Tracy Chapman
Foto via Wikimedia Commons

Tracy Chapman é dona de um dos maiores hits dos anos 80 com seu hit “Fast Car”, que certamente está entre as canções mais bonitas já escritas pelo ser humano.

Ainda assim, é um pecado gigante resumir sua incrível trajetória a uma única faixa. Nascida em Cleveland, Ohio, e graduada em Antropologia e estudos Africanos pela Universidade Tufts depois de ganhar uma bolsa de um programa social, Tracy tem uma das vozes mais poderosas e socialmente ativas dos anos 80 e 90 (e até dos 2000!).

A música foi a linguagem que ela encontrou para se expressar desde muito pequena, quando sua mãe conseguiu lhe dar um ukulele mesmo dependendo de ajuda do governo para sobreviver depois de um divórcio complicado. Em entrevista ao The Guardian em 2008, ela relembra a infância:

A cidade [de Cleveland] havia sido forçada a integrar as escolas, então eles estavam levando crianças negras às vizinhanças brancas, e crianças brancas às vizinhanças negras, e as pessoas estavam chateadas com isso, então aconteciam protestos das raças. Muitas das crianças passavam mais tempo fora da escola do que dentro, mas eu sempre amei a escola e pensei que era minha forma de sair de Cleveland, de sair da pobreza.

Essa paixão pelos estudos, segundo ela, fez com que ela sofresse bullying constantemente — além, obviamente, das questões raciais. Tudo isso deixa bem evidente o porquê de Chapman ter se transformado em uma das cantoras que mais abordou temas de injustiças sociais e raciais em suas canções.

Em 1988 vieram alguns dos maiores exemplos disso em seu disco homônimo de estreia, que lhe rendeu seis prêmios no Grammy — inclusive o de Álbum do Ano e de Melhor Artista Nova. E, claro, essas questões perpassam completamente pelo incrível sucesso de “Fast Car”, seu maior hit até hoje.

“Fast Car”

Com trechos como “Você ainda não tem um emprego / Eu trabalho no supermercado como uma caixa”, Tracy traduziu as emoções de uma grande porcentagem da comunidade negra dos EUA no ano de 1988 — como lembra a Rolling Stone, quase 10% destes estavam desempregados, o dobro da quantidade de brancos.

Segundo David Kershenbaum, produtor do disco de estreia da cantora, o sucesso de “Fast Car” foi explicado porque “todo mundo queria entrar em um carro e escapar de alguma situação da vida”, e a canção é excelente em oferecer uma espécie de escapismo idealista da cruel realidade.

Ainda que a faixa seja um sucesso absoluto até hoje e mesmo em 2020 tenha recebido uma versão poderosa do Black Pumas, o trabalho de estreia de Tracy tem outras canções absurdamente importantes como a sensacional “Talkin ‘Bout a Revolution”, que a ajudou a ser ainda mais reconhecida e, por conta da letra (“eles falam sobre uma revolução / que soa como um sussurro”) ficou conhecida como “a revolucionária quieta”.

Esse som foi regravado por nomes como Living Colour e Reel Big Fish.

A faixa, segundo single do álbum, traz trechos como “As pessoas pobres vão se insurgir / E pegar a sua parte / As pessoas pobres vão se insurgir / E pegar o que é delas”, que novamente reforçam o tom político de Chapman em meio a uma onda crescente de bandas que se preocupavam com o clichê Sexo, Drogas e Rock and Roll.

Isso é outra questão: o instrumental de Tracy Chapman. Com fortes influências do Blues e do Folk e geralmente trazendo composições minimalistas, ela destoava completamente dos únicos outros grupos que falavam de questões sociais à época, como o Public Enemy.

Mas a musicalidade de Tracy sempre foi sua, e ela nunca deixou ninguém moldar a sua arte se não ela própria.

Ativismo social e feminismo

Depois de uma estreia tão fantástica, Tracy repetiu a receita para o sucesso com o aclamado Crossroads no ano seguinte. Algum tempo depois, no entanto, ela começou a perder um pouco de relevância: Matters of the Heart, lançado em 1992, não foi bem.

A fase ruim durou pouco, já que em 1995 ela voltou ao sucesso com o excelente e cru New Beginning, que abriga o hit “Give Me One Reason”. Nada disso, no entanto, apagava o preconceito que ela sofria dentro da indústria musical por ser uma mulher dentro de um ambiente majoritariamente dominado por homens.

Na entrevista do The Guardian citada acima, ela explica que mesmo depois do sucesso de sua estreia, as situações incômodas continuavam acontecendo:

Vamos dizer que eu percebesse um problema com a tonalidade. As pessoas diziam, ‘Ah, vai ficar tudo bem’, ou, ‘Você não está ouvindo o que você acha que está ouvindo’.

Eu estava tentando explicar a situação da Madonna outro dia, dizendo que ela tem que ser admirada por sua longevidade em um gênero que foi majoritariamente construído para jovens. Os homens conseguem sustentar uma carreira durante seus 50, 60 anos e ainda se apresentar como ‘sex symbols’. Com mulheres, por outro lado, as pessoas dizem ‘Por que você não se aposenta?’. É tão injusto. Então eu a parabenizo por isso.

Caso ainda não tenha ficado claro, a artista é declaradamente parte do movimento feminista e de tantas outras causas sociais. Ela já disse que tem muito interesse em “direitos humanos”, e fez diversos shows para apoiar organizações que ela acredita durante sua carreira.

Em 1988, no ano em que “Fast Car” estava no auge, ela fez um show em Londres como parte de uma iniciativa da Anistia Internacional, uma das ONGs que ela mais apoia há anos; ela também tocou na lendária festa em homenagem aos 70 de Nelson Mandela, que arrecadou doações para o Movimento Anti-Apartheid da África.

Tracy também esteve envolvida com campanhas de apoio a portadores de AIDS e tantas outras situações — daí, portanto, vem a parte “revolucionária” do termo “revolucionária quieta”.

Tracy Chapman

Até hoje, não é muito claro se Chapman se aposentou ou não. Seu último disco, Our Bright Future (2008), nos presenteia com algumas de suas canções mais belas que são terrivelmente subestimadas, como é o caso de “I Did It All”.

Com versos poderosos como “Eu fiz tudo / Eu não pedi permissão / Eu fiz tudo”, a faixa parece uma espécie de despedida — e, bom, segundo ela, não tinha nada a ver. Ela relatou em uma entrevista com a NPR em 2009 que a canção era sobre uma personagem “imaginária”, uma vida que ela concebeu na sua cabeça após algumas reuniões nostálgicas com amigos.

No mesmo papo, Tracy ressalta que finalmente estava livre do contrato que assinou nos seus 20 anos de idade e poderia “fazer o que quisesse”. Ao que parece, ela resolveu tirar um merecido descanso, e é óbvio que ela ainda pode retornar em algum momento.

De toda forma, já são 12 anos sem sinal de qualquer nova composição da cantora, e 11 sem um show propriamente dito. Por enquanto, a última aparição dela foi em 2015, quando esteve no programa de David Letterman tocando uma versão emocionante de “Stand by Me”.

Relembre a seguir!

 
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