Por Nathália Pandeló Corrêa

Foto por Sophie Jones

Quando um artista ganha um prêmio de revelação do ano, parece que teve uma ascensão meteórica. Foi o que aconteceu com Celeste Epiphany Waite, cantora que venceu o Brit Awards na categoria Rising Star esse ano, e ainda foi nomeada no BBC Music’s Sound of 2020, que celebra novos talentos. Mas, como ela mesma garante, esse é o resultado de toda uma vida ouvindo os grandes e de um estudo profundo sobre sua questão identitária.

Afinal, Celeste é uma norte-americana criada no Reino Unido com ascendência jamaicana. Ainda na infância, se mudou com a mãe para Brighton, na Inglaterra. Aos 16, postou sua primeira música online. Em 2017, veio o primeiro EP, The Milk and The Honey. Dois anos mais tarde, viria o segundo EP, Lately. Agora, aos 25, a artista vem lançando singles e se prepara para divulgar seu primeiro álbum completo ainda este ano na esteira do sucesso de “Strange”, sucesso que já acumula 1,7 milhão de visualizações em seu clipe no YouTube.

Em 2020, ela já revelou a faixa “I Can See The Change”, produzida por Finneas – outro jovem talento que coleciona 5 Grammys após produzir o elogiado disco de estreia da irmã, Billie Eilish -, mas não poderia imaginar todas as mudanças que aconteceriam no mundo desde então. Falamos sobre o momento atual, passado e futuro em uma entrevista por Zoom com a artista, direto de sua casa na Inglaterra.

Confira o papo exclusivo com o TMDQA! logo abaixo.

TMDQA!: Oi Celeste, obrigada por seu tempo! Não há muitas pessoas que podem dizer que “epifania” é literalmente seu nome do meio – você é tipo a personificação de uma boa ideia! E você tem sido celebrada como tal, talvez pareça que da noite para o dia, mas você já está nessa há alguns anos. Quais você diria que foram suas melhores ideias até aqui – aquelas músicas que abriram as portas da sua carreira, que fizeram o jogo virar?

Celeste: Eu diria que são três momentos cruciais. Tirando as músicas que as pessoas ainda não ouviram por não estarem disponíveis, eu diria que a primeira música mais importante que fiz foi também a primeira canção que escrevi. Isso meio que me fez entender que era algo que eu tinha capacidade de fazer, ela chamou atenção das pessoas da indústria, o que me deu oportunidade de começar a entrar em estúdio, então isso foi bem importante. E acho que você sempre tem uma sensação diferente com essas músicas, sabe? Você sente uma urgência de completá-las e eventualmente levam a algo, como um trampolim. Eu diria que quando escrevi “Strange” foi um ponto de virada na minha carreira, porque foi uma das músicas que me apresentaram a um público maior e foi a música que minha gravadora ficou mais impressionada quando ouviu, talvez tenha sido o que fez eles prestarem atenção em mim como artista em seu selo, entre tantos outros que assinam contratos. Foi uma música importante porque dizia muito sobre mim, minha identidade como artista e o que eu queria que as pessoas sentissem e como queria que me ouvissem. E outra música que pareceu muito importante mais ou menos 1 ano e meio antes disso foi “Both Sides of the Moon”. Essa foi a primeira música que eu escrevi e soava exatamente como eu imaginava na minha cabeça por um bom tempo e era como eu tentava mostrar para as pessoas como eu queria soar. E se tornou uma referência para mim, a partir dali, para indicar o que eu queria dizer e como queria soar em uma música, que tipo de imagem eu sentia.

TMDQA!: Você lançou alguns EPs e singles, mas embora essa seja uma escolha muito comum atualmente, sempre fica a expectativa para o primeiro disco. O que você pensa sobre esses formatos diferentes, como eles funcionam pra você? E o que pode nos contar do álbum que vem por aí?

Celeste: Estou trabalhando nesse disco intermitentemente entre o final do ano passado e começo desse ano. Acho que era uma ideia meio assustadora ter o meu primeiro álbum e como juntar tudo isso. Eu tinha muitas músicas há um tempo já, tenho uma espécie de livro onde eu vou colecionando as músicas que compus nos últimos anos. Todas elas podiam entrar no disco e funcionar num álbum. Um disco pra mim é uma representação de quem eu sou nesse momento, porque acho que como artista, entre o tempo que se escreve música e quando ela sai, pode ser completamente diferente da forma como você se enxerga. Então só quero deixar as música saírem de mim como uma expressão espontânea e honesta e deixar as pessoas absorverem e me ensinarem sobre o que eles tiram delas.

TMDQA!: Bom, falando sobre essa perspectiva pessoal, “Father’s Son” é uma música em que você aborda essa noção de identidade e a ligação entre pai e filho. Sei que você estudou muito os discos do seu pai e que muito do seu gosto foi influenciado por seu avô, então de certa forma eles contribuíram para onde você está hoje. Você pode falar um pouco sobre como aprender com a coleção musical deles te ajudou a compreender quem você era enquanto pessoa e artista?

Celeste: Sim, com certeza me inspiraram muito. Eu não venho de uma família que desde a infância me falou pra ser dedicada, aprender um instrumento e a cantar, me incentivando a ser cantora… Não aconteceu assim. Isso vem do fato de que eu estava em uma família de amantes de música, de ouvintes de música. E acho que todo mundo deve pensar isso sobre si mesmo, mas eu me sentia sortuda de vir de uma família que tinha bom gosto em termos de música, e eles também tinham grande paixão pelo que ouviam e isso passou pra mim de uma forma muito positiva. Então quando eu ouvia música, era com um ouvido crítico, não era apenas algo tocando no fundo, e sim algo muito presente na minha vida. E foi assim que eu vim a entender e ouvir aquelas cantores de bem antes do meu tempo, como Aretha Franklin, Otis Redding, Ella Fitzgerald… Acho que descobri uma voz própria ao cantar junto com aquelas canções, e meio que notei que eu tinha uma boa voz e saiu ouvindo essas músicas de soul, jazz, funk… esses mundos. E se eu tivesse crescido numa casa onde se ouvia muito heavy metal ou música clássica, eu teria crescido como uma grande pianista ou faria música screamo, essa teria sido a voz que eu aprendi. Então acho que isso tem um papel grande na minha identidade como cantora.

