Há 55 anos o mundo conheceu “Sinnerman” na voz de Nina Simone. Também gravada por grandes cantores no século 20 e incorporada em diversos projetos audiovisuais, a canção narra a história de um pecador que se esconde da justiça divina.

 

A gênese

O berço de “Sinnerman” deriva do Spiritual, estilo musical datado antes da Revolução Americana de 1776, cantado pelos escravos pretos norte-americanos. O nome faz jus à religiosidade das composições, com referência bíblica do livro de Efésios: “falando em salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e fazendo melodia em seu coração ao Senhor”.

Diversas músicas surgiram em reuniões dos escravos em caramanchões nos campos de algodão e em casas de louvor. Nesses encontros, batiam palmas e dançavam em círculos, em um movimento que ficou conhecido como ring shout. Apesar de terem surgido em meados do século 17, antes da Guerra Civil Americana, muitas das canções desse gênero só foram propagadas mundo afora no século seguinte.

O principal meio foram os Jubilee Singers, que popularizaram o gênero por palcos da Universidade de Fisk. Com isso, o Spiritual ganhou uma força cultural gigantesca na cultura norte-americana. As semelhanças acontecem na síntese folclórica de “Sinnerman” e religiosa secular do gênero em si, no qual foram originados o blues, jazz, gospel e o folk afro-americano.

“O pecado original”

Em 1956, a primeira gravação registrada foi feita pela Les Baxter Orchestra, na voz do cantor Will Holt, que ganhou o crédito pela música com Baxter. No entanto, a música traz uma certa “semelhança”, tanto na letra quanto no instrumental, com“On the Judgement Day”, gravada pelo grupo The Sensational Nightingales dois anos antes. Lançada pela gravadora Peacock em 1955, a composição da música foi creditada a dois dos cantores do grupo, Julius Cheeks e Ernest James.

Você pode ouvir ambas as versões abaixo:

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Nina Simone e o “jazz nervoso”

Quando criança, Nina Simone aprendeu a letra quando frequentava retiros espirituais com sua mãe, uma ministra metodista, para ajudar as pessoas a confessarem seus pecados. Já no começo de sua carreira, nos anos 1960, a artista seguia o hábito de colocar a canção no final de suas performances ao vivo.

Por conta disso, e também como forma de reapropriação, Nina Simone regravou a canção e a lançou no disco Pastel Blues (1965), gravado ao vivo em Nova York. Ao tirar todo o estigma do folk introduzido em “Sinnerman”, Simone fez um jazz nervoso e progressivo, por assim dizer. Prolongou a canção para mais de dez minutos, acrescentou densidade vocal, riffs intensos de jazz e palmas staccato, que é uma técnica de execução instrumental com suspensões entre os acordes do piano tocado pela própria artista.

Contexto musical e social

Dentre todas as análises, é fácil entender a angústia do “homem pecador” que perdeu o rumo. A letra traz em si questionamentos do que o pecador busca e seus desejos. No geral, ele deseja que seja escondido, o que também é compreendido como uma necessidade de ser protegido em meio a uma situação perigosa. O problema é que, por onde ele “fuja” (no caso para as pedras, o rio, o mar e até para o Senhor), tudo lhe é negado.

Ao tirar o rótulo cômodo de louvor, a canção mostra a devoção religiosa de forma ousada. O enredo aborda a cobrança do homem, a resposta agressiva de Deus, e, como consequência, o estrondo apocalíptico desse enfrentamento. Enfim, o conflito não só mostra uma fusão de petulância e humilhação, mas também uma mistura de religiosidade e o júbilo que a música traz.

Com isso, a experiência do divino dentro de si surge como algo natural, sendo capaz de manifestar uma euforia tradicional aos cultos religiosos dos afro-americanos, origem da canção. Portanto, é importante evidenciar os aspectos inestimáveis que faz parte do conjunto intelectual da cultura popular gospel.

Um desses aspectos é a sociedade em que está inserida, e “Sinnerman” funciona como uma reação a todo esse contexto. A versão de Nina Simone foi lançada em 1965, período em que emergia o movimento Black Power (poder preto, em português) e o fim das leis segregacionistas, que basicamente consistiam na demarcação de espaços para pretos e brancos.

Os grandes líderes da organização eram Angela Davis, Martin Luther King Jr., e Malcolm X, além do Partido dos Panteras Negras, socialista e revolucionário, que também estava na linha de frente.

Nessa luta de reivindicação de direitos civis, o contexto social no momento era a valorização da cultura e identidade pretas, e “Sinnerman” coube bem nisso. A canção não traz apenas um retrato religioso, mas também uma simbologia emblemática cultural.

“I cried power”

O que a torna tão clássica é como ela reverbera até hoje. A canção já foi sampleada diversas vezes, como em “Oh Timbaland”, do rapper e produtor Timbaland, primeira faixa do disco Shock Value (2007).

Contudo, uma das versões sampleadas que ganharam destaque foi o single “Get By”, do rapper Talib Kweli. Lançada em 2003, ano em que perdemos Simone, a faixa foi produzida por Kanye West e aborda as vidas e lutas de pessoas de baixa renda que vivem na cidade de Nova York, e que possuem múltiplas origens raciais e culturais.

“Sinnerman” também é referência em “Nina Cried Power”, faixa-título do EP de Hozier, lançado em 2018. Feita em parceria com Mavis Staples, o cantor irlandês a divulgou com a seguinte mensagem:

Esta música foi feita com a intenção de ser uma nota de agradecimento ao espírito e legado do protesto; para os artistas que imbuíram seu trabalho com o vigor da dissidência, e uma reflexão na importância dessa tradição no contexto dos direitos, e vidas, que aproveitamos hoje. Minha esperança para esse vídeo é a mesma.

Já dizia Simone que é próprio dever do artista refletir o tempo em que está inserido. E “Sinnerman” gravado na voz dela segue perpertuando-se até os tempos atuais. Independente de qual forma é propagada, a mensagem é a mesma.

Logo abaixo, as referências usadas para o editorial e que possuem diversas reflexões acerca da canção: