Royal Blood
Foto por Dean Martindale
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Já faz algum tempo que o Royal Blood se estabeleceu como uma das bandas mais interessantes do cenário mundial e transcendeu o status de ser apenas uma “curiosidade” por seu formato diferentão.

Explicamos: formado apenas por Mike Kerr (baixo e vocal) e Ben Thatcher (bateria), o duo atraiu olhares inicialmente pelo uso do instrumento de quatro cordas de um jeito pouco convencional, mas, com o tempo, tudo isso ficou em segundo plano para abrir espaço para uma sonoridade incrível.

Agora, a dupla se consagra mais do que nunca com o novo single “Trouble’s Coming”, que mostra um som pulsante e o resultado da soma de novas influências à sonoridade construída nos dois primeiros discos, Royal Blood (2014) e How Did We Get So Dark? (2017).

Primeira prévia de um novo disco que sairá em 2021, a canção foi o tema central de uma entrevista exclusiva do TMDQA! com Mike Kerr por telefone e, mesmo com tão pouco, já conseguimos ter mais alguns detalhes do que vem por aí. Curta a seguir!

Entrevista com Mike Kerr (Royal Blood)

TMDQA!: Oi, Mike! Como estão as coisas por aí?

Mike Kerr: Tudo certo! E por aí?

TMDQA!: Por aqui tudo bem também. É um prazer estar falando com você hoje, principalmente por eu tocar baixo e me sentir bastante representado por tudo que você faz por aí. [risos] Como isso faz você se sentir? Quando você começou o projeto do Royal Blood, tinha ideia de que se tornaria algo tão importante e influente para os baixistas?

Mike: Não! Eu não fazia ideia, porque eu nem tocava baixo. [risos] Eu tocava piano e eu só comecei a tocar baixo porque o Ben me arrumou um emprego tocando em uma banda para um outro artista, então eu meio que só comecei a tocar para ganhar uma grana. E aí eu só meio que comecei a curtir porque eu não sabia o que eu estava fazendo. E eu acho que quando você começa a aprender algo, a curva de progressão é bem rápida, sabe? Eu nunca pensei que eu tocaria baixo para viver, mesmo, mas é bizarro porque hoje em dia eu penso em mim mais como um baixista do que como pianista, o que é bem estranho. Então, é, é meio engraçado pra mim ver isso.

TMDQA!: Fiquei desiludido! [risos] Mas fico feliz que você tenha trocado para o baixo e conseguido fazer tanta coisa incrível, e óbvio que uma dessas coisas é justamente “Trouble’s Coming”. Ela soa mais dançante do que nunca, e eu amo isso. Vi você comentando que foi inspirado por nomes mais eletrônicos como o Justice para esse novo disco, então queria saber como foi o processo de traduzir essas influências para a sonoridade mais orgânica do Royal Blood.

Mike: O processo foi realmente só, tipo, um acidente na verdade. A gente não sabia de fato o que estávamos procurando e não foi até começarmos a tocar, escrever ideias meio que nesse tempo dançante que a gente percebeu que havíamos aberto uma porta interessante. E aí uma vez que começamos a tocar nesses tempos, a gente meio que só deixou essas influências fluírem, por assim dizer.

A questão principal para nós era ter certeza de que o baixo e a bateria fossem o foco principal da faixa, e aí a gente poderia injetar essas cores diferentes ao redor deles.

Novo disco do Royal Blood

TMDQA!: Legal! E sem dúvidas essa música me deixou bem empolgado para o novo disco, então eu queria saber o que vem por aí, se você puder contar. Vamos ter algumas coisas mais agressivonas também ou ficaremos no dançante?

Mike: Meio que é uma doideira. “Trouble’s Coming” não é uma faixa isolada, existe meio que um conceito, um tema para o álbum, então há muito mais sons dançáveis; mas alguns deles são bem mais pesados, alguns são bem mais leves. A gente meio que se expandiu completamente.

TMDQA!: Vocês já vêm fazendo isso tem um tempo, né? Mas é engraçado que, ouvindo os primeiros discos e principalmente o primeiro EP, tudo soa meio propício para uma grande arena, enquanto “Trouble’s Coming” parece mais intimista, mais propícia para um lugar pequeno, um “inferninho”. É algo que vocês pensam quando estão escrevendo?

Mike: Eu… acho que não. Acho que nunca escrevemos músicas com esse tipo de coisa em mente, mas eu diria que, de fato, as músicas do primeiro disco são mais propícias para as arenas do que as do novo. Essas novas são mais complexas! Mas eu não acho que a gente escreva com isso em mente, acho que é mais simples do que isso, sabe? Mas olha, preciso dizer, poder tocar nessas salas enormes assim é sensacional, e é totalmente diferente de tocar em um local pequeno.

TMDQA!: E vocês tiveram essa transição de uma forma meio rápida, né? Sem querer menosprezar nem nada, mas vocês foram muito rápido de palcos pequenos para palcos enormes, como o Rock in Rio. Isso assustou vocês? Como foi esse processo?

Mike: É estranho, sabe? Porque não pareceu ter sido um salto, foi mais uma montanha-russa. A gente se acostumou com as coisas se movendo rapidamente, sabe? Eu acho que nós não tínhamos tempo pra pensar, e a gente não percebia muito as coisas. Só estávamos ali no meio de tudo, se é que isso faz sentido, mas foi insano, olhando pra trás.

Acho que quando você está fazendo as coisas, você está muito dentro de tudo então você não tem muito uma perspectiva ou claridade do que está acontecendo, você só fica meio, tipo, “Ah, ok, vamos tocar no Rock in Rio amanhã, legal, vamos nos preparar” e tal. E aí a gente fazia isso e no dia seguinte já iríamos fazer outra coisa que era uma loucura, e no outro dia também, sabe? Nunca acabava por tipo, quatro anos.

Royal Blood

TMDQA!: Me tira uma curiosidade. Eu me lembro de vê-los no Rock in Rio e vocês ainda não eram tão conhecidos, então tinha uma galera impressionada e incrédula que eram só vocês dois no palco. Isso ainda deve rolar, né? Você se diverte com isso? [risos]

Mike: Sim, eu acho que às vezes eu esqueço até. Porque, obviamente, pra gente é o nosso normal, sabe? Mas eu esqueço que as pessoas não percebem isso e isso é, de fato, bem engraçado. Essas novas músicas, no entanto, são um pouco diferentes e isso é algo que a gente resolveu abrir mão um pouco. Porque por mais legais que sejam os dois primeiros álbuns, só eu e o Ben tocando juntos, não é por essa razão… não é a única coisa que somos bons em fazer, sabe? [risos]

TMDQA!: Claro! Eu ia perguntar justamente isso, porque ouvindo “Trouble’s Coming” eu sinto que vocês realmente deixaram isso de lado e pensaram uma coisa meio, tipo, “Ok, vocês acharam legal que éramos só nós dois, mas quer saber? A gente faz música boa, não importa se somos dois, três, quatro, enfim”. É meio por aí?

Mike: Sim! Porque as limitações que nós colocamos em nós mesmos nos dois primeiros álbuns foram intencionais, sabe? E elas estavam ali essencialmente por vários motivos, mas um deles era que nós acreditávamos que ter limitações te torna mais criativo. Você não pode ser preguiçoso, você tem que trabalhar mais para fazer as coisas soarem bem; eu tenho que trabalhar duro para fazer meu baixo soar gigante, sabe? E as músicas têm que ser boas, e os riffs têm que ser bons, e as baterias têm que ser boas, então meio que estava tudo em seu lugar.

Mas para esse disco, foi meio que tipo, a gente não precisa mais provar esse ponto para nós mesmos pela terceira vez. Sentimos que já tínhamos feito isso, e tivemos que pensar o que a gente poderia fazer que seria diferente, e foi muito mais empolgante. Foi meio que passar a sua vida toda vendo em preto e branco e, de repente, meio que ver tudo colorido, sabe? E foi como se nós tivéssemos colocado a banda em HD, em alta definição, e foi incrível depois de passar todo esse tempo com o pé no freio, e pareceu a hora certa de fazê-lo.

A única coisa que era importante para nós era que o foco das músicas fosse baixo, bateria e voz. E tudo que fosse adicionado seria essencialmente um teclado ou um backing vocal, então a gente ainda manteve uma limitação ali. Mas, sim, era hora de parar de ter medo das coisas soarem incríveis.

TMDQA!: Sensacional! Estou empolgado demais para ouvir. Bom, tenho tempo para uma última pergunta. Vocês estavam escrevendo esse disco antes da pandemia, né? Como ela influenciou no processo, mudou muita coisa?

Mike: A gente estava no meio das gravações do disco quando tivemos que parar para o lockdown, sabe? E na hora, como você deve imaginar, foi extremamente frustrante porque nós tínhamos passado um bom tempo preparando para gravar e quando finalmente estávamos no estúdio aconteceu isso. Mas, como resultado disso, o álbum ficou bem melhor.

O que aconteceu foi que nós fomos pra casa — nós literalmente saímos do estúdio e, depois de uma ou duas semanas, eu fiquei tão entediado que eu pensei, tipo, “Eu vou só escrever mais umas músicas aqui”. E na minha cabeça eu pensava que essas músicas seriam para o quarto disco, sabe? Eu estava só escrevendo qualquer coisa por estar entediado, e como resultado disso eu acabei escrevendo três músicas que são as melhores do álbum.

Então, quando foi seguro voltar ao estúdio, eu voltei lá e de repente o álbum estava muito mais forte. De uma perspectiva musical e criativa, ter meio que esse lockdown foi ótimo. Ao mesmo tempo, é uma experiência tão única e boa estar no meio da gravação de um disco e de repente parar e olhar para o que você fez até agora; em geral, você não tem tempo de refletir sobre o que fez até estar na turnê e estar tudo acabado. Então, fez o disco ser melhor.

TMDQA!: Que demais. “Trouble’s Coming” era uma dessas três músicas?

Mike: Não! Esse é só o começo.

TMDQA!: Aí sim! Obrigado pelo papo, Mike. Até mais!

Mike: Foi ótimo conversar! Até.

 
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