Fontaines D.C.
Foto por Ellius Grace
 

Fontaines D.C. foi uma das revelações do ano de 2019 e integrou diversas listas de final de ano (inclusive a do TMDQA!) com o excelente Dogrel, uma estreia que fez jus ao legado do Post-Punk trazendo uma sonoridade revival com um toque único de originalidade.

O medo de muitos era de que a banda acabasse se tornando previsível, e A Hero’s Death mostrou exatamente o contrário disso. No novo trabalho, o Fontaines expande suas influências, trabalha com novos recursos sonoros e atinge um novo patamar ainda melhor do que na obra de estreia.

Tudo isso aconteceu graças às diversas inspirações por trás — a primeira turnê mundial dos garotos irlandeses, novos pedais e, surpreendentemente, músicas dos anos 60 como os Beach Boys. O resultado é um trabalho incrível, e forte candidato a estar entre os melhores do ano.

Para entender melhor esse processo, nós conversamos com o baixista Connor Deegan III com exclusividade e você confere esse papo na íntegra abaixo!

Entrevista com Connor Deegan III (Fontaines D.C.)

TMDQA!: Oi, Connor! Muito prazer estar falando com você. Queria começar dizendo que vocês são muito queridos não só por mim, mas por toda a equipe do TMDQA! que adora o trabalho do Fontaines. Elegemos Dogrel como um dos melhores discos de 2019 e A Hero’s Death certamente chega para expandir isso ainda mais. Para mim, soa como uma expansão do som de vocês, sem se assentar em uma zona de conforto. O que foi diferente no processo de composição desses dois discos?

Connor Deegan III: Olá! Olha, muitas coisas foram diferentes para ser sincero. Quando escrevemos o nosso primeiro disco, nós estávamos morando em Dublin há alguns anos e estávamos vivendo nos pubs, bebendo bastante e lendo bastante, e fazendo coisas que iriam influenciar o primeiro álbum, coisas sobre as quais escrevemos. Para o segundo disco, nós estávamos em turnê o tempo todo enquanto escrevíamos e é engraçado porque quando você está tão acostumado a escrever sobre o lugar em que você está e aí, de repente, você não está em lugar nenhum por um período fixo de tempo, você sente que não tem mais assunto. Você sente que não sobra nada, e isso te deixa assustado.

Quando você tem esse sonho de estar em uma banda bem-sucedida, você não dá tanto valor às coisas que você já tem, sabe? Uma casa, sua família, seus amigos, poder vê-los regularmente. A familiaridade das pessoas que você vê nas lojas, enfim, todas essas coisinhas pequenas… saber os nomes das ruas, falar a língua… e quando elas se vão, você sente muita falta de tudo. Você sente que se desconecta da realidade e está vivendo no seu próprio mundinho, na sua bolha. A gente sentia que estava nessa bolha flutuante, voando por aí, no “culto do Fontaines D.C.”, sabe?

Para onde fôssemos, quando pisávamos fora da casa de shows, todo mundo te conhece — porque estão ali para te ver. Você sai pela porta dos fundos da casa para dar uma caminhada e, de repente, você está na Espanha e você não fala espanhol. E todo mundo fica tipo, “Quem é esse idiota inglês tentando falar inglês comigo de novo?”. [risos] E você fica só, tipo, “Bom, eu realmente não sou ninguém, sou tão transitório”.

E é um sentimento muito legal, claro! A gente não desvaloriza o fato de termos viajado o mundo, mas depois de um tempo você passa a ter uma perspectiva melhor das coisas que você tinha e não tem mais. E aí entram as coisas que nós viajávamos muito pensando sobre quando estávamos na van, quando estávamos viajando, nos aviões. Nós estávamos sentindo falta de casa, de conexão com as pessoas — conexão genuína com as pessoas, não aquela conexão amigável, sabe?

Tinham várias pessoas com as quais tivemos ótimas conversas sobre música ou sobre livros ou qualquer outra coisa, mas a gente não os via por tempo suficiente para ter conexões profundas, a não ser por uma galera que a gente conhece em Atenas.

TMDQA!: Musicalmente, o disco também é bem diferente do primeiro. Músicas como “I Don’t Belong” e “A Lucid Dream” soam tão diferentes instrumentalmente falando. Vocês tiveram novas influências nesse sentido? O que inspirou essa expansão musical?

