pedro Bial e me corrigi depois de falar refrães. Então eu tava certa!

TMDQA!: Em 12 anos de Tenho Mais Discos Que Amigos!, essa foi uma das maiores revelações da minha vida (risos). E também acho que é uma parte importantíssima da música brasileira!

Duda: Também acho! E eu tento simplificar as letras, né. Por mais que eu fale coisas de maneiras diferentes, algumas pessoas já me disseram que eu falo de coisas óbvias de um jeito que elas ainda não ouviram. E fazer um refrão fácil é o que faz o pop ser o que é.

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TMDQA!: Acho incrível e, pra mim, ainda falta muito isso na música brasileira. Parece fácil, mas não é fácil fazer o que você faz. Eu queria perguntar algumas coisas mais específicas do disco, começando pelo nome, que traz várias interpretações. Antes de falar com você, fiquei pensando em mil coisas que “Te amo lá fora” pode significar, principalmente em 2020 e 2021, no mundo online e offline… Não sei se você quer entregar o ouro ou se ainda quer deixar aberto a interpretações, mas fala um pouquinho desse título.

Duda: Olha, “Te Amo Lá Fora” tem todas essas interpretações. E eu gosto disso. Gosto de colocar nomes que abrem interpretações, como por exemplo “Sinto Muito”. Muita gente vinha me perguntar sobre isso, mas é um “sinto muito” porque acabou. Eu gosto desses nomes que são meio assim. A história do “Te amo lá fora” é muito engraçada. Quando eu era criança, eu era muito fã da Thalia. E me lembro que eu pedi ao meu pai para comprar um CD da Thalia pra mim. Eu assistia a Maria do Bairro, Maria Mercedes, Marimar… eu era muito fã da Thalia. E aí o meu pai comprou o disco e fiquei ouvindo muitas vezes, quase quebrei (risos). Me lembro que ela veio no Programa do Gugu quando estava muito bombada aqui no Brasil. E a galera louca por ela. E aí, se você procurar esse vídeo no YouTube você acha… mas o Gugu diz pra Thalia que o Brasil todo a ama, e ela fala “Te amo Brasil”. Só que aí, uma baita galera não coube no auditório e ficou lá fora, então o Gugu disse ‘Vamos ver as câmeras lá de fora, todo mundo te ama’. E ela falou, “Te amo, lá fuera”. (risos) Essa frase grudou em mim, eu guardei. Aí estava tentando decidir como vai ser o nome do disco… Sei lá, a última coisa que a gente decide é o nome do disco, né, geralmente tiro de alguma letra. E aí me veio essa frase na cabeça, “Te Amo lá Fora”. E aí eu falei, “Cara, vai ser isso, te amo lá fora tem tudo a ver com o que eu quero dizer.” É sobre os relacionamentos que passaram na minha vida. Aprendi coisas com eles e eles aprenderam coisas comigo. Então foi uma super troca. Eu não acho que o amor por alguém importante que passa pela sua vida simplesmente acaba. Eu acho que ele se transforma. Isso é uma coisa que sempre tive dentro de mim. Você não deixa de amar a pessoa se ela foi importante na sua vida. Então eu continuo te amando, mas te amo lá fora, te amo distante. É sobre isso.

TMDQA!: Que legal e que história, obviamente eu não imaginava. (risos) Outra coisa que queria te perguntar a respeito do disco é sobre participações especiais. Eu conheci a Cila do Coco por causa da primeira faixa do teu disco, e também tem um rapper baiano que eu também não conhecia, chamado Trevo. E o hip-hop é um dos estilos mais produtivos e inventivos da última década, não sei se concorda comigo. E eu queria saber especificamente sobre esses dois nomes. Como surgiu a ideia de tê-los e de gravá-los no disco?

