Bad Bunny e Jhay Cortez
 

Por Arthur Deucher Figueiredo

As colaborações musicais (“featurings”) são uma ferramenta muito importante no mercado musical. A troca criativa não somente agrada o ouvido de muitos, mas também impulsiona e aquece o mercado, sintoma de uma indústria mais diversificada em um mundo globalizado.

Se pensarmos nas colaborações de brasileiros com estrangeiros, recentemente tivemos diversas parcerias interessantes, como Tim Bernardes e Fleet Foxes, Drake e MC Kevin o Chris, Anitta e artistas como Cardi B e Major Lazer, o incrível álbum de Luedji Luna com diversas influências e músicos africanos, o lindo álbum de Pedro Altério, Pedro Viáfora com a participação da portuguesa MARO, entre tantos outros.

Alguns dados da Billboard apontaram novas possibilidades interessantes de “cross-over” entre diferentes mercados na era do streaming. Um grupo de países está gerando resultados impressionantes no Billboard Global Excl. EUA (base de dados que mostra os números de performance de venda e número de streamings no mundo, excluindo os Estados Unidos), incluindo Japão, Colômbia, Brasil, Coreia do Sul, Alemanha, França, Noruega, Argentina, Suécia e Holanda. Esses dados refletem o rápido crescimento do consumo da música produzida de forma regional em todo o mundo, alimentada por streaming digital, em especial de artistas não americanos.

No contexto da música Latina, o reggaetón e o trap latino expandiram o alcance, a visibilidade e a popularidade da música latina em escala nacional e global. O já consagrado “Despacito” de Luis Fonsi e Daddy Yankee, passou 16 semanas no primeiro lugar nas paradas em 2017, mas interessantemente precisou da ajuda de um remix de Justin Bieber e um pouco de inglês para chegar ao sucesso absoluto. O mesmo fez J Balvin e Willy William, em “Mi Gente”, acompanhado por Beyoncé, que alcançou a terceira posição na parada. No entanto, isso tem mudado: em novembro de 2020, “Dákiti”, música em espanhol de Bad Bunny e Jhay Cortez alcançou o primeiro lugar na parada global da Billboard.

Mundo afora, o K-Pop teve forte presença nas listas da Billboard, assim como artistas japoneses como Arashi, Yoasoby e Lisa. O rap alemão e francês também tem ganhado força no mercado internacional, com artistas como Bonez MC e Capital Bra, solidificando a força da onda do rap e hip-hop no mundo. Outra grande potência tem sido o Afro trap, e Afrobeats, com destaque para grupos como MDH, da França e Afriquoi, do Reino Unido.

Ainda segundo a Billboard, a ausência de artistas vindos da China e Índia se dá por motivos
muito claros. A China proibiu o YouTube, Spotify e outras plataformas ocidentais de streaming. A Índia, o maior mercado de música do YouTube, tem plataformas fortes como JioSaavn e Ghanna, que também não fazem parte das paradas da Billboard.

O Brasil também tem ganhado força nessas mesmas paradas. Como décimo maior mercado do mundo no streaming em 2020, 12 faixas brasileiras interpretadas por 20 artistas diferentes fizeram parte da seleta lista da Billboard. Mais da metade das músicas são sertanejas, com destaque para Gusttavo Lima, com duas composições na lista. De acordo com Andres Wolff, Vice Presidente de Marketing da Warner Music na América Latina, “há tanto talento vindo do Brasil que é difícil de acompanhar”.

Apesar do sucesso brasileiro e do talento gigantesco da nossa música, ainda é difícil acompanhar os sucessos de outros músicos latinos, muito em razão da barreira linguística e rítmica. O amadurecimento do mercado de streaming, e o crescimento de ritmos brasileiros no panorama internacional, como o funk, deve mudar isso no futuro, na medida em que os gringos se (re)acostumam com o nosso som.

As colaborações são de fato uma ferramenta importante para os artistas cruzarem fronteiras. Em um mercado bastante imediatista, em que o investimento a longo prazo perdeu fôlego, é um excelente momento para a colaboração de artistas de diferentes países. Com as facilidades tecnológicas do presente, que elas sejam cada mais estimuladas e produzidas.

Arthur Deucher Figueiredo é advogado com base em Los Angeles e São Paulo. Mestre em Direito e Política da Mídia, Entretenimento e Tecnologia pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e em Direito Constitucional pela PUC-SP. Membro da diretoria da Câmara de Comércio Brasil Califórnia.