TMDQA!: O Reino Unido tem se destacado com artistas de neosoul e R&B. Sei que você tem uma ligação com o jazz americano e soul também – talvez por ser americana – e dá pra ver isso no clipe de “Stop This Flame”, em que você homenageia o legado cultural de New Orleans. Como você equilibra essas influências – as antigas e novas, as americanas e britânicas – para criar algo novo?

Celeste: Eu cresci principalmente no Reino Unido, que é onde eu me identifico mais culturalmente. Aqui há uma mistura de culturas que se unem para criar novos gêneros. Se você olhar o ska, que é literalmente o resultado de imigrantes jamaicanos que se mudaram para a Inglaterra nos anos 50 e 60 e se misturaram com os skinhead brancos e o que chamam de cockneys – que é exatamente o que de onde a minha família vem, do lado leste de Londres que tem esse sotaque muito particular (risos). Quando eu vejo bandas como The Specials, eu entendo por que são daquela forma. Eles se vestem meio que como os Teddy boys [subcultura inglesa em que a moda masculina se inspirava no período eduardiano] dos anos 60, com aqueles ternos, e que os homens jamaicanos que vieram pra cá nos anos 50 e 60 usavam. Então acho que essas coisas estão sempre em algum lugar na sua cabeça e saem naturalmente, quando você ouve uma música ou estrutura de acordes ou instrumental, não é algo que você precisa pensar, sai da sua boca e faz parte de quem você é. Então eu nunca penso muito do que vem de onde. Sobre a minha herança americana, eu só vivi na América do nascimento até um ano e meio, 2 anos de idade. Então qualquer experiência que eu tive lá e que me lembro foi na minha vida adulta, nos últimos 3 ou 4 anos que fui para Los Angeles para compor música. É curioso porque é algo que fez o ciclo completo. Eu não teria um motivo específico pra ir para lá até que eu comecei a escrever música. É algo que eu acho reconfortante, que as coisas são como deveriam ser. Acho que no fim das contas eu pego influências de coisas que eu gosto e me marcaram, não tem muito a ver com o meu histórico. Me inspirei por artistas como Marlene Dietrich e Édith Piaf, no sentido de como se movem em cena. Gosto de Billie Holiday, talvez seja algo óbvio… Há muitas pessoas que a maioria não imagina que me interesso ou que uso como inspiração.

TMDQA!: Mas te tornaram quem você é hoje.

Celeste: Isso, exato.

TMDQA!: Agora, pra terminar, em “I can see the change”, você canta “deixe que o mundo tente se ajustar”. E parece que estamos vendo o mundo mudar muito semana após semana, ainda mais depois que a música foi lançada. Não estou dizendo que você abriu as comportas de alguma coisa (risos), mas você acha que vamos ver uma mudança grande depois de tudo isso – dessa pandemia, dos movimentos por justiça? E nessa música você colaborou com o Finneas, então pode falar um pouco sobre como foi trabalharem juntos?

Celeste: Foi interessante porque acabamos a música durante esse período, e normalmente eu estaria em Los Angeles e teríamos terminado juntos se nada disso tivesse acontecido. Ao invés disso estávamos só mandando mensagens e foi estranho porque nunca fiz uma música assim na vida, estou sempre no estúdio olhando para a tela, olhando para a pessoa tocando guitarra… E com tudo isso, foi na verdade muito fácil, uma das vezes mais sem esforço que consegui terminar uma música. Eu e Finneas nos encontramos no Brit Awards, em fevereiro, e sabia que ele e Billie tinham ouvido minha música “Strange” e eles me viram cantar na premiação, e eu também vi eles tocando o tema do filme de James Bond, que foi incrível. A música ainda era uma demo, eu precisava de alguém para terminar e alguém da minha equipe entrou em contato com o Finneas. Ele ficou super empolgado de fazer e foi muito gracioso e humilde, e foi assim que aconteceu. Mas sim, tem uma grande mudança no mundo e eu escrevi a música antes disso tudo acontecer, sem qualquer sinal do que viria. Só veio dos meus sentimentos, da necessidade de que as coisas estão mudando em outro ritmo. Eu espero que quando sairmos disso, o que quer que seja isso agora, nós todos teremos tido tempo de crescer e desabrochar. Para muita gente, isso não é tão importante quanto a humanidade em si, mas é algo que nutre a humanidade. Há um motivo porque tantas pessoas querem ir a museus, ouvir música, assistir filmes e TV. Faz algo por você, em muitos aspectos. Espero que os artistas tenham a oportunidade de nutrir sua arte e em 2021 a gente veja o desabrochar completo disso. Tem sido importante ver que em momentos de desespero, há grupos que se unificaram e é interessante ver as pessoas unindo esforços e é necessário. Acho que vamos olhar para trás em algum momento e algumas pessoas vão lembrar disso com carinho, apesar de ser um grande desafio.

TMDQA!: Acho que podemos só esperar… Bom, agradeço seu tempo e espero que você possa vir ao Brasil quando tudo isso passar.

Celeste: Também espero, obrigada!

 
 
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