Soulfly -
Reprodução/YouTube
 

Em 1996, quando o Sepultura surfava na onda do sucesso do disco Roots e se preparava para tocar no icônico festival de Donington, Max Cavalera recebeu uma notícia terrível.

Seu enteado, Dana Wells, havia morrido em um suposto acidente de carro na cidade de Phoenix, onde o vocalista residia ao lado de sua esposa, empresária e mãe de Dana, Gloria Cavalera.

Acompanhado de dois jovens, Shawn Thomas Miles Graci, Dana foi a única vítima fatal de uma batida que impressionou todas as testemunhas. Até hoje, no entanto, ambos os presentes alegam amnésia completa e o caso nunca foi fechado — mas teorias existem aos montes.

A morte de Dana Wells

Em um especial sobre o caso, o Phoenix New Times entrevistou amigos de Wells que garantiram que o rapaz “dirigia como uma vovózinha” apesar de ouvir músicas pesadas em volumes altos.

Por isso e por não haver qualquer sinal de quem foi o responsável por sua morte, Gloria e vários outros passaram a acreditar que o rapaz foi vítima de um assassinato que teria a ver com gangues locais. Na mesma matéria, o repórter relata a fala de um integrante de uma gangue próxima. Ele teria dito o seguinte:

Dois garotos brancos ferraram a LCM [gangue local] em um acordo de cocaína. Alguém na LCM direcionou [dois] membros aspirantes a assustarem os garotos brancos. Tarde da noite, os aspirantes confrontaram os garotos brancos em um estacionamento, e exibiram uma arma. Wells saiu correndo, e os aspirantes foram atrás. Eles ficaram lado-a-lado ao carro dirigido por Wells, e um deles apontou uma pistola. Wells olhou, viu a arma, e arremessou o carro para a direita, fazendo com o que o veículo girasse e batesse. Wells morreu. Os dois garotos brancos viveram. Os aspirantes da LCM foram para a lista negra.

A própria Gloria Cavalera diz que não conhecia os rapazes envolvidos no acidente, mas alega que eles seriam “groupies do Sepultura” — pessoas que tentaram se aproximar de Dana puramente por conta de seus contatos na indústria musical.

Ela relembra, também, o arrasador momento que recebeu a notícia diretamente do guitarrista Andreas Kisser em um hotel com a banda, antes do próprio Ozzy Osbourne (que também tocaria no festival) lhes emprestar um jato particular para que voltassem à casa:

O Andreas me falou para sair no hall, e ele disse, ‘Eu sinto muito em te dizer que o Dana esteve em um acidente.’ Eu disse, ‘Por favor não me fale que ele está morto.’ Ele me deu um olhar perdido e disse, ‘Infelizmente sim.’ E aí eu comecei a gritar.

A comoção foi generalizada no mundo da música, e a reportagem conta ainda que Jason Newsted, à época baixista do Metallica, se juntou a Max Cavalera no quarto de Dana para montar uma mixtape que seria tocada no funeral do jovem.

“Bleed” e poderosas homenagens a Dana Wells

A paixão de Dana pela música pesada era conhecida, e ele chegou até a escrever letras para a icônica “Attitude”, que esteve no disco Roots: “Viva sua vida não como eles te ensinaram / Faça o que você sente”.

Portanto, não é de se espantar que Dana Wells tenha recebido diversas homenagens na forma de músicas extremamente pesadas. Além de sua relação com os Cavalera, Wells era muito querido pelos membros do Deftones e foi o assunto da excelente canção “Headup”, que conta com a participação de Max e faz parte do disco Around the Fur (1997).

Em meio a todas essas homenagens, no entanto, a canção que mais se destaca é sem dúvidas “Bleed”. Parte do álbum de estreia do Soulfly, projeto de Max logo após sua saída do Sepultura, a música que teve a participação de Fred Durst (Limp Bizkit) abre com os dizeres “tudo que vai, volta”.

Com o recorrente tema de vingança — não prática, mas karmática — permeando a faixa toda, trechos como “Por quanto tempo vocês podem mentir? / Por quanto tempo vocês podem se esconder? / Por quanto tempo vocês podem viver com suas almas sangrando? / Por quanto tempo você pode viver com a sua alma?” mostram que, dois anos depois, a situação ainda estava muito mal resolvida.

De toda forma, a canalização de sentimentos na faixa é clara: a raiva e a angústia por ter perdido um ente querido e por ter visto uma mãe chorando não passaram batidas por Max e até pelo próprio Durst, que dá uma de suas performances mais agressivas da carreira.

É algo que, certamente, Dana teria adorado ouvir. Que esteja descansando em paz ao som de um baita Soulfly!

Por Felipe Ernani e Tony Aiex