Woodkid
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Woodkid é um artista com diversas facetas, como já mostrou várias vezes em sua carreira recheada de trabalhos na música e em outras áreas — como a direção de clipes e até o cinema.

Pseudônimo do francês Yoann Lemoine, Woodkid estreou com o disco The Golden Age em 2013 e conseguiu muito sucesso impulsionado pelo single “Run Boy Run”; o trabalho vendeu mais de 800 mil discos mundialmente e rendeu duas indicações ao Grammy para o cara, que desde então havia deixado o projeto de lado (ou pelo menos era o que pensávamos).

Em 2020, sete anos depois de The Golden Age, Yoann retorna com o disco S16, uma verdadeira viagem pelo mundo industrial que soma vivências empíricas do francês em ambientes como o da foto de capa desta matéria com as suas experiências dos últimos anos, incluindo colaborações com Nicolas Ghesquière para a Louis Vuitton e com Jonas Cuarón para a trilha sonora do filme Desierto.

É claro que todo o conceito do novo álbum vem extremamente amarrado pelos vídeos estonteantes que ele próprio produz, nos agraciando a união de virtualmente todas as vertentes de seu talento. O próprio nome, aliás, exemplifica isso: S16 é uma referência ao símbolo e número atômico do enxofre.

Em conversa exclusiva com o TMDQA!, Yoann falou sobre o processo longo e recompensador de composição para S16, além de explicar um pouco mais os detalhes do trabalho, dos visuais que o acompanham e de suas inspirações. Veja o nosso papo na íntegra a seguir!

Entrevista com Yoann Lemoine (Woodkid)

TMDQA!: Oi, Yoann!

Woodkid: Olá! Eu amei o nome do site de vocês!

TMDQA!: [risos] Obrigado! É um prazer estar falando com você, eu adoro o The Golden Age e o novo disco está incrível. Queria começar te perguntando: o que te inspirou a trazer esse projeto de volta agora?

Woodkid: Olha, é só porque eu terminei de trabalhar no disco agora. Eu comecei a fazê-lo em 2015, a plantar as sementes, sabe? E tanto dele vem de colaborações, de parcerias, e eu vinha só cuidando dessas sementes, fui separando algumas delas e as rearrumando outras, venho cultivando esse pequeno jardim já faz um tempo. E no fim das contas eu só percebi que estava pronto pra sair, então aconteceu. E acabou sendo sete anos depois do primeiro, o que é realmente um tempo muito distante, mas foi assim que foi.

TMDQA!: Então foi um processo, né? Você não pegou e simplesmente pensou “ah, agora eu vou pro estúdio”…

Woodkid: Não! Eu não consigo trabalhar assim. Eu tenho o privilégio de poder não trabalhar assim, aliás, para que eu não tenha que fazer nada de forma apressada. Mas eu amo o tempo, acho que o tempo é um grande amigo para o artista — especialmente agora que o tempo é muito político, é algo que nós como artistas recebemos pedidos para administrar mais e mais sempre, é sempre pedido que nós condensemos mais o tempo e o tornemos mais frutífero.

Sabe, você deve ter visto que o CEO do Spotify falou recentemente que os artistas deveriam parar de reclamar de quanto dinheiro ganham com as plataformas e que deveriam parar de pensar que podem fazer um disco a cada 3 ou 4 anos — o que, pra ser sincero, me parece realmente o tempo mínimo para fazer um álbum! [risos] Se você considerar questões como turnês, o tempo que você leva para fazer uma música em si, e eventualmente questões como saúde mental e coisas do tipo, é um comentário realmente muito estúpido, que não leva em conta tudo que significa ser um artista.

Eu acredito que o tempo é algo pelo que nós realmente temos que lutar como artistas — e quando eu falo tempo eu também quero dizer dinheiro, porque leva tempo para fazer uma arte boa e precisamos de dinheiro pra sobreviver.

TMDQA!: Bom, obviamente você é um ótimo exemplo de como esse tempo pode ajudar na concepção de um disco, já que S16 está bem interessante. Aliás, ele soa bem diferente do The Golden Age, né? Tem uma pegada mais industrial, pelo menos pra mim. O que te inspirou a seguir por essa linha?

Woodkid: Sim! Completamente industrial. Eu tinha essa intuição de que, de alguma forma, seria um álbum mais industrial ainda que eu não soubesse muito bem o que isso significava. Eu sentia que o primeiro disco tinha algo muito orgânico, muito sobre a madeira e sobre a matéria orgânica, e esse tinha que ser sobre algo mais metálico, algo quase petroquímico — como se o álbum fosse lavado no ácido, tivesse uma textura mais nojenta e contemporânea, de certa forma.

Eu tenho visitado vários espaços: eu fui a plataformas de petróleo, fui a minas de carvão, usinas nucleares, enfim. Eu tentei visitar esses lugares que são tão inspiradores visualmente, mas também em questão sonora porque eles mostram muito do mundo em que nós vivemos. E eu tenho me envolvido bastante nesse mundo para criar o campo léxico desse disco, as texturas sonoras do álbum e obviamente os visuais.

S16

TMDQA!: Isso é bem perceptível. Na verdade, você descreveu exatamente o que eu senti ouvindo o disco. [risos]

Woodkid: Ah, assim que é bom! [risos]

TMDQA!: Uma das faixas que mais me chamou atenção foi “Reactor”, não só por curti-la como música em si mas também porque vi você descrevendo essa música como “Einstein na praia encontrando Akira“, em referência ao filme/animação japonês. Você pode contar um pouco mais sobre de onde veio essa inspiração japonesa, presente em quase todo o disco, e como você faz para traduzi-la de uma maneira que não seja óbvia e até errada, de certa forma?

Woodkid: Ah, adorei! Bom, primeiramente eu sou um grande gamer. [risos]

TMDQA!: Opa, somos dois!

Woodkid: Aí sim! Então a cultura japonesa sempre esteve muito presente pra mim, tipo a série Final Fantasy e as músicas que vieram dali, mas também obviamente as animações como Ghost in the ShellAkiraEvangelion… e eu tentei trazer um pouco disso, dessa cultura da fantasia da ficção científica. E, apesar de ser uma grande influência, é algo que eu nunca tinha conseguido injetar nas minhas músicas até então.

É quase como se eu quisesse que esse lado das minhas influências encontrasse, geograficamente, o outro lado, entende? Tipo, com o movimento minimalista dos EUA nos Anos 70 com Steve Reich, Philip Glass, coisas pelas quais eu sou obcecado e queria que elas se encontrassem e o resultado foi “Reactor”.

Ela tem esses padrões repetitivos que são cantados pelas teclas em uma espécie de contagem regressiva que remete a isso, mas eu também queria usar a cultura japonesa e usei um coral — e eu queria usar esse em específico porque, confie em mim, eu já usei corais de crianças em músicas e parece que sempre fica soando como um comercial ou algo do tipo e eu realmente não queria que ficasse assim. Eu queria que o coral fosse mais como um comentário na música, uma ideia de uma luz fria, uma luz branca, entende? Algo que não é tão quente, que tem uma certa ideia do futurismo, mas que é um pouco misterioso de certa forma.

Eu acho que, no fim das contas, ela traz sim uma certa esperança. Mas ao mesmo tempo é uma esperança que é meio neutra, meio pacífica, sem ser comercial de nenhuma forma.

TMDQA!: Sim, é a sensação que passa mesmo! Falando em games, parece algo que deveria estar no Death Stranding.

Woodkid: Nossa, obrigado por dizer isso. [risos]

TMDQA!: [risos] Outra música que me chamou muita atenção foi “Goliath”, que foi justamente um dos singles do trabalho. Eu vi você falando que desejaria que essa música não ecoasse tanto a situação atual do mundo, e eu queria entender melhor essa sua colocação porque achei bem interessante. Você pode elaborar isso?

Woodkid: Quando eu fiz “Goliath”, bom… “Goliath” é uma canção de amor, mas eu quis fazer um paralelo entre ela e as grandes forças que dominam o mundo, que invocam essas coisas com as quais estamos tendo que lidar — justamente por isso a metáfora de Davi e Golias.

Eu… como eu posso explicar… eu tive a visão de que teria que ter um exército de pessoas usando máscaras, porque eu queria falar sobre uma certa ideia de pandemia e de toxicidade no ar, porque eu acho que uma pandemia seria a melhor forma de representar a toxicidade no ar e a ideia da ascensão da extrema direita — bom, você é brasileiro, você sabe o que isso significa…

TMDQA!: Sabemos bem…

Woodkid: Pois é, essa ideia da ascensão do populismo e da extinção em massa da biodiversidade, e eu queria falar sobre todas essas coisas causadas por essas forças sob um espectro pandêmico. E aí, a COVID aconteceu.

Então eu fiquei realmente me questionando como eu deveria lidar com isso. Se eu deveria adiar, ou se eu deveria mudar o vídeo, se já era tarde demais… Eventualmente, pensei que era melhor deixarmos fazer o barulho que iria fazer mesmo. E, bom, por um lado algumas pessoas vão achar que eu deveria ter traçado uma linha e eu não tenho uma resposta clara quanto a isso, eu só queria que a situação não fosse assim no mundo. Eu queria que isso fosse só fantasia.

TMDQA!: Acho que todos nós, né. Outra coisa que me deixou surpreso com o disco é que, na Wikipedia, diz que ele vai ser lançado como uma caixinha de música. Procede isso?

Woodkid: Como uma caixinha de música? Não! O que vai rolar é uma caixa especial, um monolito, é como uma caixa preta grossa que é estampada com a logo do disco e contém um vinil e várias coisinhas ali no meio!

Woodkid

TMDQA!: Fica aí a dica, pessoal! Nada de confiar na Wikipedia. [risos] Eu achei estranho mesmo. Agora queria voltar um pouco no tempo. Eu me lembro de ouvir “Run Boy Run”, do primeiro disco, e curtir muito — e aí lembro que fui procurar sobre você e vi que você dirigiu clipes para artistas incríveis, como Rihanna, Katy Perry e mais. E aí eu sempre pensei comigo mesmo que deve ser muito interessante essa sensação de passar tanto tempo trabalhando com pessoas mega famosas e de repente você mesmo tem esse sucesso, à frente do seu próprio projeto. É diferente pra você elaborar um visual pra si mesmo ao invés de pra outra pessoa?

Woodkid: Primeiramente eu queria dizer que não é porque eu estou fazendo pra mim que fica mais fácil. Eu constantemente discordo de mim mesmo. [risos] Eu brigo comigo mesmo, também. Mas é diferente em relação a ter uma pressão menor, ou pelo menos diferente, do que trabalhando com outros artistas. Eu também tenho uma segurança [quando trabalho com outros] de que eu posso me apegar à arte daqueles artistas, sabe? Quando eu trabalho com o Drake ou com a Rihanna, você tem pessoas que são extremamente validadas e extremamente conscientes de sua arte, eles já provaram muita coisa.

Então nesse caso você pode meio que se apoiar nisso como um artista e diretor para criar algo, mas eu me sinto muito mais vulnerável quando eu estou trabalhando para mim mesmo. Primeiro de tudo porque eu absolutamente não estou nesse nível, mas também porque eu sinto que por eu estar dirigindo meus próprios vídeos eu tenho ainda mais a provar do que se eu contratasse outro diretor, sabe? Porque se sou eu trabalhando, eu não tenho desculpa. Sou eu. Se algo não está funcionando, sou eu que não estou funcionando.

