Ouça a nova música de Juliah!    

Por Gabriel Mendes

Foto: Steve Gullick

No ano em que Loveless completa 30 anos, o My Bloody Valentine anunciou mundialmente que todos os álbuns de estúdio e EPs estão agora disponíveis nos serviços de streaming, fruto de um acordo recente com o selo britânico Domino, que passa a ser detentora do catálogo.

O último álbum de estúdio (intitulado mbv) foi lançado em 2013, exatos 22 anos após Loveless, um dos discos mais cultuados dos anos 90 e que marcou uma geração de artistas ao redor do mundo. Timbres de guitarra arrastados, vozes suaves, paisagens sonoras e simbolismos poéticos são alguns dos aspectos que fomentam o pioneirismo do grupo e que contribuíram para que a obra ecoasse ao decorrer das décadas.

A banda sempre teve pouca ou nenhuma presença nos ambientes digitais, o que alimentou o espectro de mistério que sempre rondou a estética do MBV. Acompanhado a isso, os membros pouco aparecem na mídia com entrevistas ou atualizações sobre novos projetos.

O TMDQA! conversou com Kevin Shields em fevereiro e pôde discutir as expectativas dos novos caminhos, o olhar para o passado e as sensações evocadas pelos sons e imagens.

TMDQA!: Como foi o percurso entre Loveless e MBV? Falando do aspecto das referências e definição estética, já que o intervalo de tempo foi grande. Existe uma sensação de continuidade e uma ligação entre eles, faz sentido?

Kevin Shields: Basicamente, o Loveless ocorreu entre 89 e 91, e as coisas que fiz na sequência, e que estão no mbv, começaram em 93 e 94. Muitas das outras músicas do disco nasceram em 96, então faz sentido a sensação de continuidade.

Não fiz nada até 2011 e o que tínhamos pronto eram guitarras gravadas, e aí complementamos com baterias, vozes, overdubs e todas as outras partes musicais. Então os sentimentos da época se mantiveram em 2011 e 2012, porque o clima e a atmosfera de se criar um álbum era o mesmo. Algo ligado ao sentimento do mundo, os rumos que tomava, algo que me acompanhou em toda a minha vida do ponto de vista social, ambiental, político, etc.

Era óbvio para mim nos anos 90 que enfrentávamos um período de grandes mudanças e estresse, mas o disco é uma espécie de olhar otimista a isso, não é apocalíptico, é só diferente. Então esse era o clima, o sentimento era o mesmo.

Passei por algumas coisas e fui capaz de olhar novamente para as situações, identificando que nada havia mudado de fato, só era ainda mais óbvio. Então o disco parecia parte de uma situação que não mudou e não mudaria.

TMDQA!: Como vocês equilibram a relação entre o tempo e a forma como querem soar?

KS: Acho que sempre vivo no presente no sentido de que independentemente de quais são minhas impressões sobre o futuro ou passado, é sempre só um pensamento. Ao longo do tempo, percebi que ideias e conceitos são poderosos, mas no fim das contas as coisas vão mudar de qualquer forma, então é algo que estou aprendendo ainda. Fazendo mais e pensando menos.

Vivo agora em uma área rural, cercada de árvores, montanhas e campos, e até esse momento da minha vida, as coisas aconteceram enquanto vivia na cidade, em que era afetado pelo som dos aviões, do movimento, da energia ao redor e da circulação em geral.

TMDQA!: Como sua relação com a guitarra se dá após todos esses anos?

KS: É interessante porque bem no começo achei minha forma de tocar e me sentia muito confortável com isso, algo que durou uns quatro anos, até 1992. Retornei depois de um certo hiato e parei novamente, em pouco tempo. Na sequência, tive a experiência com o Primal Scream, que resultou numa forma totalmente diferente de tocar, algo que também acabou. E esses movimentos de repetição aconteceram até 2011.

