Mulher ouve música em seu celular
Foto Stock via Shutterstock
 

Por Arthur Deucher Figueiredo Santos

Com o mercado da música profundamente afetado pela pandemia da COVID-19, as inovações tecnológicas no setor têm desenvolvido um trabalho fascinante e imprescindível para se compreender o futuro de como a música será criada, produzida, gerenciada e consumida.

Como o consumo de música está cada vez mais digital, há um papel crescente para plataformas de terceiros na formação da distribuição de música, com especial destaque para o potencial de parcerias e crescente cruzamento entre setores para envolver usuários e promover artistas de formas inovadoras. O streaming, embora altamente eficaz para alcançar consumidores, deixa os detentores de direitos mais dependentes de plataformas de terceiros por pagarem, em geral, uma proporção mínima da receita de assinaturas.

Além disso, na “era da atenção”, a música enfrenta a concorrência crescente com outros formatos de entretenimento. No processo de adaptação do mercado, o foco de inovações em tecnologia oferece novas ferramentas para artistas independentes para a criação de  música, gerenciamento de royalties, expansão do alcance de fãs e compartilhamento de música de forma disruptiva e envolvente. Com isso, formam-se formas criativas de se dar luz ao trabalho do artista. Um dos exemplos recentes mais icônicos foi o vídeo do Norte Americano Nathan Apodaca no TikTok andando de skate, que fez com que o single “Dreams”, da banda Fleetwood Mac, voltasse a lista “Hot 100” da Billboard pela primeira vez desde 1977. O impacto orgânico impressiona: a banda teve um aumento exponencial de ouvintes do seu catálogo e aumentou sua base de fãs para um público mais jovem.

O jornalista norte-americano Sam Blake, em fascinante artigo, mostra como o ecossistema de startups no setor de tecnologia está prestes a acelerar duas grandes tendências na indústria musical.

Tendências da Indústria da Música

A primeira é a ascensão de artistas independentes. Em 2018, os “indies” – artistas que detêm os direitos da maior parte ou todo o seu material – ganharam 6,6% do total das receitas de música gravada. Essa taxa representa um crescimento de 78% em relação a 2015, o que torna os artistas independentes o segmento de crescimento mais rápido do mercado fonográfico.

As redes sociais e as plataformas de streaming como Spotify deslocaram o poder das gravadoras para os artistas. É importante notar que à medida que os artistas se tornam mais poderosos, os empresários também. No novo ecossistema musical, os empresários aumentarão sua participação no trabalho no desenvolvimento do artista, em vez de representar apenas seus interesses comerciais.

Em alinhamento com a tendência do “artista dono de si”, startups na área da música tem trazido transparência e eliminado complexidades inerentes ao mercado, como o gerenciamento de direitos autorais e processos administrativos contábeis, com modelos de pagamento mais ágeis e maior controle e liberdade sobre a distribuição das obras. São modelos que não seriam necessariamente oferecidos por uma gravadora tradicional.

O mercado internacional já acompanha essa tendência e conta com diversas empresas que ajudam os artistas a assumir o controle da distribuição e contabilidade de suas obras, com destaque para empresas como a Bandcamp, Stem Disintermedia, Create Music Group, e Pex. A Create, por exemplo, desenvolveu uma tecnologia com base na plataforma de gerenciamento de direitos do YouTube para ajudar os artistas a ganhar dinheiro. Já a Pex ajuda os artistas a gerenciar a monetização de suas obras, rastreando os dados associados às suas músicas na internet para além do Content ID do Youtube e Gerenciador de Direitos do Facebook.

No Brasil, uma das empresas que mais tem facilitado o trabalho de músicos independentes é a Magroove, que concentra ferramentas que um músico independente precisa para
desenvolver a carreira, em especial através da distribuição em diferentes plataformas.

O maior controle nas mãos do artista significa a potencialização da liberdade com a qual o artista poderá ditar a trajetória da sua carreira. Será interessante acompanhar a mudança de comportamento da indústria a partir desse novo modelo.

Ainda de acordo com Sam Blake, a segunda tendência de aceleração no ecossistema de startups no setor de tecnologia aplicada à música é a transformação do que uma empresa de música fundamentalmente é. Isso porque o áudio está se tornando inseparável de tecnologias que abrangem inteligência artificial, games, redes sociais, bem como realidade aumentada e virtual. Em outras palavras, a tendência do mercado se debruça na descoberta de estratégias de monetização que poderão abrir caminhos para a indústria trabalhar com outros setores do futuro.

Concertos virtuais, com oportunidades de envolvimento e engajamento dos fãs transferidas para plataformas virtuais, além de experiências de imersão musical a partir de realidade virtual já são realidade com um futuro ainda muito promissor. Plataformas como a Looped, que permite que um artista crie um espaço virtual e venda ingressos gerais e VIPs para o evento, e a Wave, que transforma os artistas em avatares digitais e os coloca em palcos virtuais onde podem entreter e interagir com os fãs estão oferecendo novas maneiras de viralização de conteúdo musical e engajamento com fãs.

Experiências de imersão musical com realidade virtual também estão ganhando força, com destaque para empresas como a ViRvii e a Splashmob. A partir do software da ViRvii, por exemplo, os fãs poderão explorar o Yellow Submarine dos Beatles enquanto o álbum toca ao fundo. Já a segunda empresa dá aos artistas o controle das telas dos celulares de seu público, que podem ser controladas em tempo real.

Os compositores, artistas, e produtores também estão se adaptando rapidamente a um novo padrão de distanciamento social quando o assunto é gravação colaborativa. Embora sem a espontaneidade do encontro musical em um estúdio, é interessante ver os novos formatos de colaboração no mundo virtual. Exemplo disso é a Warner Chappell 1 , que tem conectado remotamente sua comunidade de compositores de diversos locais do mundo, conduzindo diversos “virtual camps” direcionados à composição.

A pandemia acelerou novas facetas e processos em andamento da indústria musical, com a construção de pontes entre as diferentes mídias e grande foco para o empoderamento do artista independente. Compreender essas tendências e como elas mudarão a forma da indústria significa compreender o contexto no qual a indústria da música se desenvolverá nos próximos anos.

Arthur Deucher Figueiredo é advogado com base em Los Angeles e São Paulo. Mestre em Direito e Política da Mídia, Entretenimento e Tecnologia pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e em Direito Constitucional pela PUC-SP. Membro da diretoria da Câmara de Comércio Brasil Califórnia.

 
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