Connor: Veio de termos deixado de ser músicos apenas parcialmente, pois antes tínhamos empregos que serviam como nosso ganha-pão. Agora somos músicos em tempo integral, e pudemos dedicar o tempo que quisemos às músicas e isso nos levou a um modo de funcionamento mais exagerado. A gente aprendeu muito sobre a nossa musicalidade todos os dias, eu aprendi demais sobre pedais depois que assinamos o contrato — eu não tinha nem um afinador antes disso. [risos] E agora eu tenho uns 8 ou 9 que eu uso diariamente.

A gente aprendeu muito sobre timbres, estudamos bandas como o Sonic Youth The Cure para descobrir como replicar os sons e usá-los da nossa própria forma. Então, eu olhava para pessoas como o Peter Hook e no segundo disco do Joy Division ele usava um baixo de seis cordas, e o Robert Smith tocava um [Gibson] Bass VI também em algumas coisas, e eu fiquei muito interessado na forma que eles usavam e achei que eu podia encontrar um jeito de usá-lo também, então peguei um e está em várias músicas do novo álbum.

A parte grave, que parece uma guitarra mas é bem grave, de “Sunny”, é o Bass VI. E é meio engraçado porque tem umas pessoas que… a gente foi gravar uma apresentação ao vivo esses dias e fomos fazer a rotina do câmera, pra que ele pudesse ver, tipo, onde está acontecendo cada coisa e eles ficaram muito confusos. [risos] Porque eles ficavam procurando onde entrava o baixo e de repente é o Carlos [O’Connell, guitarrista] e não eu, porque ele está com efeitos na guitarra, e aí eles pensam tipo, “Ah, ok, aqui vem a guitarra”, e aí procuram o [guitarrista Conor] Curley e na verdade está vindo de mim, e todo mundo fica confuso.

Isso faz com que eu fique bem empolgado para tocar esse disco ao vivo porque eu acho que as pessoas ficariam bem chocadas com como essas músicas foram construídas em relação a como imaginam. Mas, enfim, foi muito, muito divertido fazer esse disco porque genuinamente exploramos as coisas que queríamos explorar e conseguimos trazer tudo isso de volta à nossa música.

Fontaines D.C. e o legado do Post-Punk

TMDQA!: Que legal você falar tudo isso. Eu estava justamente pensando em te perguntar sobre as suas linhas de baixo, porque também toco o instrumento e amo o trabalho do Peter Hook. Justamente por isso, sei o quanto é difícil fazer uma linha de Post-Punk (ou próxima disso) e não soar como ele. Mas você conseguiu isso! Desde o primeiro álbum, aliás, que tem a ótima linha de “Hurricane Laughter”, e agora de novo com outras como “Sunny”…

Connor: Obrigado, cara!

TMDQA!: Imagina, é sincero! Mas o que eu queria saber é quão difícil tem sido para vocês fugirem dos clichês de um gênero que já foi explorado tantas vezes? Vocês têm isso em mente — não soar como o que já existe — quando estão escrevendo as músicas?

Connor: É uma boa pergunta. É algo que a gente pensava muito mais quando estávamos começando, porque quando você começa você está basicamente imitando alguém o tempo todo. A diferença é que… tipo, você cresce quando consegue ter ciência de quando você está imitando alguém e quanto. Então, a gente passou a ter muita consciência desde cedo — tipo, isso não parece Ramones, isso é Ramones.

E não é como se aí a gente pegasse isso e só desse uma mexida e pronto. A gente continua adicionando coisa, adicionando coisa e influência e com o tempo, na sua cabeça, você vai para uma área em particular de um sentimento ou… tipo, qual tipo de sentimento você quer acessar para aquela parte. Porque há tantas bandas diferentes que você conhece que tentaram expressar aquilo, e você acaba indo para aquele lugar e acaba soando um pouco como a coluna A e um pouco como a coluna B mas nem tanto como as duas ao mesmo tempo. Acho que isso é simplesmente como as influências funcionam, né?

Mas eu acho que temos sorte, e ao mesmo tempo acho bem engraçado porque somos comparados a essas bandas o tempo todo. Se você ler os nossos comentários do YouTube, é insano, porque raramente há algum comentário dizendo tipo “ah, o Fontaines tem esse som novo!”, é sempre tipo, “ah, eu amo o The Cure, eu amo o Fontaines D.C.”, ou tipo, “nossa, parece o Ian Curtis“. [risos] Eu acho isso bem engraçado, e não ligo, são bons elogios.

TMDQA!: Entendo! Uma das músicas que me deixou bem curioso nesse aspecto de curiosidade de como foi feito que você citou foi “Televised Mind”. Antes de ver o clipe, fica aquela dúvida de ser o baixo ou não! Mas, enfim, essa música também me parece um ótimo exemplo de como vocês criaram uma boa identidade. Ela soa como uma música do Fontaines D.C., mas ao mesmo tempo não parece com nada que vocês já fizeram. Vocês sentem que têm uma compreensão maior da identidade de vocês como banda agora?

