Silva - Cinco
Foto: Divulgação
 

Quando um bebê nasce ele tem um chocante primeiro contato com o mundo: cores, pessoas, sons, barulhos… Com o passar dos anos, essas referências externas contribuem para moldar sua cultura e sua personalidade. Daí, da absorção da nossa relação com o exterior, nasce a individualidade de cada um de nós, que é o que nos torna únicos.

Dito isso, estar atento ao exterior é uma regra para os curiosos, sempre na expectativa de se desenvolverem mais e mais culturalmente. É justamente o que faz o cantor Silva desde o início de sua carreira. Do indie a músicas de Carnaval, ele desenvolveu a sua sonoridade bebendo das mais diversas fontes.

Para defini-lo, usa-se constantemente a sigla MPB, que, vale dizer, é um dos conceitos musicais mais abrangentes e complexos que existem. Ouvir seus quatro discos lançados até então (sem contar, é claro, com seus demais projetos) é contemplar uma infinidade de temas e referências musicais. Essa amplitude toda nos leva a ainda mais ramificacões no mais novo álbum Cinco.

Celebrando, direta ou indiretamente, a riqueza da nossa antropofágica cultura musical, o disco vai de A a Z. Traz uma essência pop, mas que tem ingredientes marcantes do ska, do reggae, do soul, da bossa nova, do pagode e do que mais for possível.

Se duvida, basta alinhar as participações especiais do álbum: Anitta, Criolo e João Donato. Não fique surpreso com um futuro “feat” dele com alguma banda de rock. Quanto mais imprevisível, melhor.

 

“Preciso cantar algo que me deixe em uma onda boa”

Sobre a produção das novas músicas, carreira e inspirações, tivemos a oportunidade de conversar com Silva via videochamada. Com um violão ao fundo, mas ao som de obras de vizinhos, ele nos atendeu com o mesmo bom humor e serenidade pelos quais o conhecemos nas músicas.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Silva
Foto: João Arraes

TMDQA!: Primeiramente, como foi esse período de quarentena para você? No que esses tempos difíceis contribuíram para a sua visão sobre o mundo da música?

Silva: Eu acho que esse período de pandemia, em geral, quando converso com meus amigos e falo sobre isso, deu uma sensação de “tudo ou nada”. Será que a carreira vai decolar? Será que vai dar tudo errado? Quando acabar tudo isso, será que eu ainda vou ter fãs? Dá uma certa insegurança, de que nada está garantido. Eu sempre fui a pessoa autocrítica que mergulha de cara. Eu sempre acho que a fonte secou. Tenho essas crises. De repente, quando você fica mais concentrado, as ideias vêm. Para mim, a pandemia está sendo muito assustadora, com essa questão toda da solidão, já que é bem difícil lidar com isso. Esse novo disco salvou a minha cabeça. Nunca gastei tanto tempo em estúdio na vida. Fico muito feliz de não ter enlouquecido. Está sendo muito criativo.

TMDQA!: Tem muito artista compondo durante esse tempo, mas o que mais tem saído são canções mais introspectivas e intimistas. O Cinco, por outro lado, é super solar, de uma forma geral. É um disco que abraça. Como foi compor músicas durante esse período estranho, de isolamento social, enquanto mantém essa perspectiva positiva?

Silva: Obrigado! Esse é um ótimo ponto. É engraçado, porque muitas vezes as pessoas vêm elogiar meu trabalho falando que adoram o fato de que minhas músicas trazem certa paz, certa tranquilidade. Eu sou extremamente ansioso, apesar de parecer calmo pelo jeito que falo. Eu penso muito no futuro. Esse é meu jeito de fazer música. Geralmente, serve como um antídoto para mim, sabe? A primeira coisa que penso é que preciso cantar algo que me deixe em uma onda boa. A vida já é difícil. Precisamos dar conta de tudo, desde as nossas contas até nossas próprias loucuras. Se eu entrego para você um disco entediante… Eu estou gostando de ouvir coisas alegres ou como o jazz, meio chapadas.

 

“Faça um esforço pela alegria ou se deixe levar pela tristeza”

TMDQA!: O disco, por sinal, traz referências do jazz, certo? As faixas têm uma coisa legal de tirar o ouvinte da realidade, o que fica bastante claro nos instrumentos e nos arranjos. Leva para outro lugar.

Silva: Eu penso muito isso. Antes, eu fugia da palavra “escapismo”. Eu achava que tinha sempre uma conotação ruim. Só que eu acho que, no momento em que estamos, é super saudável termos momentos assim em relação ao que consumimos, seja na música, no cinema… Nessa fase de pandemia, eu jamais leria, por exemplo, Dostoiévski. Eu ia querer bater a cabeça na parede. Eu tenho lido coisas mais leves, como Rubem Braga.

Certa vez, quando conheci Ronaldo Bastos no Rio, ele falou comigo que gosta muito de mim e do meu irmão, Lucas. A gente foi jantar e ele falou que, quando veio a ditadura e ele tinha aproximadamente a minha idade, ele e os amigos combinaram de ir para a praia todos os dias, chapar e fazer as melhores músicas da vida. Ao invés de ficarem tristes, apesar do momento pesadíssimo, eles entenderam aquilo como uma forma de resistência. Ou faça um esforço pela alegria ou se deixe levar pela tristeza. Para mim, essa coisa de tentar ser alegre é uma forma de resistir a tudo isso.

TMDQA!: Acho que, especialmente em 2020, a música realmente foi forma de escapismo para muitas pessoas. O que você mais estava ouvindo nesses tempos reclusos? Isso contribuiu, de alguma forma, com a sonoridade do disco?

Silva: Eu sou super saudosista. Musicalmente, eu gosto muito do passado. Eu já fui mais “entusiasta do futuro”. Quando comecei, tinha uma coisa de ser vanguardista. Eu era super tarado nesses sites de música em busca de novidades. Mas não é que eu tenha desistido disso e passado a odiar coisas novas. Eu sempre achei o passado muito importante musicalmente e gostei de fazer links com determinadas escolas. Eu gosto de analisar quem está fazendo e como está fazendo: arranjos, ideias, conceitos dos discos…

Eu estava ouvindo muito rocksteady, essa coisa meio pré-reggae, reggeton… Comecei mais ouvindo playlists e fui salvando alguns álbuns prediletos. Tem muita coisa. Tem uma cantora incrível, a Marcia Griffiths, que tem uma ótima versão de “Don’t Let Me Down”, dos Beatles. Além disso, estou ouvindo música brasileira sempre: Pedro Santos, Moacir Santos, além dos clássicos, como Caetano e Gil, que são regra. Também estava ouvindo muito jazz, especialmente Billie Holiday.

 

“Esse disco não é temático”

TMDQA!: Pelo o que entendi, o número cinco tem um significado especial e simbólico para você. Como ele acompanha você em sua vida?

Silva: É uma narrativa que só melhora! Às vezes eu nem gosto tanto de explicar uma música, falar o que quis dizer com determinado trecho. Prefiro não falar porque pode ser que a pessoa tenha imaginado algo e essa coisa ser bem mais legal do que a minha própria ideia. Bom, a explicação pra quem está com pressa é a de que é Cinco porque é o meu quinto álbum autoral [risos]. Mas tem muitas coisas que fui vendo depois. Meu irmão era cria de Legião Urbana e ouvia o dia inteiro. Eu acabava escutando muito também, porque era o mais novo. A gente teve várias fases de música brasileira pop. Tinha essa coisa do Dois, e eu achava massa.

Esse disco não é temático, como o Vista Pro Mar [2014]. O Cinco, como o próprio nome indica, tem essa coisa da variedade, das várias canções… É como se fossem várias peças. E aí fui percebendo várias coisas. Eu não sou um cara muito religioso, mas descobri que meu orixá do candomblé é Oxum, cujo número é cinco. Fiquei super feliz e comecei a viajar nesse número. As pessoas começaram a criar várias teorias no Twitter. Eu tenho 32 anos, então 3 mais 2 são 5. “Cinco” tem 5 letras, “Lúcio” tem 5 letras. “Lucas” tem 5 letras. Somos 5 na família contando com a minha irmã… São muitos “cincos” na minha vida. Foram as vezes que eu namorei também, eu acho. São coincidências tão legais…

TMDQA!: Como foi pensada a ordem das músicas, em termos de narrativa lírica e até de gêneros musicais? Ele começa esperançoso e para cima, e logo depois já tem uma “Pausa Para Solidão” e depois uma reflexão de que esse amor “Não Vai Ter Fim”.

