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Crédito: divulgação

Quem não gostaria de estar acompanhado do seu ídolo na música no dia a dia? É até difícil pensar tal possibilidade, mas saiba que existe alguém que cogitou essa hipótese e conseguiu realizar o sonho.

A pessoa em questão é o brasileiro Rodrigo Simas, fotógrafo oficial da Dave Matthews Band há anos e que já está mais do que acostumado a desfrutar de momentos da intimidade do vocalista e de toda a equipe que trabalha junto com ele.

Para ser exato, Simas se juntou ao time em 2010, fazendo serviços de redes sociais para a DMB, grupo do qual sempre foi muito fã. A oportunidade para fotografar a banda surgiu quando Dave, na época, incluiu o Brasil em sua turnê latina e passaria pela América do Sul sem fotógrafo.

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Rodrigos Simas é o fotógrafo oficial da Dave Matthews Band

“Eu disse ‘olha, eu vou estar nos shows e posso fotografar’’. E foi a primeira grande turnê que eu fiz, assim meio no susto. Eles gostaram e partir dali já comecei a ir para o exterior todos os anos para acompanhar eles para alguns shows. Em 2016, começamos a fazer turnês inteiras juntos,” relembra Rodrigo.

De lá para cá, o brasileiro já fotografou em eventos como Bonnaroo, Rock in Rio, Monsters Of Rock e o ProgPower Atlanta, além de ter excursionado com Ben Harper, Epica e Blind Guardian.

A seguir, você confere a nossa entrevista com Rodrigo Simas na íntegra.

TMDQA!: Você faz parte da equipe da Dave Matthews Band há mais de 10 anos. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com eles? Você os procurou porque era fã?

Rodrigo Simas: Na verdade, começou em 2000, quando criei a DMBrasil, que é o site brasileiro da Dave Matthews Band. Nos anos seguintes o site deu uma bombada razoável na banda pelo Brasil e América do Sul e os managers da DMB já tinham se interessado pelo meu trabalho para ajudar com outros artistas por aqui. Então sempre estive em contato com os “chefes” e já estávamos fazendo algumas coisas juntos quando surgiu a parte da fotografia, profissionalmente, em 2010. Eu também cuido das mídias sociais mundiais da banda desde essa época, criando o conteúdo e gerenciando as contas.

TMDQA: A fotografia surgiu tarde na sua vida, você já era formado em design quando começou a dar os primeiros cliques profissionais. De que forma essa paixão apareceu?

Rodrigo Simas: Sempre tive a música e a fotografia como hobbies semiprofissionais. No meu caso, tudo aconteceu muito naturalmente: eu simplesmente me mantive ativo, tentando fotografar sempre que possível e aprimorar meu olhar e dei sorte de estar no lugar certo no momento certo, em relação a Dave Matthews Band. Ter a oportunidade de “aprender na marra” entrando em turnê com uma das maiores bandas americanas foi (e ainda é) incrível. Nessa área, fotografando shows/espetáculos, consigo unir duas das coisas que mais gosto na vida: música e fotografia.

TMDQA!: Estar sempre acompanhado por um ídolo é uma chance em um milhão. Como você se sente em desfrutar da companhia do Dave e como ele é no dia a dia?

Rodrigo Simas: A DMB é uma família e a equipe é parte dela. Tem pessoas que estão com a banda desde o primeiro show, há 30 anos. E não são poucos. Alguns da banda se tornaram muito próximos, como é o caso do saxofonista Jeff Coffin, que é inclusive padrinho da minha filha. Dave também virou um amigo e é um cara muito engraçado, além de ser extremamente gentil com todos.

Ele dá muito valor a tudo que eu fiz e faço pra banda e é um reconhecimento muito bacana vindo dele. Nesse caso, a pessoa que você vê no palco é exatamente a mesma fora dele, o que não é tão comum. Mas ele é daqueles que não para um segundo: a cabeça funciona o tempo inteiro, a criatividade ativa 24/7. Já passamos férias na casa dele e mesmo “parado” ele está criando o tempo todo, escrevendo, compondo, desenhando, gravando…

TMDQA!: Por conta desta experiência de turnê, você já viajou para muitos lugares do mundo. O que todas essas viagens te agregam?