Connor: Totalmente. Eu acho que nós temos a melhor visão de como queremos soar do que jamais tivemos antes. As coisas que nós estamos escrevendo agora, nesse Verão, que provavelmente estarão no nosso terceiro álbum, soam para mim como o mais próximo do que sempre quisemos ser do que nunca.

Acontece que agora todos nós estamos entrando em um período de viver separados, estamos todos nos mudando pelos próximos seis meses. Curley vai para Nova York morar com a noiva dele, Grian [Chatten, vocalista] vai para Londres, Carlos para Madri e eu vou para Paris. E tudo isso é muito legal, até porque temos esse tempo de folga, mas será estranho porque é o máximo de tempo que vamos ficar longe uns dos outros e acho que será refrescante voltar, mas seremos indivíduos diferentes, deve ser um pouco estranho.

A Hero’s Death

TMDQA!: Entendo! Bom, o A Hero’s Death me parece um álbum bem inspirador. Sinto que ele é muito empoderador, apesar do nome ser relacionado à morte de um herói, e isso se relaciona bastante com o que vivemos hoje na sociedade. Essa temática geral passou pela cabeça de vocês ou foi tudo em um âmbito mais pessoal?

Connor: Eu acho engraçado porque esse álbum parece estar ganhando vida própria em relação ao quanto as pessoas se relacionam com ele por conta da pandemia. A gente estava vivendo em isolamento, de uma maneira estranha, e foi sobre isso que escrevemos por conta da turnê — e, de repente, todo mundo consegue se relacionar com isso. É bem, bem estranho, quase como se fosse algo profético ou sei lá.

E bom… a ideia do nome do disco ser A Hero’s Death e da capa trazer o Cú Chulainn [um semideus mitológico irlandês] é meio que se relacionando ao mito irlandês da sua morte — o momento de sua morte foi quando ele passou a ser conhecido como herói e parou de ser uma pessoa.

O mito de Cú Chulainn é que ele uma vez foi uma criança chamada Sétanta, e foi através de todas as coisas que ele fez que seu nome mudou para Cú Chulainn. Então mesmo através do mito você está ciente da humanidade dele e como ela lhe deixa conforme seus atos vão acontecendo, sua história segue e ele faz essas coisas todas.

E a gente meio que tenta se auto-referenciar nessa ideia de que éramos garotos e de repente assinamos um contrato e fizemos essas coisas nos últimos dois anos e aí viramos essa banda que é um pouco idealizada por algumas pessoas, e nós só tentamos fazer um álbum que mostre às pessoas que nós somos humanos. Nós não quisemos fazer um segundo álbum tipo o do Oasis, sabe? [risos] “Sim, a gente é bom pra caralho, somos os rockstars da porra toda”. [risos] Achamos isso clichê e sei lá, um pouco estúpido. Queríamos escrever algo genuíno e escrever algo que fosse, de fato, pessoal.

Não queríamos levar a sonoridade para um nível de arena, pelo contrário, queríamos transformá-la em algo ainda menor e mais pessoal. E, então… A Hero’s Death é sobre tentar “matar esse mito” e ao mesmo tempo nos reumanizar.

TMDQA!: Faz sentido, e é um conceito muito legal! Tem alguma outra curiosidade sobre o disco, sobre alguma música que tenha alguma história legal, enfim, que você queira compartilhar conosco?

Connor: Claro! Olha, a primeira que eu penso é “Living in America”. Ela é inspirada pela entrevista com o James Brown que ele fica tipo [cantando] “living in America, I feel good, I feel great!”. E aí a gente lembra de todas as drogas e pensa tipo, caramba, isso é o melhor e o pior dos EUA juntos. É algo realmente pra cima, animado, feliz, e ao mesmo tempo realmente sombrio ao mesmo tempo, e foi ali que começamos esse fio. E daí fomos para várias outras coisas, tipo pensando nos sons de rua de Los Angeles à noite, o romance do “sonho americano”, mas começamos com essa entrevista.

E outra que é bem legal é “Love Is the Main Thing”, que é escrita em Fá. Não sei se você conhece o sistema de chakras, isso é meio coisa de hippie hoje em dia [risos], mas tem aquele esquema do chakra do terceiro olho e tal, e tem um chakra para o coração. E todos eles têm notas musicais que correspondem a cada um, e o chakra do coração é o Fá. Então, como “Love Is the Main Thing” é sobre amor, ela foi escrita em Fá, e a linha de baixo toca esse acorde de Fá maior com sétima que é meio romântico e fica com um ritmo que parece uma batida de coração!