Então é isso, é mais vulnerável de algumas formas. Mas a parte empolgante é que são pedaços de arte que me completam.

TMDQA!: E como foi quando você percebeu que as suas músicas estavam virando hits?

Woodkid: Foi uma empolgação muito louca! É tipo, quando você nunca foi muito bem-sucedido e de repente você é… É extremamente empolgante e belo de viver, e eu espero que todo mundo possa viver isso um dia. É uma chance e é uma sorte que é incrível, mas o lado ruim é que você se acostuma muito fácil com o sucesso — e você meio que o desvaloriza, então quando você o perde ou tem menos do que se acostumou, você fica querendo mais.

Foi um dos motivos de eu precisar desse tempo [entre um disco e outro]. Foi uma coisa meio, “Opa, tem algo perigoso aqui”. Sabe? Então eu dei um passo pra trás e, pra ser sincero, foi ótimo ter feito isso.

TMDQA!: Entendo! Bom, eu tenho duas últimas perguntas. A primeira é sobre os visuais do disco. Você até agora fez clipes ou sessões visuais de alguma forma para todas as músicas do álbum; podemos esperar um pra cada música ou é inviável?

Woodkid: Eu acho que não conseguiria, pra ser sincero. Mas eu ainda não sei muito bem como vai funcionar a campanha desse disco, porque eu tenho tido que reinventá-la toda hora graças à remarcação dos shows e tudo mais, e algumas coisas funcionam e outras nem tanto. Por um lado é bem legal meio que “tocar de ouvido” e ter uma programação de só 2, 3, 4 semanas pela frente e não tão longe assim. É legal construir as coisas conforme o tempo passa, e não ficar tão preso assim.

Então, sei lá. Se de repente os shows forem sendo adiados eu vou poder fazer mais vídeos e mais conteúdos em geral, é um disco que, como diretor, me dá uma temática muito empolgante para trabalhar. Eu fico muito feliz com como ele ficou, porque tem muito com o que brincar! E eu já tenho muitos recursos e ferramentas prontos, como a própria turnê e algumas outras coisas que temos em relação ao próprio tema do disco.

Então é isso, por enquanto eu estou “tocando de ouvido” e o contexto me força a isso um pouco, mas é algo que eu gosto bastante. São vários fragmentos.

TMDQA!: Espero que a gente tenha pelo menos mais alguns vídeos, então!

Woodkid: Ah, vai ter! Tem um vídeo muito legal vindo aí.

TMDQA!: Opa, sensacional! E a última pergunta é sobre o tempo que faz que você não se apresenta em um palco como Woodkid. E a sua última passagem pelo Brasil também faz algum tempo…

Woodkid: Ah, nossa, o show de São Paulo foi um dos mais doidos que eu já fiz. E a situação ficou bem estranha depois, de um jeito bom.

TMDQA!: Ah, é? Como assim?

Woodkid: [risos] Digamos que todo mundo estava com muito tesão.

TMDQA!: Ah, ok, entendi. [risos]

Woodkid: Foi muito divertido! [risos]

TMDQA!: E podemos esperá-lo de volta por aqui quando tudo isso acabar para repetir essa situação toda? [risos]

Woodkid: Assim que eu puder! Eu amo o Brasil. Acho que junto com o Canadá, a França e os EUA é um dos meus países preferidos para visitar. Eu espero que o mais breve possível, tenho muitos amigos no Brasil além de tudo!

TMDQA!: Fechou! Te esperamos por aqui. Nosso tempo acabou, mas queria te agradecer pelo ótimo papo e te parabenizar mais uma vez pelo disco. Até mais!

Woodkid: Obrigado! E eu espero que você não tenha mais discos que amigos de fato. [risos]

TMDQA!: [risos] Eu tenho bons amigos, mas realmente tenho muitos discos! Acho que nesse caso tudo bem, né?

Woodkid: Ah, nesse caso ok. [risos] Até mais!

 
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