Melanie C
Ouça nova versão do disco ao vivo do Pink Floyd!  

Por Nathália Pandeló Corrêa

Melanie C fez o impensável. Se poucos acreditavam ser possível uma Spice Girl ter longevidade na carreira solo, ela não só se manteve ativa ao longo dos mais de 20 anos desde que lançou Northern Star (1999), como vem incansavelmente se reinventando a cada novo álbum.

Há uma linha que costura cada uma de suas encarnações – e é a busca constante por identidade, autoconhecimento e aceitação. Já se vão sete discos e um amadurecimento que aconteceu bem à frente das câmeras, seja lidando com questões de imagem e autoestima que a fizeram vir a público para falar de distúrbios alimentares; seja aceitando as suas múltiplas identidades e papéis.

Muitos deles ela segue vivenciando em quarentena. Em casa, Melanie é muitas em uma só. E essas personas se desdobram em seu novo disco, que será lançado em breve. Ela já revelou alguns gostinhos, como os singles recentes “Who I Am” e “Blame It On Me”, duas canções que ganharam impactantes clipes onde reflete sobre tomar controle sobre sua própria narrativa.

No ano passado, ela retornou a um dos capítulos mais conhecidos na sua história, em uma turnê gigantesca com as Spice Girls, passando apenas por arenas. Agora, Melanie está pronta para a próxima fase. Sem abrir mão do passado, ela inicia novas parcerias e prepara o oitavo disco.

De casa, ela conversou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! por Zoom, e comentou sobre o isolamento, o que esperar do próximo álbum, seu compromisso com a comunidade LGBTQ+, saúde mental e outros assuntos. Confira abaixo:

TMDQA!: Oi Melanie, obrigada por seu tempo! Quero falar sobre essas músicas novas que você vem lançando. “Who I Am” é obviamente muito pessoal. E você é uma pessoa pública há muitos anos, até décadas. Por que sentiu que era importante escrever algo sobre a sua identidade a esse ponto da carreira? Seria uma forma de mostrar que há mais em você do que imaginamos, ou foi algo que veio de um novo lugar de maturidade, de autoconhecimento?

Melanie C: Com “Who I Am” eu definitivamente cheguei a um ponto da minha vida em que me senti pronta para me aceitar e todos os aspectos de quem eu sou. Acho que a vida é uma jornada interessante e me levou a esse ponto, de me sentir confortável na minha própria pele. Eu queria expressar isso numa música e pareceu a introdução perfeita ao disco, é um tema dentro dele. É um novo começo para mim, estou trabalhando com novas pessoas em todas as áreas e pessoalmente sinto que cheguei em casa. Estava nessa longa jornada para me encontrar e agora sinto que sempre estive aqui. Queria compartilhar isso com as pessoas e que elas também se sentissem empoderadas e inspiradas por isso.

TMDQA!: Dá pra sentir isso. Agora, eu me lembro de te ver ainda criança e pensar que era algo libertador uma garota ser esportista, atlética. E veja bem – eu não era atlética e continuo não sendo (risos). Mas talvez ao nos libertar de estereótipos, você tenha se colocado numa posição de precisar sempre ser a Sporty, cheia de energia, em forma… Tem algum adjetivo que foi colocado em você naquela época e que foi especialmente libertador de se distanciar na medida que você assumiu controle da sua própria narrativa?

Melanie: Sabe, o engraçado é que eu me rebelei contra ser “a esportista”. No meu primeiro álbum eu estava tão frustrada com ser colocada nessa caixa e ser vista apenas como parte de algo, que as pessoas não pensavam que eu conseguia ser outras coisas. Então tinha esse ponto a provar, eu queria ser diferente, ter uma aparência diferente. Todos esses anos passei fazendo isso, e… no ano passado me apresentei de novo com as Spice Girls, na nossa turnê por estádios, e eu percebi que eu sou a esportista! Não adianta querer fugir disso (risos). Eu me mantive em forma, e ativa e eu amo esportes. Mas eu acho que minha energia e o modo como abordo as coisas são os mesmos que em 1996. Então apesar de eu ter tentando me distanciar disso, meio que você não consegue se desligar de quem você é, sabe o que quero dizer? Então sim, foi uma jornada dolorosa, mas finalmente me encontrei aqui, onde sempre estive.

TMDQA!: Claro. Às vezes você é atlética e… um monte de outras coisas.

Melanie: Exatamente. Sabe, ninguém é uma coisa só. E o isolamento intensificou muito isso, porque eu sou a Sporty Spice, sou a Mel C, a Melanie C, sou mãe, sou filha, sou namorada, sou cozinheira, faxineira, professora… sou tudo agora! E todos nós somos (risos). E acho que não nos damos o crédito que merecemos, porque somos capazes de tanta coisa… Está na hora de celebrarmos quem somos, acho.

TMDQA!: Aliás, falando na quarentena: você sempre foi muito aberta sobre suas lutas com saúde mental ao longo dos anos, e agora muitos de nós estamos lidando com essas questões pela primeira vez dentro de casa, sozinhos, enfim… Você acha que ter trabalhado nessa parte emocional te preparou melhor para lidar com o isolamento? E teria algum conselho para quem está começando a lidar com essas questões agora?

