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Ouça nova versão do disco ao vivo do Pink Floyd!  

Olá! Tudo bom? Já postou sua selfie diária com um filtro fofinho no Instagram hoje? Já compartilhou alguma inspiradora imagem de “Bom dia” com uma bela paisagem ao fundo? Já mostrou como sua vida é perfeita e como você é um exemplo de ser humano a ser seguido?

Estamos apenas fazendo uma checagem prévia porque, afinal, é quase um dever social estar antenado nas redes sociais hoje em dia. Mais do que isso, é um dever aparentar estar bem o tempo todo. É importante mostrar seus pontos positivos e destacar suas melhores qualidades. Não é interessante, para os seus seguidores, mostrar o resto, certo?

“Sou forte e não tenho fraqueza” é quase um mantra para o século XXI. Terminou um namoro? Sorria, não chore. Desconsidera-se a fraqueza como parte de um processo de cura. É essa a crítica social apresentada pela cantora alagoana FLORA em seu disco de estreia A Emocionante Fraqueza dos Fortes.

Em dez faixas (sendo uma dela uma cover de “Sua Estupidez“, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos), o disco, produzido por Wado, ressalta o lado humano que nós mesmos deixamos de lado: nossas vulnerabilidades. Mas, tal como a dualidade entre a luz e sombra, a fraqueza é necessária para a existência da força. Se alguém se diz forte em relação a determinado assunto, é porque já superou uma fraqueza (a princípio, é claro).

 

“É preciso ter uma intimidade grande consigo mesmo”

O mundo das mídias sociais acabou se tornando uma vitrine onde precisamos expor o que há de melhor em nós. Sim, “expor”. Tudo, hoje em dia, tem relação com o exterior: a aparência, os discursos, as relações… Mas e o interior?

No disco, FLORA, que também é atriz e estuda História da Arte, se aproveita de uma sonoridade muito particular para criar uma conexão fiel consigo mesma. É um renascimento ditado por sentimentos pessoais, mas que não falha em refletir sobre a verdadeira fraqueza que permeia a nossa sociedade e sobre os lugares em que ela mais dói.

Em entrevista ao TMDQA!, a cantora nos contou com detalhes toda essa jornada, incluindo seu processo criativo e uma inesperada ligação de Roberto Carlos. Confira abaixo o papo na íntegra:

TMDQA!: Esse disco foi um grande parceiro seu ao longo dos últimos anos. Não pude deixar de fazer uma associação com o nome do nosso site, Tenho Mais Discos Que Amigos. Vemos discos e músicas como verdadeiros amigos, parceiros para qualquer momento. Como é ter essa percepção sobre seu próprio trabalho?

FLORA: Eu acredito muito que, quando você tem uma obra para realizar, você precisa estar só. Acho que o isolamento é necessário para que você possa se expandir e criar. Ter criado esse parceiro foi uma necessidade e um impulso criativo. Eu preciso me colocar nesse trabalho, porque preciso estar muito presente para conseguir compor e falar o que penso. Serve, inclusive, para que eu possa entender o que eu quero mostrar para o mundo. Isso acaba se tornando a minha companhia, então acho que parte um pouco desse princípio, de ser esse silêncio. O processo criativo de qualquer artista precisa desse momento de solidão. Meu trabalho acaba sendo, nesse sentido, um aliado, um parceiro. É ali que estou contando minha história e compartilhando meus pensamentos mais ocultos. Não existe criação sem esse projeto de isolamento, sabe?

TMDQA!: É um diálogo consigo mesmo, né?

FLORA: Sim, e muitas vezes as pessoas atrapalham esse diálogo, sabe? Para criar, você precisa conhecer. É preciso ter uma intimidade grande consigo mesmo. Na minha vida, eu sempre tive uma certa dificuldade em socializar. Eu usava meus silêncios e meus vazios. O vazio é muito importante e as pessoas não querem lidar com o vazio. A gente vive em um mundo onde a gente se preenche o tempo inteiro: de coisas, de pessoas, de materialidades e de superficialidades. Tudo isso porque a gente não quer lidar com a falta. Precisamos aprender a lidar com isso. É no vazio que a gente expande a consciência e segue a vida de uma forma mais crua e verdadeira. Não preencher esse vazio é uma tarefa muito difícil e dolorosa, mas é muito gratificante, pois você consegue transcender. Acho que as obras de arte nascem disso. O vazio é muito fértil.

 

“Eu sofri muito amorosamente na minha vida”

TMDQA!: Essa questão de nos voltarmos para nosso interior acaba dialogando um pouco com o período de pandemia. Queria aproveitar para perguntar sobre o impacto que tudo isso teve no processo de produção do disco. Uma das faixas, “Triângulos”, foi lançada em 2019, certo? A ideia era soltar o disco antes?

FLORA: Eu tinha uma narrativa pensada, mas ainda indefinida. O disco, de fato, precisou passar por esse processo, por esse momento de isolamento prudente. Teve total influência, porque três músicas foram feitas durante a pandemia. “A Emocionante Fraqueza dos Fortes”, que deu título ao álbum, por exemplo, nasceu em meados de Maio e Junho. Eu tinha o planejamento de lançar o álbum antes, mas esse momento fez com que tudo travasse. Isso acabou sendo preciso para que eu chegasse onde queria chegar. Eu estava segurando o disco pensando que não era o que eu queria ainda. O pessoal que trabalha comigo, enquanto isso, queria lançar logo, mas eu sentia que faltava algo que me representasse de fato. Eu acho que foi uma questão de tempo, de vivência e de maturação.

Algumas letras, por exemplo, mudaram. As músicas já estavam prontas, mas optei por regravar. Alterei “Revés” e compus “O Banquete”, que é uma das minhas favoritas, e a faixa-título. Imagine, agora, se eu tivesse lançado o disco sem elas, sem falar sobre o amor líquido. Com elas, entendi que tinha chegado ao ponto que queria.

FLORA
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TMDQA!: É um disco que nos pega no interior, com temas existenciais e reflexivos. O que te levou a discorrer sobre a tal “emocionante fraqueza dos fortes”? Fraqueza e força são normalmente entendidos como termos contraditórios.

FLORA: Eu pensei muito sobre essas palavras e a oposição delas. Eu acredito que palavras opostas, como “luz” e “sombra”, são muito curiosas, porque elas te tocam no extremo, sabe? Para mim, é uma metáfora de duas pessoas, uma de costas para a outra, mas juntas, como se estivessem coladas. Uma está olhando para o norte e outra está olhando para o sul, mas elas só conseguem existir porque possuem um apoio. Tudo que bate o extremo acaba se tocando. A sombra só existe porque existe a luz. Acho que a força só existe porque existe uma relação semelhante com a fraqueza.

O que me levou a isso, com essa intensidade no assunto, foi que, primeiramente, eu sofri muito amorosamente na minha vida. Eu era uma pessoa mais aberta e entregue, e sempre confiei muito em mim e, consequentemente, no outro. Aí voltamos à questão da falta de autoconhecimento, de não saber lidar com os vazios. Como eu confiava muito, eu me entregava muito e achava sempre que valia a pena. Essa entrega, no entanto, é muito dolorosa, e isso fazia com que eu me sentisse frágil.

 

“Fomos mal acostumados a associar a vulnerabilidade à humilhação”

TMDQA!: Acha que isso pode ser algum tipo de “mal da geração”?

FLORA: Minha geração é muito imediatista e tem grande influência do consumo. As pessoas acham que uma coisa não está relacionada com a outra, mas está sim. Se você é uma pessoa que compra muito e está acostumada a trocar com facilidade, é lógico que isso se reflete nas suas relações afetivas. Teve um momento em que passei a pensar “será que amar alguém é ser fraco?”. A gente tem uma ideia de “triunfo” que é ser independente, individualista, bem sucedido e não se dividir muito. Quando você ama, você precisa ceder e partilhar.

Essa ideia de “força” foi criada pela América. Ela vende para o mundo inteiro. Criou a ideia dos super heróis, por exemplo. Diante disso, comecei a pensar que sou fraca, porque eu choro, amo, me entrego, peço para voltar e assumo o que estou sentido. Isso é fraqueza? Depois de muito sofrer, eu fui buscar no fundo dessa fraqueza e entendi que isso é a força. A força é poder ser vulnerável. Uma pessoa frágil não consegue se colocar na vulnerabilidade, porque não aguenta. Foi aí que cheguei nesse ponto. O que eu achava que era fraqueza, na verdade, era força, e vice-versa.

TMDQA!: Traz um pouco da ideia de que a dualidade está presente em todos nós. É o conceito do yin-yang. Talvez isso seja um movimento de negação da própria essência humana.

FLORA: E estamos sendo coagidos a agir de uma maneira que eu, Flora, considero completamente antinatural. É claro que o conceito de “natural” é muito complexo, mas essa ideia que temos criado por aí é muito coisa de máquina. Desde a Revolução Industrial, o ser humano busca esse caminho de se assemelhar a uma máquina e passa a usá-la como referência. No fundo, as pessoas querem chorar, desabafar, sentir… As pessoas seguram seus sentimentos e vão endurecendo para tentar mostrar forçar. Eu acho que está tudo errado e sinto que alguém precisa puxar o movimento de questionar isso.

