Jon Batiste
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

Jon Batiste parece um novo homem. Quem o conhece como líder da banda do Late Show de Stephen Colbert, o associa à sua classe ao piano mas também aos sorrisos largos que troca com o apresentador e os músicos que passam pelo programa. Foi ali, no Ed Sullivan Theater, onde Jon teve contato com artistas do mundo todo, fez conexões e onde começou a desenhar o que viria a ser seu quinto disco solo. We Are foi estruturado ao longo de apenas seis dias, durante sessões de longas horas no seu camarim do teatro. E foi gravado entre Los Angeles e Nova Iorque, com uma escala em New Orleans, onde Batiste cresceu como parte de uma dinastia musical, e de onde saiu para cumprir seu destino: da renomada escola Julliard, para os palcos mais importantes do mundo, série da HBO (“Treme”) e o bandleader de uma das atrações mais tradicionais da TV americana.

Ele retorna às origens, colaborando com o pai e o avô, o amigo Trombone Shorty e a banda marcial do seu antigo colégio, mas com um olhar voltado para o presente e o futuro. We Are é um poderoso manifesto da música negra americana, retomando para si o blues e o rock e trazendo novos balanços para o jazz e o hip hop. O álbum abre com um hino pela unidade – a faixa-título -, fala sobre crescer em New Orleans (“Boy Hood”), amadurecer (“Adulthood”), a liberdade (“Freedom”), a importância da verdade (“Tell the truth”) e a perda da inocência (“Cry”).

Tudo isso enquanto Jon Batiste compunha dois ousados projetos: a trilha sonora de Soul, animação da Disney/Pixar pela qual ganhou seu primeiro Oscar; um musical da Broadway sobre Jean Michel Basquiat, ainda em processo de escrita; e a “American Symphony”, onde promete mesclar gêneros com a música sinfônica no Carnegie Hall. Ele ainda encontrou tempo para liderar milhares de pessoas pelas ruas de Nova Iorque nos protestos que tomaram conta dos EUA após o assassinato de George Floyd.

Mas We Are é um disco cheio de esperança. Olha para trás com a reverência que ele merece, e abre caminho para um futuro mais justo e com menos amarras e restrições. Jon Batiste tem consciência de onde vem e onde quer chegar. Sabe também tudo que já conquistou até aqui e da importância disso para renovar a cena musical onde sempre transitou, o jazz.

Agora é hora de evoluir e, segundo ele mesmo, é um caminho sem volta. No novo álbum, Jon Batiste sai de trás do piano para mostrar as múltiplas facetas que ele vinha desenvolvendo ao longo dos últimos anos.

Antes de ganhar o Oscar, o artista falou com exclusividade ao Tenho Mais Discos! sobre esse ponto de virada, a trilha sonora de Soul e o que vem a seguir na sua carreira.

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TMDQA! Entrevista Jon Batiste

TMDQA!: Oi Jon, como você está? Obrigada por falar com a gente, sei que você é um cara muito ocupado atualmente! Estávamos tentando marcar algumas semanas atrás e estou feliz que não deu certo naquela época, porque agora eu posso falar com “o indicado ao Oscar Jon Batiste”.

Jon: SIM!

TMDQA!: SIM! Então parabéns, cara! E claro, quero falar sobre We Are, sei que é pra isso que estamos aqui, mas quero fazer algumas perguntas sobre Soul, se você não se importa.

Jon: Claro!

TMDQA!: Então, eu estava até ouvindo novamente a trilha agora há pouco e pensando como ela fica lá e cá entre as suas faixas, que são bem jazzísticas, por razões óbvias, e essa parte mais etérea e eletrônica, que é do Trent (Reznor) e do Atticus (Ross). Você vê alguma interseção entre o que você faz e o que eles fazem? Porque quando você está assistindo ao filme, está muito bem costurado, então queria entender melhor essas conexões.

Jon: Nós trabalhamos de forma bem próxima e houve também momentos em que a gente compôs juntos. E quando compúnhamos separadamente, ouvíamos o material um do outro e sempre mirávamos em conectar esses pontos entre os materiais. E muito das conexões estruturais foi feita pelo Ren Klyce, o designer de som do filme, que foi fundamental nessa colaboração também.

TMDQA!: Uma coisa que os brasileiros irão notar é que tem uma faixa na trilha chamada “Cristo Redentor”, que é bastante influenciada pelo jazz brasileiro e latino e pela bossa nova. Você não precisava fazer essa ponte com a história do Joe, então por que fazer essa escolha?

