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Foto por Vitor Carvalho / Dir. de Arte e Cenografia por Letícia Naves e Júlia Maia

O músico e compositor mineiro Augusto Brant, ou simplesmente Guto, lançou na última semana o single “Um Sopro”. A música propõe uma reflexão sobre a contemporaneidade nesta reta final de um 2020 globalmente difícil.

Embalada por uma levada de ijexá e por um clima retrô que nos remetem a uma leve brisa soprando numa tarde de outono, a música denuncia a incompatibilidade da vida humana contemporânea com sua natureza essencial e alerta para a necessidade de uma revolução efetiva dos modos de viver, explica Guto.

‘Um Sopro’ é uma canção sobre o tempo, sua inexorabilidade e nossa insistência, como geração, em um modo de vida marcado pelo excesso do trabalho e do consumo, repetindo (e acirrando) uma lógica à qual se submeteram as gerações anteriores à nossa.

“Quiero el sueño de la revolución”, vislumbra o cantautor no verso que encerra a canção. Sempre reféns das mãos invisíveis do mercado, mesmo depois de todo o impacto causado pela pandemia e do perturbador desequilíbrio político mundo afora, quem é que não se identifica com a ideia de uma revolução?! Guto relata que a música foi “construída sobre uma espécie de autocrítica“.

‘Um Sopro’ aponta para a onipresença do pensamento revolucionário e para sua urgência que emerge, inevitavelmente, de toda parte: do pensamento à fala, da rádio ao Twitter.

Gravada de forma solitária durante o isolamento social, “Um Sopro” é resultado de uma constante troca de ideias com o amigo Lucas Luís, responsável pela mixagem da faixa. Brant optou pelo uso de um número reduzido de elementos — a voz, o violão, uma drum machine, um sintetizador e um teclado eletromecânico. Do ponto de vista estético, o arranjo apresenta uma mistura entre velho e o novo, numa tentativa de sobrepor os dois tempos retratados na canção: o seu tempo e o tempo dos seus pais.

A música abre com o fragmento de uma entrevista de João Goulart, na ocasião da renúncia de Jânio Quadros, na qual o repórter, Carlos Spera, pergunta a ele se, com sua posse, a tranquilidade voltaria a ‘reinar na nação brasileira’. A ausência da resposta do entrevistado no trecho sampleado leva o ouvinte não apenas a responder mentalmente à pergunta, mas a estabelecer o elo entre os dois tempos retratados na canção, constatando a estranha semelhança entre os desafios que se impõem ciclicamente a gerações subsequentes.
“Um Sopro” receberá um clipe em Janeiro de 2021, um esquenta para a chegada do novo EP de Guto, previsto para Fevereiro. Você pode ouvir a música no player abaixo.

Aletrix

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Foto: Divulgação

Agora é hora de irmos para lados completamente opostos… O músico paulistano Aletrix está lançando seu novíssimo EP, Jardinando, e convida todos a festejar loucamente, mas, como o momento ainda pede, com total distanciamento. Invocando barulhos e melodias com graciosidade e selvageria, a novidade chega para arrepiar os pelos mais secretos do canal auditivo.

Se você ainda não conhece o trabalho de Aletrix, esteja preparado para uma boa pitada de sarcasmo e acidez, e ótimas histórias, claro! Jardinando é o primeiro lançamento oficial do artista desde o peculiar álbum de estreia Herpes Aos Hipsters, de 2013. Em conversa com o TMDQA!, o músico conta que a necessidade de lançar um EP veio após figurar em diversas coletâneas ao longo do ano.

Depois de ter lançado músicas picadas em coletâneas em 2020, queria um lançamento mais recheado do que um solitário single e que pudesse oferecer mais ânimo e uma diversão extra pra todos no final desse ano difícil.

Entre as faixas do trabalho, Aletrix fala sobre um recém fascinado pelo mundo da jardinagem buscando ensinamentos para deixar de matar afogadas suas orquídeas (“Jardinando“); sobre uma contaminação em massa de uma grave conjuntivite graças a um convite para tirar selfies (“Hora da Selfie“); e também sobre o excesso de informações e propagandas que nos são empurradas logo pela manhã, ao pegar o celular (“Ainda na Cama“).