Para mim, é fazer minha própria música e não ir por caminhos muito diferentes, ou tentar soar como outras bandas. Apesar de todo esse tempo, me parece mais como flashes, sabe? E não como 30 anos de guitarra. É como se fosse uma parte de mim que eu revisito em momentos diferentes, às vezes fico meses sem tocar. Eu não ensaio pra tocar do jeito que toco, eu só toco.

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TMDQA!: A sonoridade do que vocês criam e a forma como as melodias se desenvolvem tem alguma ligação com a natureza em si?

KS: Com certeza, existe uma relação. Muito da sonoridade e das sensações dos nossos álbuns foram inspirados em sons naturais, de ambientes e obviamente de conexões musicais. Como em Loomer, em que tentei reproduzir o som do fogo ou em outras faixas que pegam referências de lugares diferentes.

TMDQA!: É possível dizer que o som da banda possibilita o sonho ou a flutuação? Qual a relação entre som e imagem nas composições?

KS: Basicamente, todos os humanos, animais e criaturas têm um universo interno de informação em que assimilam tudo de forma individual. O som tem uma relação visual em nossa mente, e existe uma tentativa da banda de criação sonora que possibilite a ponte entre o mundo exterior e o mundo interior.

Não é realmente sinestesia, é mais que isso no sentido de que existe uma diferença entre nossa mente desperta e a mente no momento do sono, do relaxamento e da meditação. Queremos conectar esses mundos porque a mente do relaxamento é tão real quanto a do momento consciente.

TMDQA!: Sobre a sensação de êxtase, de onde vem essa referência do ponto de vista pessoal? É algo exclusivamente musical?

KS:“Quando abrimos os olhos, o mundo que vemos é baseado na condição humana em diferentes esferas e por meio de várias construções, o que não é ruim, mas é diferente do mundo interior, que é mais fluído. A diferença entre um sonho e estar acordado é muito mais invisível e contínua.

Estar totalmente acordado é uma condição, mas as coisas continuam acontecendo dentro de nós. A confusão com o conceito de sonho é de que é algo substancial e menos real, mas em várias culturas do mundo a diferença entre os mundos internos e externos é apenas uma ideia.

TMDQA!: Em um tempo delicado para se sonhar, que outras alternativas você encontra para se conectar com o imaginário?

KS: Você pode caminhar, ou sentar, ouvir música ou decidir não fazer nada. Quando você se dispõe a estar lá sem estar pensando, planejando, se preocupando, é possível se conectar mais com seu lado mais verdadeiro. Apesar do estresse e da preocupação, nosso lado mais verdadeiro sempre está lá. E não quer dizer que esse lado mais preocupado não compõe a vida, isso também é verdadeiro, mas não é nossa parte mais íntima.

É como o que falamos sobre estar acordado e dormindo, você alcança esse ponto, em algum momento.

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TMDQA!: Você trabalha com referências concretas e leituras ou apenas com sentimentos na fase da composição? Isso mudou em algum momento?

KS: No fim das contas, toda filosofia e literatura é o pensamento e a ideia de outra pessoa. E a parte divertida da nossa sociedade ou da cultura é comunicar as coisas, compartilhar. Já o lado negativo é criar conceitos ou filosofias que são opressivas às pessoas, que podem fomentar a ideia de que algo é uma boa ideia baseado em um equívoco!

Eu pessoalmente não vejo nenhuma filosofia, ou nada radicalmente mais válido do que qualquer outra opinião emitida por qualquer outra pessoa, não vejo a diferença entre meu cachorro e um grande escritor ou pensador. Tudo vem de dentro pra fora e não de fora pra dentro.

TMDQA!: O My Bloody Valentine faz parte de um grupo de bandas que são consideradas influentes e precursoras, o que ampliou um leque para outros gêneros emergirem e se desenvolverem. Como você enxerga esse status atribuído ao que foi produzido pós-Loveless?

