Filipe Ret é o Artista de Capa do TMDQA! em Março de 2021 e nós estamos recheados de declarações do rapper carioca.

Um dos nomes mais aclamados do Hip Hop nacional hoje em dia, Ret acabou de lançar o EP Imaterial, precedido pelo single “F*F*M*”, ou “Fodendo Fumando Maconha”, fruto de uma abordagem policial que deu o que falar.

Em entrevista exclusiva ao editor-chefe do TMDQA!, Tony Aiex, o músico falou sobre tudo isso e ainda listou inspirações, pensamentos, mostrou bastidores da sua “base” no Rio de Janeiro e mais.

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Aqui nessa matéria, ainda encontra o texto transcrito e o player com o Podcast dessa entrevista.

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Artista do Mês – Filipe Ret

TMDQA!: E aí, Ret, tudo bem? A primeira pergunta que eu queria te fazer é: onde você tá agora?

Filipe Ret: Tô aqui na base [no Rio de Janeiro], cara, vou pegar o celular pra mostrar aqui. (Filipe então move a câmera para mostrar o ambiente). Estou com os parceiros aqui. Olha a vista da base. (Ret mostra o Corcovado da janela do apartamento)

TMDQA!: Que vista, hein? Sensacional.

Ret: (Enquanto anda pelo cômodo). Aqui é bem simples mesmo, é só pra gente fazer os corres.

TMDQA!: E o que vocês têm produzido por aí? Como é o fluxo?

Ret: Basicamente eu venho todo dia pra cá agora, e fico aqui recebendo os parceiros. Hoje tô com o Portugal, produtor, mas recebo muitos artistas também e a gente fica aqui criando. É sem hora pra acabar. É aqui onde rolam as sessões, é só pra isso mesmo. Antes eu morava aqui, aí depois que tive meu filho fui pra uma casa maior. Aproveitei aqui pra fazer de estúdio, de uma base mesmo. E aí a gente fica só aqui mesmo, é o que importa.

TMDQA!: Pois é, pra criar, porque é o que nos resta em 2021, né?

Ret: Total. E fazer conexões, né irmão?

TMDQA!: É isso aí. Eu queria começar falando obviamente sobre o seu novo disco e o que te trouxe até aqui. É sempre um peso muito grande lançar um disco, ainda mais vindo de uma sequência de responsa por conta dos discos que você lançou. Além de tudo, temos uma pandemia rolando, esse caos mundial que não nos deixa sair de casa, aglomerar e ir pra shows. O que te fez decidir lançar esse disco agora?

Ret: Na verdade, esse disco já era pra ter saído no ano passado, tô meio que estendendo ele. Preciso dar vazão também, eu tô criando muita coisa aqui. Nossa criação já sempre sai com delay, e o fluxo tem que continuar. Até onde eu consegui segurar, eu segurei, mas agora eu tenho que dar espaço pra lançar as outras coisas. Não sei os outros artistas, mas eu tô sempre buscando a próxima criação.

TMDQA!: Em 2018 você lançou o elogiadíssimo Audaz, que está inclusive na nossa lista de melhores do ano. O disco é muito abrangente e expandiu para várias vertentes do Rap, com participações de Flora Matos, Marcelo D2 e mais. E aí você chega em 2021 mergulhando de cabeça no Trap. O que aconteceu nesse meio tempo que influenciou as músicas do Imaterial?

Ret: Sinceramente, eu tô na melhor fase da minha vida, profissional, mentalmente, espiritualmente… Então assim, eu sinto que eu tô com a barrinha de vida cheia, tá ligado? (risos) Eu sempre brinquei com melodias, faço isso desde o começo, quando era tudo muito reto ainda, eu já colocava melodias diferentes. Com o Trap isso é muito explorado… e parece que chegou meu momento, entendeu? As criações estão todas nesse campo.

TMDQA!: Tudo que você sempre quis fazer…

Ret: Exatamente, irmão. Me sinto uma criança abrindo o cercadinho pra correr no gramado agora, entendeu? (risos) Tô fascinado com essa estética melódica, com esse momento do Trap. Desde o Vivaz (2012) eu exploro essa melodia e o 808 (grave do beat). Finalmente esse momento chegou e tem tudo a ver com o primeiro Rap que eu escutei, com o Funk. Minha identidade vem muito disso.

