Imagina só: uma conta no Instagram com compilados de trampos autorais da música independente… só que fictícios! Pois então, piadas à parte, isso existe. Criado pela artista Anna Brandão, o famigerado “Bandas que não existem” é um prato cheio para quem é apaixonado por música.

No ar há pouco mais de dois anos, a artista plástica trouxe ao mundo um “trabalho especulativo”. Essa expressão é conhecida no universo do design, cujo significado é montar um portfólio sem ter clientes.

Junto com isso, o projeto veio com um bônus: a VJ que habita em Anna, como afirma em entrevista para o TMDQA!, que você pode conferir na íntegra abaixo.

TMDQA!: Oi, Anna! Queria agradecer pelo seu tempo e primeiro saber sobre o começo de tudo. Às vezes criar um projeto como esse demanda tempo e uma boa carga criativa. Como foi para você trazer o BQNE ao mundo?

Anna: A ideia surgiu no carnaval de 2018. Eu tinha passado um tempinho sem trabalhar com ilustração/desenhos e, depois dessa fase terminar, eu percebi que queria focar em artes pra bandas, porque era algo que eu gostava e via sentido. Também comecei a ficar mais ativa nas redes sociais e receber um reconhecimento de algumas pessoas que curtiam o que eu fazia, mas ainda não tinha um portfólio que chamasse a atenção desse público, então pensei: “ok, e se eu criasse um projeto onde eu mostro pra banda tudo o que eu posso fazer?”. Daí esperei o carnaval de 2018 passar, aproveitei o feriado pra ficar fazendo algumas bandas pra já ter um conteúdo postado quando eu lançasse e deu no que deu!

TMDQA!: a ideia de fazer um Instagram para abordar essa temática musical é uma forma de destacar esse trampo dos outros que você tem?

Anna: Não sei se destacar, mas talvez deixar ele mais visível como algo “profissional”. Antes de começar com o projeto, eu era tatuadora e, apesar dos dois envolverem arte, são duas partes minhas que “não conversavam”, além disso também desenhava uns quadrinhos e aí inventei de querer fazer coisa pra banda. Ou seja: era eu, uma unidade de humana, tendo que lidar com 3 nichos diferentes. O projeto serviu pra tentar atingir esse terceiro nicho.

TMDQA!: Para alcançar esse terceiro nicho, é preciso entender o seu gosto também, né? Qual a relação que você tem com a música além dos aspectos visuais?

Anna: Cara, cê sabia que tem pessoas que não gostam de música? [sic] Eu sempre achei muito estranho. Pessoas que não precisam ouvir música pra cozinhar, pra desenhar, pra aguentar uma viagem de ônibus. Sei lá, acho que a música sempre permeou tudo. Minha irmã sempre ouviu muita coisa diferente, porque ela era meio que uma Rata de Internet e baixava música por torrent numa época em que ninguém fazia isso. Daí ela sempre me mostrava coisas, algumas ouvíamos juntas, outras eram bandas “só dela”.

Aos poucos eu fui tendo bandas “só minhas” também e quando eu conhecia pessoas que tinham essas mesmas bandas, era uma espécie de conexão. Parece que era mais fácil, na infância e adolescência, fazer amizades baseadas no gosto musical, né? Chegava e perguntava: “qual tipo de música cê gosta?” e em 2 minutos vocês já estava conversando sobre alguma outra coisa que levou a isso. Acho que a música era isso… depois veio o desenho, outro facilitador pra se conectar.

TMDQA!: Baseada na sua história com a música, quais são as suas referências musicais que você teve em cada post, seja na descrição ou na parte visual?

Anna: As referências visuais geralmente vem de coisas que tô ouvindo na hora ou que vejo pela internet. Tipo, eu vejo uma banda e a capa dela e penso “hmmmmm, como que eu faria isso aí?”. Às vezes gosto de criar “pequenos desafios” e fazer capas de gêneros que não consumo tanto. Foi nessas que fiz o “Macauli e Calqui”, uma dupla sertaneja. na descrição eu gosto de misturar muitas possibilidades, juntando vários gêneros aleatórios com influências que não combinam. Talvez isso ajude a despertar a curiosidade, mas é também porque eu me divirto!

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adentrando a cena do crescente sertanejo feminino, a dupla Macauli e Calqui chega mostrando o que sabe fazer de melhor. retratando cenas cotidianas, que vão desde o banho de cachoeira em mambaí até as tardes comendo pequi em asa branca, as irmãs conquistam nossos corações e nos levam pra dar um passeio pelo centro-oeste brasileiro através de suas músicas. "por muito tempo se foi dito que sertanejo era música de corno. estamos aqui para mostrar que não é bem assim: pode ser música de corna também". apesar do nome do CD, o rastro deixado serve como pano de fundo para situações muito mais densas da vida das duas, que envolve todas as pessoas que estiveram com elas durante sua trajetória até aqui. de quem é o rastro ainda é um mistério, mas uma coisa é certa: depois de ouvir o CD delas, suas tardes de domingo nunca mais serão as mesmas. o CD já está disponível em todas as plataformas digitais! [arte da capa feita em parceria com o artista Marcos Coelho (@_mrczz )

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TMDQA!: Acho bom enfatizar a parte dos textos, todos eles têm uma importância gigantesca para conhecermos as bandas e os festivais, apesar de fictícios. Você tem a ajuda de alguém ou você também escreve?

Anna: Eu faço todo o trabalho, tanto a parte visual quanto a escrita, mas admito que às vezes nem parece que sou eu. Sempre sinto que é uma VJ da MTV ou algo do tipo que encarna em mim – eu até falo em voz alta com outra voz!