Glass Animals
Foto por Pooneh Ghana
Ouça playlist com clássicos do Rock!  

Depois de um período longo de aguardo pelos fãs, o Glass Animals finalmente liberou seu novo disco Dreamland e entra como forte candidato às listas de melhores do ano ao dar tons nostálgicos ao seu tradicional Indie Pop.

Sempre soando moderna, a banda liderada por Dave Bayley encontrou refúgio no passado após um acidente envolvendo o baterista Joe Seaward que colocou em cheque o futuro — e isso foi traduzido perfeitamente no álbum, que mistura esperança, desespero, lembranças de um passado mais feliz e uma mentalidade positiva em relação ao futuro.

Sem medo de transitar entre gêneros e de abraçar influências tão diferentes entre si, Bayley e companhia melhoram ainda mais o seu já ótimo modelo de sonoridade que se destaca — e muito — das outras bandas do cenário Indie atual.

O uso de elementos eletrônicos que às vezes até se aproximam do Rap não faz com que as guitarras e linhas instrumentais em geral fiquem ofuscadas, mostrando que há espaço para fazer um som original e de qualidade álbum após álbum.

Com tantas histórias para contar, Dave nos recebeu para um papo sensacional por chamada de vídeo e deu detalhes sobre o seu curioso processo de composição, além de uma “aula” sobre música brasileira com sintetizadores. Curta a seguir!

Entrevista com Dave Bayley (Glass Animals)

TMDQA!: Oi, Dave! Tudo bem por aí? Como está essa vida na pandemia?

Dave Bayley: Olá! Por aqui tudo certo, e aí?. Honestamente, tem sido ok — tenho ficado no meu estúdio, que é onde eu passo a maior parte do meu tempo mesmo. E ainda tenho um jardinzinho aqui — bem “inho” mesmo, mas ainda assim é mais do que a maioria das pessoas, então me sinto bem sortudo.

TMDQA!: Que bom! Por aqui tudo ok também. Bom, o Dreamland acaba de sair e é um disco verdadeiramente sensacional e que revisita o passado bastante, em especial nas referências à cultura Pop. Como foi o processo de revirar tudo isso pra criar esse álbum e dá pra dizer que essas coisas que você menciona nas músicas — tipo o jogo Doom, ou mesmo Space Ghost que dá nome a uma música — ajudaram a formar a estética do Glass Animals?

Dave: Olha, o processo meio que só rolou. [risos] Eu estava passando muito tempo só pensando no passado, mergulhando em memórias. E aí o nosso baterista teve aquela lesão horrível, foi pro hospital, e eu não sabia como seria o futuro, sabe? “Talvez essa banda tenha acabado, talvez eu esteja desempregado, talvez ele não consiga mais andar pelo resto da vida”, coisas assim, sabe? Não sabia o que diabos ia acontecer.

Então você meio que encontra esse conforto ao olhar pro passado, olhar para a sua vida e começar a ouvir as músicas que você ouvia quando era mais novo. E foi meio que daí que surgiu a ideia e, a partir de então, surgem todas as referências à cultura Pop. Eu começava a pensar e realmente ir atrás de coisas tipo, “como comprar um Game Boy antigo” e coisas do tipo!

E aí eu comprei tipo um Super Nintendo velho [mostra o videogame] que eu tenho jogado, e um Nintendo 64, essas coisas todas que eu não podia ter quando era criança porque não deixavam. Às vezes eu ganhava umas coisas dos meus primos; eu tive um Super Nintendo 10 anos depois de todo mundo porque eles me deram depois que eles compraram o próximo console legal. Enfim. [risos] Eu comecei a pensar em todas essas coisas e jogar todos esses jogos, sabe? Eles são confortáveis e me lembram de como é ser criança.

E sei lá, ser criança nem sempre é algo bom. Pode ser confuso e triste e engraçado e louco e estranho, e metade do tempo você não faz ideia do que está acontecendo, então… [risos] Em geral, todos esses sons meio que foram se engrenhando e ao lado da música que eu ouvia quando era mais novo eu comecei a ouvir também as coisas da minha mãe, tipo BeatlesBeach BoysNina SimoneBob Marley, Jimmy Cliff.