TMDQA!: Aproveitando esse assunto, o Trap tem sido muito popular e tem muita gente nova ouvindo agora. Mas tem muitos que acham que o estilo não fala de coisa séria, que não tem críticas sociais, que é só pra ostentar. Mas ouvindo o Imaterial, a gente vê que é o contrário: você não tem papas na língua, faz críticas sociais, tem algumas muito fortes até falando sobre religião, pobreza. É dedo na ferida o tempo todo.

Ret: Eu tentei buscar toda essa complexidade pra esse disco. Acho que hoje a garotada tem um fluxo de informação muito grande. Não é só crítica e nem só ostentação, hoje as letras precisam ser mais complexas pra atenderem à ânsia da molecada que tem uma mentalidade hoje com muitas informações. Tudo tem que ser falado e explorado, entendeu? Tem momento pra tudo. Curto muito isso, acho que a gente vive em um mundo já com essa diversidade. Pro artista ser completo e acessível, tem que ter essa mistura toda.

Filipe Ret - Artista do Mês TMDQA!

TMDQA!: Tem algum momento que você escreve pensando no fã que vai gostar ou que não vai gostar? Isso faz parte do seu processo?

Ret: Eu acho que o artista no geral, com todo carinho aos fãs, mas não tem que perguntar o que eles querem. Isso é um pouco “o poste mijando no cachorro”, tá ligado? Nesse caso existe regra. (risos) Você tem que estar livre pra criar. Os fãs são seus fãs porque acreditam no que você tem pra expressar. Então acho complicado essas coisas. Eu nem faço perguntas relacionadas ao meu trabalho para os fãs, eu não curto esse tipo de estratégia. Mas tenho um contato com eles muito bacana, temos até um grupo no Telegram. Quanto às minhas criações, não posso comunicar isso e pedir uma opinião pra eles. Eles confiam em mim, sacou?

TMDQA!: Até porque tem o elemento surpresa de quando eles recebem teu material sem saber muito o que esperar, e isso faz parte do gosto deles.

Ret: Com certeza, eles acreditam na minha visão artística e nas minhas decisões. Preciso honrar isso.

TMDQA!: O Rap é muito grande e tem várias vertentes. Na nossa conversa com o BK, o artista do mês de janeiro, ele disse que o Rap pra ele era algo mais falado, mais direto, e que por isso lançou um disco sem participações especiais. O que é o Rap pra você, Filipe Ret?

Ret: Cara, eu acredito que o Rap é um instrumento muito evoluído e quase que educacional. Só que ele tem uma forma mutante de comunicar as coisas, de entreter, de transmitir mensagens. O Rap ia surgir em algum momento, é uma busca urbana com a qual as pessoas se identificam. Essa forma de contar as coisas é muito visceral. Os jovens principalmente se identificam com isso — com a atitude do Rap, com a transformação. E quando eu falo do Rap, eu tô falando um pouco do Funk também. Eu confundo os dois na minha cabeça, minha criação musical vem desse Rap que é Funk. E isso é uma ferramenta de transformação que muda a vida de milhares de jovens, realiza os sonhos de milhares de jovens, hoje milhares de moleques querem ser MCs. A minha identidade sempre foi em torno disso — a primeira vez que eu ouvi Rap, eu quis cantar, foi uma identificação imediata.

Eu tinha a ideia de ser vocalista, de ser front de uma banda. O que fez eu executar esse meu sonho foi que eu não conhecia ninguém que tocava instrumentos. (risos) Não tinha ninguém com estúdio, a primeira pessoa que eu conheci foi bem mais tarde. Então o acesso pra fazer um Rock, por exemplo, não existia — e aí o Rap e o Funk tem essa coisa de ser acessível, você consegue fazer um beat com bem menos recursos.

TMDQA!: Eu ia perguntar se o Rap também transformou a sua vida, mas acho que você deixou isso bem claro. O que você queria cantar nessa banda aí se isso tivesse ido pra frente?

Ret: Esse “se” aí é complicado, é uma vida alternativa (risos). Mas nessa realidade aqui eu segurei e fiz com o que eu tinha. O Rap tem essa questão muito interessante que é poder fazer com o que você tem na sua mão. Tem que valorizar esses recursos escassos que você tem no início e fazer a sua limonada. Isso é muito importante, porque muitas vezes é com limitações que você cria muito melhor e cria algo mais original.

TMDQA!: No Rock, acho que o Punk tem mais essa pegada de fazer muito com pouca coisa.