Silva: Ordem de disco é uma coisa muito difícil e trabalhosa de se pensar. Pode ser que você cometa equívocos e se arrependa daqui a um mês. Eu tenho um amigo que ouviu o disco previamente e falou que amou o disco, mas que mudaria a ordem [risos]. É como se eu fosse um chef de cozinha. Tem o menu de degustação e tudo está na ordem em que os pratos são apresentados. É uma brincadeira de “o que dizer?” e “como dizer?”. Tem uma coisa com os tons também. Eu estou, por exemplo, em ré maior e depois coloco um sol maior e, assim, eu “abro” o som.

TMDQA!: O disco tem esses momentos bem intercalados. Sabe quando quebrar os momentos de euforia com calmaria e vice-versa. Muitos discos pecam ao manterem a mesma levada o tempo inteiro. Pode “cansar” o ouvinte, por melhor que seja a execução.

Silva: Exatamente. Eu não fiz faixa de transição ou essas coisas de interligar as faixas, que eu adoro. Quis que soasse como um disco de 14 singles. Cada música com uma onda diferente. Isso bate muito na questão da ordem também.

 

“Eu sempre gostei de pensar fora da caixa”

TMDQA!: Por falar em single, o que tem em mente para essa divulgação?

Silva: Eu queria um clipe para cada música, mas, como eu não sou a Beyoncé [risos]… Mais do que tudo, acho que é preciso boas ideias. Ter ideia para clipe é difícil. Às vezes pode ser até gravado com telefone, mas a ideia tem que funcionar. Representar uma música com imagens é difícil. Quando você gosta de uma canção, é muita responsabilidade fazer essa adaptação. Ela pode surpreender a pessoa que ouve ou prejudicar a compreensão dela. Tem que ir com calma, mas eu ia amar fazer 14 clipes.

TMDQA!: O Cinco, por sinal, passeia por vários gêneros musicais mesclados à MPB. É basicamente uma homenagem à cultura antropofágica da música brasileira. Tem soul, reggae, ska, bossa, samba, jazz. Isso foi natural ou era algo que você tinha em mente?

Silva: Eu acho que, nessa “rede” de gêneros, alguns combinam muito entre si. A música brasileira combina muito com o reggae. Gil até fala que o xote é primo de primeiro grau do reggae. Eu sempre falo que quero ver uma cantora de reggae brasileira em destaque de novo. Céu já fez muito isso, por exemplo. Samba, reggae, jazz, R&B, os ritmos baianos que estão ganhando abordagens modernas… Acho que esses gêneros combinam muito. Eu comecei a querer não apenas ouvir isso, mas trazer isso para meu próprio trabalho.

TMDQA!: Eu gostei muito das participações presentes no disco. Além de repetir a parceria com Anitta (em “Facinho”), você canta com Criolo (em “Soprou”). O disco ainda conta com a participação do João Donato (em “Quem Disse”). Ao longo do tempo, você foi experimentando parcerias com artistas dos mais diversos gêneros, de Ludmilla a Lulu Santos. O quanto essas várias parcerias têm agregado para quem você é hoje, em termos profissionais e pessoais? De 2012 para cá, temos dois “Silva”s completamente diferentes, sendo o de hoje um músico mais amadurecido com grande vivência musical.

Silva: Acho que essa coisa das parcerias, para mim, parece um pouco com a questão de “encarar projetos”, como fiz com o Canta Marisa [2016] ou com o Bloco do SIlva [2019]. Acho que isso me enriquece para caramba, porque entro em contato com outras pessoas, canto de outro jeito… Só de admirar um artista de um rolê diferente do seu, isso já faz uma pessoa crescer bastante. Eu sempre gostei de pensar fora da caixa em relação a isso ao invés de andar com um grupinho específico de MPB, que, por sinal, também são meus amigos. Não é como se eu escolhesse andar só com Cícero, Rubel e essa galera. Existe nisso um “elemento surpresa” que acho muito interessante.

TMDQA!: Muito mais considerando a amplitude da música brasileira que, mais do que nunca, agora está bastante enraizada na nossa produção musical.

Silva: A música brasileira é infinita e não vai morrer nunca!

 
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