Fomos mal acostumados a associar a vulnerabilidade à humilhação. Estamos sentindo muito as consequências dessa falta de comunicação. A gente precisa parar de fingir. As pessoas estão fingindo demais e as redes sociais são um retrato disso, com seus filtros, cirurgias plásticas e a não aceitação do próprio corpo. Estamos entrando em um momento perigoso que está mexendo com a vaidade e com o ego das pessoas, nos afastando da natureza humana, que é fraca, assimétrica e frágil. A força, na verdade, é a superação da fragilidade. Ninguém é forte. As pessoas se tornam fortes por já terem sido frágeis. É um caminho. É preciso passar por esse processo. Precisamos abraçar nossas vulnerabilidades. Não são palavras opostas, são palavras irmãs.

TMDQA!: O discurso do disco traça uma história de renascimento. Como foram surgindo as músicas nesse desenvolvimento? O que te inspirou quanto aos temas abordados?

FLORA: Eu sou muito da escrita. De formação, sou atriz, então a minha escola foi muito o teatro, que me ensinou a me colocar à exposição dos sentimentos. Para mim, escrever era como uma terapia. Tento escrever sobre o que eu penso: se estou sofrendo, se estou apaixonada… Eu precisava colocar para fora, e nem sempre você pode colocar para fora no outro. Depois, comecei a pensar em musicar o que escrevia, porque eu tinha muito contato com a música desde novinha. Nunca estudei de fato. Já fiz umas aulas e, hoje em dia, estudo mais, porque faz parte do meu trabalho. Mas sou muito da composição da letra. Os arranjos iam vindo.

Além disso, eu pesquiso muitos sons também. Eu já tive um projeto de música eletrônica e misturava muito da música erudita e da música popular, o que me permitia chegar a certas “esquisitices”. Mas acho que nenhuma música do disco surgiu sem letra. Acho que “Raízes” foi a única que escrevi a partir de uma melodia que tinha na cabeça. Geralmente, eu monto a partir da história que eu estou contando. É essa a forma que achei. Sei que tem pessoas que fazem música com calma e paciência. Eu não sou esse caso. Não é só pela música em si, mas é mais pela ideia de “a Flora precisa colocar algo para fora”, porque não cabe dentro de mim. É uma necessidade.

 

Sem preconceito e sem limites para criar”

TMDQA!: Como foi o caminho até encontrar essa sonoridade? O que você estava ouvindo na época que acabou refletindo nesse som?

FLORA: Na época, eu misturei muito do que eu gosto. Eu escuto muito Caetano [Veloso], Radiohead, Tame Impala, brega, forró… Fui juntando tudo para criar algo que fosse extremamente brasileiro e, ao mesmo tempo, universal. Vou testando sons e me apropriando. É quase uma colagem. Sem preconceito e sem limites para criar. Na época, eu estava viciada em BaianaSystem. Eu ouvia muito Animal Collective, Matia Bethânia, Marina Lima, Cazuza… Misturando tudo isso, você pira!

TMDQA!: Inclusive Roberto Carlos, né? Lá pela metade do disco, temos uma cover incrível de “Sua Estupidez”, parceria entre ele e Erasmo Carlos. Dentre de um universo tão amplo de referências, o que te levou a criar uma versão justamente para essa música?

FLORA: Quando eu escutei essa música pela primeira vez, senti que precisava cantar aquilo. Senti até inveja por não ter sido eu a compositora, porque eu super falaria isso. É tudo que eu sinto. Encaixou tão perfeitamente que pensei que tem a ver com o disco inteiro. Vem logo após “Triângulos”, de repetir “Se você tiver vontade, eu quero”. É uma música que, além de linda, pois é um amor declarado, tem uma certa raiva. É muito honesto. Quando isso bateu eu mim, tinha certeza que deveria gravar. Já que eu não escrevi, vou apropriá-la (risos). Para mim, ela tem um significado muito importante.

TMDQA!: Como foi receber uma ligação dele? O que exatamente ele te disse sobre a releitura?

FLORA: Ele foi muito generoso ao liberar. Eu já sabia que ele era conhecido por vetar muitas regravações, mas aí ele pediu somente para fazermos alguns ajustes. Eram coisas mínimas. Ele disse que achou o arranjo muito moderno e foi muito simpático e amoroso comigo. Fiquei bastante surpresa porque achei que ele não ia gostar por estar diferente demais. Ele me desejou sucesso na carreira.

TMDQA!: Como foi trabalhar com o Wado?

FLORA: A produção do Wado foi importantíssima, porque eu tinha muitas ideias semi-prontas. Ele, com toda a sofisticação e bagagem que tem, me acolheu muito. Ele me deixou “brotar” como artista. Ele não foi aquele produtor que engoliu o conceito do artista com uma ideia. Ele foi me ouvindo e desenvolvendo para que aquilo ficasse sofisticado a partir do que eu ia colocando. Fiquei muito livre para criar, e acho ótimo quando é assim, a não ser que você vá fazer aquelas carreiras de mercado. Nesse caso, em que a pessoa chegou com um trabalho pré-estabelecido, é bonito ver isso. Rolou muito!

 
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