Ret: Sim. E no Rap tem mais essa ambição, a relação com o dinheiro e tal. É uma coisa que as pessoas vivem todo dia, todo dia as pessoas lidam com suas contas, com percentual. E o Rap foi a primeira música que assumiu essa evolução e colocou isso nas letras, então é claro que o estilo ia avançar e dominar tudo — a gente sempre falou de tudo sem a menor hipocrisia. Abrange tudo, você entende?

TMDQA!: Claro! Tanto abrange tudo que a maioria das pessoas entende. Tem muito ritmo musical que quis elitizar e sumiu, né?

Ret: É um game muito vivo. Pensa em um executivo, ele quer comprar um carrão pra mostrar. No Rap você pode comprar e mostrar esse carrão, tá ligado? (risos) A brincadeira fica realmente mais interessante. Eu tô usando esse exemplo da vaidade porque é o que move a sociedade, e a gente fala disso sem hipocrisia. Eu acho isso fantástico.

TMDQA!: Eu acha massa você falar isso, porque realmente existe essa hipocrisia e vocês dão um soco nisso, basicamente.

Ret: Exatamente. O caminho das coisas é a transparência, ser mais explicito mesmo. Porque a informação corre, então o rumo das coisas é ser cada vez mais aberto e mais verdadeiro. Todo jovem fala de droga, todo jovem fala de sexo… então eles vão ouvir sobre isso. Mas a gente também fala de Deus, fala de tudo.

TMDQA!: Bom, já que a gente entrou nesse assunto de drogas e sexo, você lançou recentemente o single “F*F*M*, que é “Fudendo Fumando Maconha”. Você mencionou que está no melhor momento de sua vida e isso fica claro no nível alto que esse som veio, de melodia, de produção. Parece que foi trabalhado com muito afinco. Queria que você falasse um pouco sobre as origens dessa música, que é uma das mais comentadas do disco mas também o complementa. Como surgiu essa música e como foi trabalhar nela?

Ret: Eu já estava escrevendo ela quando recebi voz de prisão (por porte de maconha), e acabei adicionando umas linhas sobre isso. O YouTube restringiu que essa música chegasse às pessoas, porque aparece eu fumando, mostrando uma arma — algo que é absolutamente simbólico e artístico. Eu não tenho exatamente a clareza das músicas que eu faço. Elas saem muitas vezes de uma forma muito intuitiva, então a batida veio, o flow veio e a coisa foi andando. Senti que tinha uma coisa bem bacana e quis levar isso num limite legal estético. A gente resolveu fazer esse clipe com o Cauã Csik e a equipe dele maravilhosa, o Dallas também tá na produção. Foi ideia do Cauã de fazer essa metalinguagem, e eu fiquei muito satisfeito com o resultado, meus fãs também curtiram bastante. Bateu super bem.

TMDQA!: Eu não me surpreenderia também se tivesse chegado ao público gringo, porque a qualidade está muito internacional! Bom, já que você falou aqui, pra esclarecer: você teve voz de prisão por porte de cannabis e logo em seguida anunciou a música. Esse episódio teve influência no nome da faixa e em quando ela foi lançada?

Ret: O nome era uma alternativa, mas depois disso foi que eu decidi. Aí eu aproveitei o hype, porque meus stories estavam batendo mais de 1 milhão (de visualizações) e divulguei a música. Tudo valeu muito, cara. É muito legal poder trabalhar com tanta gente e ver a coisa andando pra frente, sabe? Trabalhar com muita gente é um aprendizado muito bacana, tanto na estrada quanto nos clipes. Tudo isso é muito bom, ir descobrindo novas formas de fazer música, novos rolês e novas conexões. Eu sou muito grato por tudo que eu conquistei e pelas pessoas que eu tenho ao meu redor. Fico muito feliz, cara, tudo valeu a pena.

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TMDQA!: Isso é algo que muitas vezes passa despercebido, né? Porque vira rotina isso de gravar, lançar algo, fazer show, então é muito legal ver isso sendo dito, porque não é muito comum.

Ret: Cara, eu acho que quando você é jovem, o negócio é mais guerrear. Esses flashes de gratidão vão surgindo enquanto o tempo passa, porque aí você também já tem um tempinho pra respirar. Mas é isso, acho que seus primeiros 30 anos são basicamente de guerra, não tem muito tempo pra curtir a felicidade… e isso faz parte. O mais importante é você batalhar, em primeiro lugar. E aí lá na frente você tem os lapsos de felicidade. O mais legal é você gostar das batalhas, é o que faz as pessoas crescerem.

