Bob Dylan e Jimi Hendrix
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Desejar mudanças na sociedade definitivamente não é algo novo. Seja em termos políticos ou sociais, a inconformidade existe para se conseguir respostas e para buscar o utópico balanço entre tudo e todos.

All Along The Watchtower“, clássica canção no repertório de Bob Dylan, é justamente sobre isso. Originalmente lançada no fim da década de 60, trata-se de um reflexo do crescente senso de que a música pode (e deve) ser um ato político. Com criativas metáforas, que sempre permearam o trabalho de Dylan, a música versa sobre mudanças, valores e estabilidade.

De quebra, logo depois veio ao mundo a versão do guitarrista Jimi Hendrix, que impulsionou a fama de “All Along” e atribuiu um novo contexto à sua mensagem. O resto faz parte de uma história que continua sendo escrita, já que a canção continua fazendo sentido mesmo passados mais de 50 anos.

Abaixo, separamos algumas curiosidades sobre a música, em termos de produção, contexto e legado.

Confira após o vídeo.

 

Belo, recatado e do lar

A composição surgiu em meados de 1967, da mesma maneira que todas as outras canções presentes em seu oitavo disco de estúdio, John Wesley Harding. O rápido processo de escrita coincidiu com a recuperação de um acidente sofrido por Dylan em Julho de 1966.

Um jornalista do The Associated Press classifica esse episódio como o “acidente de motocicleta mais analisado na história da cultura pop”. Há controvérsias sobre o motivo desse acontecimento até hoje, com alguns alegando que o cantor sequer se acidentou.

De qualquer maneira, o período que sucedeu o mês em questão foi de maior reclusão social e profissional por parte de Dylan. Durante esse tempo, ele teve dois filhos, dando início efetivo à vida em família. Foi uma chance para “resetar” sua vida.

 

O palhaço, o ladrão e a revolução

De Dylan não podemos esperar nada menos do que uma grande obra lírica. Nesse quesito, “All Along The Watchtower” se mostra no mesmo nível de seus maiores sucessos (ou até mesmo em um patamar elevado).

A canção analisa, a partir de arquétipos, a estrutura social vigente, que prioriza uns em relação a outros. Logo de cara, a poesia nos apresenta a um diálogo entre dois personagens inconformados: um palhaço e um ladrão, figuras que, historicamente, possuem baixo status social. “Deve haver algum modo de saída daqui”, reflete o palhaço logo no verso inicial.

Logo depois, somos apresentados a um imaginário de realezas e servos em um castelo, o que nos remete a tempos antigos enquanto estrutura a ideia de que a sociedade é, de fato, injusta. A tal revolução, anunciada por um “gato selvagem”, chega a partir dos dois cavaleiros protagonistas da história, que desejam o fim da exploração e da injustiça à qual são submetidos.

 

Referências bíblicas

Muitos críticos comparam a letra da canção com a Bíblia. Eles enxergam similaridades entre os versos de Dylan e o conteúdo do Livro de Isaías, peça central da literatura do Antigo Testamento.

O trecho abaixo recortado abaixo pertence aos versículos 5, 6, 7, 8 e 9 do capítulo 21 do livro em questão. De fato, o contexto se assemelha à jornada do palhaço e do ladrão:

Põem-se à mesa, estão de atalaia, comem, bebem; levantai-vos, príncipes, e untai o escudo. Porque assim me disse o Senhor: vai, põe uma sentinela, e ela que diga o que vir.
E quando vir um carro com um par de cavaleiros, um carro com jumentos, e um carro com camelos, ela que observe atentamente com grande cuidado. E clamou: Um leão, meu Senhor! Sobre a torre de vigia estou em pé continuamente de dia, e de guarda me ponho noites inteiras. E eis agora vem um carro com homens, e um par de cavaleiros. Então respondeu e disse: Caída é babilônia, caída é! E todas as imagens de escultura dos seus deuses quebraram-se no chão.

 

Manda aquela, Bob

De acordo com dados do setlist.fm, “All Along The Watchtower” é a música mais tocada por Bob Dylan em apresentações ao vivo. Seu número ultrapassa, inclusive, seus maiores sucessos em plataformas de streaming, como “The Times They Are A-Changin’” (1964), “Like a Rolling Stone” (1965), “Knockin’ on Heaven’s Door” (1973) e “Hurricane” (1975).

Mas é difícil não associarmos seu sucesso à versão avassaladora lançada por Jimi Hendrix meses após seu lançamento original. Vamos falar mais dela a seguir.

 

A versão de Jimi Hendrix

Para você, como seria a trilha sonora da revolução? Algo mais puxado para o folk, na beleza dos acordes de um violão, ou algo mais pesado, pulsante e imprevisível?

Esse foi o “pulo do gato” da emblemática versão da banda The Jimi Hendrix Experience para “All Along”. Nela, as linhas de gaita gravadas por Dylan se tornam solos de guitarra a partir da genialidade de Hendrix. O instrumental ganha mais peso e presença. A inicialmente reflexiva canção torna-se mais animada. São vários os pontos positivos.

Precisamos destacar, especificamente, a construção da música até seu caótico último solo. É como se o diálogo entre os personagens estivesse encaminhando a narrativa para uma batalha final.