Duda: Sobre a Cila do Coco, a gente tinha essa vontade de fazer um maracatu com coco. Primeiro para homenagear minha terra. Eu senti muito essa necessidade. Cresci ouvindo Nação Zumbi, Chico Science, então queria muito botar um maracatu no meu no meu álbum. Isso foi uma coisa que surgiu na noite dos tambores silenciosos, quem é de Recife vai saber o que eu tô falando. Quem não é também acho que sabe, é uma noite super conhecida e super tradicional do Carnaval de Recife, que homenageia os tambores. Então é um ritual muito bonito que acontece. E no último carnaval eu toquei em Recife e eu tive que ir embora, porque eu tive que fazer uma participação no Maranhão. Então eu terminei de cantar, a gente pegou avião e foi pro Maranhão. Só que a banda inteira ficou, meu primo Gabriel, baterista, o Lucas, o Tomás, as meninas, todos tiveram aquela experiência. E aí no outro dia o Gabriel falou comigo, disse que a gente realmente tinha que fazer um maracatu no disco. E eu já queria muito fazer isso. Então chegou o momento, enquanto a gente estava construindo, eu estava escrevendo a letra na imersão total. Surgiu a ideia de trazer samples para a música e eu na hora pensei na Cila do Coco. Tem um disco dela que eu amo, se chama Cila do Coco e Seus Pupilos. Depois fiquei sabendo por ela que foi em homenagem a Pupillo, da Nação Zumbi. E aí, cara, eu falei que tinha que ser feat com a Dona Cila. Primeiro porque, pra mim, seria uma honra ter Dona Cila no meu álbum, ela é um patrimônio cultural do Pernambuco. E aí a gente ligou para a produtora dela e ela topou na hora. Depois disso, fui lá e conheci ela, foi muito legal e a gente trocou muita ideia, muito bate papo. Ela está comigo também nesse programa do Bial que vai ao ar aí em algum momento, a gente trocando ideia. Ela é muito legal, é uma senhora de 82 anos cheia de vida, cheia de história para contar. Então pra mim foi uma alegria muito grande ela ter aceito, né.

O Trevo eu conheci através de Camila Luíza. Ele tem um disco que se chama “Nada de novo sob o sol”, é um disco que está no YouTube, e é muito bom. A letra é muito boa, a melodia é muito boa, a produção, é tudo nota 10. E ele também fez parte de uma banda chamada Underismo. Quando eu fui fazer um show lá em Salvador, com Pabllo Vittar, eu falei que queria os meninos no palco também. E foi muito bom! Nesse dia, conheci Trevo pessoalmente. Aquilo ficou na minha cabeça, né. E eu já tenho essa música com o Trevo escrita faz muito tempo, desde antes do ‘Sinto Muito’, mas a gente não trabalhou nela. Em 2019, o Lucas e o Tomás começaram a trabalhar na música. Quando eu cheguei lá, eles tinham feito um pagode trap e eu amei. Eu falei, “Gente, é isso”. Esse arranjo serviu a canção. Está perfeito e tem que ser o Trevo. Aí fiz o convite, ele amou e fez a parte dele, a letra e melodia dele.

Eu tô muito feliz com as participações que eu escolhi pro meu disco. Eu queria muito que o mundo conhecesse essas pessoas. A Cila já é veterana, mas eu queria muito que o mundo conhecesse o Trevo, porque eu acho ele muito especial. Fiquei muito feliz que eles aceitaram o convite e o disco é isso aí. Eu fico até emocionada, porque são as duas músicas que tocam meu coração e eu sei que elas fazem toda a diferença.

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TMDQA!: Serviu a canção e serviu o propósito, total. Aliás, isso é uma coisa recorrente no mundo pop e que alguns outros gêneros parecem avessos, que é o feat, a colaboração. E essa ideia funciona muito bem.

Duda: Como você falou, funciona bem e as pessoas conhecem coisas novas também. Eu sou uma apaixonada pelo trabalho colaborativo. Acho que é muito legal essa história de juntar as pessoas pra colaborarem e cantar junto. Foi uma das melhores coisas que inventaram. Você acaba aprendendo muito, né. Todas as vezes que eu cantei com Anavitória, com Pabllo, com Gaby Amarantos é assim. É uma troca muito legal que no dia a dia a gente às vezes nem tem.

TMDQA!: Sem dúvida. E pra encaminhar pro final, queria falar sobre a parte regional específica do disco. Queria que você falasse o que é o tal do Pisêro, porque já encontrei algumas definições aqui, algumas que fazem sentido, outras nem tanto. Já que você popularizou o ‘Meu Pisêro’.

Duda: Se for eu é uma honra! Já tá popular aí no Brasil todo, o Pisêro é uma célula do Forró, né. A galera do interior pega o teclado e acaba gravando tudo ali mesmo. É uma música muito regional, vem do Forró e vem do Baião, é uma célula disso. E tá estourado no Brasil inteiro, né, com Barões da Pisadinha, com Zé Vaqueira, um dos primeiros a fazer isso. Aí eu queria muito trazer também para o disco, o forró marcou minha infância. Já tinha feito ‘Chapadinha na Praia’, também é forró e tal, mas não pisêro assim. Foi realmente uma vontade, um desejo que estava aqui dentro. Eu costumo dizer que ele contagiou o país inteiro e me contagiou também. É gostoso de ouvir. Os teclados são massa. Ia ser só ‘Pisêro’ o nome da música, só que é um pisêro diferente, por isso coloquei que é meu (risos). Existe uma mistura ali no início, é uma coisa mais calma, aí do nada muda e vira o pisêro. Então foi realmente a realização de um sonho. Nesse disco realizei muitos sonhos, incluindo esse do pisêro do jeitinho Duda Beat.