Shows, pandemia e influência dos Anos 60

TMDQA!: Isso é tão legal! Há pouco você falou da pandemia e eu achei curioso que vocês decidiram lançar o A Hero’s Death mesmo com tudo que está acontecendo. Imagino que seja um pouco frustrante, já que vocês estão em alta desde o Dogrel e não estão podendo curtir essa nova fase na estrada…

Connor: Tem sido bem complicado lidar com a pandemia, obviamente. Todos nós temos as nossas próprias vidas e todos estão preocupados com o isolamento, com as suas próprias famílias evitando a doença e coisas do tipo. Mas promover um álbum e não poder fazer uma turnê é uma droga, sabe. É assim que ganhamos dinheiro hoje em dia porque as pessoas não compram mais tantos discos, ainda que atualmente isso tenha dado uma melhorada.

Além disso, fazer um disco e lançá-lo e não ver a reação das pessoas, não estar em contato com elas, parece que não é tão real. É muito bizarro. Se eu fechar o meu computador, será que meu álbum saiu? Sabe? Meu álbum existe se eu fechar esse laptop agora? [risos]

A gente queria lançar três álbuns em dois anos — 18 meses pra falar a verdade — só porque nomes como Bob DylanBeatles Rolling Stones fizeram nos Anos 60. E os Beach Boys também. Era algo que queríamos fazer, mas a pandemia nos fez atrasar esse disco um pouco e parece que agora só nos resta tentar fazer três álbuns em dois anos.

Mas a gente só queria lançar, sabe, porque… por que não? Porque se você fica guardando um álbum e aí você tem que lançá-lo depois que você já mudou como pessoa, já se passou um ano, é realmente difícil. Vai ser difícil começar a tocar essas músicas ao vivo no ano que vem, porque na verdade nós as escrevemos no ano passado! Praticamente 2 anos entre as composições e os shows, então espero que a gente ainda sinta… bom, provavelmente a gente ainda vai sentir alguma conexão com elas, mas sei lá.

TMDQA!: Essa coisa dos Anos 60 que você cita é uma coisa que por mais que seja discreta é perceptível no novo disco. Os backing vocals da faixa-título denunciam! [risos] Foi uma influência mesmo pra vocês?

Connor: Demais! [risos] A gente estava pensando tipo, e é tão engraçado, porque a nossa visão dos Beach Boys e de todo esse som da Califórnia é tão diferente do que a maioria da mídia interpretou quando falamos algo sobre isso. Eles realmente acharam que a gente ia fazer um álbum de surf music, falando de barraquinhas de hambúrguer e sobre ir a uma festa na praia com as nossas garotas [risos] mas a gente estava pensando, na verdade, na Família Manson.

A gente pensava muito nesse ideal da coisa bela, que estava chegando ao fim, que tem uma coisa meio que como se já estivéssemos condenados, sabe? E é o que torna isso belo, ao mesmo tempo. A ideia dos Beach Boys, de viver nesse “mundo belo”, aquela coisa do “California Dreamin'”, do The Mamas and the Papas, sabe? Pra mim, isso parece tanto como um prenúncio do fim!

TMDQA!: Pior que te entendo! Estamos ficando sem tempo, então queria terminar te perguntando sobre shows. Vocês têm uma passagem pelo Brasil em mente? Como estão os comentários de “Come to Brazil” nos posts de vocês? [risos]

Connor: [risos] É engraçado que na verdade não são muitos. Meu amigo é empresário de um cantor que tem uma música chamada “Brazil” [provavelmente Declan McKenna, mas Connor não citou o nome] e ele fica absolutamente cheio de comentários de “Come to Brazil”. Mas, é, a gente não recebe muitos. Eu adoraria ir, no entanto!

A gente deve tentar tocar no Lollapalooza, ou algo do tipo. Eu adoraria ir, mesmo. Tenho alguns amigos brasileiros de Dublin, porque há muitos sul-americanos por aqui!

TMDQA!: Bom, fica aqui o nosso “Come to Brazil” pra vocês.

Connor: [risos] Vamos tentar!

TMDQA!: Connor, foi um prazer conversar com você. Parabéns pelo novo álbum, e espero que tudo isso acabe logo para podermos nos ver em um show por aí. Até!

Connor: O prazer foi meu! Até mais e se cuidem.

 
Compartilhar