Melanie: Acho que sim. Eu passei muitos anos me sentindo mal por ter ansiedade, depressão e um distúrbio alimentar, e à medida que envelheci e me tornei mãe, percebi que isso não foi tempo perdido, porque aprendi muito sobre como me cuidar. É isso que precisamos fazer. E meio que sabemos o que precisamos. Para mim, é um kit de ferramentas de auto-cuidado. Comer bem, dormir – sei que muita gente luta com a questão do sono, e descansar é tão importante -, fazer exercício, ar fresco. Precisamos de tudo isso, mas em equilíbrio. Por isso precisamos ouvir nosso corpo e a nós mesmos. Infelizmente, acho que o mundo em que vivemos nos distancia tanto dos nossos instintos, porque realmente temos o que precisamos. Pessoalmente, pra mim, se começo a me sentir pra baixo ou ansiosa, então paro e penso “ok, estou dormindo bem? Andei bebendo demais no fim de semana?”. Sempre parece que tem algo fora de equilíbrio. Para a ansiedade, o importante é respirar. A gente carrega tanta coisa no peito e concentrar na respiração ajuda a relaxar. E tem vários aplicativos legais, de meditação e atenção plena. Tem muita coisa legal online, como yoga, para exercício físico caso você nunca tenha tentado… Tem bastante recurso gratuito. Porque sei que pode ser caro se cuidar. As academias estão fechadas agora, mas ser membro é caro, terapia também… Então minha primeira regra seria “seja gentil”. Seja gentil com você como seria com seu próprio filho e aí não dá errado.

TMDQA!: Talvez falte só a gente ouvir mais isso, e se ouvir mais.

Melanie: Exatamente.

TMDQA!: Falando em ser gentil… O Mês do Orgulho ainda está meio recente e eu estava reouvindo “High Heels”, que parece um aceno aos seus fãs LGBTQ+, apesar de ser uma música pra todo mundo dançar. Mas estamos falando de uma comunidade que sempre te abraçou, e agora você pode compartilhar sua plataforma com ela. Como você vê esse papel de artistas que são hétero nessa luta por igualdade?

Melanie: Sabe, é claro que eu sou hétero, mas não me vejo necessariamente dessa forma. Me vejo como alguém que tem uma plataforma, que está diante de um público e que tem uma voz que algumas pessoas ouvem, e isso é muito importante, usá-la bem. Eu sinto uma conexão muito forte com a comunidade LGBTQ+, especialmente depois de ter feito uma turnê com o Sink The Pink ano passado e tive a oportunidade de conhecer de forma tão próxima e pessoal membros dessa comunidade, pude aprender sobre suas lutas e coisas que precisaram vencer em seu processo de crescimento. Foi algo libertador para mim e que me fez buscar mais autoaceitação também. Então isso é muito importante, e os aliados hétero precisam ir a público com seu apoio. Se você faz parte dessa sua comunidade, claro que isso faz parte das suas crenças, mas se você é alguém que naturalmente não faz parte – apesar de eu me achar bem queer (risos), faço parte dessa brigada. Porque somos todos indivíduos e muito diversos, mas todos queremos e buscamos as mesmas coisas.

TMDQA!: Voltando rapidinho para os novos singles: você sempre caprichou nos clipes, mas esses dois últimos foram bem especiais. E se você pensar bem, as músicas são bem pé no chão – falam de auto-aceitação, de se defender, etc. Como você foi dessas ideias relativamente simples para aquela exposição na galeria de arte, o videogame… E pode nos dar algum spoiler do seu próximo disco?

Melanie: Sim, eu posso (risos). Eu vou gravar um clipe nos próximos dias, estou muito animada. Meu próximo single sai nas próximas semanas, e se você acha que os dois últimos clipes foram bons, espere para ver o próximo (risos). Esse disco é muito importante para mim, realmente parece um novo começo, e eu queria que cada aspecto fosse o melhor possível. Então passei bastante tempo procurando uma ótima diretora, que tinha ótimas ideias e conceitos. “Who I Am foi” algo bem esperto, mas que foi bem difícil no dia, porque eu tinha que me encarar. Para quem não viu, é tipo uma exposição sobre Melanie C, então tem uma escultura da Sporty Spice, e tem eu com cabelo curtinho loiro estilo Northern Star, tem eu hoje… Foi meio estranho voltar a todas essas épocas e me encarar. Foi difícil. E quando estava pronto e lançado, eu fiz paz com isso, mas amei o conceito de como nos vemos e como as pessoas nos veem, como somos vistos… E combinou perfeitamente com essa música. E com “Blame It On Me”, trabalhamos com Sylvie Weber, que é uma jovem diretora alemã e é brilhante. Ela fez o clipe de High Heels também e sabe se adaptar bem a conceitos bem diferentes. E Blame It On Me é mais uma música sobre briga, sabe? Sobre um relacionamento que é um ambiente tóxico e a narradora está se levantando e brigando por si. Tem momentos na vida que a gente tem que lutar por nós mesmos e pela justiça, então foi perfeito fazer em estilo de videogame. Me fez pensar em “Say You’ll Be There”, porque incorporamos artes marciais e foi divertido. E pra quem não viu, tem muitas referências a Spice Girls e minhas músicas solo do passado. Foi divertido tirar Katrina Highkick da aposentadoria (risos). E o disco é muito mais dançante, para fazer as pessoas se mexerem, mas letras sinceras e empoderadoras e talvez algumas surpresas… Um momento bem delicado e um convidado especial ótimo. Então não posso esperar para soltá-lo no mundo!

TMDQA!: Precisamos disso agora.

Melanie: Sinto isso também, então estou empolgada para que as pessoas o recebam.

TMDQA!: É isso então, Melanie! Obrigada por seu tempo e esperamos te ver aqui no Brasil de novo, depois que tudo isso passar.

Melanie: Com certeza, eu estarei aí assim que possível. Sinto muito a falta de vocês!