Melodicka Bros
 

Por Carolina Monteiro

Melodicka Bros vem trazendo arte das boas para a internet. Mas quem são eles?

“Nós somos dois irmãos italianos produzindo covers esquisitas no YouTube”, assim Joe descreve a ele e Dave, criadores do canal. Ali as músicas ganham versões inusitadas e criativas, em possibilidades que a gente não poderia nem imaginar que dariam certo.

Eles experimentam inverter o estilo das músicas, brincar com os títulos, ou mesmo adaptar à linguagem de outro artista. Ah, sim, tem alguns mais sérios também. Para Dave, “muito do que fazemos é nos divertir com o pouco de conhecimento em música que temos, e tentar criar algo único de cada canção que escolhemos.”

O canal, criado em dezembro de 2016, passa de setenta estilos de covers, pelo menos é o que pude contar. Esses gêneros e subgêneros estão distribuídos em quatorze tipos de produção nos cento e cinquenta vídeos publicados. Lá você vai achar “Toxicity” (System Of A Down) cyberpunk, uma “Barbie Girl” (Aqua) de fazer chorar e o reggaeton de “Down with the sickness” (Disturbed).

Melodicka Bros é uma oficina de onde saem inventivos experimentos. Eles abandonam a estrutura original da música e escolhem suas ferramentas: guitarras, bandolim, violão, sanfona, baixos, flautas, sintetizadores, até a melódica — a que dá nome ao canal. Não bastasse, há covers com instrumentos que não sabem tocar, e mesmo sem instrumentos.

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Início de Tudo

O canal começou com um fenômeno. Literalmente. Em agosto de 2016 fortes terremotos atingiram a Itália, o que forçou semanas de fechamento da universidade onde Joe estudava. Então, ao aguardar em casa pelo retorno das aulas, conta, “comecei a tocar uma versão de ‘Psychosocial’ [Slipknot] em escala maior e, depois de irritar Dave por dias com aquilo, nós dois decidimos produzir a cover rearranjada e publicar no YouTube, só por diversão.”

Agora, a “diversão” já foi assistida mais de um milhão de vezes. No começo as visualizações não eram muitas, mas as treze versões metal de “We are number one”, do LazyTown, viralizaram.

“Naquele tempo a gente seguia canais relacionados à música no YouTube, como o de Anthony Vincent, então éramos inspirados por eles,” diz ele. Mas o divisor de águas só veio realmente com “Chop suey!” (SOAD), em 2019.

Quando ambos decidiram manter o canal, Joe abandonou sua graduação em Física. Em Roma, estudou Engenharia de Som e, Dave, Produção Audiovisual. Trabalhando fora enquanto começavam o canal, Dave conta: “eu ia tendo alguma experiência trabalhando como produtor e editor de vídeo. Aí foi quando o canal explodiu e nós dois focamos nele, deixando tudo para trás.”

Cinco anos depois, mantendo o compromisso, ambos fazem de tudo um pouco. Neste ano já há colaborações com Violet Orlandi, Jonathan Young e Anthony Vincent (é, aquela primeira referência deles, o antigo Ten Second Songs). Apesar dos louros alcançados até aqui, têm os pés no chão: “É muito legal vivermos num tempo em que a gente possa fazer o que está fazendo. Tudo isso só é possível pelo suporte direto da nossa audiência e nós somos muito gratos por isso”, conclui Joe.

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Limites? Que limites?

Os irmãos complementam-se. Dave diz “Joe adora levar os nossos limites técnicos mais além, e descobrir truques para melhorar os nossos vídeos e música. Enquanto eu estou focado em tentar encontrar a originalidade e a estética certa para as nossas produções.”

Dão seu jeito, às vezes construindo suas próprias ferramentas. Em diversos vídeos você pode testemunhar equipamentos programados por Joe. Em cada estilo que eles ainda não tentaram antes, Dave desenvolve um novo controle vocal. A variedade de estilos os desafia a manter-se aprendendo e se superando. Dave afirma: “Acredito que nós somos como somos porque não somos músicos completamente formados, não temos uma identidade musical específica e isso nos permite testar muitas coisas.”