 

Sensação nas paradas

Que Jimi Hendrix é um dos melhores guitarristas da história, não há dúvidas. Apesar de seus dois primeiros álbuns de estúdio serem recheados de canções incríveis como “Foxy Lady“, “Little Wing” e “Fire“, foi apenas no terceiro (e último) que seu talento ganhou fama comercial relevante. E muito disso, é claro, se dá graças à cover em questão.

Nas paradas britânicas, “All Along The Watchtower” chegou à quinta posição. Já nos Estados Unidos, a releitura chegou ao número 20 na Billboard, se tornando seu single de melhor avaliação.

 

Uma das melhores músicas de todos os tempos

Na lista das 500 Melhores Músicas de Todos os Tempos, publicada em 2004 pela Rolling Stone, a versão de Hendrix aparece na posição 47ª. Se a versão original de Bob Dylan foi injustiçada? Não se sabe ao certo, mas o compositor original também foi prestigiado na lista com “Blowin’ in the Wind” (em 14º) e “Like a Rolling Stone” (1º, ou seja, a melhor da história).

Em 2000, a revista Total Guitar elegeu esta como a melhor cover da história. Em uma outra lista relevante, agora na avaliação da Guitar World sobre os melhores solos de guitarra, a versão de Jimi apareceu na quinta posição, perdendo apenas “Comfortably Numb” (Pink Floyd), “Free Bird” (Lynyrd Skynyrd), “Eruption” (Van Halen) e “Stairway to Heaven” (Led Zeppelin).

 

Troca de carinhos

Acha que “All Along The Watchtower” gerou algum tipo de treta entre dois dos maiores músicos da história? Achou errado!

Aqui, foi mais uma relação mútua de gratidão. Ao mesmo tempo que Jimi ajudou a popularizar a canção, Bob Dylan foi o responsável pela criação do imaginário, da melodia e de todo o contexto que levou ao maior hit do guitarrista.

A música ainda era uma criança recém-nascida quando Hendrix lançou sua releitura. Impressionado com a nova atmosfera criada, Dylan passou a usar a nova estética em seus shows. Em 1995, questionado sobre como se sentiu ao ouvir a cover pela primeira vez, o compositor contou:

Me impressionou, realmente. Ele tinha tanto talento que conseguia encontrar coisas dentro de uma música para desenvolvê-las vigorosamente. Ele encontrou coisas que outras pessoas sequer pensariam em achar lá. Ele melhorou o que eu estava fazendo. Eu tirei a licença com a música da versão dele, na verdade, e continuo fazendo isso até hoje.

Hendrix, que nunca escondeu a admiração pelo talento de Bob Dylan, também elogiou publicamente seu trabalho inúmeras vezes:

Todas as pessoas que não gostam das músicas do Bob Dylan deveriam ler suas letras. Elas são repletas das alegrias e das tristezas da vida. Eu sou como ele. Nenhum de nós pode cantar normalmente. Às vezes, eu toco suas músicas e elas são tão semelhantes a mim que parece que mesmo que escrevi. Tenho a sensação de que ‘Watchtower’ é uma canção que eu poderia ter inventado, mas que, certamente, jamais teria conseguido finalizar. Pensando sobre Dylan, eu constantemente considero que eu jamais seria capaz de usar as palavras que ele usa. Adoraria que ele me ajudasse, porque eu tenho várias canções que não consigo terminar. Eu escrevo algumas palavras no papel, e simplesmente não consigo seguir adiante.

 

“Algo épico está prestes a acontecer”

“All Along The Watchtower” ganhou uma impressionante sobrevida, conquistando um espaço notável não apenas no mundo da música. Seja pela história contada na letra de Dylan ou pela guitarra de Hendrix, a canção marcou presença em muitas obras audiovisuais ao longo dos anos (e isso porque ela sequer possui um clipe oficial).

O canal WatchMojo.com, conhecido no Youtube por fazer fazer rankings de assuntos que envolvem a cultura pop, colocou “All Along” como a 10º música mais excessivamente usada em filmes e séries. Na justificativa, é dito que trata-se de uma música que “anuncia que algo épico está prestes a acontecer” ou que é associada ao uso de drogas pela primeira vez. A canção ainda é chamada de “hino não oficial” dos anos 60, como fica evidenciado no seu uso em “Forrest Gump” durante uma cena retratada na durante a Guerra do Vietnã.

Alguns outros filmes que incorporaram o tema (mais especificamente a versão de Hendrix) são “Os Desajustados“, “O Elo Perdido” e “Olha Quem Está Falando“. Séries como Battlestar Galactica e Os Simpsons também fizeram uso da música em seus episódios.

Mas talvez o melhor aproveitamento da atmosfera épica desse grande hit tenha acontecido no fenômeno cult “Watchmen“, de Zack Snyder. A cena em questão mostra os protagonistas se preparando para um embate contra o vilão do filme, momentos antes de seu clímax. Mas vale citar que esta não é a única composição de Dylan no filme, já que outras duas são usadas. Ouvimos sua voz apenas no início do filme, com a versão original de “The Times They Are A-Changing“. Outra música de sua autoria a entrar na trilha foi “Desolation Row“, em uma pesada interpretação do grupo My Chemical Romance.