A tracklist é completada por uma versão instrumental de “Dendrobium Mania“, faixa inclusa na coletânea internacional Violet (2020), e a primeira versão da faixa-título “Jardinando”, mais lenta e com um arranjo diferente, mixada pelo lendário produtor Kramer (ex-Butthole Surfers). Há ainda uma versão punk rock de “I’m a Moody Guy“, do cantor inglês Shane Fenton. A faixa conta com a participação especial da baterista Emily Dolan Davies (Bryan Ferry / The Darkness). Aletrix nos conta como surgiu a ideia de regravar e dar novos ares a um clássico rockabilly sessentista:

Quando ouvi ‘I’m Moody Guy’ pela primeira vez curti horrores e imediatamente imaginei que se os Ramones a tivessem regravado teria sido espetacular. Tentei gravar essa versão imaginando como teria sido, mas comigo cantando no lugar do Joey, pra infelicidade minha e de todos.

O EP Jardinando apresenta uma divertida mistura de estilos como rock alternativo, punk e pop experimental, com influências de Pixies, Ramones e Beatles. Além de Aletrix (voz e guitarra), o trabalho conta com Alexandre Lemos (guitarra), Mia Manson (baixo) e Matheus Souza (bateria). O lançamento foi produzido e mixado pelo próprio artista e masterizado por Elliot James Mulhern (Blossöm Records).

Gumiber

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Foto por Thomas Berti

Seguindo nossa excursão por gêneros bem variados… chegamos ao Gumiber, projeto de música eletrônica dos músicos Leonardo Gumiero (ímã / Ankou) e Thomas Berti (Marrakesh). Com influências de nomes como Aphex Twin, Matmos e Jon Hopkins, o duo cria experimentações caóticas em sua estreia, com os singles “O Que Vejo” e “E O Que Quero Enxergar”.

As faixas se complementam, mas não apenas com seus títulos. Elas se conectam por elementos, temáticas, texturas, energias, excessos e também ausências. A dupla explora essa conexão e transforma em trilha sonora a imensa ‘tela azul’ que existe, vez ou outra, em nossas mentes exaustas com as informações constantes do mundo moderno.

Junto aos singles, estreia também o incrível clipe de “O Que Vejo”. Dirigido por Jonas Sanson, o vídeo utiliza um jogo de imagens retiradas do Google Earth e Street View para reforçar o sentimento de desorientação e maximalismo da faixa. Com influência no costumbrismo, movimento do século XIX que destacava costumes locais e focava a atenção em itens triviais e efêmeros, o recorte temporal de locais, costumes e culturas transforma-se em um registro da vida contemporânea. Sobre a produção, Thomas Berti detalha:

Enquanto digerimos a abundância de estímulos, perde-se de vista o que está a nossa frente. Essa negligência com o agora nos acostuma ao raso e impede de ir fundo. A atenção pede por atenção: estamos em todos os lugares, presentes em nenhum. Para uma vida que não passe despercebida, é preciso olhos que não só vejam, mas enxerguem.

As canções chegam as plataformas digitais pelo selo LogoLogo e foram produzidas por Thomas e Leonardo em um período de isolamento que antecedeu a pandemia do Covid-19, quando ficaram reclusos em uma chácara durante dias. Assim surgiram as primeiras ideias, que em seguida ganharam forma e abriram caminho para experimentações com sintetizadores analógicos e até mesmo objetos ali presentes, conta Leonardo.

Um dos sons marcantes da primeira faixa são as batidas metálicas atuando como caixa na sessão rítmica. Esses sons são samples do Thomas batendo uma barra de ferro num escorregador de um parquinho. Na segunda faixa, várias das vozes que aparecem por vezes na música são gravações da voz do Thomas passando por um sintetizador modular.

Você pode conferir toda essa caótica viagem sonora logo abaixo, bem como assista ao clipe de “O Que Vejo”.