TMDQA!: Entra muito aquele lance também de aproveitar a viagem, né. Se você pensa muito no objetivo final, acaba não aproveitando o caminho. Bom, mas queria te perguntar sobre o nome do disco, “Imaterial”. Ele remete a isso de algo que não se pode tocar, não tem forma e não está presente em forma física. Isso, quando eu ouvi, bateu muito aqui pois senti isso enquanto passava pelo disco. Em muitas músicas, parece que você está em uma viagem, tem uma vibe etérea. Mas imagino que pra você isso tenha outro sentido, então o que te levou a dar esse nome?

Ret: Cara, “Imaterial”… Eu sou um cara muito introspectivo, muito mais do que extrovertido. Então minha cabeça e meu mundo interior sempre foram muito caóticos e populosos, entendeu? Então sempre fui uma multidão, um falatório dentro de mim. Então precisei organizar esses exércitos dentro de mim pra conseguir conquistar as coisas. “Imaterial” vai muito desse crescimento. Às vezes, em uma decisão simples do dia a dia, você tem que pegar a visão — “Imaterial” é pegar essa visão, é ouvir uma palavra e ter fé, é uma coisa que você vê e transforma a tua mente e já te dá um poder. O poder que a gente tem é imaterial, entendeu? O material só acontece assim. Às vezes a gente vê muito o dinheiro como uma causa, mas é uma consequência mesmo. O fundamento é imaterial, essa fé, a sua força interior, sua organização interior.

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“O Melhor Rapper Branco”

TMDQA!: Cara, eu gosto muito da sua sinceridade nessa conversa aqui. Lembrei agora de uma declaração recente sua que me marcou bastante: que existem os rappers pretos, e eles estão em outro patamar — e aí tem os rappers brancos, e você é o melhor deles. E aí, você continua sendo o melhor?

Ret: Com certeza, meu irmão. (risos) O MC que não se achar o pica tá fazendo a coisa errada, entendeu? O MC tem que ter essa autoestima, tá ligado? Quando você mete a mão no microfone, você é o pica e acabou. Essa é a magia do bagulho. As pessoas querem ouvir esse poder que você coloca no microfone, é o que elas recebem quando ouvem tua música. A revolução tá aí.

TMDQA!: Sensacional! Cara, sei que é um momento complicado pra falar de futuro, mas queria muito saber o que você tem na manga por aí e também tua visão sobre tudo o que tem acontecido.

Ret: Cara… eu acho que, numa cidade (Rio de Janeiro) que tem 70% do seu território tomado por outros poderes, a quantidade de shows e festas clandestinas vai ser muito grande. Isso é uma coisa que ninguém vai conseguir parar. Ao mesmo tempo, eu também fico dividido em relação a isso, tá ligado? Porra, o entretenimento foi o mais massacrado. Fomos os primeiros a parar e seremos os últimos a voltar. É complicada a situação. A gente fala de aglomeração em shows, mas todos os dias tem aglomerações piores nos ônibus, tá ligado? A gente também tem que saber analisar isso, cara. Então querer julgar um baile na comunidade pode não ser uma coisa muito certa. A gente tem que tentar também ajudar geral.

Nessa fase de quarentena aí a gente conseguiu fazer quatro lives, eu também coloquei minha lojinha de merchan no ar, fiz parceria com a Twitch, então a gente foi meio que se virando pra conseguir se manter. Mas que bate uma revolta de ver os shoppings lotados, bate. Nem shows com medidas de segurança estão podendo acontecer no Rio, tem alguma coisa errada. Eu fico receoso, fico às vezes com raiva.

Mas acho que esse ano ainda não volta a ter shows, deve ter muita coisa adiada ainda, tipo o Lollapalooza. Mas estou confiante que a vacina vai chegar logo e é isso, cara. Com esse presidente tudo fica um pouco mais difícil. Mas acho que é isso, mano. Por isso eu nem gosto de falar tanto sobre esse assunto (risos), porque a vibe cai. É baixo astral falar sobre isso.

E olha como é imaterial a parada: eu imaginei o cara (Bolsonaro) aqui e na hora já me bateu um baixo astral no corpo inteiro. Por isso que não vale a pena, mano. A gente tá fazendo o que pode aqui.

TMDQA!: Cara, muito obrigado mais uma vez, Imaterial tá incrível. Deixa seu recado pros fãs aí, já que o TMDQA! é todo seu em março.

Ret: Tamo junto irmão, queria te agradecer. Maneiro pra caralho estar nesse projeto aí, quero agradecer aos fãs também e vamos seguir o fluxo!

 
 
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