Jon: Eu amo mostrar que a música é conectada e que todas as heranças musicais têm algum tipo de relação. É isso que eu mais quero. É excitante notar também que com a Pixar você está falando de uma empresa onde a música tem papel fundamental nos seus filmes, e nesse era ainda mais importante do que na maioria dos outros que já fizeram. A música era um personagem, e esses filmes viajam pelo mundo e chegam a pessoas de diversas idades, então eu queria conectar de uma forma que parecesse global.

TMDQA!: Acho que funcionou! Mas quero falar sobre We Are, porque parece um ponto de virada. Como assumir o posto de líder da banda do Late Show, ou trocar de Jonathan para Jon… parece algo grande na sua carreira. Me corrija se estiver errada, e esse é primeiro disco onde você tem vocais em todas as faixas, você está fazendo rap, você está dançando, cara! Claro que você estava trabalhando nesse sentido já há algum tempo, mas agora que chegou aqui, você se vê voltando para um estilo mais tradicional ao piano, além do que já faz com a Stay Human e a banda do Late Show?

Jon: Acho que não é possível voltar atrás na evolução. Não dá. E isso é ótimo. Porque quando você evolui, você sintetiza tudo que aconteceu antes e cria uma forma melhor e nova de si mesmo, mais verdadeira ao momento, a hora, o minuto, o segundo, e isso é especial. É isso que sempre tento fazer enquanto artista e enquanto pessoa. Pegar todas as minhas experiências e me construir na pessoa que quero ser todos os dias.

TMDQA!: Dá pra sentir. Sei que a gente nunca se falou antes, mas vou arriscar que você não é o tipo de cara que coloca o jazz num pedestal e diz “não encoste nele, ele é sagrado”. Porque você é o tipo de cara que diz “Jazz is today”. É moderno e fresco e você sempre fez isso, mesmo no começo do seu trabalho. Então como você vê a abordagem de uma nova geração que chega? Você se vê como parte dela? Você disse no manifesto visual de We Are que você queria dar algo pras próximas gerações “mastigarem”, então fiquei curiosa se você já vê a marca que vem deixando.

Jon: Com certeza. Eu vi muita gente – e isso não é pra diminuir o que fazem -, imitarem coisas que eu comecei a fazer 10 anos atrás, quando eu me mudei pra Nova Iorque e fazia as “Love Riots” [performances no metrô] e coisas que eram vistas como pouco usuais – para dizer o mínimo (risos). Muito disso na cena de NY se tornou a norma, e mesmo pessoas tocando a escaleta e incorporando a influência de diferentes tipos de música em seu estilo. Conheço muitos músicos jovens, faço mentorias com muitos instrumentistas. Estou pensando em pessoas como Matthew Whitaker, que tem 19 anos, essa geração de 17, 18, 19… Eu, tendo 33, é legal ver a influência de coisas que eu estava construindo e criando quando tinha a idade deles. E hoje eu sou alguém que eles já ouvem há 10 anos, que cresceram ouvindo, é muito legal, porque não há uma diferença tão grande de idade e podemos colaborar. Estamos falando de uns 10, 15 anos de distância e é um lugar bem legal de se estar como criador, porque agora eles podem me ensinar coisas sobre o que eu estava fazendo 10 anos atrás, quando eu estava começando aos 18, 19, 20. E eles me falam “é isso que você estava fazendo” e eu falo “nossa, é mesmo? Era isso? Ok, maneiro” (risos).

TMDQA!: E agora você aprende com eles (risos). Mas falando em linhagem… Você claramente sabe o peso do seu sobrenome, de vir dessa dinastia musical, e apesar de estar olhando pro futuro com esse disco novo, você sempre retorna às suas raízes – à banda do seu colégio, Trombone Shorty, seu pai e seu avô que aparecem no disco. Então, como você transita nessa linha entre celebrar o lugar de onde você vem, mas ainda assim seguir em frente pra onde você quer estar, para ser quem você quer ser?

Jon: Acho que é fácil. Muita gente confunde essa ideia de gênero com o que herança e cultura são. Quando você pensa em herança e cultura, são as coisas e as pessoas com quem você cresceu, a comunidade e as experiências que te nutriram pra ser quem você é. E tem coisas com as quais você nasceu, é o seu espírito, são os seus talentos, as coisas que são naturais pra você. Sinto que às vezes as pessoas acham que precisam escolher entre sua herança cultural e as coisas que aspiram, e que estão dentro delas e que querem construir e se tornar. Eu sou só uma pessoa, então não tenho que separar isso. É só uma questão de descobrir onde elas se conectam, e é aí que a arte se encontra. Onde minha cultura e herança se conectam com as coisas que imagino no meu cérebro enquanto artista, que quero criar e que não vejo no mundo. Onde elas se conectam? Essa é a parte legal, porque você descobre “ah, então eu preciso de uma banda marcial e um coral gospel e um teremim na mesma música”.

