#TBTMDQA: Sérgio Sampaio, Raul Seixas, caos político e a angústia de "Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua"

Censurada pelo regime militar, essa canção veio a ganhar grande peso cultural no cancioneiro popular brasileiro, recebendo versões dos mais diversos artistas e nas mais diferentes pegadas.

#TBTMDQA: Sérgio Sampaio, Raul Seixas, caos político e a angústia de "Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua"

Mais triste do que a famosa “ressaca” de fim de Carnaval é notar que estamos de volta após um Carnaval que sequer existiu. A pandemia do coronavírus impediu as famosas aglomerações características da folia e fez com que ficássemos saudosos do passado e esperançosos pelo futuro.

É uma agonia coletiva. Quem também sentiu isso foi o compositor capixaba Sérgio Sampaio. Em 1973, ele versou sobre querer e não conseguir exercer sua liberdade no hino “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua“, faixa-título de seu primeiríssimo disco de estúdio. Mas o contexto, como vocês podem imaginar pela data de lançamento da música, era completamente diferente.

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Logo abaixo (após o vídeo), contamos algumas curiosidades sobre a produção e sobre o legado deste grande sucesso da música brasileira.

 

VII Festival Internacional da Canção

Apesar de o lançamento oficial ter sido em 1973, foi no ano anterior que o público teve contato pela primeira vez com “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua”. Foi com essa música que Sérgio Sampaio se apresentou no VII Festival Internacional da Canção, o último de uma série de concursos televisionados, realizados no Rio de Janeiro, responsáveis por apresentar ao público grandes artistas.

Em 1972, participaram nomes ainda estreantes como Fagner, Alceu Valença, Hermeto Pascoal e mais, além, é claro, de Sampaio. Dentre os demais sucessos que ganharam visibilidade a partir deste evento, estão “Diálogo” (Baden Powel e Paulo César Pinheiro) e “Fio Maravilha” (Jorge Ben).

 

Governo Médici

Na época em que Sérgio compôs a música, o Brasil viva a ditadura militar, mais especificamente o governo Médici, que ocorreu de 1969 a 1974.

Com a censura em alta e o exílio de artistas, muitos profissionais da cultura e da arte ficaram receosos em tecer críticas ao sistema vigente através de seus trabalhos. As pessoas, no geral, tinham medo de abrir a boca, já que eram constantemente reprimidas pelo regime.

Na letra, o músico narra um personagem sonhador, porém angustiado. A veia política pode ser notada logo nos versos iniciais. Botar o bloco na rua, nesse contexto, é uma forma de expressão, de proatividade e, principalmente, de confronto.

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

 

Raul Seixas

A composição foi feita pouco tempo após o lançamento do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, um projeto colaborativo entre Sérgio, Edy Star, Miriam Batucada e Raul Seixas. O álbum sofreu em meio às perseguições políticas da ditadura e acabou não ganhando destaque.

Essa teria sido, por sinal, a segunda tentativa de Raul de lançar uma carreira artística de sucesso, antes mesmo de explodir com Krig-ha, Bandolo! no ano seguinte. Grande colega de Sampaio, foi justamente o “Maluco Beleza” que produziu seu maior (e único) sucesso.

A faixa final do disco de estreia de Sergio, por sinal, é uma curta homenagem ao produtor, carinhosamente nomeada “Raulzito Seixas“.

 

Uma das melhores canções brasileiras de todos os tempos

Na visão da influente revista Rolling Stone, “EQÉBMBNR” é uma das melhores canções brasileiras já compostas. A música ocupa a 38ª posição, acima de grandes sucessos de nomes como Tim Maia, Chico Buarque, Noel Rosa e até do próprio Raul Seixas.

Mais seis músicas de 1972 estão na lista, apesar de que nenhuma tenha se consagrado por conta dos festivais. São elas: “Casa no Campo” (Elis Regina), “Clube Da Esquina Nº 2” (Milton Nascimento), “Balada do Louco” (Os Mutantes), “O Trem Azul” (Lô Borges), “Brasil Pandeiro” e “Preta Pretinha” (Novos Baianos).

 

“… Durango Kid quase me pegou”

Sérgio Sampaio foi bem sucinto e, de forma metafórica, direto na letra e na mensagem que queria passar com sua música. “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” não traz tantas referências e, na medida do possível, é uma letra de fácil absorção.

A exceção fica com a referência ao personagem Durango Kid logo antes do primeiro refrão. Criado no início dos anos 40, Durango é um cowboy que ganhou fama através dos quadrinhos e, principalmente, do cinema. A série rendeu mais de sessenta filmes (sim!), todos produzidos até 1952. Para as gerações seguintes, ficou marcado como uma referência de heroísmo e bravura.

O personagem também é citado por outros nomes musicais da época. Raul Seixas o cita em “Cowboy Fora da Lei” e “Anarkilópolis” (com o verso “Durango Kid só existe no gibi”). Fernando Brant e Toninho Horta, inclusive, compuseram uma música que leva o nome do herói.

Durango Kid

 

Censurada

Parte do fracasso comercial de Sérgio Sampaio se deu por conta de que a canção principal de seu disco ficou sob a atenção do regime vigente. Primeiramente, temos a referência do já citado Durango Kid, que, na música, aparece como uma metáfora aos militares. Além disso, a censura se deu por conta de acusações de incitação da população contra as forças armadas, mesmo que de forma mais leve do que vimos em “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores“, de Geraldo Vandré.

Na época, o exército demonstrava seu poder nas ruas para amedrontar os cidadãos. A proposta de Sampaio era ir para fora e mostrar que seu “bloco” também tem força. Em determinado momento, na música, o compositor deixa claro sua insatisfação e implica que quanto mais pessoas abraçando a sua causa, melhor.

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval…

 

Outras versões

A versão original de “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” não é lá a música mais animada do mundo, apesar da temática carnavalesca. A adaptável letra, no entanto, permitiu que futuras releituras explorassem outros gêneros e estéticas.

De Pitty até o Monobloco, vários artistas já deram voz ao hino da ânsia pela liberdade. A lista de intérpretes só cresce e não dá qualquer sinal de desaceleração: Tom Zé, Margareth Menezes, Elba Ramalho, Roupa Nova, Mart’nália

Duas versões mais recentes que ganharam um particular sucesso foram lançados pelo BaianaSystem e por Ney Matogrosso. Enquanto o grupo baiano, com a contribuição da cantora Yzalú, regravou a canção para uma ação em parceira com a Apple, Ney usou a música como principal single de seu mais recente disco “Bloco Na Rua”.

Que ano que vem nós estejamos seguros ao ponto de poder celebrar nossa liberdade ao som dos versos do grande Sérgio Sampaio!