Roger Waters e The Wall, do Pink Floyd
Foto por Aline Krupkoski / TMDQA!
 

Em 06 de Julho de 1977, o Pink Floyd vivia um de seus grandes momentos e foi fazer uma apresentação absolutamente lotada no Estádio Olímpico de Montreal quando uma situação bem inusitada levou Roger Waters a compor um dos maiores discos da história da música.

Trata-se, é claro, de The Wall — o icônico álbum lançado em 1979 que renovou o sucesso da banda e o estendeu a outros patamares, inclusive fazendo com que mais do que nunca os músicos fossem vistos como artistas uma vez que a obra trazia um conceito totalmente amarrado do começo ao fim.

A apresentação começou relativamente tranquila, mas com o tempo, a plateia estimada entre 80 e 100 mil pessoas começou a irritar os músicos e Roger, em especial, perdeu a paciência. E foi justamente aí que esse conceito surgiu.

Pink Floyd em Montreal

Show do Pink Floyd em Montreal, 1977
Foto por Len Sidaway (via Montreal Gazette)

Desacostumado a lidar com plateias histéricas, o Pink Floyd viu a sua última parada da turnê naquele ano ser tomada por um grupo que fez tanto barulho que até hoje a noite é comparada com uma final histórica de um jogo de hóquei, o esporte mais popular do Canadá (especialmente em Montreal).

Durante a apresentação de “Pigs on the Wing” de forma acústica e suave, Waters deixa a irritação tomar conta depois que vê a gota d’água: um integrante do público tenta subir ao palco enquanto pessoas na plateia ainda fazem barulhos com fogos que haviam trazido de casa.

Um áudio da época mostra Roger bradando que está “tentando cantar essa música” e que “tem gente, como eu, querendo ouvi-la!”, além de falar diversos palavrões para pedir que os fãs, em outras palavras, se comportem.

Chega a ser cômico. Assim que o músico pede para que os gritos parem, os gritos se intensificam — como se os presentes estivessem aplaudindo o seu pedido, se sentindo com razão, sem entender que era exatamente para aquelas pessoas que eram direcionados o apelo e a irritação de Roger.

Como a súplica não adiantou, Waters efetivamente perdeu a cabeça pouco tempo depois. Durante “Pigs (Three Different Ones)”, ele parece pedir para que um dos fãs da confusão se aproxime e dispara uma cusparada na cara dele, algo que foi efetivamente confirmado pelo próprio músico em uma entrevista mais recente.

No vídeo abaixo você pode ouvir na íntegra esses trechos do show, com a parte da cuspida sendo identificada precisamente aos 2:20.

Continua após o vídeo

The Wall

A noite não acabou por aí, já que mesmo depois de terminar seu show e acender as luzes o público continuou pedindo ferozmente o retorno do Pink Floyd ao palco.

Se mais cedo foi o baixista quem se irritou, dessa vez foi David Gilmour quem perdeu a paciência e não quis voltar para o que seria o terceiro bis da noite — a performance de “More Blues”, portanto, viu o guitarrista de turnê Snowy White assumindo o lugar de Gilmour, já que a banda foi de fato obrigada a voltar.

Foi depois de tudo isso que Roger Waters resolveu refletir sobre a conexão — ou melhor, a desconexão — entre fãs e artistas e daí surgia o conceito que iria inspirar o disco The Wall, pensado inicialmente na possibilidade de existir uma parede entre banda e público.

A Parede do Pink Floyd

Nos shows da eventual e conturbada turnê de The Wall, essa ideia foi adiante e ironicamente acabou com a estabilidade da banda.

Os altos custos para levar um muro cenográfico a cada apresentação fizeram com que a ideia rapidamente fosse vista como um erro, mas ela seguiu em frente noite após noite, com o muro sendo construído à medida que a banda tocava e destruído com explosões e pirotecnia ao final.

O final da curta turnê significou também o adeus de Roger Waters à banda, já que o último show dessa fase foi também sua última apresentação com o grupo, que já estava passando por turbulências com direito aos integrantes pedindo para ficar em camarins separados.

Show da turnê de The Wall
Foto: Poeira Zine

Já foram inúmeros pedidos de desculpa do músico por essa fase, que alguns chegaram até a chamar de “momento Syd Barrett” em referência ao antigo membro do Pink Floyd.

Ainda assim, se você perguntar ao artista hoje em dia se ele prefere tocar em um lugar fechado para um público comportado ou para um estádio lotado e cheio de barulho, é bem provável que ele escolha a primeira opção. O que não significa muito, afinal, a sua última passagem por terras brasileiras lotou grandes arenas.

De toda forma, certamente devemos um agradecimento ao ilustre fã que se sacrificou por todos nós, recebendo uma cusparada na cara para que uma verdadeira obra prima da música pudesse chegar ao mundo.

Obrigado, fã histérico de Montreal!

Por Felipe Ernani e Tony Aiex