Rodrigo Simas: Você acaba crescendo muito como pessoa, mas cada experiência é única – posso falar do que eu vivi e aprendi. Você faz novas amizades, conhece pessoas de todos os cantos, tem experiências incríveis, perde preconceitos. Mas a vida em turnê também é de muito trabalho. Em termos profissionais é sempre um desafio – cada dia um lugar novo, com todas suas especificidades, para fotografar. Mas você tem que manter o nível e entregar um resultado melhor dia após dia.

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Paul McCartney fotografado por Rodrigo Simas em show nos EUA

TMDQA!: Nessas excursões de shows e festivais, quais artistas que mais chamaram sua atenção?

Rodrigo Simas: Nos EUA, onde a DMB é muito forte, eles estão inseridos em um “estilo” musical: as jam bands. E por aqui, no Brasil, a maioria delas é praticamente desconhecida. São os “herdeiros” do Grateful Dead e dos Allman Brothers. São bandas, como a DMB, que ficaram grandes praticamente apenas fazendo turnês intermináveis (a DMB, em 30 anos, só tirou 1 ano de folga), fazendo um circuito universitário e divulgando sua música no boca a boca, com a troca de fitas e gravações “piratas” de shows. Então você tem bandas que são anomalias como o PHISH, que é gigante nos EUA e não tocaria pra mil pessoas em São Paulo.

TMDQA!: Conseguiria apontar um sonho profissional que você ainda não realizou?

Rodrigo Simas: Vários. Para mim, ainda estou engatinhando na profissão. Não fiz, por exemplo, uma exposição do meu trabalho aqui no Brasil, mesmo já tendo feito nos EUA e em Portugal. Então esse é um próximo objetivo.

TMDQA!: Em tempos de pandemia, imagino que seus projetos estejam paralisados. Como você está se adaptando ao isolamento social?

Rodrigo Simas: Não vivo apenas de fotografia. Como disse acima, por exemplo, coordeno as mídias sociais da DMB e trabalho também como outros artistas e produtoras na área de mídias sociais, que nesta época está bombando. Além disso, pelo primeira vez na vida estou realmente fazendo uma organização geral nos meus arquivos de fotos, arrumando meu portfólio e tentando divulgar meu trabalho, pra ter tudo já pronto para quando voltarmos ao “normal”. A grande diferença, pra mim, é que nesse momento estaria em turnê com a DMB pelos EUA, já que os shows desse ano foram transferidos para 2021.

TMDQA!: Existe algo sobre o seu trabalho que você nunca falou e gostaria de mencionar? O que a fotografia significa para você?

Rodrigo Simas: A fotografia me abriu caminhos que eu não imaginaria estar trilhando agora. Sou muito grato e privilegiado. E, por mais que eu possa falar milhões de motivos para ter acontecido, teve também uma obra gigantesca do acaso. Tudo foi se encaixando e eu, sem ter muita noção do que estava fazendo, fui conseguindo meu espaço. Em 2018, no final de uma turnê, fomos jantar (a banda, eu e mais alguns outros da equipe).

No final do jantar, Dave fez um brinde, agradecendo a todos pelos shows e pelo trabalho, virou pra mim e disse: “você será reconhecido como um dos maiores ‘rock photographers’ do nosso tempo” e todo mundo aplaudiu. Era tarde, já tínhamos bebido e acho um exagero imenso falar algo do tipo. Como disse, ainda me considero engatinhando como fotógrafo. Mas ouvir isso, direto do Dave Matthews, dá um orgulho imenso. Mesmo sabendo que preciso trabalhar muito pra chegar em um centésimo dessa realidade, dá forças para continuar trabalhando e melhorando sempre.