TMDQA!: Por que não?

Jon: Sabe? (risos) Às vezes tem que ter algo punk jazz música em 16 bits onde estou fazendo rap. É sobre encontrar as conexões. A parte difícil é aceitar o fato de que todas essas coisas podem existir quando o mundo ao seu redor e todo mundo te diz que não é assim que funciona.

TMDQA!: Mas é por isso que a gente precisa de pessoas como você, pra balançar as coisas de vez em quando.

Jon: É isso, vamos lá!

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TMDQA!: Mas eu estava pensando que We Are é um disco bem esperançoso. Sei que você terminou antes mesmo dessa loucura toda acontecer, mas onde você encontra esperança nessa caos que estamos? Porque você continua trabalhando, né? E sendo ativista. De onde vem as forças pra você?

Jon: Cristo. Sou cristão, Deus é a força e o criador de todas as forças. E também na inteligência. Quando você usa seu cérebro e pensa no que as pessoas já fizeram no passado é de explodir a cabeça, é difícil até explicar em palavras, de conceber. O tanto que os seres humanos já fizeram vai além… A gente já fez tanta coisa e conquistou tanto que, se você sabe disso, é empoderador. Muitos de nós nos definimos pelas nossas lutas, pelas nossas comunidades, pelo que quiser nos categorizar. E nos definimos por tragédias ao invés de nos definirmos pelos triunfos. É importante lembrarmos das tragédias, mas é tão importante quanto as vitórias. Acho que muitas vezes tentamos olhar as tragédias dos nossos ancestrais e não tanto o que conquistaram, seus triunfos, e isso é muito empoderador de saber.

TMDQA!: Esse momento parece um triunfo pra você. Só tenho mais uma pergunta: sei que você tem tanta coisa rolando no momento, nem sei como você dorme! (risos) Tem o musical que você está escrevendo também, estou achando que você vai tentar um EGOT – ganhar Emmy, Grammy, Oscar e Tony!

Jon: Há! Isso é engraçado (risos), eu venho trabalhando no musical por muito tempo. Jean Michel Basquiat é alguém que me inspira desde que eu tinha 19 anos. Eu me mudei pra Nova Iorque e notei: “uau, temos as mesmas iniciais”. Sou Jon Michael Batiste, Jean Michel Basquiat… Temos as mesmas origens – ele vinha do Haiti e Porto Rico, mas também de New Orleans e creole. Meu avô é cajun, todas essas coisas diferentes nos conectaram. No último ano da sua vida, no último mês, na verdade, ele esteve em New Orleans para realmente descobrir sua herança. E é engraçado que eu me mudei pra Nova Iorque e ele se mudou da casa dos pais no Brooklyn e virou morador de rua na mesma área pra onde eu mudei quando tinha a mesma idade. Há muitos paralelos entre nós que pensei ser uma coisa legal de se trabalhar. Além disso, ele é alguém conectado aos mais diferentes aspectos da cultura. Ele estava na interseção de moda, música, arte e criatividade. Antes das redes sociais, ele era um socialite, uma figura muito importante de tantas formas… E eu consegui conhecer a família dele e a fundação Basquiat nos deu acesso sem precedentes a registros do seu trabalho e da sua vida, de forma que não aconteceu com qualquer outro projeto dessa natureza. Então é uma oportunidade muito especial e eu realmente amo o trabalho dele.

TMDQA!: Tá certo, Jon. Você está trabalhando em coisas muito legais, vamos continuar ouvindo daqui do Brasil.

Jon: Você tem que vir ver minha sinfonia na estreia! Estou trabalhando numa sinfonia que vai estrear em maio de 2022 no Carnegie Hall! São quarenta minutos, quatro movimentos, mais de 200 músicos, vai ser incrível, você tem que vir ver.

TMDQA!: Nossa, seria sensacional. Vou te falar que gostaria mesmo de te ver no Jazz Fest.

Jon: Sim! [empolgado] Nossa, vamos lá!

TMDQA!: Quem sabe daqui a uns anos, quando o mundo voltar ao normal?

Jon: Está combinado então!