TMDQA!: É legal que você coloca no nome, né? Eu acho que isso é bacana. Você poderia fazer um pisêro e botar qualquer nome.

Duda: Pois é, por isso até eu escrevi diferente, do jeito que a gente fala.

TMDQA!: Então está esclarecidíssimo, o que é o pisêro e o teu pisêro. Bom, sei que é uma pergunta difícil e complicada falar sobre o futuro no Brasil. Mas nós e os fãs queremos saber os próximos passos, conectando até com o fato de você ter lançado um disco na pandemia. O que você vê no horizonte?

Duda: Acho que a primeira coisa que eu quero é a vacina, precisamos dela pra fazer qualquer tipo de plano. Mas confesso que, como músico, a gente faz um disco já pensando no próximo, né? Mas antes de lançar o próximo, eu penso em lançar uns singles mais animados, pra dançar, com parcerias também. Tô com algumas aí à vista que não posso contar. Mas no dia que a gente puder fazer show, vai ser um show lindo. Quero muito realizar um show desse disco, porque um dos maiores feedbacks que eu ouço é, ‘Eu ouço esse disco imaginando como vai ser no show.’ Quero muito realizar o show desse disco, mesmo que eu lance outras músicas. A gente já até começou a pensar em setlist, pra planejar mesmo. Mesmo que a gente não tenha data ainda. E aí, na hora de tirar as músicas do disco anterior a gente já tava sofrendo (risos). Eu sou muito apegada às minhas músicas todas. Acho que o próximo passo é continuar essa divulgação, quero ver se faço live. Quero começar a planejar esse show, mesmo sem data, e lançar singles. Acho que esses são os próximos passos imediatos que a gente pode fazer. Com a vacinação a passos lentos do jeito que está, no Brasil do jeito que está, é muito difícil fazer planos. Mas é isso, trabalhar com o que a gente tem. Quero lançar clipe também das músicas. No dia que rolar esse show, meu filho…

TMDQA!: Uma solução para não tirar nenhuma música é fazer um show de 10 horas de duração, que é o que a galera vai esperar (risos).

Duda: (Risos) Outro dia a gente tava falando… se eu fosse cantar todas, daria quase 3 horas de show. Mas vai dar certo!

TMDQA!: Nossa, nem me fale. Os Estados Unidos estão avançando a passos largos na vacinação e os line-ups de festivais estão sendo confirmados. Setembro vai ser um festival por dia, praticamente.

Duda: Eu vi outro dia que a Europa fez um show também.

TMDQA!: Eles fizeram um de teste, com duas ou três mil pessoas, super controlado e deu certo. Então é a vacina, né, não adianta.

Duda: Acho que o próximo passo é torcer pra todo mundo ser vacinado.

TMDQA!: Pro pessoal trabalhar direitinho e trazer a vacina que o brasileiro merece. Uma última pergunta que não poderia deixar de fazer em nome do nosso site. E aí, você tem mais discos que amigos ou não?

Duda: Difícil essa pergunta.

TMDQA!: Se for contar Spotify, aí…

Duda: Eu acho que tenho mais discos que amigos, tenho sim. Eu gosto de muitos discos, mas amigo mesmo, que tá junto, são poucos. Então tenho mais discos que amigos, com certeza.

TMDQA!: Essa é a resposta mais recorrente, viu? A galera sempre pensa em quem é amigo de verdade. Sem contar que discos também são amigos.

Duda: Muito! (risos)

TMDQA!: Duda, obrigado pelo papo, foi incrível, ficaria muito mais tempo conversando com você aqui. E que venha esse show depois da vacina, estamos preparados pro teu show de 5 horas!

Duda: Com certeza! (risos) Vai ser massa, tô querendo muito. Quero agradeceu ao TMDQA! pela oportunidade, olha que honra ser Artista do Mês! E quero pedir que todo mundo escute meu disco, ‘Te Amo Lá Fora’, foi feito com muito amor e carinho. Um beijo grande!

 
 
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