Ela gostava de tudo isso e de umas coisas horríveis também. Mas eu fui atrás de todos os instrumentos que eles usavam, tipo aquele velho baixo Hofner do Paul McCartney [mostra o baixo], uns sintetizadores, um Mellotron que… putz, deixei lá fora. [risos]

TMDQA!: Quanta coisa legal!

Dave: Sim! Eu comecei a ir atrás de todas essas coisas pra tentar replicar esses sons. Sons dos Beach Boys, esses samples que o Dr. Dre e o Timbaland usam e juntar tudo. [risos]

Dreamland

TMDQA!: E o resultado ficou incrível, mesmo. E algo que eu sempre reparei no Glass Animals é que a estética é realmente muito coerente — no Dreamland, por exemplo, parece que vocês abraçam essa temática meio VHS, se é que isso faz sentido, e ela se torna uma parte fundamental do álbum. Como isso se tornou tão importante pra você?

Dave: Olha, eu nem sei. Sempre foi muito importante pra mim, tipo, criar um álbum pra mim é como criar um mundo. Ele tem que te levar para outro lugar, como umas férias, sabe? E ele tem que ser o seu próprio universo — e claro, isso começa com a música, os sons, as letras, é o ponto focal. Mas, na verdade, o álbum também é tudo que o envolve. É o show, é o palco que montamos para o show, é a capa…

Eu não costumava curtir clipes, mas agora eu estou começando a gostar, em especial pra esse disco porque têm rolado umas coisas bem legais. E isso se estende a tudo! O que a gente veste, o que eu como, sabe? [risos] O álbum todo se torna um estilo de vida e um universo.

TMDQA!: E realmente é isso que ele parece, um universo!

Dave: Ah, que bom! Tudo isso se alimenta, sabe? Quando você pensa nesse mundo visual, você pensa no que você pode colocar nele. As coisas de videogame, as coisas de VHS, tudo isso se encaixa nos sons, nas letras. Então eu acabei fazendo com que as coisas soassem como se tivessem vindo de um VHS mesmo.

As vozes, os interlúdios, tudo é realmente vindo de algumas fitas da minha mãe que ela costumava gravar quando eu era criança. É um que tem escrito 1998 na capa. [risos]

TMDQA!: Queria falar um pouco sobre a música que pra mim é a melhor do álbum, “It’s All So Incredibly Loud”…

Dave: Eita, ok!

TMDQA!: [risos] O que foi?

Dave: É uma música muito triste!

TMDQA!: [risos] Desculpa! Eu gostei porque ela parece ter a marca dos sons eletrônicos e do Indie que vocês têm e ao mesmo tempo soa quase como um Post Rock. Conta um pouco mais sobre ela pra gente?

Dave: Claro, ela é uma das minhas preferidas também. Eu vou te contar primeiro sobre o que ela fala: eu tinha essa ideia doida de uma faixa onde a música inteira era sobre uma quantidade de tempo muito pequena. Mas eu tinha que pensar, tipo… o que parece… tipo… que partes da vida parecem durar uma eternidade do caralho? Alguns momentos parecem durar pra sempre, e eu tive que escolher um.

O que eu escolhi foi aquela situação em que você está prestes a dizer algo pra alguém — e isso é real, se aplica a vários momentos da vida, pelo menos pra mim — e você sabe que é algo que vai machucá-las… que vai quebrá-las, de alguma forma! Não é necessariamente terminar um relacionamento, mas pode ser isso, pode ser tipo dar uma notícia realmente terrível a alguém…

Enfim, é sobre ter que falar a alguém algo que você sabe que vai realmente machucar. E aí você tem essa experiência na qual você parece sair do corpo, você meio que se vê e vê as palavras saindo da sua boca e acertando a cabeça da outra pessoa e aí de repente está tudo quieto. E esse silêncio parece a coisa mais incrivelmente longa de todas. E toda essa música é sobre isso, sobre esse silêncio.