KS:“Não penso muito nisso. De alguma forma, a música que cada um faz é parte de si mesmo. Quando fizemos os discos no passado, existia um forte sentimento de estarmos fazendo nossa própria música, não nos sentíamos parte de um grupo de bandas. Claro que as influências existiam, mas não queríamos deixar isso muito óbvio na época e nem sair falando por aí. No fim, a força mais poderosa e a motivação principal era fazer algo que soasse como nossa própria criação.

Para mim, sempre existiu muita música diferente e nova no mundo (os anos 90 são um grande exemplo disso), trabalhos que revisitam o passado de várias formas e, ao mesmo tempo, soam novas. Acho que tudo que é um pouco diferente, é novo. Até quem tenta copiar algo vai fazer um pouco diferente por ser uma pessoa diferente, e isso é sempre interessante.

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TMDQA!: Aliado a isso, queria saber mais sobre a filosofia relacionada à forma como vocês tocam e decidiram tocar (dizem que é muito alto e intenso).

KS: No começo, quando tocamos em locais pequenos, o som era sempre alto, o que era algo normal, nós sentíamos a música. Quando começamos a frequentar casas maiores, sentíamos o som um pouco ruim, a não ser que fizéssemos um esforço.

O período em que alcançamos uma audiência maior foi marcado também pela club culture, e nesses ambientes o som era realmente poderoso e alto. Quando eu ia ver shows de bandas de rock, o som parecia distante, não era como num club, então queríamos que tudo tivesse esse senso de poder e que fosse algo preenchido pelo som, vivo.

É daí que vem a ideia do volume alto, não por um caminho agressivo, e, sim, por essa relação entre volume e sentimento, uma abordagem sensorial.

Sempre senti que estaria enganando a audiência se não tocasse para eles da forma que senti a música quando a criei. Mas também encorajamos as pessoas a usarem earplugs! Não queremos a audição de ninguém prejudicada.

TMDQA!: Como você e a banda querem ser vistos e sentidos pelo público?

KS: Queremos ser mais acessíveis pra variar um pouco [risos]. Não tivemos uma distribuição e presença digitais adequadas nos últimos tempos. O que sei é que meus sobrinhos e sobrinhas sempre reclamam comigo que é muito difícil mostrar as músicas do My Bloody Valentine para os amigos, então acho que vai ser bom para nós estarmos mais disponíveis, não tão misteriosos.

TMDQA!: Existe alguma movimentação sobre novos álbuns ou a conversa sobre talvez fazer uma turnê em locais que ainda não tocaram?

KS: Estamos gravando um disco novo, que deve ser finalizado este ano. Na verdade, estamos trabalhando em dois álbuns. Estou bem ansioso em fazer parte disso de novo. É difícil fazer música sem pensar em tocar ao vivo, por conta da pandemia e de toda a situação, mas é algo que queremos muito fazer.

E queremos muito tocar na América do Sul, sempre quisemos, com sorte acontecerá quando voltarmos a tocar ao vivo.

TMDQA!: Falamos sobre sonhos, imagens, espiritualidade, então queria fechar com uma pergunta mais simples: o que você sente quando toca?

KS: Música é o que cria emoções e sentimentos poderosos e complicados. Mesmo que eu assista a filmes, o que eu amo, e esteja imerso naquelas sensações, sei que aquilo é transitório. É difícil assistir a algo novamente, anos depois, e sentir aquelas emoções de novo, não acontece.

Mas com música é algo que soa mais puro e também mais complicado, é difícil explicar. Essas coisas fazem com o que eu sinta que é o que quero fazer. Eu adoraria ser diretor de cinema, mas neste momento da minha vida parece que existe muita música para ser feita e não quero sentir que estou perdendo nada. Para mim a música tem uma capacidade de criar sentimentos que são mais reais do que qualquer palavra.

Ouça aqui a discografia completa do My Bloody Valentine.