Não podia deixar de perguntar como irmãos que lidam com todo esse trabalho mental e físico podem resolver suas eventuais diferenças. Joe concorda que às vezes têm discordâncias, mas tentam achar uma solução comum. “Não funciona sempre, então às vezes um de nós tem que abrir mão, sabendo que o outro vai fazer o mesmo no futuro”, diz.

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O laboratório

A equipe é composta por 1 Dave e 1 Joe: o produtor audiovisual e o engenheiro de som. Mas eles se desdobram em muitos outros para fazer tudo isso acontecer, tanto na produção quanto em personagens que criam. Joe se ocupa da maior parte da música, Dave se ocupa da maior parte do vídeo, e trocam de funções ali de vez em quando.

Joe explicou passo a passo da produção, mas com um alerta: O que ele nos mostra é como seria a ideal. Segundo ele, “o negócio é que isso nunca acontece em etapas separadas assim, são todas sobrepostas”.

Pois deixemos o caos para eles. Vamos acompanhar o processo na ordem ideal, em começo, meio e fim:

1. Observação

A primeira parte é uma pesquisa. Joe explica que tentam achar algo que nunca tenha sido feito antes ou, se já foi feito, que possam deixar do seu próprio jeito. Uma primeira ideia de cover pode ser inverter a essência da música, como “Du hast” (Rammstein) bem feliz, ou também brincar com o título, como a complicada “Complicated” (Avril Lavigne).

Dave diz que às vezes acontece a “originalidade pela originalidade” para sobreviver à selva do YouTube. A internet demanda constância, é verdade. Bom é saber que dão a volta por cima, o amor que eles têm pelo que fazem transparece. Então como início, diz ele, podem se apoiar na inspiração ou no estado de humor do momento. Mas “tudo o que acontece a partir daí é experimentar e tentar melhorar a cada vez!”, conclui.

2. Aplicação das hipóteses

A partir daí, começam a trabalhar no rearranjo. Escolhem as ferramentas, digo, os instrumentos adequados ao estilo que querem. Joe diz que “se é Dave quem está escrevendo o arranjo, ele provavelmente começaria pensando no todo da estrutura logo de início, enquanto eu vou começar me concentrando numa seção específica para pensar mais sobre os sons.”

Então começam as gravações da demo, “para vermos se estamos no caminho certo”, diz ele. É um processo de experimentação, recombinação, falhas e acertos, até chegar onde querem. E é por isso que acredito que o canal seja, na verdade, um laboratório. Um bem engenhoso.

3. Publicação dos resultados

Se o experimento vai bem, hora de gravar definitivamente os instrumentos principais, vocais e algum adicional. Depois disso, vêm as filmagens. Daí finalmente o áudio será mixado e o vídeo será editado. Na versão do caos, porém, “muitas vezes, podemos terminar a captação de alguns áudios depois de já termos começado a editar o vídeo”, diz Joe.

Tudo tratado, bonito, limpinho e com belo color grading, hora de mandar para o YouTube. De lá, vai ter uma publicação para o Instagram e uma livestream no Patreon para explicar em detalhes como a cover foi produzida.

O universo expande

Melodicka Bros traz experimentação e inventividade, expandem o que achamos que conhecíamos. Fazem sentir um pouquinho de provocação pela originalidade, na surpresa que despertam, e as possibilidades que se abrem: cada vídeo é um novo mundo que as músicas que a gente gosta passam a apresentar (e as que a gente não gosta também, o que é bom).

E como quem leu até aqui pode ver, Joe e Dave responderam de peito aberto. Com franqueza nos mostraram um capítulo de como é depender da criatividade diariamente e se lançar sobre algo que ama fazer. É um laboratório bem sucedido.