Ela começa bem quieta e vai ficando alta, alta, alta e alta. E aí tudo acontece de uma vez e ela explode. O silêncio antes dessa pessoa dizer alguma coisa é ensurdecedor!

Mudanças e influências do Brasil no Glass Animals

TMDQA!: Incrível! Agora eu gosto ainda mais dela. [risos] Obrigado! Mudando um pouco de assunto, queria saber pra você como foi de certa forma “abandonar” o incrível How to Be a Human Being, um dos melhores discos dos últimos tempos, pra entrar de cabeça em uma nova sonoridade e temática.

Dave: Eu gosto de seguir em frente! Sendo sincero. [risos] Eu tenho um tempo de atenção muito curto. [risos] Então, eu realmente não gosto de fazer a mesma coisa duas vezes também. Tipo, aquele álbum era sua própria ideia e a gente levou o máximo que deu, no máximo de tempo que deu — e é isso que eu gosto em álbuns, eles são pequenas fotos de quem você é naquele momento no tempo, e aí você embrulha tudo e pronto.

TMDQA!: É natural pra você.

Dave: É tranquilo, eu gosto de fazer isso. Eu realmente amo começar novas ideias — é onde eu tenho essa coisa da adrenalina. [estrala os dedos] “Essa é uma boa ideia!”. Essa é a parte que eu gosto, e começar um álbum é meio que isso, você começa com uma ideia e ela vai ficando maior, maior, maior, maior e eventualmente você chega à próxima ideia e você pensa “Beleza, vamos terminar aqui”. Às vezes é só mais fácil começar outro.

TMDQA!: Entendo! Bom, nosso tempo está chegando ao fim então vou para a última pergunta. Posso estar errado nisso, mas sinto que toda a sonoridade de vocês, os ritmos principalmente, tem uma influência de certa forma latina…

Dave: Sim!

TMDQA!: O que você curte da nossa música? Algo da música brasileira? E, bom, vocês já estiveram por aqui há pouco tempo mas podemos esperá-los novamente quando essa pandemia acabar?

Dave: Primeiramente, eu realmente espero que a gente possa voltar o mais rápido possível. Foi a melhor coisa ir pro Brasil! Na América do Sul como um todo, mas o Brasil em particular. A gente deve uns dias de folga e a gente conseguiu provar a comida, jogar futebol com os locais — que me destruíram, é claro… [risos]

TMDQA!: [risos] Acontece!

Dave: Mas foi muito divertido! Na música, em particular, o pai de um amigo meu me deu uma compilação de música brasileira em CD. Eu não sei, não vou saber quem está nele… Aliás, peraí. [digita] Chama “Brazilian Tunes” só que realmente não tem os nomes dos artistas. [risos] São só nomes de músicas. Mas eu amo! É demais! O groove é incrível, os sons de bateria são brilhantes. Eu definitivamente inconscientemente absorvi muito disso. Muitas coisas da percussão da música brasileira, da coisa sincopada da percussão brasileira, eu acho que eu abuso bastante. Tem uma música chamada “Arlequim”, uma que chama “Antes que… Seia? Tarde?”.

TMDQA!: “Antes que Seja Tarde”! Do Ivan Lins, provavelmente.

Dave: “Passatempo”, “Rendezvous in Rio”, “Samba do Soho”. [risos] Sei lá, tem uma lista enorme, umas 50 músicas aqui! Tem uma outra que eu amo que é uma compilação sensacional de Synth Pop brasileiro! Tem uma capa incrível também. Peraí. [digita] Achei! Chama Onda de Amor.

TMDQA!: Nossa, essa eu não conheço. Vou procurar! [nota: vale a pena conhecer e está disponível neste link ou no streaming]

Dave: É bom demais! E a capa, sensacional.

TMDQA!: Obrigado pela dica! Que vergonha, hein? Recebendo aula de música brasileira de um estrangeiro. [risos] Muito obrigado, Dave, inclusive pela dica mas também pelo seu tempo! Parabéns pelo disco novo e espero que tudo isso possa se resolver para nos vermos em um show logo mais!

Dave: Com certeza, mal posso esperar! Foi um prazer te conhecer!

 
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